A Maldição das Borboletas Negras

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Jubelina veio ao lume vinte anos após a morte de Astroaldo.

Era prima-irmã deste, mas nunca o vira. Ouvira, sim, lá pelas tantas, suas histórias de terror, de como convidara o próprio demônio para comer algumas castanhas em sua toca, no capinzal.

Era, como aquele, filha das criaturas do charco. Amiga das borboletas pretas, comia grilos e joaninhas quando batia a fome. Mas andava querendo mais. Despiu-se de ninharias e passou a saborear coelhos e quero-queros desavisados. Logo viu-se a babar babas de fome por causa de cotias, caititus, veados campeiros de galhada já crescida e acostumou-se a refestelar-se.

Nunca se convencera de que poderia ser tão famosa quanto o primo, mas, por isso mesmo, abanou a poeira da crista peluda e decidiu deixar o fosso em que vivia e ganhar o mundo, aspirando engrandecer seu nome.

Elevou primeiro o cocoruto por cima da terra. Olhou em volta procurando defuntos e não os viu, graças a Deus! Defuntos eram casas ocas que poderiam abrigar almas deturpadas. Cascas prontas a soerguerem-se do chão para aprontar maledicências e magias. Vendo o campo santo, só as cruzes do cemitério a assustavam por lembrar-se das histórias dos caça-monstros que outrora existiram. Talvez ainda caminhassem por lá e por cá, pisando o pó dos ossos dos mortos de outrora; portanto não custava ter cuidado.

Sentia vontade de ver como era o céu, visto cá por baixo, que por cima nunca veria mesmo. Uma vez acendera uma lamparina e levantara o braço por debaixo da terra para ver se seus olhos poderiam se acostumar à luz e assim ver, além do chão de terra, o céu enegrecido lá de cima, mas que nada. Era criatura das amaldiçoadas, das que se conta em histórias agourentas. Dizem que matava criancinhas, embora sequer um dia tivesse visto alguma. Arre!

Cutucou uma cárie no dente comprido que se projetava bocarra afora e sibilou com a dorzinha. Precisava testar as armas. Piscou ao ver a cara do dia, que desconhecia por completo. Lamparina nunca chegaria ao fulgor, que até fazia doer o lado de trás da cabeça, dentre os miolos. Matutou se deveria emergir toda do solo ou se cuidar para só se atirar ao tempo quando chegasse a noite, sua mãe. Içás passavam — houvera noite com chuva e o dia amanhecera quente. Comeu um só, para não perder o apetite.

Teria que matar algo vivo?, perguntou-se. Sim, pois de que me adianta me retirar daqui se não puder fazer algum mal? Algum malzinho que um caboclo conte a outro, para dar algum valor à aparição. De que adianta sair para enfernar a vida dos viventes se não puder usufruir da glória de ser temida?

Resolveu então pôr-se à caça de algum gado. Algum cabrito que o fosse. Estripá-lo e deixá-lo na encruzilhada para dar valor à façanha.

Levantou então o corpanzil, o vento levando suas catingas para longe, assustando as varejeiras que nunca viram algo do tipo movendo-se por si só. Cavoucou com as patas o areião e atirou o pó para os lados do caminho, claudicando o chão fofo.

Grunhiu porque achava que seres de sua natureza deveriam emitir algum ruído assustador, mas não achou o resultado agradável e nem sentiu que o miado que fizera fosse assustar realmente. Deveria se aperfeiçoar na arte de amedrontar se quisesse que seu nome estivesse ao lado dos seres mais tenebrosos e já com fama garantida. Teria tido um tio, se fosse gente. Seu nome teria sido Lovenácio, e teria sido um lobisomem, mas esse haveria de ter-se arriado com as quatro patas para o ar depois que um fazendeiro o atingisse com bala de prata no coração, que de tão negro quase nem haveria de bater. O mesmo nunca aconteceria com ela, é claro.

Com ela, não! Levantava-se do túmulo para ser temida, e temida famosa, e temida famosa que não se deixava abater por artifício do homem, fosse de prata ou de mão santificada. Dos santos não receava nada, era filha da noite com o pai do escorpião. Era chamada de fera e sabia o valor da maldição. Comera já uns tantos e não era mole não! Neta de papa-defunto, vinda da aurora verde-amarela da nação.

