A Linha do Necrotério

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Sabe quando alguém está cheio de uma situação? Pois é, Dani estava cheia da situação. Da última vez que tinha saído tão tarde, o patrão se oferecera para levá-la para casa e os dois tinham terminado no motel. Depois o sujeito a deixara na central de ônibus do Mercado, dizendo que não podia se atrasar mais, senão sua mulher ia brigar com ele. Era o aniversário de casamento, afinal de contas.

Dani quase pediu os trinta. Quase. Quase contou tudo para dona Rosaura. Quase. Mas o filha da mãe do seu Aníbal tinha lhe dado um aumento e ela ficou quieta. Depois ele veio com um vestido novo e ela foi com ele para o motel outra vez. E depois, ainda, o Ipod. “Aí, pode”, ela brincou quando entraram no quarto. Mas daquela feita armou um barraco e conseguiu que ele lhe pagasse, ao menos, um táxi para levá-la para casa.

E também tinha o seu Tonico, e a biblioteca do seu Tonico. Dani era enfermeira do homem, pai do filha da mãe do Aníbal, oito décadas de mau humor que a vigiava como se fosse uma estranha, e olha que ela cuidava dele há uns quatro anos. Dava banho, dava de comer, essas coisas. Fingia que tirava o pó. Enfim, o de sempre. Às vezes, ela surrupiava algum dos livros da biblioteca dele e mergulhava nas histórias, enquanto ele roncava no quarto ao lado. Às vezes aproveitava a distração de Aníbal e surrupiava algum trocado da carteira dele. O Aníbal era um palhaço de marca maior e nunca sabia o que tinha no bolso. Ninguém ia culpá-la por levar uns trocos, não é? Uma moça precisa de uma sandália nova de vez em quando e ir para a cama com o patrão não era uma forma tão divertida de conseguir as coisas.

Uma brisa fria soprou pelas ruas, enrolando-se sobre si mesma nas esquinas. Dani olhou para o final do Mercado, à espera do ônibus. Algumas pessoas trafegavam por ali. Havia dois bares abertos, um deles com uma roda de samba agitando a clientela. Mesmo assim, o centro de Porto Alegre dava medo àquela hora. Na verdade, o centro de Porto Alegre dava medo à qualquer hora do dia ou da noite. Nunca se sabe o que vai se encontrar por ali. O ronco do motor ecoou antes mesmo do ônibus aparecer. O carro virou a esquina com a lentidão dos transportes noturnos. O letreiro luminoso indicava “Circular”. O ônibus parou ao lado da moça e abriu a porta. Dani pulou para dentro do espaço iluminado e espiou entre as barras amarelas. Não havia ninguém, a não ser o motorista.

— Vai subir? — Ele perguntou.

Dani não respondeu. Puxou um cartão da bolsa e o passou no leitor eletrônico antes de avançar pela roleta. Venceu a catraca e foi sentar perto da porta, descansando a testa no vidro e espiando a noite. Um bêbado parou perto daquela vaca colorida que as pessoas insistiam em chamar de “obra de arte” e se abraçou a ela. Dois homens saíram do bar onde a roda de samba ressoava, e ao passar pelo bêbado e a vaca colorida, fizeram uma curva. O outro bar fechou. Um rato enorme emergiu de um bueiro e sentou-se sobre um saco de lixo, satisfeito.

— Que nojo — ela suspirou.

O ônibus arrancou, devagarinho, as calçadas meio vazias passando sob os olhos de Dani, seu reflexo confundindo-se com o da cidade. Junto às portas das lojas embrulhos de pano, jornal e papelão: gente dormindo. Deus me livre, Dani detestava andar de ônibus àquela hora. Estava pedindo para ser assaltada!

