A Torre e o Dragão

6

Para Anderson. Para sempre.

As estrelas no céu estavam altas e brilhantes.

Observá-las era quase como se lembrar que o mundo existia. A sensação era estranha, no entanto. A Torre há muito tempo tornara-se tudo o que conhecia.

Lembrava-se muito pouco do que havia para além da névoa e das montanhas. Sabia que havia algo além da cerração, além do horizonte onde um mundo inteiro se desdobrava. Mas não sentia. Não de verdade. A Torre era tudo.

A Torre e o Dragão.

Não conseguia enxergar o rosto de seus pais. Sequer o castelo onde morara durante os primeiros anos da infância. Até seu nome se perdera em algum lugar na névoa. Era a Princesa. A Princesa na Torre do Dragão.

Era melhor assim, tentava dizer a si mesma. Que adiantava se lembrar do mundo se seu mundo agora se resumia à Torre? Melhor se concentrar no no presente. No que podia apreender. Na sua realidade diminuta. Mas as estrelas, as estrelas eram sempre um tormento quando insistiam em brilhar além da névoa. Porque elas eram o mundo maior.

Havia estrelas no céu quando Tristam chegara.

Tristam, Tristam.

Ele não era um príncipe no título, mas certamente tinha tudo que um príncipe deveria ter. A Princesa lembrava-se de tê-lo visto chegar a cavalo na base da Torre. Ouvira o barulho da armadura se chocando com a terra batida e o relinchar do cavalo assustado. Ele retirara o elmo e seus cabelos se mostraram dourados como o fio dos tapetes da Torre. Dourados como sol queimando a pele, a Princesa poderia dizer, mas há muito já tinha se esquecido de como era aquele calor. Talvez o sol é que fosse da cor do tapete da torre e não contrário. A Torre era a referência primordial.

Suas paredes eram pedra. Ou talvez as pedras fossem a Torre. Pedra escura e por vezes úmida por conta da espessa neblina que a rodeava. Os tapetes em dourado e carmim adornavam as paredes e o chão, protegendo a Princesa do frio, mas ela gostava de sentir a friagem emanando daquelas paredes. Gostava de andar descalça nas pedras negras, sentindo sua pele queimar naquele toque.

O frio sempre lhe fora uma sensação estranha, então tentava experimentá-lo. Colava seu rosto nas paredes, por baixo da tapeçaria e sentia a umidade passando para sua face, o frio sendo transpassado até os ossos. Fazia isso desde que era uma menina, lembrava-se bem. Desde os primeiros tempos na Torre. Há quanto tempo estava ali? O Dragão não media o tempo.

Estranhamente o Dragão não veio quando Tristam chegou na base da Torre. Observou da única janela aquela figura curiosa procurar a entrada da Torre. Ele não era um príncipe, ela percebeu logo. Príncipes tinham estandartes, tinham escudeiros, tinham armaduras adornadas em ouro e prata. Príncipes também queimavam depressa com o fogo do Dragão.

A pele da Princesa se arrepiou ao lembrar. O cheiro do enxofre, da carne queimando, os gritos… Sua mente sempre dava voltas com aquelas lembranças nubladas.

Mas Tristam, ah Tristam, Tristam era um príncipe de verdade. Um Príncipe, talvez. O Príncipe. Talvez apenas Príncipe. Talvez até mesmo o Dragão tivesse percebido. E tivesse curiosidade. Quisesse deixá-lo entrar.

Ele demorou uma noite inteira para escalar a Torre. A Princesa o observou, quieta, atrás das sombras. Ele retirara a armadura e agora vestia apenas um camisolão branco. A Princesa pensou no quanto sua pele seria facilmente queimada pelo fogo do Dragão. Armaduras cozinhavam, pele carbonizava. Onde estava o Dragão? Era o que não saía de sua mente enquanto observava Tristam subir pedra por pedra, mais alto do que alguém jamais subira.

Quando ele entrou pela janela, a Princesa limitou-se a observá-lo com o rosto levemente atordoado. A pele dele brilhava de suor, seus cabelos loiros estavam desgrenhados, sua camisa já não era mais branca. Mas ainda assim ele parecia um príncipe. No entanto, não o era. No momento que olhou para ele compreendeu o fato.

— Olá.

Foi tudo que ele disse.

A Princesa sempre se perguntara o que aconteceria caso algum dia um príncipe conseguisse a impossibilidade de passar pelo dragão. Esperava espadas, pedidos de resgate, de casamento, propostas de fuga e declarações de amor na forma de canções antigas. Era o que diziam os livros que já relera dezenas de vezes, era o que seus pais provavelmente lhe disseram antes de ir para a Torre. Era o que o Dragão secretamente lhe dizia.