Saiu pelo reto do caminho que seguia ao lado do córrego da Santa Luzia, fazenda próspera, cheia de holandês e produtora de leite branco-amarelinho, que todo dia era recolhido pelo caminhão que levava os tambores para o laticínio, deixando os bichinhos das vacas mortos de fome. Se havia gente ruim assim não precisavam dela para assustar lá por aquelas bandas. A fome era algo a ser respeitado, a ser evitado. Ela mesma tinha muita fome e deveriam temê-la como ao diabo. Decidiu procurar algo mais adiante, praqueles lados da fábrica de fécula, onde se erguiam os três pares de coqueiros altos na entrada.

Foi e no caminho fez sua primeira vítima. Um branquelo cujo nome lhe falhava, se é que algum dia o conhecera, mas que era filho de uma cozinheira, amancebada com o cobrador da estação.

Comera-lhe o fígado enquanto ainda gritava, mas não deixara vestígio de sua sapiência, pois morrera logo. Erro, não poderia sair por aí contando sobre ela, o que diminuía a chance de ficar reconhecida. Contudo lhe achariam a carcaça mole ainda, com o sangue a alimentar os vermes da terra, que sempre cobraram dela mais alimento do que já fornecia, quando matava pequenos animaizinhos pelo restolho do capim.

Então, de noitinha apareceu um caipira que logo ativou o carro da polícia que de lá não arriou até tomar várias providências que Jubelina não sabia ou não entendia.

Eles foram embora levando o corpo, mas a coisa ainda estava com fome e decidiu matar outro, e agora, com a noite a lhe escoimar pelas costas, acharia um jeito mais fácil de tornar-se temida. O local predileto dos que contavam vantagens do homem sobre as feras da natureza antiga eram as igrejas que infestavam os sertões. Lá poderia achar uma ou duas das beatas faladeiras e botar-lhes os buchos em aberto para o ar ficar mais quente.

Caminhou se retorcendo pelo caminho pedregoso até chegar numa escolinha de crianças da ralé local. Lá havia milharais crescidos de espigas novas. De súbito sentiu um cheiro nauseabundo. Muito diferente do seu próprio, mas advindo de uma coisa da qual não entendia a feitura. Havia mais criaturas escondidas perpetrando malvadezas por ali, apercebeu-se. Não gostava de concorrências, poderia ela é estar invadindo o território de outrem, o que não lhe agradava na ideia. Afinal, fora ela a engenhar sair das tumbas para maldiçoar a região onde nunca estivera antes. Deixaria aquele local, onde os meninos aprendiam sobre como ser melhor na vida. Nunca aprendiam nada!

A escolinha já tinha dono. Pediu desculpas às sombras que se sentavam sobre a cercania e se retirou de costas, numa reverência, que de bons modos não poderiam acusá-la de faltar. Ela era formada por muitas, e cada uma das que a compunham fez o sinal da cruz enquanto saia.

Partiu para os lados do Riachão, cujas bordas estavam peludas de galhos e vegetação arrancada dos barrancos pela enchente da última chuva. Os nacos de barranco enlodavam a água, deixando-a mais turva do que de costume, com uma aparência inchada de cadáver afogado. Duas léguas depois ouviu certo ruído de falsete vindo detrás de uma moita. E não era que lá estavam dois marmanjos praticando safadezas! Um dizia vai e o outro ia. Que pouca vergonha que nem nos confins do universo jamais se vira! Foi lá a coisa braba e papou os dois malandros que nunca mais viram a luz do dia. Comera-lhes fígado e coração, que era para não haver jeito de alguma coisa macabra lhes restaurar os sentidos, por algum artifício do maligno.

Então sentiu a espinha doer. Era a tal coisa que lhe espreitava de longe; aquela lá do milharal da escolinha. Arriou os tentáculos, deixando à mostra a bocarra de dentes carcomidos. Miou mais uma vez antevendo um embate antológico, mas de nada adiantou. O bicho da escuridão não se atreveu a mostrar-se como manda as boas práticas. Rejeitando o desafio meteu-se com os rabos por entre as patas e não se dignou a anunciar-se.