Por algum tempo, o ônibus rodou pelo caminho conhecido, subindo rumo à Oswaldo Aranha. Dani se distraiu, pensando no fim de semana, no shortinho novo, no Penacho, o personagem do livro que estava lendo, e em Neninho, um cara que andava saindo com sua amiga Raquel, mas que tinha lhe dado uns amassos no baile do fim de semana anterior. Pouco depois, o ônibus parou numa sinaleira e no vazio da avenida, Dani ouviu um telefone tocando. Emergiu de seus pensamentos, prestou atenção e viu: um orelhão instalado no meio de duas capelas mortuárias. As capelas fechadas, uma penumbra quebrada pela luz da esquina. Dani estranhou: não lembrava daquele lugar. Não lembrava daquele itinerário. Mas, talvez, pela noite o “Circular” passasse em outras ruas, mais movimentadas — só que ali não havia movimento algum. Havia apenas uma solidão escura e estranha e a campainha do telefone ecoando sozinha nas sombras. Outro toque. E outro mais. Insistente. “Eu sei que você está aí, atenda”, dizia o aparelho enquanto o ônibus avançava para o sinal. Um arrepio incômodo percorreu a moça.

— Não adianta, não vou atender.

Desta vez o coração de Dani deu um salto. Ela arregalou o olho para o reflexo da janela de trás e viu um homem sentado, olhando para fora. Sentado atrás dela.

Dani espiou por cima do ombro, devagarinho.

Ele devia ter em torno de trinta anos. Barba por fazer, roupas velhas com aparência de limpas. Cabelo ondulado, meio que pedindo um banho. Os lábios eram finos e se apertavam numa linha triste. Os olhos eram castanho claros. Tinha umas olheiras profundas debaixo deles. Ela voltou-se para frente como se não tivesse o menor interesse, trêmula de medo.

Onde o cara tinha subido, pelo amor de Deus? Dani tinha certeza que não havia ninguém no ônibus quando entrara! Será que estava escondido debaixo de algum banco? Será que ia assaltá-la? Seria um tarado? Ela fez menção de levantar e ir perguntar ao motorista se o itinerário incluía a sua rua, mas algo a manteve sentada. O ônibus diminuiu a marcha e abriu a porta para uma parada diante do muro de uma creche. Dani olhou para o homem que ia subir e estremeceu de novo, quando ele levantou o rosto para ela. Tinha uma expressão animalesca.

“Olhos de um devorador”, ela pensou.

— Bolas — resmungou o homem atrás dela.

O sujeito subiu no ônibus, e dedicou um olhar intenso para o banco onde Dani estava sentada, mas não passou pela roleta. Sentou-se em um dos lugares destinados a idosos, balançando o casaco grande, velho e sujo que o cobria. O carro voltou a arrancar e a moça olhou para fora com apreensão. Conhecia aquela rua, ou não conhecia? O ônibus dobrou e voltou para uma avenida iluminada. Ah, sim! Sabia onde estava. Suspirou de alívio. Na esquina, um posto de combustível. Havia um carro prata abastecendo, Dani achou que parecia o carro do seu Aníbal. Um sujeito saiu da loja de conveniências bebendo do bico uma das cerveja de uma embalagem de seis que levava na outra mão, pegou as chaves com o frentista do jeito que deu e mergulhou no automóvel. Saiu cantando os pneus, ultrapassou o ônibus acelerando, cortando a frente de um Fiat que por pouco não bateu no ônibus. A moça pode ver o semblante pálido do motorista do Fiat, xingando em off.

— Esse aí se mata e leva uns quantos junto! — Riu o motorista do ônibus, voltando-se para o passageiro que subira recém. O homem o ignorou.

— Tolo — sussurrou o homem atrás de Dani. Ela o espiou de novo, mas ele olhava para fora, triste. Viu que ela o espiava e sorriu um pouco.

Dani voltou-se para a frente e apertou a bolsa com fervor. O ônibus dobrou para dentro de um bairro na primeira esquina. A moça engoliu em seco vendo as ruas passarem desconhecidas. Jardins, edifícios de bom ver. Passaram pelos fundos de um restaurante fino onde ressoava música num volume alto demais. O ônibus dobrou e dobrou e mergulhou em uma ruela nem tão bonita e limpa. Parou de novo.. Uma mulher subiu, cabelo roxo, pintura exagerada, blusa decotada, saia curtíssima. Mascava chiclete.