Mas claro que Tristam era Tristam.

— Olá — ela respondeu de volta com uma voz assustada.

— Você por acaso teria um pouco de água? É que essa subida aqui não é nada fácil…

Água? Claro, água. Realmente, ele passara algumas horas escalando a Torre. Era natural querer água. Que tolice a sua, pensou a Princesa, é óbvio, é óbvio… Água.

Foi até o aposento ao lado e encheu uma taça de metal com a água da jarra de barro. Suas mãos tremiam de leve. Água era outro elemento que lhe era estranho. Quando estendeu a taça para Tristam, sentiu-se imediatamente constrangida. Foi só então que se lembrou: há mais de uma década não falava com ninguém. O tempo na Torre corria depressa. Ou seria o contrário? O tempo na Torre corria devagar… A Torre, afinal, era tudo, o tempo e o espaço.

Era para sua segurança, sabia, mas era ainda mais pela segurança dos outros. A Princesa não se ressentia de seu destino. O Dragão estava com ela, lhe fazia companhia, apesar de tudo.

O Dragão e a Torre.

Tinha esquecido o som da própria voz. E esta não saíra rouca como imaginara a princípio, mas baixa e firme. Como o crepitar do fogo.

— Eu sou Tristam — falou sua companhia pousando a taça de metal na mesa no centro do aposento.

Ela não disse nada.

Ele também não.

Era assim que a Princesa se lembrava de Tristam. Nos silêncios. Seus olhos grandes interrogadores, sua respiração lenta. Tristam, Tristam. Como as estrelas.

— Eu sou a Princesa da Torre — ela disse, por fim, cansada.

— Prazer em conhecê-la — ele disse sem fazer mesura alguma.

Não era um príncipe, afinal.


Na primeira noite ele dormiu num canto perto da lareira enquanto a Princesa pensava no Dragão. Suas escamas cor de fogo, seu olhar penetrante, o cheiro de cinzas. Onde estava o Dragão? Sentia-se perdida dentro do próprio corpo.

O Dragão não a abandonava nunca, por que deixara Tristam chegar até ela? O Dragão nunca teria ido embora. Afinal, não era como os dragões dos livros, era o Dragão. Não tinha começo nem fim.

Descobriu que sentia sua ausência, o que lhe era bastante estranho.

— Você não viu o Dragão — falou a Princesa no final do segundo dia.

— Não — confirmou Tristam — Mas senti o cheiro.

— Aquilo não era cheiro de dragão.

— Não?

— Não.

— Então era o cheiro de quê?

— Da morte.

Ele deu de ombros.

Tristam tinha um modo peculiar. Ou talvez não, afinal, era o primeiro ser humano que via em muito tempo. Talvez por isso ele a fascinasse tanto com seu andar leve, seu pescoço comprido e seu jeito de piscar. A Princesa se olhava no espelho às vezes: alta, esguia e pálida. Tristam era algo diferente. Era ágil e enérgico.

Eles passaram muito tempo juntos e Tristam contou sobre suas aventuras. Era um cavaleiro menor e viajava por terras desconhecidas em missões mais variadas. Ele lhe contara que salvara uma princesa de uma maldição terrível que a fizera dormir por mais de cem anos e que em outra ocasião encontrara um cavaleiro com armadura mais negra do que o céu à noite.

— E você o derrotou? — Perguntou a Princesa, os olhos faiscando.

— Não se pode derrotar a escuridão. Devemos aceitar aquilo que não podemos compreender.

Tristam falou de sua terra, do castelo onde morava, do rei que servia. Contou o mundo inteiro. As florestas, os rios, as aves, o cheiro do mar, o toque da areia, o gosto da chuva. Ele conhecera bruxas, magos, lobos famintos. Fora ferido e curado inúmeras vezes. Ficara doente, sozinho, mas também andara em feiras ao ar livre, tocara alaúde e dançara com camponesas de flores nos cabelos.

Eram as histórias das estrelas além da neblina.

As narrativas de Tristam ocupavam suas noites e a Princesa batia palmas ao final de cada uma delas, encantada. Não se importava que não fossem reais, apenas que fossem contadas.

— E a sua história, Princesa?

— Eu sou a Princesa na Torre — ela disse simplesmente.

— Disso eu sei, mas eu perguntei a sua história.

Qual era sua história? Não sabia. Sabia do Dragão e da Torre.

— Não tenho uma. Sou a Princesa na Torre.

Tristam apenas sorriu.

Numa noite ele tocou seus cabelos escuros e disse numa voz mais suave que a de costume:

— Quando a lareira está acesa e o crepitar do fogo está forte, seu cabelo fica da cor das chamas.