Jubelina arregalou-se toda com o prenúncio do temor que já poderia estar despertando nos outros, mas eram os homens quem pretendia aporrinhar, pois eram eles os descendentes dos caça-monstros, que com suas bandeiras embrenhavam-se pelos sertões de São Paulo e Mato Grosso, chegando muitas vezes lá pelos lados dos Goiás. Caçadores cruéis de assombrações e de pedras preciosas que praticavam vilanias; capturavam índios como se fossem eles também criaturas sem alma e vendiam-nos depois aos padres tonsurados da Companhia de Jesus, que os pagavam com o dinheiro de óbolos.

Caminhou como sonâmbula, pois seus olhos tinham propensão para o sono desde jovem. Muitas almas atormentadas não se tornavam assombrações por decidir dormir o sono, ao invés de perambular, sem descanso. Assim, só os tormentos mais profundos, dilacerantes, eram capazes de mover o sopro do espírito pelos charcos, interminavelmente; ou até que lhes dessem o descanso por lhes resolverem as pendências. Os lamentos mais terríveis ainda formavam criaturas diferentes de toda a natureza. Como Jubelina. Gostava tanto de dormir que sua mãe se fizera noite, para espairecer e sorrir enquanto levava-se levitando em seus braços cor de mogno. Mesmo o interior das covas era da cor de mamãe, para poder se ligar a ela onde quer que estivesse… Cheiro da terra fresca com minhocas gordas. Mas nem isso a mantivera dormindo para sempre.

Viu então a lua no céu de diamantes esplendidamente espalhados pelo lá e cá e ainda mais distante, onde nem olhos de assombração alcançavam. Era um não sei o que de pisca-pisca vagalumeante e as luzes todas pareciam se falar sobre Jubelina que saíra do lar de seus parentes mortos para assustar até não poder mais.

Foi-se então por mais léguas cheias de vento, margeando o caminho d’água.

Seria um garoto que naquela beira do Riachão espetava um verme num arame retorcido preso à linha de uma taquara? Sim, seria.

Jubelina não poderia lhe faltar, na qualidade de um ser tão especial que apreciava fígados frescos. Deveria lhe alcançar antes que fizesse algum mal aos peixes da água doce. Estirar-lhe-ia um tentáculo, agarrar-lhe-ia as canelas. Fá-lo-ia plantar uma bananeira sem que alcançasse o terreiro. Chacoalhá-lo-ia até as lágrimas molharem suas sobrancelhas tristonhas. E então deixaria que se fosse, todo cagado, avisar as redondezas. Sim, deixaria que se fosse.

Assim foi, e Felipe da Silva Assunção, filho de Zé Guilherme Assunção, pintor, correu arrancando o mato da frente, aterrorizado, para avisar sobre o pretume endemoninhado que parecera surgir do nada. Quase lhe arrancara a cara de sobre os ossos da face, tal qual sua feiúra, e desejara chupar-lhe o sangue da medula… Coisa besta! Quem fazia isso era o velho Astroaldo, finado.

Ela ficou louca de excitação. Saberiam sobre ela com todos os requintes de uma crueldade que nem chegara perto de praticar. Junto com os outros cadáveres que deixara, este que fugira, achando-se esperto, faria o trabalho para ela. Logo seria respeitada por gerações naqueles rincões de fim de mundo, onde as estradas cobertas de piche que levam aonde vivem as esperanças, nem longe passavam.

E assim se sucedeu desde então, pois naquela mesma noite, mal a Lua caminhara bom caminho, veio uma matilha de cães de caça, homens armados de porretes e enxadas de trabalho e, capitaneando a mal formada coluna, o tal fazendeiro matador de lobisomens de arma na mão, muitos anos mais velho do que Jubelina imaginava. “É boitatá” uns diziam. “É o chupa-cabras”, outros. Mal puseram os olhos nela, veio-lhe três saraivadas de sal grosso no quengo. Aquilo doeu pra caramba e a luarada ouviu seu miado de longe! O lamento dos que se preparam para a morte. Quem se atreveria a lhe dar tiros de sal quando as balas de prata já haviam servido a outros?