— Nada de zoeira no meu carro! — Exigiu o motorista. Ela fez uma careta para ele e dedicou um curto olhar para o homem sentado no banco de passageiros idosos. Sorriu. Passou a roleta rebolando, avançou pelo corredor segurando nos encostos, destilando um perfume doce e ruim. Dani, contudo, não conseguia desviar o olhar do homem lá da frente, o homem com expressão de predador que se voltara para acompanhar o desfile da prostituta. Seu rosto, agora, era um misto de deboche e ânsia. Algo próximo ao sorriso entreabria-lhe os lábios deixando ver os dentes escuros, e Dani achou que se chegasse perto, o ouviria rosnar. A prostituta olhou para o sujeito sentado atrás da moça e sorriu de novo.

— Oi… — disse no que pensava ser um cumprimento simpático. Dani achou que ele não tinha respondido, porque a mulher continuou avançando e foi sentar-se no fundo do carro. O sujeito lá na frente voltou-se de novo para o para-brisa.

Daniele suava frio. Olhou para fora: não conhecia uma rua, sequer. Se tivesse que descer ali, não saberia para que lado andar. Não tinha muita saída. Voltou-se para o homem atrás dela e perguntou:

— Esse ônibus passa no Roselândia?

O homem sorriu de leve. — Passa.

— Tá bom.

Outra esquina. Milagrosamente, a avenida abriu-se à direita e à esquerda, iluminada. Era a rua dos bares e restaurantes. O veículo atravessou-a e se perdeu para o outro lado do bairro. Parou em seguida e um grupo de jovens moveu-se na direção do carro. Três enormes rapagões com piercing na sobrancelha e bonés pretos entraram e saudaram o motorista com um “e aé, mano, véio?” Depois olharam para o sujeito no lugar dos idosos e resmungaram “iiiih! ” numa careta que era para ser cômica, se não tivessem saltado por cima da roleta.

— Mas, que azar! — Resmungou o homem atrás dela, e Dani pensou em assalto. Estremeceu, agarrando a bolsa e mordeu os lábios. Um dos garotos a olhou, mas logo avistou a mulher no fundo do carro e bateu no peito do sujeito ao seu lado.

— Mas, bah, vamos lá para trás.

O motorista voltou-se para os três.

— Ei, Lobo! Nada de bagunça! — Avisou franzindo a testa. O jovem fez um gesto grosseiro.

— Fica na sua, ô meu!

— Se fizer meleca, vai ter de limpar — avisou o motorista retomando a jornada.

— Eu lambo, pode deixar!

Um dos jovens uivou, os outros gargalharam. Passaram por Dani e um lhe lançou uma mirada que a fez encolher-se assustada.

— Oi, gatinha!

Um deles imitou um gato e o outro latiu. Os três riram. O garoto latiu de novo. Não imitou um cachorro: latiu mesmo. Havia diferença, pensou a moça, seguindo-os com a cabeça.

— É melhor não olhar.

Os olhos da moça escorregaram para o olhar tranquilo e doce do homem atrás dela. De onde estava, podia ver que um dos jovens já estava sentado ao lado da prostituta, e os outros dois ocupavam os bancos do corredor. A mulher parecia aborrecida, enquanto o rapaz ao seu lado se debruçava sobre o seu pescoço, murmurando alguma coisa.

Murmurando? Rosnando? Ganindo?

— O quê? — Ela se engasgou. O homem debruçou-se um pouco para frente, tomando o seu campo de visão. Dani desviou-se e viu o braço do jovem estendido por cima do corpo da mulher, escondido pelo companheiro. A lógica falava em coxas e seios. Ela estremeceu. A mulher, lá no fundo, parecia irritada.

— Eu disse que é melhor não olhar.

— Ela vai… ele… eles vão… — Dani se perdeu.

— Aqui? Não sei. Acho que não, não com eles, pelo menos…

O som alto e claro de um tabefe. E logo uma confusão de gritos irritados, ganidos, rosnados. Deus, rosnados altos como os de um cão enfurecido. O motorista freou de chofre e um dos jovens veio deslizando pelo corredor, até quase os pés de Dani. Havia alguma coisa errada com o rosto dele, com as orelhas. O motorista saltou a roleta e correu até a altura do banco de Daniele xingando, sua voz se impondo à confusão:

— Chega! Eu disse que não queria baderna! Lobo! Pegue os seus pulguentos e caiam fora! Lourdes, você desce na próxima!