A Princesa se afastou. Não queria pensar em chamas, não com Tristam ali. No dia seguinte apagou a lareira e deixou o frio invadir a Torre. Quando entregou uma manta para que ele se aquecesse, Tristam não disse nada.

— Eu tenho a sua história — Tristam anunciou três noites depois.

— Não pode ter — falou a Princesa, desconfiada. — Eu sou a Princesa na Torre. E estou sob o signo do Dragão. Isso é tudo.

Tristam pareceu não ouvir. Estendeu os braços fazendo um gesto amplo e sua voz saiu firme e jocosa:

— Veja bem que o reino de Tantara é uma terra árida e seca e nada cresce por lá. O povo tem fome e vive-se de forma muito modesta. O rei, no entanto, é um homem sábio e justo que de tudo faz para prover a seu povo. Interessante esses reis, comuns em terras pobres. Nas abundantes, governantes tendem a se tornar preguiçosos e avaros.

É bem verdade que o rei de Tantara é justo, bom e sábio, mas de nada adiantam essas qualidades quando se vive numa terra amaldiçoada. Isso mesmo, Tantara é amaldiçoada. E essa não é uma daquelas maldições que se pode afastar com alho e algumas preces em frente a uma estátua de pedra. Não, não. A maldição lançada em Tantara se entranhou na própria terra e se fundiu com suas almas.

E quem teria tamanho poder que não Madibar, a bruxa imortal das terras do norte? Você certamente já ouviu falar em Madibar, nas suas unhas tão longas quanto garras e em sua pele tão dura como vidro. Somente um sopro seu é capaz de fazer secar uma plantação de milho inteira e o som de sua voz faz cair toda uma ninhada de pássaros. Mas o que poucos sabem é que Madibar possui um aspecto ainda mais perigoso, seu coração negro que dizem ser feito de pedra.

O coração de Madibar foi afetado quando a filha do rei de Tantara nasceu. Veja que ela era filha de uma união feliz e não há nada mais detestável do que o amor romântico bem-sucedido na vastidão negra que é a alma de uma bruxa. E você pode imaginar quão negra e vasta é a alma de Madibar.

A pequena Alva, sim, esse é seu nome, foi apresentada ao povo de Tantara nos primeiros raios de sol de uma manhã de solstício de verão e o relance daquela visão tão feliz ocasionou comoção geral em pobres e nobres, mas provocou a ira de Madibar. Assim Alva foi condenada, ainda na infância mais tenra, pela corrupção da bruxa mais poderosa de todo esse lado do mundo e talvez mesmo até do outro.

Se o coração de todo o reino estava com aquela menina, então que estivesse para todo sempre. Foi essa a maldição. A vida e a prosperidade de Tantara foi atrelada à vida da pequena Alva e enquanto ela vivesse e fosse feliz, assim seria seu reino. Mas bruxas são bruxas e a crueldade de Madibar parece atravessar todas as convenções.

No completar de cinco verões de Alva, Madibar enviou o dragão Shahalor, o maior e mais temível de todos, tirar a princesa de seu castelo e seu reino e encarcerá-la para toda a eternidade em uma torre no fim do mundo. Dessa forma, a luz da princesa minguaria e assim também o seria com Tantara que desde então vivencia a escassez constante.

Somente o retorno da princesa à sua terra trará de volta a vida e a fertilidade para o reino.

Quando Tristam terminou, com um sorriso discreto no rosto, a Princesa disse:

— Essa não é minha história.

— Poderia ser, se você acreditasse — o sorriso discreto ainda estava lá.

— Mas não é. Sei que não é.

— Por quê? Você se lembra de seu reino? Se lembra de seus pais?

— Não, não me lembro. — Tivera pais, não tivera? Em algum lugar em sua mente ainda haveria lembranças de uma mãe amorosa e de um beijo de boa noite, não? — Mas me lembro do Dragão. E essa não pode ser a minha história porque esse não é o Dragão.

— Por que não?

— O Dragão não é Shahalor, o mais temível. O Dragão não é enviado de bruxa alguma. O Dragão é apenas o Dragão e seu signo age conforme suas próprias regras.

— E onde está esse dragão? — Perguntou Tristam, e pela primeira vez a Princesa percebeu que ele estava exasperado.

— Ele está em todo lugar.

E encerrou a conversa.


Os dias se tornaram semanas e as semanas se tornaram meses. A companhia de Tristam era um alívio das pressões da Torre e do Dragão. Seu sorriso era fácil, suas atitudes sempre inusitadas. Jogavam cartas, liam um para o outro, entoavam cantigas populares e o favorito da Princesa, desenhavam a partir das estrelas na neblina.

Balanças, leões, sátiros e andarilhos. Ilustrações das histórias de cada entardecer.

