A Casa do Prefeito

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Cinco. Seis. Sete. Oito.

Hawgüan abriu os olhos e tornou a seguir seu caminho. Com habilidade, usava os lados do cano para mover-se para frente, escapando daquele fiapo de água que corria. Em sua mão direita, a Cortadora de Artifício tremeluzia fracamente. Era uma espada metade revólver. Cara e perigosa, tinha sua aquisição por civis discutida sempre.

Hawgüan não se importava.

Na rua, pessoas corriam e gritavam enquanto batalhas se desenrolavam e o fogo se alastrava. A cidade já tinha passado da linha tênue que separava a paz do Caos. Baleines eram usadas como armas, cavalos a vapor eram destruídos e o medo se provia dos espíritos.

Aquele era o ápice de tudo que planejara. Pessoas morreriam, mas seus corpos serviriam de pavimento para o futuro. Tudo era para um bem maior, tentava se convencer, mas um aperto não deixava sua garganta.

Agarrando na empunhadura da espada, Hawgüan continuou seu caminho com muito cuidado. Vez ou outra parava de se movimentar e escutava, tentando identificar sua posição, mas era inútil. Ele sabia que aquele mesmo cano passaria debaixo do Langdon Imperial.

E, então, Hawgüan iria morrer.


Dois dias antes

Um. Dois. Três. Quatro.

Não se pode ter tudo, né? Eu sei, senhor”

Cinco. Seis. Sete. Oito.

Por mais estranho que pareça, o povo quis assim e, obviamente, sendo o Imperador…”

Nove.

Prefeito… senhor.”

Dez.

Perdão?…”

— Ei!

Hawgüan levantou os olhos.

— Por que você está guardando seu material? — Perguntou o prefeito, de maneira agressiva.

— Meu trabalho já está terminado… — Os olhos do prefeito estreitaram-se, como se estivesse ofendido. — …senhor. — O homem suavizou a expressão.

— Então você acha, realmente, que terminou o trabalho? — Sorriu de maneira irônica. — Você, o serviçal, é quem decide o que está bem-feito e o que não está, verdade? Pois bem… — Segurou no cabo do esfregão de Hawgüan. — Eu acho que não — e o atirou longe, fazendo-o escorregar pelo chão e bater na parede do outro lado. Hawgüan nada pôde fazer além de ver o pé do prefeito acertar o balde cheio de água suja com sabão, derrubando-o e molhando todo o piso.

— Você esqueceu aquele ponto, serviçal.

Hawgüan engoliu em seco. O prefeito, vitorioso, virou-se e aproximou-se, uma vez mais, de seu Conselheiro, que via tudo sem dar uma palavra.

— Pois bem, meu nobre Conselheiro Imperial, como ia dizendo: se o povo quer assim, que assim seja… — E a voz foi diminuindo, deixando Hawgüan solitário.

Já era tarde quando saiu da casa do prefeito. Vestiu um sobretudo de segunda mão e colocou um pedaço de pano em volta do pescoço. Fechou a porta dos fundos com cuidado e, saindo pelo beco ao lado da mansão, foi para a rua principal.

Uma leve neblina pairava logo acima do chão. Pela rua de pedra andavam as carroças, a seus vinte quilômetros por hora, exibindo em frente grandes cavalos mecânicos. Hawgüan gostava de contemplá-los quando passavam, mas tentava não virar muito a cabeça para não chamar atenção. Como deveriam ser?, perguntava-se ao lembrar que antigamente existiam cavalos de verdade. Eram apenas encontrados em histórias e em imagens desenhadas pelo povo que antes habitava o planeta na época das Ruínas Verticais.

Olhou para cima, na direção do centro de Jongur, onde havia um simples reflexo do passado ainda muito desconhecido. No marco zero, uma construção velha, quadrada e muito alta, pontilhada por janelas quebradas, era vista. Pesquisadores acreditavam que pessoas moraram ali, pois dentro havia vários andares idênticos.

Hawgüan foi trazido de volta à realidade depois de um encontrão dado em um homem que passava. Virou a esquina à direita na Rue des Rêves e meneou com a cabeça, cumprimentando o Estripador, que se apoiava em um cano de lixo. Aquela era uma rua pobre, suja e esquecida. Nela moravam marginais e desconhecidos, além de pessoas perigosas, como o Estripador, assassino que já somava dez vítimas.

Era por conta disso que aquele era o lugar perfeito para um encontro às escuras.

— Achei que você já tivesse virado um londnariano. — O assassino comentou quando o homem se aproximou e acendeu um cigarro d’água.

— Quer um pouco, seu pedaço de merda? — Foi como Hawgüan rebateu, oferecendo ao Estripador um trago. — Ou você prefere beijar a bunda do prefeito?

O assassino riu alto e coçou a barba malfeita.

— Vai entrar hoje? — perguntou.

— Sim.

O Estripador o olhou, como se medisse suas expressões; como se tentasse saber se era verdade mesmo, então se aproximou de uma porta e bateu três vezes. Contou mentalmente até cinco e se preparou para entrar, mas, ao ver que ela não se movia, colocou uma interrogação no rosto.

— Ei, seus filhos da escrava! Parem de jogar essa merda de Metal Quente antes que eu rasgue vocês também! — gritou irritado, batendo mais forte.

Escutou-se uma movimentação e a porta se abriu.

— O código deveria ser esse. — O Estripador comentou. — É mais eficiente.

Hawgüan não esperou pelo convite e, assim como seu colega, tampouco cumprimentou o casal de irmãos que abrira a porta para eles. Estes sempre andavam juntos e não tinham nem o dedo indicador, nem o polegar. Por essa razão eles eram chamados de “os siameses”.

— Senti sua falta, senhor Hawgüan. — A menina de cabelos curtos, bagunçados e sujos comentou, levemente ruborizada e desviando o olhar, mas foi ignorada com grosseria.

O quartel general era grande, porém não grandioso. As tábuas de madeira já estavam podres no chão e, junto à iluminação fraca das Baleines no teto e ao cheiro fétido da rua, criavam um cenário perfeito para as pessoas sujas e pobres, mas trazendo um brilho no olhar que poderia ser uma força de vontade assassina. Alguns grupos olharam para ele com um misto de respeito e medo ao vê-lo seguir pelo caminho central em direção ao fundo do recinto.

Hawgüan chegou .