— Eu disse para você cuidar da sua vida — rosnou o jovem, rosnou mesmo, a voz rouca quase afogando as palavras no meio da selvageria. — Vem cá, gostosa, vem…

— Não dou para sarnento! Não dou! Vira-lata insuportável! Sai! Passa!

O rosnado virou um rugido. Dani voltou-se a tempo de ver o rapaz avançar para a mulher e o motorista recuar, pálido. Então o homem sentado atrás de Dani levantou-se e interpôs-se entre a moça e o que se passava no fundo.

— Ei! Você!

Um silêncio. E de novo a voz do homem:

— Você ouviu o motorista. Pegue seus amigos e desça. Agora.

Um arrastar de pés. Dani espiou. Os três rapazes ganharam o corredor e a porta de descida no meio do carro, passando pelo homem. Pareciam estranhos, cabeludos, cheirando à raiva e pelo de cachorro molhado. Um deles parou e voltou uns olhos assassinos para o homem que os interpelava. O sujeito sorriu, bondoso.

— Vamos, Rolf, você sabe como isso vai acabar, se começar — observou ele. O jovem arreganhou os dentes e desceu.

Dani começou a suar frio e respirar em arrancos curtos, Que gangue! Dentes pontiagudos! Os caras lixavam os dentes? Não dava para acreditar, não dava! Tentou segui-los nas sombras, distinguir o que iam fazer, mas eles estavam se afastando rapidamente, num alarido sem fim.

O homem atrás dela sentou-se outra vez, com aquele seu ar melancólico. Dani se voltou. O motorista o encarava zangado.

— Você, também, não faz muita coisa, não é?

O reflexo do sujeito deu de ombros, no vidro da janela.

— Você é o motorista e os deixa entrar, não eu.

O homem bufou, olhou para a mulher lá no fundo.

— Tudo bem?

— Tudo. Eu não dou para vira-lata sarnento! — Ela avisou numa voz sumida.

— Sei — resmungou o motorista voltando-se e retornando à direção. O homem lá do outro lado da roleta permaneceu com o torso virado na direção de Dani — mas ela sabia que não olhava para ela. Lentamente, o sujeito levantou a mão fechada, com o polegar para cima. E depois, lentamente, o virou para baixo. Dani arregalou os olhos e ouviu o sujeito atrás de si resmungar qualquer coisa. Voltou-se para ele e viu que fitava a escuridão. O ônibus arrancou, depois parou de novo. Alguém vinha correndo pela rua.

— Só faltava isso, mesmo.

— Obrigada por esperar! — Disse alguém entrando apressado. Dani viu uma mulher muito pálida que passou pela roleta e foi sentar no banco logo após a porta. O ônibus arrancou de novo e foi ganhando as ruas, iluminadas, vazias, tristes. Passaram por um homem sentado em uma esquina fumando alguma coisa. Ao seu lado, um outro fitava o céu de boca aberta.

— Acho que você também devia descer na próxima, querida — disse de repente o homem atrás de Dani. Um carro da polícia cruzou pelo ônibus a toda velocidade, de sirene aberta. A moça pensou no trio que havia descido. Olhou o homem através do reflexo da vidraça e viu que ele também a fitava com aquele sorriso bondoso.

— Eu vou até o Rondônia.

— Você devia descer na próxima. Vai ter gente e luz.

A moça o ignorou por algum tempo, depois perguntou:

— Como é que você sabe?

O sorriso se abriu um pouco mais, iluminado.

— Conheço a linha do necrotério, faz tempo.

Ela estremeceu de novo.

— Como é que é? Este não é o Circular?

Ele riu e era uma benção vê-lo rir. O ônibus se iluminou um pouco. A mulher do fundo do carro parecia apenas uma jovem triste e cansada, a que estava sentada mais à frente uma senhora alegre por poder voltar para casa. O motorista era apenas um profissional cumprindo com o seu dever.