Numa noite a Princesa decidiu acender o fogo, o que animou Tristam. A Princesa agora conseguia discernir quando ele estava contente ou especialmente feliz. Seus olhos se estreitavam ligeiramente marcando seu rosto com algumas rugas. Ele não era tão jovem, pensou a Princesa. Mas o que era juventude, afinal, para quem vivia na Torre?

Deitaram lado a lado na tapeçaria carmim e ficaram a mirar o teto sem dizer coisa alguma.

Ah Tristam, Tristam, e seus silêncios e hesitações. Seus sorrisos e seus devaneios. Como a Princesa sentia sua falta agora. A Torre ficava menor sem ele.

De súbito, naquela noite, Tristam encarou-a fundo nos olhos e disse:

— Por que não vamos embora?

A Princesa ficou sem ar.

Nunca tinha considerado sair da Torre. Era impossível. Não era certo. Era uma questão de segurança. Como poderia andar pelo mundo lá fora? Como poderia viver?

— Não podemos, Tristam — e foi a primeira e última vez que pronunciou seu nome em voz alta.

— Por que não? — A voz dele voltara a ser exasperada.

Mas não era só isso. Seu rosto ganhara uma nova cor, vermelho como fogo, suas mãos tremiam levemente. A Princesa sentiu a mente turva e um calor rápido passou por si. Ela procurou se afastar, mas Tristam segurou sua mão. Não, não, não, gritava ela dentro de sua própria mente. Não!

— Está tudo bem — e o toque frio das mãos dele fez com que a Princesa sorrisse.

Ela arfou durante alguns minutos, receosa, mas enfim ergueu os olhos para encará-lo.

— O Dragão nunca permitiria.

— Mas ele não está aqui.

— Ele está em todo lugar, está sempre comigo. Você só está aqui vivo porque ele permite. O Dragão nos observa o tempo todo.

— Mas por que ele não me matou? Por que ele me deixou esse tempo todo aqui com você?

— Você não entende…

— Por que não podemos ir? Posso arranjar um jeito de nos fazer descer, teremos que andar a pé, mas certamente seremos capazes de andar uma distância considerável. Se o dragão a mantém presa aqui e mesmo assim me permitiu, talvez sejamos capazes de…

— Você não entende! — E a Princesa se assustou ao ouvir sua voz alterada pela primeira vez em sua vida na Torre.

— Então me explique!

Ele estava triste. Ela podia dizer por causa das rugas na testa.

— O Dragão é o que me mantém aqui. Não posso sair. Jamais poderei. A Torre é meu destino e todos aqueles que se aproximaram para me tirar daqui morreram. Só você que não.

— Por que o dragão faz isso? — A voz dele agora era chorosa.

A Princesa respirou fundo. Era sua vez de contar uma história. A primeira e a última.

— O Dragão é uma criatura ancestral. O fogo o alimenta e o consome. Ele está presente desde o início do mundo e habita todos os lugares que a alma humana alcança. O Dragão é a força da vida e da morte e não há nada que escape de sua alçada.

As histórias contam de príncipes que mataram dragões, mas isso jamais aconteceu. Príncipes foram consumidos por dragões e o Dragão instalou seu signo em todos eles ao longo dos séculos. Há aqueles que dizem entendê-los, mas isso é mentira. Ninguém nunca poderá compreender ou seguir o Dragão, ele não deixa ensinamentos nem apóstolos, pois é ao mesmo tempo ensinador e ensinado. Todos aqueles que se aproximaram do Dragão foram consumidos por ele. Quer pelo fogo, quer pelo espírito. Então não há nada que você, cavaleiro, possa fazer para me retirar da Torre e me afastar do Dragão. Pois essas são as únicas duas coisas que me foram dadas a conhecer.

A Princesa percebeu que as palavras calaram dentro de Tristam.

Ah Tristam, Tristam, que era tudo que um príncipe deveria ser.


Lembrar aquele momento era uma dor quase insuportável. A Princesa encostou-se ao parapeito da janela, os olhos ainda no céu. Ainda conseguia sentir o sangue quente escorrendo em seus braços, o peso do corpo sem vida de Tristam, seu último olhar de terror para sempre congelado no tempo. Ainda conseguia sentir o sabor de suas lágrimas amargas e o palpitar de seu peito pela morte da única pessoa em sua vida.

Mas naquele instante no passado, encostada na parede de pedra, a mão dela sob a dele, a Princesa pensou que ela e Tristam pudessem viver para sempre. Sim, o Dragão havia permitido e Tristam poderia ficar com ela, ser sua eterna companhia. Poderiam inventar jogos, histórias e canções. A vida seria aquele eterno intervalo de paz.

— Está tudo bem — falou ele segurando sua mão, mas a Princesa não soube dizer se era um consolo para ela ou para ele mesmo. Decidiu que não importava.