Mas era só o sal que lhe afetava a escuridão do meio do corpo. Àquela que lhe animava as partes moventes, como a alma luminosa das pessoas fazia com seus fiapos de carne. Ela atirou-se longe, gemendo de dor e agonizando gritos monstruosos como ela mesma. O Riachão abriu-se numa catarata de água dando-lhe passagem segura. Lá o sal não surtiria efeito e os cães não poderiam lhe rasgar com as dentadas. Ilusão. A água se misturava com a terra da qual era formada. Sentiu-se desmanchando sob o efeito da oscilação do lodo, o sal deixando-lhe as costas, mas envenenando tudo o mais. Sua lama misturando-se ao fundo de grama apodrecida. Traíras vieram lhe mordiscar e seus dentes eram mais numerosos do que os dos cães. Mas não sentia nada. E lá poderia deixar-se enredar, pois o sono lhe chamava de novo, e com mãos de veludo acariciava-lhe os cabelos empretecidos, pondo-lhe covinhas no rosto.

Por último, de esguelha, via de longe uma aparição luminosa que os homens, amedrontados e animados pela cachaça não repararam. Não é que uma das bruxas do convento havia invocado Santa Luzia, de pires na mão, onde repousavam seus olhos ainda vivos, para direcionar os tiros de sal? Os mortos precisavam mais de orações do que as súplicas de uma freira danada. Borboletas negras que eram. Havia tantas almas penadas precisando de reza para arrefecer seus pecados e ainda assim essas irmãs se davam ao desplante de rogar aos vivos…

Então ela viu. Santa Luzia, que nada! Por detrás de um ingazeiro, lá estava o espectro do milharal. O homem de palha, que roubava as criancinhas que se atreviam a se distanciar demais de seus pais e nunca mais eram encontradas. Aquele que botara fogo no convento do capinzal, para apaziguar as sem-vergonhices. Não havia pedido desculpas quando se atrevera a perscrutar os arredores da escolinha? Não fora suficientemente educada afastando-se de lá? Ladrão safado! Havia lhe dedado para que os caçadores armassem seus mosquetes com a munição adequada. Talvez quisesse afastá-la por que via um perigo para si próprio, talvez imaginasse vir a ser deslindado à força de seu local de assombração. Ou talvez apenas se lembrasse… E Jubelina não sabia de quê… Ele queria mandar Jubelina de volta ao cemitério de onde germinara. Local que antes havia sido amaldiçoado pelas irmãzinhas. Antes da tragédia. Borboletas… Antes de virar cinzas sobre as quais foram erguidas as primeiras cruzes do campo santo.

Logo ela, cujo grão era grosso, fazedora de carpideiras. Não teve engodo. Morreu sem dar-se ao mundo como era. Não a reconheceriam pelo nome nem se dariam ao trabalho de averiguarem seu tormento; e sempre achariam que outro era aquele que matara o branquelo e os dois safados detrás da moita. Logo Jubelina, que assumira a forma de Astroaldo, que não assumira a forma de ninguém, agora se lembrava! Vindo pelas frestas das tábuas nuas dos assoalhos das celas ornadas de crucifixos, o demo, invocado das profundezas. Para comer castanhas e fazer-lhes coisas libidinosas. Noivo de todas elas que o convidavam por espontânea vontade, animadas pela solidão e pela luxúria porque não deviam se dispor com os homens mortais. Vinte anos após a morte deste, amante de todas elas no convento do capinzal, como seria dali desde sempre, de novo, de vinte em vinte anos, quando a maldição do convento onde morreram queimadas as irmãzinhas pecadoras, dentro de sua clausura, a coisa emergiria para o mundo dos caça-monstros. Até que as orações dos vivos desapenassem todos os seus pecados.

Albarus Andreos
Albarus Andreos
Albarus Andreos é paulista, engenheiro mecânico, escritor de literatura fantástica, pós graduado em Língua Portuguesa Voltada a Formação de Leitores. Vencedor do Concurso de Contos da UNIMEP de 2009. Autor do romance A Fome de Íbus - Livro do Dentes de Sabre. Participou com contos em diversas antologias. É resenhista de literatura fantástica no blog Menina da Bahia e colaborador do site Homoliteratus.

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