O outro passageiro… o outro passageiro pareceu ainda mais sombrio e agourento do que antes.

— Este é o Circular, claro. Mas a esta hora, o pessoal o apelidou de “linha do necrotério”. É que ele passa nuns quantos cemitérios, então o povão achou que o nome estava bem.

Dani virou-se para ele.

— Quem eram aqueles caras? — Perguntou. O sorriso do homem perdeu um pouco do tamanho, mas não da luz.

— Ah, era só um bando de cachorrinhos uivando para a lua. Acontece uma vez por mês. Crianças. Precisam crescer ainda. Como você.

Dani o encarou desconfiada e ele baixou os olhos, antes de olhar para fora de novo.

— Você precisa crescer, Daniele. Sair daquele emprego ruim, se dar ao respeito, conquistar dignidade. Esses trocados não vão resolver a sua vida, você sabe. Devia estudar, acreditar menos em homens perfeitos, arranjar um companheiro de verdade, parar de ficar se esfregando com qualquer um.

A moça sentiu os lábios dormentes.

— O quê?

O ônibus virou a curva e a rua clareou um pouco mais. O reflexo que a fitava com bondade se apagou entre os postes iluminados e um movimento a fez voltar-se para o lado. A prostituta estava pronta para saltar. O ônibus parou e a mulher desceu. Dani voltou-se para frente, teimosa e viu o que havia do lado de fora: era outra capela mortuária, desta vez iluminada. Atrás dela viam-se os vultos dos túmulos do cemitério. Dois homens estavam ali fora, fumando, e seguiram Lourdes com o olhar. Lá dentro, uma mulher cochilava em uma cadeira velha, segurando nos braços uma criança. O morto descansava sem paz, no centro do pequeno aposento mal iluminado. Algumas flores de plástico barato adornavam o local e duas imitações de vela relampadeavam ao lado de um crucifixo.

— Você não vai descer? — Insistiu o homem, inclinando-se para perto dela.

— Vou descer no Rondônia.

O ônibus arrancou. O homem ficou por um momento num silêncio pensativo antes de continuar:

— Olha, o Circular vai fazer uma volta e daqui uns dez, quinze minutos, passa na outra quadra. Daí vai para o Rondônia, mas você devia ter descido antes.

— E por que o senhor está me dizendo isso? — Perguntou Daniele, voltando-se para ele. Ele não respondeu logo. Ou, se respondeu, ela não ouviu. Sentiu os pelos do corpo se levantarem num arrepio.

O ônibus, agora, estava lotado. Havia gente de todas idades ocupando os bancos, gente pálida, de olhos fundos e olhar perdido no nada. Ninguém falava, mas todo mundo se voltou para ela, olhando com ânsia. Vida! Dani estava viva! Que maravilha estar vivo. Que coisa cara e maravilhosa!

Que inveja!

Dani empurrou-se contra a parede num tranco espasmódico, tremendo de frio e pavor. Alguém fez um gesto para segurar o cano do ônibus, quando o veículo virou uma esquina, mas a mão translúcida atravessou o cano pintado de amarelo, como se não existisse.

Como se não existisse cano.

Como se não existisse mão.

— Meu Deus! — Ela gemeu num fio de voz. Não poderia gritar, nem que quisesse.

— Não se preocupe — murmurou o homem de novo. — Ninguém vai se aproximar enquanto eu estiver aqui.

— Eles estão… eles estão…

— Eu vou tocar a campainha e você desce na próxima. Tem um ponto de táxi do outro lado da rua. Você tem dinheiro, não tem?

Dani balançou a cabeça, em pânico. Um menino de ar parado e morto levantou-se de onde estava e se aproximou, atravessando um banco como se ele não existisse. Dani puxou as pernas contra o peito, a respiração formando uma nuvem branca diante dela e o homem colocou a mão em seu ombro.

— Tudo bem. Confie em mim.

Levantou-se e tocou a campainha. O motorista o fitou pelo retrovisor. O outro passageiro, o que não atravessara a roleta, voltou-se em um átimo para eles, num movimento estranho.