— Veneza está aqui? — Perguntou àquele que o acompanhava.

— Está. E gostosa como sempre. — O Estripador respondeu, sorridente.

Pouco a pouco se aproximaram de uma porta alta de madeira protegida por uma mulher esguia, de olhos castanhos e cabelos lisos. Seu olhar dizia muito e nada ao mesmo tempo. Era duro, direto e esfaqueava só por ser encarado.

— Quem dera se as krauqrianas fossem como essas estrangeiras. Por Ratren! Eu deixaria de ser o Estripador pra ser o Es… — continuou.

— Armas, por favor. E dessa vez, Hre — a mulher esticou a mão, usando o nome real do Estripador quando eles pararam —, sem brincadeiras.

— Minha linda, eu…

Hawgüan teve que se afastar para não ser acertado pelo movimento rápido da mulher. Como um borrão, seu braço esticou e pegou uma das mãos do assassino, sem dar tempo a uma reação. Colocando o ar para fora em uma baforada um tanto desesperada, o Estripador acabou imobilizado de uma maneira bem dolorosa.

— As armas. Agora.

— Tá… bom… — Ao ser liberado, o assassino esfregou a mão que doía e, sem reclamar, entregou-lhe três adagas, duas navalhas e um pedaço de vidro quebrado, “cuide bem desse”.

— Senhor?…

— Eu não trago nada comigo, Qhenna. — Hawgüan respondeu de prontidão.

— Veneza está lá dentro, esperando pelo senhor.

Com uma leve reverência, a mulher se afastou, mas manteve o olhar raivoso no Estripador.

Deixando todo o resto para trás, os homens passaram pela porta que separava dois mundos distintos.

No que eles entravam, havia uma rainha.

Linda, imponente e respeitada, ela dominava a Insurgé com mão de ferro e fazia de tudo para libertar Jongur. Muitos supunham que ela seria a nova prefeita quando Gorguran fosse morto, mas poucos sabiam que, em seu íntimo, ela tinha a morte dele como missão final e não desejava muito mais.

Atrás deles, a porta fechou e, à sua frente, a bela líder da Insurgé sentava-se em seu trono de metal e vidro, união de materiais reservada apenas às figuras mais importantes. Ela os olhou brevemente e, vendo que o Estripador se curvava, desviou o olhar para um ponto atrás dos dois.

Ïr trahk Veneza thri bahai. — Uma voz masculina surgiu dizendo, em krauqri antigo, ser a Voz de Veneza.

Hawgüan, já acostumado com tudo isso, nem precisou olhar para o homem vestido em traje cinza e de o rosto coberto por um pano. Nada além de sua voz importava naquele recinto, por isso não mostrava seu corpo nem sua face. Seu nome, desde o momento da seleção até sua morte, era Voz de Veneza e, para ele, essa seria a maior honra de todas.

— Olá, Veneza. — Hawgüan disse com sua voz séria, olhando-a nos olhos.

A mulher levantou e sorriu. Ela movimentou rapidamente as mãos em frente ao corpo, como se estivesse afastando insetos e sumiu com o sorriso, voltando ao semblante imperturbável.

Para qualquer observador novato, tudo isso somado ao silêncio inexplicável da mulher seria algo estranho, mas nem Hawgüan nem Hre eram ignorantes e, quando a voz masculina ressurgiu atrás deles, nem se importaram.

— Olá, Serviçal. — A Voz de Veneza proferiu. — Já fazia uma semana que você não passava por essa porta. Imagino que, contigo, venham informações novas.

O homem abaixou a cabeça, sentindo-se um tanto envergonhado, e disse:

— Na verdade, Veneza, não aconteceu nada. De novo.

A mulher prendeu a respiração, frustrada, e abaixou os braços, como se aquilo fosse sua forma de silenciar-se. Ela suspirou, finalmente e, só então, continuou a conversa:

— Toda vez que você entra por aquela porta eu me animo e me encho de esperança.

— Não só você. — Ele lembrou dos olhares do lado de fora. — Eu me comp…

Veneza levantou a mão, impedindo-o de continuar.

— Hawgüan — disse —, não é culpa sua, nós entendemos. Eu coloquei um peso enorme sobre suas costas e não estou sendo paciente.

O homem apertou as mãos, incomodado com aquele cenário. Ele se cobrava, mas, mesmo assim, não apareciam resultados. Aquilo era inaceitável.

— Não foi você, Veneza. Aqui nessa mesma sala, em pé da forma que estou agora, eu prometi fazer o que fosse possível para livrar Jongur das garras de Gorguran. Eu mesmo coloquei esse peso.

Ela pareceu ponderar, antes de perguntar:

— Se nada aconteceu… por que você está aqui?

— Só… Eu não sei, eu… — tentou reorganizar os pensamentos. — Às vezes eu acho que estou a ponto de enlouquecer lá dentro. Às vezes acho que vou perder o rumo e matar Gorguran, colocando tudo a perder. É difícil estar sozinho nessa missão.

— Você não está sozinho, Hawgüan, e sabe disso.

— Eu só gostaria que algo acontecesse logo. Que as pessoas acordassem e… vissem o que se mostra tão claramente diante delas

Veneza escutou a frase com atenção e continuou:

— Infelizmente para nosso povo ainda é difícil aceitar que o “bom prefeito” traz consigo as garras de Londnária.

— É a ignorância, minha senhora, dos jongurianos — disse o Estripador, ainda de cabeça baixa.

— E você, Hre, a que veio? — Tão imponente quanto antes, a Voz de Veneza preencheu o ambiente.

— Mil perdões, senhora, se minha presença é razão de infortúnio. É apenas uma honra poder lhe ver.

Como se ignorasse a fala do homem, a expressão da mulher continuou impassível.

— Hawgüan, você é meu melhor agente e sabe disso. Você não vai falhar e, quando a oportunidade aparecer, trará as informações que necessitamos.

— Sim, Veneza.

— Aqui você tem uma família com quem sempre poderá contar.

Os dois homens olharam-na nos olhos ao mesmo tempo, antes da frase surgir:

— Que a minha falta de voz não lhes impeça de gritar pelo bem.

