A Folia dos Mortos

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Meu pai suspirou enquanto roía as unhas, nervoso. Os olhos, mais fundos do que da última vez em que havíamos nos visto, denunciavam uma possível desidratação recente.

— Eu nunca cheguei a ver… sabia? — ele disse, sério. — A festa, a Folia, eu nunca… nunca vi. Seu vô não confiava nessas coisas. Acho que éramos os únicos forasteiros de lá, e ele não me deixou, eu nunca vi o desfile.

Percebi então que aquela era a conversa que ele queria ter desde o começo. Havia me escrito para falar daquilo, para lembrar da Folia dos Mortos. Fiquei um pouco alarmado. Ele estava velho, meu pai, com bolsas grandes debaixo dos olhos e um cabelo branco, bem ralo. Estávamos ali na sala, ele e eu, quando minha infância voltou a mim de supetão — e toda ela havia girado em torno da festa dos mortos.

— Eu não sabia — respondi. — Nunca me ocorreu saber. O senhor queria ter visto?

Ele meneou a cabeça.

— Eu gostaria, sim.

Havia muito tempo que não pensava no assunto, mas, há alguns anos, eu vivera em uma cidadezinha, mais como uma vila, que recebia, uma vez por ano, o que chamávamos de Folia dos Mortos. Acredito que não venha ao caso falar o nome do lugar, mas o fato é que a Folia era sua única e maior atração. As casas se amontoavam na encosta de um morro baixo, deixando livre um caminho direto para o velho cemiteriozinho encarapitado no topo, que era de onde descia o desfile anual. A maior parte de nós esperava o ano todo por aquela marcha, uma corte animada de corpos encaveirados, esqueletos propriamente ditos e almas penadas que percorria a cidade, serpenteando morro abaixo, cantando e dançando até o pôr do sol.

Os habitantes festejavam o fim do mês um dia antes, num halloween um pouco antecipado, acabando pouco antes da chegada do sol, que trazia consigo a multidão descida do cemitério. Era então que as portas se fechavam e todos aqueles com mais de uma certa idade, todo adolescente, adulto e idoso, não saía mais de casa. Faziam assim todos os anos porque era o costume, mas também porque a história dizia que só crianças eram permitidas lá fora, em meio à festa. Pessoas mais velhas não podiam nem olhar para a marcha sem que se sentissem impelidas a se juntar a ela. Nós — as crianças — saíamos e dançávamos e nos divertíamos, sabendo que aquilo não duraria para sempre.

— Eu lembro de quando você foi pela primeira vez — disse meu pai, olhando pela janela. — Você era muito, muito jovem, tinha talvez cinco anos de idade. Me perguntou por que que eu não ia com mais a sua mãe. Disse que tinha… disse que tinha gente grande lá.

Era verdade. Os que desciam o morro eram, em sua maior parte, adultos, talvez porque a maior parte de um cemitério seja composta de adultos. No auge dos meus cinco anos, maravilhado e aterrorizado, isso me intrigava.

Consigo entender que crianças não tivessem medo porque toda a Folia era, de certa forma, bastante alegre, mesmo com um ou dois corpos carcomidos por ali. Os integrantes se vestiam de tudo quanto é cor, com roupas que haviam encontrado sabe-se lá onde, e tocavam os mais variados instrumentos, com um merecido destaque para tambores e violas. Mas estavam mortos. Tenho certeza de que poriam arregalados os olhos de qualquer forasteiro, mas nós, os nativos, seguíamos com a vida, ouvindo a música, dançando, cantarolando, fazendo o almoço de dia das bruxas. A maioria requentava as sobras da festa do dia anterior. Os mais medrosos, no máximo, passavam a porta à chave.

— Eu nunca tive medo — explicou meu pai —, sério mesmo. Seu avô morria de medo, mas eu nunca tive. Por isso deixei você ir desde sempre. Queria que você visse, queria que você dançasse. Meus amigos de infância todos amavam. Queria que você fosse como eles.

Vinte e quatro anos haviam se passado desde minha última vez. No ano seguinte adoeci e não pude sair de casa. No outro, meu aniversário de treze anos tornou-me oficialmente impossibilitado. Acredito que qualquer adolescente não se importasse muito — talvez estivesse mais preocupado com meninas ou meninos ou bandas de rock —, mas para mim foi uma desolação. Saímos da cidade cinco anos depois. Eu superei. Às vezes, do nada, lembro-me de tudo: as músicas, as danças, as vozes, os rostos. Às vezes, como naquele momento, a vida me dá um motivo para lembrar.

O senhor meu pai me havia escrito, uma semana antes de nosso encontro, um e-mail, o que, morando sozinho com uma acompanhante paga mensalmente em uma cidade não muito longe da minha, fazia com frequência. Ele gostava da internet. Nesse e-mail em particular, havia duas estrofes de um poema.

 

Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho

Destes meus olhos apagou!… Assim

Tântalo, aos reais convivas, num festim,

Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!

Por quê?! Antes da vida o angusto trilho

Palmilhasse, do que este que palmilho

E que me assombra, porque não tem fim!¹

¹ Vozes de um túmulo, Augusto dos Anjos

 

Não era comum que as músicas da Folia dos Mortos tivessem letra. Acontecia, mas dificilmente. Meu pai, às vezes, dava palavras às melodias. Às vezes, encaixava nelas poemas dos quais gostava ou que lhe pareciam propícios. Aquele era um exemplo. Cantarolei os versos em voz baixa, e tudo caía perfeitamente em um dos ritmos na minha cabeça. Cliquei para responder, mas não sabia como.

Decidi visitá-lo.

Com apenas meia hora entre nós, as visitas não eram incomuns, principalmente depois da morte de minha mãe. Também nos correspondíamos por telefonemas. Ele contava então com setenta e sete anos. Minha mãe, morta há dez, jazia enterrada na tal cidadezinha de minha infância.