— Ela vai descer — disse o homem. O motorista deu de ombros:

— Você é quem sabe.

Parada. O ônibus diminuiu. Dani achou que não conseguiria se mover. Por logos segundos não conseguiu mesmo, fulminada pelo horror. Os outros passageiros a fitavam intensamente. Um deles falou, mas Dani não conseguiu ouvir.

— Vamos — disse o homem a empurrando. O toque foi menos do que gentil e ela o olhou assustada, segurando-lhe a manga do casaco. O homem devolveu o olhar, tenso. — Desça agora, Daniele. Faça o que estou dizendo.

Um dos passageiros levantou-se, outro mais. O sujeito lá na frente começou a rir baixinho, maldoso, maldoso, medonhamente maldoso. O motorista batucava no guidão com a unha, impaciente.

— É para hoje — avisou.

Dani escorregou por baixo do cano que a separava da porta e aterrissou de mau jeito nos degraus. Saltou pela porta aberta e caiu no meio de uma parada deserta. O ônibus arrancou. Ela ficou olhando o carro se afastar iluminado, os rostos a fitando como reflexos, aglomerando-se nas janelas com avareza. O homem que estava sentado diante da roleta pulou sobre a catraca como um animal, equilibrando-se de cócoras no pequeno suporte, e por um momento o casaco escuro se abriu e Dani pensou em asas escuras, de couro podre e rasgado nas bordas. Olhos dourados. Seria possível? O homem que sentara atrás dela parecia aguardar sem pressa.

O ônibus desapareceu na esquina, enquanto ela se levantava, tremendo como uma vara verde.

— Meu Deus! O que foi isso?

Procurou o celular na bolsa, pensando em ligar para a polícia. “Vão matar ele”, repetia sem cessar, sacudindo a mão onde alguma coisa ficara presa, depois que segurara o casaco do sujeito, antes de descer. Quando encontrou o celular, viu que não tinha bateria.

Sua atenção deslocou-se para duas plumas brancas que fulguravam de leve no chão da parada. Uma terceira ainda estava presa na palma de sua mão suada.

Plumas.

Asas.

— Deus do céu — ela sussurrou, olhando para o outro lado da rua. Havia um ponto de táxi, mas estava deserto. A moça recolheu as penas e correu até lá, olhando para cima e para baixo na rua. Não havia muito movimento e definitivamente nenhum táxi à vista. Tentou o celular de novo. Nada. A luz da parada piscou como se fosse apagar.

— Só faltava essa! — Ela resmungou e olhou para o telefone que havia no ponto, o aparelho aprisionado em uma caixa de madeira, com a portinhola de grade fechada com um cadeado pequeno.

Não teve dúvidas: pendurou-se na grade e sacudiu com força. A luz piscou de novo e de novo.

O telefone tocou.

Dani recolheu a mão como se tivesse levado um choque, olhando para o aparelho sem respirar. O timbre soou de novo forte, estridente.

“É para você” ela pensou, e depois: “Não vou atender, não adianta ligar”. E mesmo assim, no terceiro toque, agarrou o fone e o puxou pela abertura entre as grades.

— Alô?

Uma respiração. Sentiu a orelha congelar, os dedos crispando-se com força em torno do fone.

— Alô? Quem fala?

Um gemido.

— Preciso de ajuda. Acabo de presenciar uma tentativa de assassinato e…

Uma risadinha medonhamente maldosa. Conhecia aquela risadinha, conhecia, conhecia!

— Alô? Alô?

Outro silêncio pontuado de gemidos. Um ofegar horrível, um gargarejo que era uma tentativa de respirar, de continuar vivo.

Depois o sinal de ocupado, tutututututu, impessoal, horrendo.

“O Circular vai fazer uma volta e daqui uns dez, quinze minutos, passa na outra quadra”, ela lembrou. “Por que está me dizendo isso?” Ela perguntou de novo e de novo, enquanto corria de volta para a parada, apertando as três plumas brancas contra si. Ganhou a rua bem iluminada salpicada de muros pichados e grades depredadas, o passo apertado. Quanto tempo havia se passado? Cinco minutos? Sete? Uma eternidade?