— Por ti e por Ratren. — Eles responderam em uníssono e se curvaram levemente mais uma vez. Sob a observação da silenciosa líder, Hawgüan e o Estripador se viraram, como se não quisessem desperdiçar o tempo da mulher suntuosa. Estático como sempre, a Voz de Veneza tinha o rosto coberto, mas mantinha o olhar atento nos dois homens que se retiraram. Ao ouvir a porta se abrir, ele voltou a sentar-se na cadeira que lhe dava a visão necessária da linguagem de Veneza, retornando a seu estado de quase inexistência.

Depois de se afastar de Hre, que havia se aproximado de um grupo de mulheres para espargir frases pré-ensaiadas sobre seus grandes feitos, Hawgüan caminhou até a saída do quartel-general da Insurgé. Ele escutava sussurros desconexos de grupos que criavam planos para poder apresentarem à líder. Falavam da guerra que aconteceria depois da Ressurreição de Jongur e como iriam juntar-se às outras grandes cidades (Ribpa, Lonra, Uhy e Haylra) para que seu país, Krauqr, pudesse livrar o mundo de Londnária.

Hawgüan passou pelos siameses e continuou preso dentro de si, pensando. Não havia planos, só vontades e isso, até onde se sabia, era bom, mas não suficiente. Como Veneza bem dissera, o povo não conseguia conceber que o prefeito estava vendendo Jongur para os londnarianos. Essa crença, apesar de parecer algo pequeno diante de excentricidades como nomear-se “Imperador” (Londnária era o único lugar do continente onde ainda se nomeavam Imperadores) ou chamar a própria casa de Langdon Imperial (um nome originalmente londnariano), era suficiente para impedir que uma incerteza se criasse na mente do povo. Gorguran usava de sua discreta hipocrisia para conquistar a todos, por isso era chamado de “o bom prefeito”. Fora considerado o melhor governante de Krauqr por dois anos seguidos e esse tipo de popularidade atrapalhava os planos da Insurgé.

Do lado de fora do quartel-general o homem seguiu seu caminho, virando esquinas e fazendo curvas, como de praxe. Já era noite e fazia frio. O sobretudo de segunda mão continuava lá, cobrindo a pele. Os arrepios que sentia percorrer o corpo, no entanto, eram sintomas de uma outra situação. Situação essa que se abeirava pouco a pouco, tirando o sono de todos os envolvidos.

Sem avisar, sem bater e sem se anunciar, Hawgüan pôs a chave na fechadura e abriu a porta de maneira descuidada. No meio das sombras usuais, uma silhueta grande se desenhava.

Apesar do horário, uma pessoa o esperava, sentada à mesa.

— Boa noite, Hawgüan. — Seu nome era Kraumor.

O homem que acabara de chegar suspirou e colocou seu sobretudo e sua echarpe em um cabide que se postava perto da entrada.

— Boa noite, Kraumor. — Finalmente contestou.

— Espero, realmente, que você tenha passado esse tempo depois do seu trabalho se embebedando e jogando Metal Quente com um monte de mulheres chupando você. — Foi a frase carregada de raiva controlada.

— Certamente era o que eu estava fazendo.

— Ou talvez você tenha estado só com uma mulher muda que você não via há algum tempo.

Hawgüan não respondeu.

— Foi esse o caso, não? — Kraumor apertou o braço da cadeira, ainda colérico. — Eu não acredito que você passou na Insurgé!

Eu não acredito que você é incapaz de ver a importância que isso tem para todos nós.

— Importância? Importância, Hawgüan? Você lá sabe o que é, realmente, importante?! Importante é que você esteja vivo; que estejamos juntos! Isso é importante! Mas, claro, você prefere se matar por um bando de ignorantes nojentos que não veem dez metros diante do próprio nariz!

— Se eles não veem, é dever meu fazer com que vejam! Eu não posso deixar que Jongur sucumba só porque você tem medo!

— Sim! Eu tenho medo! — Kraumor finalmente se levantou de onde estivera sentado e se aproximou de Hawgüan. — Eu tenho medo de te perder pra sempre. Não quero te perder pra uma cidade decadente. Não quero. — Os olhos do homem se encheram d’água e ele colocou a mão na boca para tentar se controlar.

— Kraumor, eu… — Por um segundo ou dois, apesar de incomum, Hawgüan teve pena. Ele tentou se aproximar, mas o outro homem o afastou com a mão, desesperadamente.

— Vocês já pensaram que, talvez, o povo não queira essa mudança? Que, só talvez, eles queiram ficar em paz e não se preocupar com o que ocorre por baixo dos panos?

— Quê?

— Gorguran é um filho de escrava mentiroso e hipócrita, mas ele já fez tanto pelo povo, Hawgüan… Por que tudo isso?

— Porque quando Londnária vier, as coisas vão mudar e, então, será tarde demais.

Kraumor balançou a cabeça, derrotado.

— Eu espero que vocês estejam certos, porque, se não estiverem…

Ele não terminou a frase.

Hawgüan estava sentado na cama quando uma corrente de ar vinda do sul bateu e abriu a janela do quarto. Ele piscou os olhos involuntariamente, mas não reagiu muito mais que isso. Em sua cabeça a frase de Kraumor ainda flutuava. Vocês já pararam pra pensar que, talvez, o povo não queira essa mudança?

Bufando, o homem levantou-se e fechou o que a natureza fizera questão de abrir, como se buscasse uma distração qualquer.

— Merda… — Murmurou.

Quando se virou, viu a Cortadora de Artifício, que se apresentava em uma moldura na parede do outro lado do quarto. Fora um presente de seu pai antes deste morrer. Mais que uma memória, aquela arma era quase uma promessa para Hawgüan. Ele a usaria para matar o bom prefeito e, com isso, Jongur se libertaria para sempre.

O homem balançou a cabeça, afastando aquele pensamento. No fim das contas, ainda precisava do povo para a Ressurreição de Jongur ocorrer como deveria. Atacar Gorguran sozinho, sem o apoio das pessoas, era uma missão suicida. Por mais que ele não se importasse em morrer pela Insurgé, Hawgüan preferia que isso ocorresse com a garantia de que tudo daria certo.

Teria que esperar.

Hawgüan tentava proteger o rosto do vento frio que vinha cortante do mar, trazendo um forte odor de algas. Apesar do sol que, finalmente, se livrava do vestido de nuvens, uma névoa matinal banhava as construções e as pessoas. Lá longe, atrás das casas da Quartier Residencial, ele conseguia distinguir as altas chaminés das fábricas que cuspiam torres brancas de vapor.