Fechou os olhos com força e pensou nas estrelas e no mundo lá fora. Quando os abriu novamente e encarou os olhos profundos de Tristam sentiu o familiar crepitar do fogo dentro de si e vislumbrou a única história que Tristam nunca contara.

A dele mesmo.

Um rapaz se aproximou da muralha da cidadela e foi rendido pelos guardas.

— Alto lá, rapaz! Identifique-se!

— Sou Tristam, o andarilho, e venho de Avigon.

— E onde fica Avigon? — Perguntou o guarda com desprezo. — Nunca ouvi falar desse lugar.

— Fica a leste, senhores, próximo às Montanhas de Mir.

— Pois tem muita poeira nesse capa, Tristam de Avigon — observou o segundo guarda sem esconder uma certa curiosidade — as Montanhas de Mir ficam do outro lado do mundo!

— É por isso que estou aqui, senhores, e peço permissão para entrar na cidadela. Gostaria de me apresentar perante o mago Belar.

— Belar? — Bradou o primeiro guarda — o velho louco Belar? O que um forasteiro maltrapilho como você poderia querer com um biruta daquele?

— Senhores — respondeu Tristam sem demonstrar irritação — estou numa empreitada grande e preciso da ajuda do mago Belar. Quero cruzar a linha do fim do mundo e só ele possui o mapa.

O primeiro guarda caiu na risada:

— Tão louco quanto o velho!

Mas o segundo guardo franziu o cenho antes de dizer:

— Meu rapaz, você é jovem e forte. Pode ainda conseguir alguma fortuna, casar-se com uma jovem bela que lhe dará muitos filhos. Belar é para os já velhos, para os loucos e para as crianças.

— Viajei muito longe para encontrar Belar, caro senhor — falou Tristam numa expressão sofrida. — É meu desejo aprender com ele e me preparar para minha jornada. Todos temos uma missão nessa vida, como o senhor já deve saber, e cruzar o fim do mundo é a minha.

O segundo guarda continuou de cenho franzido, ignorando as risadas e expressões de zombaria de seu companheiro.

— Se assim é seu desejo, então que vá de encontro ao mago.

Tristam aprumou os ombros e fez menção de entrar na cidade quando sentiu a lâmina da espada do guarda no pescoço.

— Mas o senhor disse que eu poderia ir de encontro ao mago… — Sua voz saía esganiçada por conta da pressão da lâmina.

— Disse sim — concordou o guarda — mas ninguém entra na cidadela sem um título de nobreza ou de cavaleiro. Se quiser mesmo encontrar Belar e seguí-lo, terá que voltar com uma dessas coisas.

Tristam fez sinal de que ia protestar, mas se calou quando a lâmina do primeiro guarda se juntou à ofensiva.

Retornou à vila que circundava a cidadela, desolado. Precisava se apresentar a Belar, mas como o faria? Não possuía feitos nem terras que justificassem uma promoção a cavaleiro.

Contou as moedas que ainda possuía. Cinco de ouro, treze de bronze. Dariam para cinco dias de hospedagem. Talvez seis se comesse menos. Quando adentrou o quarto e sentou-se na cama, chorou feito criança. Eram meses, anos de empreitada. Tudo isso para nada.

Mas havia uma chance. Se Belar saísse da cidadela e Tristam o abordasse na rua, não estaria infringindo a lei. O pensamento o animou e de um pulo levantou, desceu correndo as escadas da hospedaria deixando uma moeda de bronze no balcão e precipitou-se para a rua.

A vila era pequena, mas movimentada. Era um ponto comercial forte, pois ficava na rota de outras cidadelas famosas. Havia vendedores de animais, de frutas, artesanato e ervas medicinais. Algum deles com certeza poderia lhe dar informações de quando Belar saía da cidadela.

— Sair da cidadela? — Riu o verdureiro. — O mago nunca deixa a presença do rei, meu rapaz. Tudo que ele precisa é enviado através de pajens bem-vestidos.

— Nunca vi Belar por essas bandas, meu senhor — disse a moça cuidadora de cabras. — Nem meu pai antes de mim. Faz décadas que Belar não abandona o castelo do rei.

— Belar morreu, é o que digo — falou um cavalariço. — Mas o rei não diz, para não atrair atenção de seus inimigos.

Tristam voltou para a estalagem tarde da noite, as botas doendo-lhe os pés da intensa caminhada. A sensação era frustrante. Tinha atravessado metade do mundo e agora não podia conhecer Belar.

— Boa noite, meu rapaz — disse o estalajeiro assim que atravessou o balcão. — Venha tomar um vinho quente com ervas finas, essa noite temos muitos hóspedes.