— Eu gostaria de rever sua mãe. Por algum tempo, minha vontade foi a de rever minha mãe, mas, agora, eu gostaria de rever a Marta. É engraçado, não é? Alguém sempre nos faz falta.

— Eu sei e você sabe que isso não é possível no momento, pai.

— Eu sei? Não é?

A casa dele era pequena, mais por vontade do que por necessidade, com três cômodos simples num terreno um tanto maior, no qual ele plantava cravos e mantinha uma pequena horta. A cidade não era grande, mas não era das menores. Quando nos vimos, ele sorriu e me abraçou com força antes de entrarmos no assunto. Chamou-me para entrar, sentamos, falamos amenidades. Familiares muito próximos, mesmo os que se comunicam com frequência, não têm dificuldades em encontrar assunto. A Folia demorou a ser mencionada.

— Pai — falei, depois de algum tempo, meio incerto do que dizer —, o senhor quer voltar.

Não era uma pergunta.

— Eu quero. Eu quero ver a festa.

Qual é a resposta certa para quando seu pai expressa vontade de morrer?

Fiquei sem palavras.

Tentei me colocar no lugar dele, é claro que tentei. Não é fácil. Ele estava sozinho. Eu era a única família que ele ainda tinha e, sinceramente, ele sabia — e eu também — que não éramos mais necessários um para o outro. Meu coração parou, senti a pressão cair. Fechei os olhos. Abri os olhos.

— Eu não sei se consigo fazer isso pelo senhor — eu disse, a voz trêmula. — Posso tentar. Tem certeza? — Mais uma vez, ele assentiu, sorrindo de leve, e começamos a nos aprontar para a viagem.

Esperei em silêncio que se trocasse e saímos de casa. Cancelei todos os compromissos do dia — da semana, até. A cidade ficava a algumas horas de viagem e as rodovias estavam vazias no fim de outubro. O silêncio durou quase vinte minutos antes de meu pai o quebrar.

— Eu não sei se já contei, mas fomos para lá quando eu ainda era pequeno. — O vento entrando pela janela entreaberta abafava parte das palavras. Fechei a janela. Ele já havia contado. Tirando a parte sobre nunca ter visto a Folia, eu sabia do que ele falaria a seguir. Não me importei, não quis silenciá-lo. Ele tossiu antes de continuar. — Éramos quatro: seus avós, sua tia, eu. Sua tia era mais velha, quinze anos, demorou a entender as regras para a Folia. Um dia, foi por pouco que ela não saiu escondida e viu o desfile. Não sei o que fez com que mudasse de ideia, mas não tentou mais. Seu avô trancava todas as portas, todas as janelas, tinha um medo absurdo. Acho que faz sentido, mas, para mim, era injusto. Minha mãe morreu logo, foi enterrada ali. No outubro do ano seguinte, ele se juntou a ela, abriu a porta e subiu o morro. — Meu pai ficou em silêncio por um tempo, eu também. Continuou: — Achei injusto da parte dele, sabe? Sua tia e eu ficamos sozinhos, mas aí ela já tinha idade para cuidar de mim e eu já tinha quase idade para começar a me virar. Quando adulto, comecei a entender.

— Eu admiro cada pessoa daquela vila, filho, pois é difícil resistir à Folia. Ela chama e encanta e já houve casos, ouvi dizer, em que alguns chegaram a bater nas portas das pessoas, exigindo atenção. Não sei o que pensam, não sei se pensam, mas há algo de complicado. Seu vô se despediu de mim com um bilhete, sem coragem de me olhar na cara. É difícil perder alguém para os mortos, eu sei que é. Não vou fingir que não sei. Não me olhe assim. Não me olhe assim! Sua mãe está lá. Não aguento mais ficar aqui. Todos têm sua hora e eu acho que tenho mais que direito de escolher a minha.

É claro que ele tinha o direito, mas não consegui me fazer admitir isso em voz alta. Naquele momento, toda e qualquer palavra minha se perdeu no caminho da garganta. Me senti um pouco covarde por ficar em silêncio, mas seria injusto se não ficasse. Ele tinha razão. E eu me sentia um otário por concordar com ele, mas concordava. Imaginei que esse fosse o maior presente da Folia dos Mortos, talvez a razão dela existir: dar às pessoas o poder de escolha. Quantos não teriam ido àquele lugar só para isso?

Chegamos à noite, era o dia trinta. Os vivos estavam em festa, em uma celebração bem menor do que a que eu me lembrava, ou então havia ficado pequena. Rumamos para a casa que ainda era da família, vazia por teimosia de meu pai. Os móveis estavam lá, as lembranças também. Coloquei a geladeira na tomada antes de tirar os travesseiros do porta-malas. Pela madrugada, dormimos.

Vi-o se levantar de manhã, caminhar lentamente com o olhar fixo até a porta. De perto, segui sem fazer barulho. A música já invadia a casa por todas as frestas e, realmente, era difícil não sair e se juntar a ela. Precisei de toda minha força de vontade para não sair com meu pai. Ele parou à porta da rua e olhou para trás uma vez, uma vez só, despedindo-se com os olhos. Quando a abriu, saí da área de visão, certificando-me de presenciar nada.

— Tchau, pai. Até logo — consegui dizer com a voz baixa, embargada.

Ele fechou a porta atrás de si e foi dançar.

André Caniato
André Caniato
Nascido em Pontes Gestal, cidadezinha do interior de São Paulo, André Caniato passa os dias trabalhando com crianças e perseguindo realidades paralelas. É tradutor formado, escritor por vocação e, como todo artista, pessoa de mil projetos inacabados. Em breve.

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