Cheias de escravos que faziam os pistões funcionarem, movidos pela força do ódio e da vingança, elas produziam o que o povo achava necessitar e, com isso, criavam mais e mais necessidades.

Perdendo-se no seu próprio tempo, Hawgüan nem notou quando chegou às portas do Langdon Imperial que parecia observá-lo em desafio.

E então, verme? Vai falhar novamente com Veneza?

Ele subiu as escadas com o queixo levantado e entrou sem se anunciar. Sabia que não deveria fazê-lo, mas aquela leve atitude revoltosa provocava uma distante sensação de vitória

— Ah, finalmente os senh… — Gorguran, por um milésimo de segundo, pareceu se assustar quando encarou o Serviçal, mas logo suas sobrancelhas se arquearam em raiva. — O que você está fazendo aqui?

— Como o senhor sabe, é onde trabalho. — Foi a resposta direta.

Os lábios do prefeito subiram rapidamente, como se ele quisesse mostrar os dentes, mas logo se contiveram.

— Os empregados não devem usar a porta da frente, é por isso que há a entrada de animais nos fundos.

— Não quis me atrasar mais.

Gorguran parecia se irritar mais com a falta de emoção nas respostas de Hawgüan que com qualquer outra coisa.

— Mandei cartas a todos, anunciando que podiam tirar o dia de folga, mas claro que você, seu pestilento, mora naquele antro da Rue des Rêves. — Hawgüan não moveu um músculo facial, esperando que aquele circo terminasse. — Porém… — Um sorriso cruel tomou o rosto do bom prefeito. — Já que você quer tanto trabalhar, empregado… Não quero ver uma sujeira no chão do Langdon Imperial, estamos entendidos? Qualquer parte suja e você vai ter que limpar com a língua, estamos entendidos?

— Sim, senhor.

— Agora saia daqui, seu filho de escrava! Comece pelos fundos que eu tenho convidados importantes para receber!

Hawgüan tentava se controlar, mas a raiva que crescia dentro dele era incômoda. Ele tinha se colocado naquele emprego para manter-se atento a todos os movimentos de Gorguran. Por um lado, ganhou o apelido “Serviçal” e foi considerado uma importante peça nos planos da Insurgé.

E, por outro, aprendeu a odiar o prefeito.

Contava cada passada de esfregão como se isso melhorasse o próprio humor. Vez ou outra ele se perdia com a contagem e esquecia de todo seu entorno, mas algo atrás do cérebro o incomodava, como uma responsabilidade grande demais para ser ignorada.

“Não era pra nenhum serviçal ter vindo hoje”, o prefeito dissera.

Mas por quê?

Até onde sabia, era um dia de trabalho, mas, ainda assim, Gorguran não queria a presença de ninguém. A frase “[…] tenho convidados importantes para receber!” ressoou grave em sua cabeça. Havia algo errado. Talvez, só talvez, aquela era a chance que ele tanto esperava.

O homem ouviu um som vindo do Saguão Principal. As grandes portas duplas de madeira se abriram sem muito esforço e deixaram entrar um grupo apressado, pelo que pôde perceber do som dos passos no piso.

— Gorgu… — Uma voz desconhecida falou.

— Nós — o prefeito cortou a fala de seu convidado de maneira um tanto brusca — podemos conversar dentro da sala de reuniões, senhores, não se preocupem.

Se você tiver qualquer informação que ajude a colocar um fim nessa esperança inexplicável, ela será bem-vinda.

A razão pela qual o bom prefeito cortara o seu convidado de maneira tão grosseira tinha se tornado clara. Gorguran não queria ninguém no Langdon Imperial por um motivo óbvio e quase irresponsável. Infelizmente para ele, o Serviçal estava lá como uma testemunha do indubitável. Ele ouvira muito bem.

Aqueles convidados… aquele sotaque…

O bom prefeito estava recebendo londnarianos em sua própria casa.


Um…

Apesar de muita preparação, Hawgüan não esperava que as coisas acontecessem tão rapidamente daquela forma. Com as costas na parede, ele ouviu as portas da sala de reuniões sendo abertas e, logo depois, fechadas. O homem pretendia, antes de se jogar em alguma atitude irracional, pensar um pouco; pesar as possibilidades, mas tempo era um luxo inalcançável naquele momento. Olhou uma última vez para o chão, ainda sujo.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de rir. Ele sabia que, se tudo desse certo, nada daquilo seria mais preocupação.

Moveu-se de forma descuidada até o Saguão Principal e, lá, ouviu diálogos cortados e ininteligíveis. Ele tinha que escutar o que tanto aqueles senhores conversavam, mas ainda não tinha uma ideia formada de como fazê-lo. Suspirou e o som se propagou, refletindo nas paredes da mansão. Com olhos rápidos, Hawgüan verificou suas possibilidades e viu o banheiro no primeiro andar, logo no fim da escada à direita, ao lado da porta. Era uma chance remota, sabia, mas tinha que tentar o que pudesse. Garantindo que não seria visto, subiu os degraus e se entocou no banheiro silenciosamente.

Pôs um ouvido na parede e escutou.

É claro! Mas o acordo ainda está de pé? , foi a primeira frase.

— Vamos ver, Gorguran. — Uma voz carregada de sotaque respondeu. — Afinal, sua discrição é o que nos mais preocupa.

O Serviçal prendeu a respiração e apertou os dentes.

Ele estava certo. Eram londnarianos.

— Discrição? Ah, por favor, meus caros. Minha discrição é uma de minhas características mais notáveis! — respondeu o prefeito.

— “Langdon Imperial”. — disse outra voz, falando em londnário nativo.

— E… o que é que tem? — perguntou Gorguran.

— Muitos desconfiaram desse nome. Acharam… ou melhor, souberam que era uma mensagem de apoio a Londnária. — respondeu o primeiro londnariano.

— Mas eu os convenci de que… de que não. De que era o contrário!

— Será que todos ficaram convencidos? — Ele parecia desconfiado.

— Claro que sim! Eu fui considerado o melhor prefeito de todos os tempos de Jongur!

— Uhum…

— Ora… E eu já estou me preparando! Já chamei esse palácio de Langdon Imperial. Meu conselheiro é chamado de conselheiro imperial e tudo o mais! Já me preparei para a nomeação!

— E onde estão seus empregados?