— Não, obrigado — fez Tristam, cabisbaixo. — Preciso descansar, senhor.

— Mas teremos festa — insistiu o estalajeiro. — Músicos com seus alaúdes encherão essa casa de alegria essa noite e bardos cantarão grandes feitos de heróis. Afinal, o torneio em nome do rei começa em três dias e cavaleiros e viajantes vêm de todas as partes do mundo para fazer fama e fortuna.

O torneio.

Tristam não conseguiu acreditar na própria sorte. O torneio trazia fama e fortuna. Fama e fortuna. Título de cavaleiro.

Ao contrário dos garotos da sua idade, Tristam nunca sonhara em ser cavaleiro. Queria entrar no desconhecido, não resgatar donzelas. Queria ir onde ninguém jamais colocara os pés. Queria sentir abaixo de si uma terra que fosse nova e fresca.

Vira muitos rapazes em busca do sonho da cavalaria e o torneio era a única chance para aqueles de origem humilde. Não gostava da idéia de manejar uma espada e lutar, mas se era aquilo que tinha que fazer para chegar à presença de Belar, Tristam o faria. Era seu destino maior.

Sabia que não tinha chances nas justas. Grandes cavaleiros, treinados desde que tinham pernas longas o suficiente para montar, se inscreviam em busca dos maiores prêmios. Também não poderia tentar tiro com arco. Não tinha treinamento também. O que o deixava com a luta de espadas corpo-a-corpo.

Sabia usar a espada, é verdade, mas uma coisa era treinar com sacos de areia e pedra quando criança, outra era enfrentar homens tão dispostos quanto ele pelo primeiro prêmio. Teria que lutar com oito deles se quisesse chegar à final. Os quatro primeiros possivelmente seriam homens de origem humilde como ele, sem treinamento e sem espadas de boa qualidade ou bêbados que colocaram seu lugar em aposta em algum bar. Era com os quatro restantes que teria que se preocupar, quando já estivesse cansado das lutas anteriores. Mas Tristam andara meio mundo até ali e não desistiria. Ele tinha algo que os outros não tinham. Não sabia se aquilo tinha nome, mas batia forte dentro dele.

Nos três dias seguintes treinou com sua espada antiga, aquela que pertencera a seu pai e que levava junto a si mais por precaução do que por qualquer outra coisa. Preparou-se como pôde, correndo, saltando, atacando pedaços de madeira e barris velhos. Antes de dormir, lembrava-se do porque estava ali. O mago Belar. O mapa. Ultrapassar a fronteira do fim do mundo. E assim dormia.

Seu primeiro desafiante foi um bêbado gordo e bigodudo que caiu sozinho no chão depois de desferir o primeiro golpe que errou Tristam por mais de três metros. O segundo foi um rapazola de uns treze anos que pediu por clemência quando Tristam o golpeou na placa do peito. Já o terceiro era um homem do povo, que, como Tristam, usava uma armadura improvisada de couro e pedaços de metal trançados. A luta foi ganha quando Tristam conseguiu atingí-lo em um dos ombros quando o outro baixara a guarda para admirar a platéia. O quarto homem era velho desdentado e completamente insano que se atirou em cima de Tristam desferindo golpes para todos os lados. Depois de uns dois minutos de luta, o velho caiu para trás, aparentemente morto pelo próprio esforço.

O quinto desafiante, como previra, era um homem alto e forte, armado de forma simples, mas elegante. Possivelmente um recém-nomeado cavaleiro. Tristam sentiu um frio estalando seus ossos a despeito do calor intenso na arena. Os olhares estavam pousados nele, sabia. Mas agora era diferente. Agora ele era o azarão.

Levou três golpes fortes e um deles conseguiu feri-lo no braço. A luta avançou no que pareceu uma eternidade. O outro era bom, ou talvez os anteriores é que tivessem sido muito ruins. Tristam teve medo de não conseguir. E levou um outro golpe no braço esquerdo que o fez soltar um urro de dor. Tinha que se concentrar. Tinha. Usou toda sua força numa série de golpes curtos. O outro se defendia de forma precisa, arrastando o pé esquerdo com dificuldade. O pé esquerdo… Foi quando Tristam percebeu que ele tinha dificuldades para andar. Talvez tivesse sido ferido anteriormente. Aproveitou-se dessa fraqueza e mudou a direção dos golpes, exigindo que o cavaleiro tivesse que andar para a esquerda. O esforço de apoiar o peso no pé debilitado fez com que perdesse o equilíbrio. E Tristam desferiu o golpe final na coxa esquerda. O cavaleiro caiu no chão, praguejando a má sorte, e o arauto anunciou sua vitória.