Um homem saiu das sombras e barrou-lhe o passo, segurou-lhe a bolsa.

— Onde você vai, boneca?

Dani livrou-se dele, mas não conseguiu ultrapassá-lo. Ele cambaleou e ela viu que estava armado.

— Olha, eu não quero te fazer nada. Só quero a bolsa.

A bolsa. O dinheiro. O celular sem bateria. Os documentos. A chave de casa.

Que se danasse!

— Toma! — Ela resmungou, jogando a bolsa para ele e saltando para a rua. Um carro, saído como do nada, freou bruscamente. Alguém gritou. Um tiro, outro grito. Dani saiu correndo sem olhar para trás, apertando as três penas contra si, o som dos passos ecoando na trilha dos gritos e buzinas, o braço esquerdo ardendo num fio de fogo.

“Que ideia, o que estou fazendo?” perguntou-se, mas a urgência tomava conta de si. Chegou à outra quadra, viu uma parada. Havia uma mulher ali, alta, magra, loura. Parecia que tinha saído de uma festa, ou um jantar chique. “Que doida!” pensou e completou: “eu também sou”. Não podia ir embora sem saber.

Sem saber o que acontecera.

— A linha do necrotério passa aqui? — Perguntou para a mulher, confiando na sua aparência. A loura a fitou de cima até embaixo, surpresa, fixando-se no braço pelo qual escorria um filete de sangue. O tiro pegara de raspão.

— Passa, claro — murmurou ela com a voz rouca e sedutora.

— E já passou?

Ela riu, os caninos enormes nas estranhas sombras da parada.

— Se tivesse passado eu não estaria aqui.

Dani deu um passo para trás. Para a luz. Talvez estivesse a salvo na luz. A mulher de lindos dentes avançou para ela sem mover os pés.

— Você se feriu. Deixe-me ajudá-la. Você sabe… livrá-la desta dor… — sussurrou ela, os olhos magníficos tomando todo o mundo de Dani.

— Não está… não está doendo — balbuciou, os dedos que seguravam as penas entreabrindo-se de leve. — Só está frio.

— Querida! Pobrezinha! Deixe-me ajudá-la — ofegou a mulher, estendendo as mãos em forma de garra para a moça. Estava babando, Dani percebeu, sem conseguir reagir.

Então uma coisa enorme, meio sombra, meio luz freou ao seu lado e a porta do ônibus se abriu.

— Sobe! — Gritou o motorista. Dani estremeceu de cima até embaixo e pulou para dentro, as unhas da vampira abrindo um sulco na calça de brim como se não fosse nada. A porta fechou e o ônibus arrancou, sacudindo-se. A moça sentou-se, confusa e olhou para o painel de controle. O para-brisa estava rachado como se alguma coisa tivesse sido atirada contra ele. Alguma coisa muito pesada. Ela olhou para o motorista e achou que ele não ia chegar até o fim da linha, com aquele corte na testa sangrando por cima do olho, e aquele hematoma no pescoço. O motorista a espiou pelo reflexo do vidro meio partido.

— Ele está lá trás. Vê se dá para fazer algo por ele.

— Fui assaltada. Não tenho como passar a roleta.

O homem voltou-se para ela, o outro olho barbaramente inchado.

— Anda, mulher! Se o que estiver atrás de nós alcançar o ônibus você vai desejar que os mortos a tivessem levado junto!

Dani pulou a roleta sem jeito. O braço doía, as penas já estavam encharcadas de sangue e suor. Aos poucos, apoiando-se nos bancos, conseguiu se levantar e olhar o fundo do carro.

A primeira coisa que viu foi o corpo da mulher que ficara no ônibus, torcido e enfiado dentro de um banco de um jeito tão bizarro e bárbaro que não dava para entender o que havia acontecido. O sangue ainda pingava da mão dela, os olhos fixos para frente. A vidraça do fundo do ônibus estava toda ensanguentada e além dela havia alguma coisa estranha voejando de sombra em sombra no encalço do veículo. Rápida feito um corrisco de escuridão.