— Um desses vermes veio, apesar d’eu ter mandado cartas a todos, mas eu o mandei para os fundos. Ele nem sabe que vocês estão aqui.

— Você tem certeza?

— Absoluta.

— Espero que não tenha esquecido de sua parte no plano. Comenta-se por aí o que acontece com quem não cumpre acordos, não é?

Hawgüan só podia escutar, mas jurava que, na sala de reuniões, o prefeito se remexeu, levemente incomodado. Pigarreou e a resposta veio:

— Claro que não, meu caro! Já estou muito próximo do secretário de defesa de Krauqr. Como sou prefeito da capital mais importante do país, eu tenho certas… regalias no governo, sabe? Consegui cópias de todos os mapas das cidades que lhes interessam! Vejam só. — ouviu-se o som de papel sendo movido e, depois, uma longa explicação sobre Krauqr.

Os londnarianos pareceram concordar, já que Gorguran fez um som de vitória.

— Pois bem! Já que estamos na mesma sintonia, qual o plano de vocês?

E eles passaram a discorrer sobre algumas estratégias militares. Pelos sons que se ouvia, os homens riscavam em alguma folha de papel. Hawgüan precisava mostrar aquilo para Veneza o quanto antes.

— Claro, claro… — concordou o prefeito ao entender tudo que se discutia. — E o… é… vocês sabem…

— Claro! O contrato. Aqui está. Só precisa assinar.

— Ok… Ótimo!

— Com isso decidido, já podemos ir. — Disse, finalmente.

— Contanto que eu não esteja na linha de destruição de vocês, pra mim não há problema! — Gorguran riu da própria verdade. — Ah, por favor, deixem-me acompanhá-los até a saída.

Ao ouvir os homens se movendo e começando a sair da sala de reuniões, Hawgüan prendeu a respiração.

Talvez fosse aquela a chance que ele procurava.

Afastando o ouvido da parede, o homem abriu silenciosamente a porta do sanitário. Abaixado o máximo possível, ele saiu do recinto vendo, através da sacada, que ninguém tinha deixado a sala de reuniões ainda.

Não há com o que se preocupar , era a voz de Gorguran.

Hawgüan se afastou um pouco da beirada quando a porta dupla foi empurrada por dentro.

— Você sempre diz isso, Gorguran. — Um dos londnarianos rebateu, um tanto cansado.

— Mas quando eu dei motivos para o contrário, meu caro?

O estrangeiro respondeu só com um “hmpf” característico.

À medida em que os três homens iam se aproximando da porta de entrada, Hawgüan se preparava para saltar lá de cima e correr o quanto pudesse para roubar os papéis e ir embora.

— Ouvi dizer que lá em Londnária os cavalos a vapor… — E a conversa continuava mesmo depois deles terem saído para a rua.

Se Hawgüan tivesse pensado um segundo mais, tudo teria dado errado, mas ele não pensou. O homem se jogou do primeiro andar e caiu o mais silenciosamente que pôde, fazendo um rolamento logo depois de acertar o chão. Virou o corpo e se meteu na sala de reuniões. Cheio de arcos, o ambiente exalava elegância. Vários pontos eram iluminados por baleines caríssimas e uma mesa redonda e larga de metal e vidro estava no meio da sala.

O homem simplesmente fugiu de qualquer observação a mais, agarrou os papéis que encontrou na mesa e fugiu pela mesma porta por onde entrara.

— Ei!

Hawgüan congelou. Ele não tinha um álibi convincente, ainda mantinha os papéis nas mãos e, acima de tudo, não estava armado. Havia duas opções: correr sem dar explicações ou tentar uma mentira inacreditável. Mesmo certo de que não iria funcionar, o homem tentou a segunda opção. Ele apertou os dentes e a boca, suspirou um tanto derrotado e se virou para encarar quem o havia detectado.

De frente para a porta principal ele conseguiu ver metade do corpo do prefeito, já preparado para entrar.

Ele olhava para o outro lado.

— Droga! — Hawgüan bufou quando notou que, na verdade, não o haviam visto.

Todos aqueles segundos tinham sido jogados fora por pura especulação desnecessária, mas as autocríticas iriam ter de esperar. Deixando-se levar, mais uma vez, pelo ímpeto, Hawgüan prendeu a respiração e rumou para a porta dos fundos, quase escorregando numa maldita poça.

Do lado de fora sentiu um aroma de liberdade e nem olhou para trás.


Dois…

— Abram essa porta, suas aberrações! Agora! — Hawgüan berrou do lado de fora. — Eu vou terminar de cortar seus dedos se vocês…

E a porta se abriu, revelando os Siameses com o terror estampado nas faces.

— Senhor, nós… — O menino tentou dizer.

— Saia da frente, seu inútil! — O Serviçal o empurrou com força, derrubando-o no chão e indo em direção ao trono de Veneza com os olhos em chamas.

Como era de praxe, Qhenna aguardava calmamente em frente à porta alta e dupla de madeira, mas, ao ver Hawgüan se aproximar tão violentamente, ela se assustou.

— Qhenna! — Ele gritou de longe. — Saia da frente e me deixe passar antes que algo de ruim te aconteça!

Não foi necessário repetir. A mulher virou-se de lado, abrindo espaço para o homem e abaixou o rosto quando o Serviçal passou. Com um baque fortíssimo ele abriu a porta dupla. Lá dentro, a Voz de Veneza se assustou e acabou caindo da cadeira, mas se levantou logo em seguida.

Ïr trahk… — O krauqri antigo veio, mas…

Cale-se! — Foi o berro que saiu dos lábios de Hawgüan.

Veneza empalideceu.

— Eu achei, Veneza. — Tornou mais calmo para a mulher muda. — As provas que necessitávamos. Elas estão — ele levantou os dois papéis — aqui.

A mulher arregalou os olhos, surpresa.

— Exato. — Hawgüan continuou. — E tudo está aqui. O próprio Gorguran assinou.

Estirando o braço, Veneza pediu para ver os documentos.

Contrahct .

No primeiro o texto era direto e bem específico. Gorguran, após a subjugação de Krauqr, seria considerado o novo Imperador, prometendo total e absoluta submissão aos interesses do país superior, Londnária. A assinatura de Gorguran e de duas testemunhas estava logo embaixo.

Krauqry|s Mahp .