O sexto desafiante era um homem enorme e a estratégia de Tristam consistiu em cansá-lo até que conseguisse uma brecha para um único golpe certeiro. Seu penúltimo opositor era um anão, que apesar de bravo e letal, estava exausto por conta de um ferimento na cabeça. Vencê-lo não foi difícil. A multidão em algum lugar, para ele parecia tão distante, aplaudia freneticamente e gritava pelo nome de seu campeão inesperado. Tristam mantinha o olhar do outro lado da arena, no entanto. Seu último obstáculo estaria ali em alguns minutos. Tirou o suor do rosto e segurou a espada com força. Era agora.

Quando a figura do outro lado da arena tornou-se distinguível, perdeu o fôlego. Nada o preparara para enfrentar uma moça ruiva enfiada num gibão. A multidão aplaudia freneticamente, mas Tristam estava surdo. A espada parecia pesar o dobro.

— Segure essa espada direito — avisou a moça — ou irá perdê-la.

A luta iniciou com o golpe da ruiva, que Tristam defendeu. Ela atacava, ele defendia, num jogo acuado de gato e rato.

— Pare de se defender! — Gritou ela, enraivecida. — Ataque!

Mas ele só conseguia se lembrar da irmã, que também tinha aqueles cabelos ruivos e olhos verdes. Ela naquele momento estaria na pequena vila além das Montanhas de Mir, do outro lado do mundo. Lutando para sobreviver. Ela era forte.

— Anda logo! — Berrou sua oponente.

Ele atacou e ela se defendeu bem. Precisava vencer, precisava entrar na cidadela e encontrar o mago Belar. Queria o fim do mundo. Queria aquilo mais do que qualquer outra coisa.

A luta se estendia com golpes duros de ambos os lados, mas nenhum dos dois parecia perto de tombar. Foi quando um tomate atirado por alguém da platéia atingiu o rosto da ruiva, que por um instante baixou a guarda, e Tristam desferiu o golpe que acertaria sua espada no ombro esquerdo dela.

Ela tombou.

A luta terminou.

— E temos um vencedor! — Anunciou o aurato. — Tristam, o andarilho, apresente-se para receber seu título de cavaleiro menor, defensor das estradas e caminhos desconhecidos, das mãos do enviado do rei.

— Não foi justo! — Berrou Tristam. — Não foi justo. Alguém atirou um tomate nela!

O arauto pareceu não ouvir e as trombetas já tocavam a música dos vencedores. O enviado do rei já estava no estrado segurando um pergaminho longo que conferia o título de cavaleiro.

— Não foi justo — repetiu ele, agora para a ruiva que guardava a espada na bainha a contragosto. — Teremos que lutar novamente.

— Nada é muito justo — riu a ruiva. — Essa platéia não quer uma campeã. Todo ano é a mesma coisa, mas ao menos dessa vez tive um oponente que realmente lutou e me tratou como igual. O que me faz pensar que ano que vem merecerei meu título de cavaleiro.

Ela estendeu a mão a Tristam de um modo firme e sincero. E foi-se.

Os momentos que se seguiram passaram como num borrão. O arauto, o enviado do rei, a coroação, a entrega do título e vinte moedas de ouro. Mesmo a entrada na cidadela, com suas ruas estreitas de pedra, passou como num sonho. Tudo que Tristam desejava era conhecer o mago Belar.

Quando a hora finalmente chegou e ele se encontrava do outro lado da pesada porta de madeira que guardava os aposentos do mago, sentiu o coração parar. Tinha chegado. Respirou fundo e estendeu a mão para a maçaneta.

Antes mesmo que pudesse tocá-la, a porta se abriu de súbito. O aposento era amplo, mas abafado. Havia peças inusitadas em cada móvel. Figuras de criaturas estranhas em cada parede. E no fundo havia uma cadeira de madeira escura e sentada nela estava Belar.

Ele não parecia ser jovem nem velho. Seus olhos faiscavam.

— Venha cá, Tristam, o campeão da fronteira. Sim, da fronteira. Acha que não o conheço, meu rapaz? Acha que não sei dos seus sonhos, da sua ambição? Chegue mais perto, pegue uma cadeira, pois essa conversa será longa. Terá de conhecer os caminhos certos se quiser partir para o fim do mundo. E esses caminhos não podem ser percorridos pelos pés, vejam bem, têm que ser pelo coração. A jornada pelo conhecimento jamais pode ser feita com egoísmo. Terá que reaprender a ser você mesmo. E mesmo assim sofrerá. Seu destino, meu rapaz, é encontrar o que nenhum de nós jamais encontrou e sentir o que nenhum de nós jamais sentiu. Um poder ancestral a qual nenhum humano pode resistir. Sim, meu rapaz, você perecerá e será pelo fogo e pelo sangue. Deseja mesmo prosseguir?