No meio do corredor, estava ele.

O homem.

As enormes asas brancas, dois metros de envergadura para cada uma delas, estavam esparramadas sobre os bancos, uma delas torcida num ângulo que só de olhar a gente sabia que doía, mesmo sem ter uma delas. Ele estava de bruços no chão, o rosto oculto num dos braços, a mão crispada em torno do pé do banco onde a mulher estava encravada. A ponta da asa mais próxima estava chamuscada. Alguma coisa entrara por ali, onde faltavam três penas.

Dani caiu de joelhos e se aproximou do homem, soluçando. Tocou-lhe a cabeça com a mão trêmula. Os dedos dele se moveram num espasmo. Muito devagar ele conseguiu virar a cabeça. Tinha apanhado muito.

Ainda assim, uma sombra luminosa passou por seus olhos.

— Daniele?

— Isso… isso é seu — ela gaguejou entregando-lhe as penas. O sujeito sorriu um pouco, o pouco que dava para ele sorrir.

— Ora, ora — sussurrou. — Conheço alguém que perdeu uma aposta.

— Pare de se gabar e levante daí! — Berrou o motorista, zangado. — Ele está quase nos alcançando!

O homem sorriu, as penas manchadas nas mãos. Uma das asas se moveu, assustando Dani, e ele sorriu de novo, desta vez uma careta de dor. Depois a outra. Ele verificou a ponta e encaixou as penas com suavidade na quina chamuscada.

— Ele conseguiu encontrar um ponto fraco e me acertou com tudo — sussurrou sentando-se. — Demônios: eles são sempre tão espertos…

O anjo inclinou-se sobre a moça e roçou seus lábios feridos na testa dela.

— Ele disse que você não ia voltar. Que você ia correndo para casa e ele ia poder te atormentar pelo resto da vida pelo que você não fez. Que você era comodista demais, covarde demais para vir me ajudar. Eu disse que pagava para ver. Ganhei.

— Anjo! Ele está chegando! — Berrou o motorista.

O anjo sacudiu os ombros e Dani ouviu os tendões e ossos estalando. Depois ele sorriu para ela e acenou.

— Tchau, Dani. Vou trabalhar.

Virou-se para a janela do fundo do carro e saltou, os punhos fechados, as asas batendo, um turbilhão de luz ao seu redor. O vidro se desfez com o impacto e a sombra que seguia o ônibus enrolou-se sobre a forma luminosa com asas, num embate furioso, enquanto o ônibus se afastava com rapidez.

— Que merda! — Reclamou o motorista olhando pelo retrovisor. — Vou ter de acionar o seguro outra vez!

Dani ficou sentada no chão, olhando a mulher morta, sem pestanejar, as luzes da rua passando celeremente por eles. Não conseguiu mover-se por um longo tempo, o ônibus fazendo curvas, dobrando esquinas, desenhando avenidas retas.

Até que por fim, parou.

— Fim da linha, moça — anunciou o motorista. — E desça depressa, se me faz o favor, que eu ainda tenho de limpar essa bagunça antes do fim do meu turno.

Dani obedeceu, mecanicamente. Só ousou olhar ao redor quando o ônibus arrancou.

Estava na praça central do seu bairro. A casa onde vivia com a mãe e a avó a esperava, a luz da varanda acesa, a TV piscando contra o vidro acanalado da janela, cintilando na escuridão. Soluçando, o corpo todo tremendo, Dani caminhou devagar até lá, abriu o portãozinho, caminhou até a campainha e a tocou à espera que a porta se abrisse para a vida real.

Simone Saueressig
Simone Saueressig
Simone Saueressig tem vários títulos publicados no gênero do Fantástico como “A Noite da Grande Magia Branca” (2007), “A Estrela de Iemanjá” (2009), “A Máquina Fantabulástica” (1997), e o livro de contos “Contos do Sul” (2012). Participou de antologias, como “Duplo Fantasia Heroica 3” (2012), e é autora da saga “Os Sóis da América” (2013), que conta as aventuras de Pelume pelo fantástico território de lendas chamado O Velho Norte.

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