Veneza tinha conhecimentos militares e, ao contrário de Hawgüan, pôde compreender o que se havia decidido pelos desenhos naquele mapa. Não foi medo que se desenhou em sua face, mas uma raiva praticamente incontrolável. Ela amassou os lados do mapa que segurava.

— Ele sabe que eu roubei esses documentos. — Hawgüan confessou. — E ele deve estar vindo atrás de mim por conta disso.

A líder dobrou os papéis para deixá-los menores e olhou para algum ponto atrás do homem. O Serviçal, na verdade, não precisava de nada além daquela expressão no rosto da mulher para entender, mas, mesmo assim, a Voz de Veneza levantou-se rápido da cadeira e traduziu o código:

— Pois que venha.


O cheiro de fumaça começou cedo.

— Hawgüan me fez uma promessa há algum tempo. — A Voz de Veneza era a única coisa que se escutava no quartel da Insurgé. — Ele jurou dedicar-se a abrir os olhos do povo; os nossos olhos. Por mais percalços que teve que sobrepujar, ele, hoje, nos trouxe o que necessitávamos; a prova que esperávamos. — A líder levantou os papéis. — Gorguran nos traiu e nos vendeu para Londnária! Aqui nesses papéis podemos ver como seremos dizimados em pouco tempo; obrigados a viver como os escravos nas fábricas da Quartier Industrial, sem chance de encontrar o sol novamente! Nós não podemos permi…

O bum que veio do lado de fora ecoou por alguns segundos e causou silêncio. Estivessem mais perto da origem e veriam uma luz bruxuleante que pintava algumas paredes de um vermelho intenso.

— Eles chegaram. — Hawgüan disse, com os olhos perdidos em algum ponto da parede, de maneira grave.

— Às armas! — A Voz de Veneza berrou para que pudesse ser ouvido. — Protejam nossas casas e a Insurgé! Gorguran vem com a força de Londnária em suas costas e não vai parar até nos silenciar!

A líder e o Serviçal se olharam por um único segundo antes de várias pessoas se mexerem com desespero, ódio ou segurança, criando uma desordem espantosa. A sua maioria agarrava espadas e porretes, mas muitos preferiam se esconder, protegendo a si mesmos e a suas famílias.

— Pelo menos o cheiro dessa fossa vai ficar melhor com toda essa fumaça! — O Estripador veio correndo em direção a Hawgüan com seu infame caco de vidro na mão. — Finalmente o que você tanto queria, não é?

— Tirando a parte deles tentando destruir a Rue des Rêves, sim. — O homem respondeu alto.

— Kraumor está em casa?

— É provável. Vou trazer ele pra cá, se conseguir. — Eles iam se aproximando rápido da porta principal.

— Não é só por isso que você vai passar em casa, não é?

— Como assim?

— As paredes aparentemente têm boca também e não param de falar um segundo sobre um certo… aparato de entretenimento mortal que você tem guardado por lá.

Hawgüan olhou para seu amigo por tempo suficiente para que sua expressão confessasse tudo. Ele sabia que Hre falava da Cortadora de Artifício.

— Então ela é real?

— Vamos buscar Kraumor, isso é mais importante. — O Serviçal passou pelos siameses sem falar uma palavra e abriu a porta.

O Estripador riu:

— Eu não perderia isso por nada nesse mundo!


Longe dos primeiros ataques e das primeiras batalhas, a casa de Hawgüan estava em silêncio. Os dois homens se moveram o mais rapidamente possível e abriram a porta sem pensar duas vezes, adentrando o recinto escuro e úmido. Havia certa tensão elétrica no ar, como se, a qualquer momento, algo fosse pular das sombras para atacar os dois homens.

Se Hawgüan não tivesse velocidade, teria morrido ali mesmo.

Hre parou logo depois de fechar a porta e esperou seu amigo mostrar o caminho dentro da casa. O Serviçal, por sua vez, seguiu em frente, confiante de que, como a invasão à Rue des Rêves não chegara por lá, havia segurança. Seu primeiro passo tocou no piso de madeira e arrancou-lhe um rangido alto, como era costume. Um brilho gélido, no entanto, desenhou um arco no ar e voou em direção ao pescoço do homem, sedento por uma vítima. Por trás da movimentação violenta, ouviu-se um rugido desesperado e, só os mais atentos perceberiam, abastecido em terror. Hawgüan se assustou e se deixou levar pelos reflexos já bem desenvolvidos, abaixando-se e movendo-se para longe de seu atacante.

A Cortadora de Artifício bateu na parede da madeira e encravou-se lá. Kraumor, que não havia se apoiado bem, acabou perdendo o equilíbrio e caindo no chão, acertando o piso com um baque forte.

— Falta-lhe força e velocidade, Kraumor — disse Hawgüan.

O Estripador riu baixinho para não se meter na conversa dos dois. Kraumor, por outro lado, se levantou parecendo irritado.

— Seu… idiota! — Gritou fungando para o Serviçal. — Isso tudo é culpa sua! Eu poderia ter te matado!

Ele se aproximou a passos trôpegos e deu dois socos fracos no peito dele. Quando ele pôs-se a chorar, sentiu que Hawgüan lhe envolvia em um abraço enquanto dizia “vai ficar tudo bem”.

— Vamos embora daqui, desse país. Vamos embora, vai ser melhor, bem melhor… — Kraumor continuou

— Eu te prometo que depois de hoje nós vamos aonde você quiser.

— Senhores… não querendo atrapalhar a conversa de vocês, mas… — O Estripador disse — aparentemente eles precisam de ajuda lá fora.

O Caos tomara seu lugar direito, cansado depois de tantos anos oprimido. Gorguran instaurara a paz sem se importar com Ele, mas a vingança, apesar de demorada, veio. A anarquia, a desordem… tudo isso alimentava a fome que o Caos guardara dentro de si.

Jongur, naquele momento, era seu maior banquete.

A Rue des Rêves foi a primeira a sentir as chamas que os soldados de Gorguran traziam. Eles jogavam um líquido nas casas e quebravam Baleines para iniciar os incêndios. Gritavam barbaridades, apontavam dedos, espadas e armas de fogo para assustar e afastar quem quer que se aproximasse demais.

Isso funcionou até certo momento.

Como uma onda inesperada, a Insurgé apareceu, embebida em ódio; pronta para trocar as palavras e os planos por metal e sangue. Enquanto a Rue des Rêves sucumbia lentamente, mensageiros treinados corriam para outros bairros e clamavam por ajuda para outros grupos. Em pouco tempo praticamente toda a cidade queimava.