Tristam sentiu-se afundar na cadeira. Sim. Prosseguiria. Não conseguia emitir nenhum som, no entanto, mas Belar, com seus olhos complacentes, pareceu compreender.

– Não se esqueça disso antes do fim. O destino dos homens é sempre cair, afinal.

A Princesa respirou com força, olhando atoarda à sua volta. O que tinha acontecido? O que tinha visto? O olhar de Tristam, no entanto, lhe dizia que ele sabia o que ela tinha visto. Sua alma.

O fogo e o sangue. A Torre e o Dragão. A Princesa tentou se levantar e correr, para qualquer lugar longe de Tristam, mas não conseguia. Era como se o olhar de Tristam, aquele olhar de quem chegara ao fim do mundo, não a deixasse se mover.

— Eu te amo.

Foi o que ele disse. E ele colou seus lábios nos seus e beijou seus cabelos que tinham agora a cor das chamas.

Sua consciência se perdeu num devaneio de cores e sombras. Eu sou a Princesa e pensou que jamais fosse voltar à si mesma. Mas o fez. O fez, ela se lembrava bem.

— Venha comigo, vamos sair daqui — disse Tristam, sua pele tão fria quanto as paredes da Torre. — Eu quero levá-la daqui. Vamos embora!

— Não. — Foi o que ela disse antes de sentir os braços arqueando e o calor consumindo sua alma.

O que se seguiu foi sangue e fogo. Dor e perda. O Dragão finalmente viera proteger a Princesa. E Tristam tombou.

A neblina encobrira as estrelas e a Princesa tentou não pensar em Tristam. Não adiantava mais.

Ah Tristam, Tristam, que era tudo que um príncipe deveria ser. Que fora tudo que conhecera. E tudo que não pudera ser por causa do Dragão e da Torre.

Ao longe, na base da Torre, um vulto se aproximava.

A Princesa sentiu a mente esvanecer, o pescoço estalar lentamente e seus braços arquearem nas asas cor de fogo, na pele escamosa e brilhante. Precipitou-se pela janela em direção à sua presa em um último pensamento coerente.

Eu sou o dragão.

Melissa de Sá
Melissa de Sá
Melissa de Sá é escritora e blogueira. Nascida em Belo Horizonte, escreve fantasia e ficção científica desde a infância. Tem publicado o livro Noites Negras de Natal e Outras Histórias em parceria com Karen Alvares e contos publicados em antologias das editoras Draco e Andross. Mundomel.com.br.

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6 comentários

  1. Bruno Eleres / 24 de janeiro de 2014 at 02:06 / Responder

    Eu estava morrendo de sono, mas por algum motivo decidi ler seu conto antes de dormir. Agora não sei se vou conseguir dormir sem antes ler de novo lol

    • Melissa de Sá / 24 de janeiro de 2014 at 12:56 / Responder

      Bruno, que bacana essa sua impressão do conto. Fiquei bastante feliz.

      • Alessandro / 26 de fevereiro de 2014 at 11:54 /

        Olá boa noite!
        Gostei muito do seu conto, também sou de Minas, moro em Itaúna, espero que possamos trocar experiências e ideias.
        Escrevi um livro intitulado Histórias De Uma Não Vida, que é sobre vampiros.
        Jogo RPG há mais de dez anos, e resolvi juntar todas as aventuras do meu personagem e colocar numa única história.
        Meu livro se encontra no site Clube de Autores.

        Vou enviar um conto para o site também, espero que eles gostem!
        Prazer te conhecer!
        Bjos!

  2. Alessandro / 25 de fevereiro de 2014 at 23:48 / Responder

    Olá boa noite!
    Gostei muito do seu conto, também sou de Minas, moro em Itaúna, espero que possamos trocar experiências e ideias.
    Escrevi um livro intitulado Histórias De Uma Não Vida, que é sobre vampiros.
    Jogo RPG há mais de dez anos, e resolvi juntar todas as aventuras do meu personagem e colocar numa única história.
    Meu livro se encontra no site Clube de Autores.

    Vou enviar um conto para o site também, espero que eles gostem!
    Prazer te conhecer!
    Bjos!

  3. Leonardo / 3 de abril de 2014 at 16:55 / Responder

    Achei seu conto de altíssima qualidade! Ótima escrita, enredo que flui muito bem, personagens com diálogos muito expressivos e um final muito bem concluído! Parabéns, espero pelo próximo!!

    • Melissa de Sá / 1 de julho de 2014 at 18:00 / Responder

      Obrigada, Leonardo. Foi um grande prazer publicar aqui na Trasgo. Tenho outros trabalhos publicados também, tem referência de todos no meu blog caso você tenha interessa. abs

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