Era só o começo.

— Serviçal! — A Voz de Veneza, lutando ao lado da líder, chamou Hawgüan. — Seu trabalho é matar Gorguran antes que ele fuja, estamos entendidos?

— Eu volto com a cabeça dele! — Após degolar um inimigo com a bela Cortadora de Artifício o homem começou a se mover em direção ao Langdon Imperial, mas uma mão o segurou. Era Veneza.

Seus olhos se encontraram e, apesar de sua mudez, a líder foi bem específica no que queria dizer.

Cuidado.

Hawgüan, em silêncio, meneou com a cabeça e finalmente se afastou.

Três.


Hawgüan já tinha perdido a noção do tempo dentro daquele cano. A mão, fechada no punho da Cortadora de Artifício, tremia levemente.

Longe das lutas, o homem mantinha na mente o seu objetivo-mor, que envolvia o bom prefeito, a sua espada e muito sangue.

Mais à frente havia uma escada que levava a uma saída de emergência que, aparentemente, só os empregados conheciam.

— Finalmente.

Ele guardou a Cortadora de Artifício em sua bainha e subiu as escadas, saindo em um velho e empoeirado armário de vassouras. Sabendo que não seria encontrado ali, o homem abriu a porta descuidadamente e…

— Estava te esperando, serviçal de merda. — …encontrou o prefeito sentado em uma cadeira de madeira. — Vocês, semeadores do caos e do ódio, sempre se acham mais inteligentes, não é?…

Na mão direita, Gorguran trazia uma espada fina de aparência mortal

— O meu erro é confiar no seu tipo de gente. Sou bonzinho demais com a ralé da sociedade que não serve pra nada além de pagar impostos, se reproduzir e sujar nossa imagem…

…na esquerda, uma arma de fogo de uma mão. Aquelas que tinham um único tiro antes de exigirem uma recarga.

— Eu me esforço o máximo possível e como vocês me pagam? Queimando minha cidade! Jogando no lixo tudo que construí com dedicação e respeito!

Não havia tempo. Hawgüan não conseguiria se aproximar dele sem receber um tiro. Precisava fazer algo antes do fim do discurso.

— O “bom prefeito”, por Ratren! Sou chamado de o bom prefeito e esses vermes me tratam dessa forma?! É por isso vocês são largados de lado em países mais…

Sabendo que não teria outra chance, o Serviçal jogou a pesada Cortadora de Artifício em direção a Gorguran e foi logo atrás. O prefeito, interrompido, ficou confuso por um segundo, mas antes de ser atingido, colocou sua espada como proteção, de maneira desajeitada.

Não foi o suficiente.

As duas lâminas se encontraram com um som agudo, mas foram ao chão, deixando Gorguran apenas com a arma de fogo. Hawgüan se jogou contra o corpo de seu inimigo, atirando-o contra a parede. Com um baque, eles bateram na divisória e caíram um tanto confusos. O Serviçal, mais bem treinado, voltou a si rapidamente e socou o queixo do oponente, tentando se afastar logo depois, mas foi impedido por um punho que o acertou no lado do corpo. Mesmo com dificuldades para respirar, Hawgüan não parou e conseguiu se colocar de pé. Gorguran levantou-se também e devolveu a arrosta do empregado.

Antes que o prefeito levantasse sua arma, o participante da Insurgé voltou a atacar e os dois se envolveram numa luta feia. Cada um defendia alguns ataques e golpeava de volta, mas sem muita técnica. Machucavam um ao outro, mas se cansavam.

Com um chute, Hawgüan derrubou aquele que pretendia matar e se jogou para sua Cortadora de Artifício. Quando segurou o punho da arma, ouviu um tiro e voou para o lado.

O seu braço esquerdo queimava por dentro.

Levantando-se, o Serviçal olhou para o prefeito com um olhar predatório no rosto.

— Você… — ele apertou os dentes por causa da dor torturante — errou.

Ele sentia o sangue escorrendo facilmente do ferimento e se espalhando pelo membro atingido quando Gorguran levantou-se e correu para fora. Mesmo com pontadas insuportáveis no braço, o Serviçal acompanhou a perseguição e, com gritos e curvas, eles acabaram parando no Saguão Principal da Casa do Prefeito. Apesar da confusão externa, eles estavam sozinhos.

— Onde estão seus guardas, Gorguran? — Ele questionou, sério.

— Provavelmente levantando fogueiras com o corpo de Veneza. Ela é linda, não é? — O sorriso que se formou no semblante do prefeito o incomodou. — Meus homens ficaram muito, mas muito felizes com as instruções que dei a eles quanto a ela, sabia?

O “bom” prefeito observou o que sua frase causara e finalizou:

— Será que ela vai gemer?

Hawgüan pulou em direção ao homem, banhado em ódio, e atacou. Os dois primeiros cortes atingiram apenas o ar e, por conta do peso da Cortadora de Artifício, o dono da arma perdeu um pouco do equilíbrio, ficando aberto para o chute que Gorguran desferiu. O homem não foi derrubado. Ele voltou, ainda irritado, e cortou uma linha horizontal no peito do prefeito, arrancando-lhe sangue e um grito de dor.

— Desgraçado! Verme inútil! — Disse, com a boca ensanguentada.

— Você ainda tem muito o que sang…

— Ei! — O berro assustado que cortou a frase de Hawgüan veio de um lugar inesperado.

Olhando para a fonte de voz mais com aborrecimento que com surpresa, o Serviçal viu o Conselheiro Imperial segurando uma arma de fogo.

— Vamos, seu idiota! Defenda seu prefeito! — Gorguran gritou, com a mão ainda no ferimento. — Mate-o!

Mas Hawgüan sabia que aquilo desenhado nas sobrancelhas do Conselheiro era medo.

— Eu… — Ele começou. — Eu só vou te dar uma… chance. Vá… vá embora que eu não… te machuco.

— Uma chance?! Você é idiota?! Mate-o logo! — O prefeito gritou.

Hawgüan não precisou de muito para ver as mãos do Conselheiro tremendo, desestabilizando a arma. O suor brilhava ao refletir as luzes das baleines e sua respiração era audível.

— Vou… contar até t-três.

Ele, sem levantar o braço, apontou a Cortadora de Artifício para o homem assustado…

— Um… dois…

…e puxou o gatilho.

O coice da arma foi incômodo, mas ver o buraco na garganta do Conselheiro foi o suficiente para tirar a atenção de Hawgüan da dor que atacou o seu punho. A bala tinha atravessado o pescoço do homem e, no lugar onde acertara, havia um rio de sangue que descia descontrolado. Era difícil definir o que se passava na cabeça dele naquele momento, mas “pânico” parecia ser uma resposta aceitável. Ainda assim… Não, ele não podia perder seu foco. Deixando-se levar pela raiva, desviou sua atenção para Gorguran que parecia mais pálido e atônito.

— Agora, sua vez.

O som que a primeira janela do topo da parede, ao lado da porta principal, fez ao se quebrar foi agudo e alto. Uma baleine desenhou um arco e acertou as escadas que levavam ao primeiro andar, distribuindo chamas altas e quentes.

Da abertura veio o som do Caos alimentado, encharcado em gula, e o cheiro de fumaça. Outra lanterna veio voando, rompendo a segunda janela, e foi em direção a Hawgüan. Ele rolou para escapar e, quando acertou o chão, sentiu uma pontada de dor na ferida aberta de seu braço esquerdo.

— Consegue ver agora, seu animal?! Esses são seus amigos! Por eles você morre aqui dentro comigo, preso como um rato! — O prefeito gritou.

— Só há um problema, Gorguran: eu não ligo se morrer, contanto que te leve comigo.

Batidas pesadas foram escutadas na porta dupla e alta de madeira. A gritaria se elevou e as chamas pintaram os fundos dos olhos dos dois homens.

O prefeito deu um passo para trás.

— Nem pense nisso! — Hawgüan berrou e pulou em direção a Gorguran, decidido a não deixá-lo escapar, mas não foi capaz de prever a baleine que explodiria bem a seus pés. Ele tentou tomar impulso com o pé que ainda estava no chão, mas falhou. Sentiu as chamas lamberem seu corpo quando passou voando por cima da poça incendiária. A quantidade de luz no ambiente aumentou e, em pouco tempo, todo aquele fogo se juntaria para fazer do Langdon Imperial uma enorme fogueira.

O homem bateu as costas no chão e a Cortadora de Artifício se arrastou para longe. Ele se apoiou nos dois braços para se levantar, mas uma pancada surda acompanhou um impacto seguro no seu cotovelo esquerdo.

E seu braço esquerdo não funcionaria mais.

— Se você está tão disposto a morrer… — O prefeito disse, com a voz fraca. — Nada mais educado do que te ajudar.

O homem girou o corpo rápido e acertou um soco na patela direita de seu inimigo, derrubando-o no chão. Com ajuda dos joelhos ele se jogou para cima de Gorguran e fechou a mão direita em sua garganta.

Outras duas baleines explodiram pela casa.

Os sons pareceram diminuir por um segundo ou dois. Os gritos, as batidas na porta… Naquele momento, o silêncio ecoou, sobrepondo-se à solidão da anarquia e do fogo. Tudo nas mentes pareceu se equilibrar.

Mas o Caos… Ah, o Caos!

Foi ele e só ele que falou no ouvido de Hawgüan naquele momento. Quem invadiu seus pesadelos e lotou-os de sangue, de dor e de memórias dolorosas demais para serem ignoradas. Foi o Caos quem tirou o peso negativo da vingança e a ofereceu a Hawgüan como a opção mais doce.

E quando ele falou, quase foi possível escutar as notas agudas da voz Caótica permeando cada letra com uma coloração arroxeada, quase como um fim de manhã fora de lugar:

— Agradeço pela ajuda, mas eu tenho uma última promessa pra cumprir.

E Hawgüan sorriu pela primeira vez em muito tempo.


— Por Ratren…

Kraumor ouviu e se preocupou, não só pelo tom, mas pela origem da voz. Ele largou a espada e correu, vendo, recortada contra o horizonte, a imensa fogueira que queimava noite afora.

— Por… Ratren… — A Voz de Veneza repetiu, mas, daquela vez, a frase parecia ser dele e não da mulher alta e bela. Kraumor não precisou de explicações e simplesmente correu.

Eu te prometo…

As batalhas viraram um borrão. Seus pés acertavam as pedras da rua com força, mas a dor parecia não se importar. A noite vinha lentamente com um leve sabor de vitória, mas, a que preço?

Essa pergunta martelava na cabeça de Kraumor, enquanto ele teimava em esbarrar em pessoas sem face. Algumas mãos passaram por ele, provavelmente tentando protegê-lo, mas de que valia?

que depois de hoje…

De que valia ser protegido em um mundo sem ter quem amar?

Ele atingiu a multidão que via o resultado de suas baleines. Eles se perdiam na própria fascinação e não viram o homem se aproximando da alta porta dupla de madeira que, por conta do fogo, já tinha cedido.

Ele ia entrar.

nós vamos aonde você quiser.

Com o calor chegando a sua face com força, Kraumor foi jogado para trás. O Estripador conseguiu impedi-lo de entrar para a morte garantida.

— Kraumor, não!

— Você não vai me impedir! — Ele respondeu com lágrimas. — Hawgüan precisa de ajuda! Hawgüan precisa de mim!

— Se você entrar, você vai morrer!

— Eu prefiro morrer! Hawgüan!

Ajudando Hre, outras duas pessoas da Insurgé se aproximaram e seguraram Kraumor, levando-o para longe do Langdon Imperial.

Ele sabia, assim como Veneza ou o Estripador, que dentro daquela casa incendiada jazia o corpo queimado de Hawgüan.

Kraumor sabia, assim como todos em Jongur naquele dia, que tudo havia acabado naquela mansão em chamas.

E lá do alto o Caos sorriu também, já saciado, e voltou a dormir.

Ele só acordaria anos mais tarde.

Ariel Ayres
Ariel Ayres
Ariel Ayres escreve desde muito novo. Com treze anos terminou seu primeiro livro, "Os Contos de Aesinër", que nunca foi publicado. A sua primeira publicação foi em 2011, com dezesseis anos. Um ano depois, publicou seu segundo romance, e em 2013 seu terceiro, de forma digital. Atualmente trabalha na segunda edição de um livro, "O Quatro", e pretende lançá-lo no final de 2015.

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