A última árvore

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Por

Arte: Vanessa Gomes

Dizem que no centro do labirinto há um grande ipê-amarelo.
O labirinto foi construído há mil anos, no centro da favela.

A favela, todos sabem, está embaixo da gigantesca redoma transparente.

A redoma está no centro da metrópole.

A metrópole é do tamanho do mundo.

Dizem que protegendo o grande ipê-amarelo — a última árvore que sobrou — há uma brigada de androides assassinos.

Outros dizem que não são androides, são índios tupinambás, os últimos de sua raça.

Outros dizem que não são tupinambás, são demônios do folclore brasileiro.

Sacis, boitatás, cucas, lobisomens.

Esses demônios estão lá, no centro do labirinto, cuidando da última árvore, defendendo-a de qualquer perigo.

É o que dizem.

Eu não acredito.

Sou cego mas não sou trouxa.


— Cafuné encontrou uma perna no lixão.

— Tem certeza? Você viu a perna?

— Não vi, mas Siriema viu.

— É bom mesmo. Cafuné mente demais.

— Siriema disse que a perna está inteira. Em perfeito estado.

— Podemos vender. Ou trocar por açúcar. Ou sal.

— A gente podia negociar com o Turco, trocar pelo Aranha.

— Ficou louca? Um perna inteira pelo Aranha? O traste não vale a unha preta do meu pé podre.

— Coitado do Aranha.

— Tá vendo essa unha preta? Ela dói muito, principalmente à noite. Mas, se eu resolver arrancar, vou preferir jogar fora a trocar pelo Aranha.

— Turco prometeu que vai matar o coitado.

— O coitado aqui sou eu. Não tá vendo a unha? Dói demais.

— Turco prometeu. Disse que no domingo, se a gente não pagar o resgate, ele vai fatiar o Aranha.

— Não tá vendo o pé podre?

— Você devia cortar fora esse pé, chefe. Ou a craca vai comer a perna inteira.

— Eu gosto desse pé. Nasceu comigo. Eu e ele vivemos grandes aventuras. Tenho muito carinho pelo meu pé doente. Se hoje eu sou o rei do morro é graças ao meu pé podre.

— O Turco está dizendo que agora o rei do morro é ele.

— Delírio de grandeza.

— Vocês são mesmo irmãos? Tipo Caim e Abel?

— Isso não é da sua conta. Fala pra Siriema trazer a perna aqui.


— Temos um problema, chefe. Cafuné não quer entregar a perna.

— Fala pra Siriema nocautear o desgraçado.

— Cafuné correu pro labirinto. Siriema foi atrás.

— Fala pra ela arrancar o coração do filho da puta e atirar na trituradora. Fala pra ela arrancar os olhos dele, cortar fora o nariz, as orelhas e os lábios e também jogar na trituradora.

— Siriema está avisando que perdeu Cafuné de vista. O nevoeiro está mais denso do que o normal. Ela está dizendo que também se perdeu, não está conseguindo encontrar a saída do labirinto. Parece que seu GPS pirou.

— Incompetente.

— Vou pedir ajuda ao Mustafá. Ele conhece bem o labirinto.

— Tudo bem, mas muito cuidado com a perna encontrada no lixão, ok? Eu quero essa perna, tá entendendo? Eu quero essa perna!


— Bigode encontrou um braço no lixão. Um braço em perfeito estado.

— Muito esquisito. Semana passada foi uma perna. Hoje um braço. Ninguém viu nada? Quero saber quem está desovando próteses de cem mil créditos no meu território.

— Pode ser mais uma armadilha do Zumbi.

— Zumbi está morto, Violão. Eu mesmo acabei com ele.

— O corpo nunca foi encontrado, chefe. Caiu no esgoto e desapareceu.

— Para de espalhar besteira, garota. Zumbi está morto. A favela agora é minha. Bigode e Siriema eram do bando de Zumbi, agora são do meu. Você era do bando de Zumbi, agora também é do meu.

— Eu era do bando de Zumbi?

— Você não lembra porque tua memória foi modificada. Bigode e Siriema também não lembram. Hipnose profunda. Eu não confiaria nos três, não se vocês lembrassem que já foram do bando de Zumbi.

— É verdade. Eu era mesmo do bando de Zumbi.

— Era. E agora começará a esquecer que tivemos esta conversa.

— Que conversa?

— Já esqueceu. Assim é bem melhor.

— Já esqueci o quê, chefe?

— Não importa. Concentre-se no braço. No braço que está com Bigode e na perna que Cafuné roubou de mim.

— Não acha esquisito, chefe? Semana passada foi uma perna. Hoje um braço.

— Quero saber como vieram parar no meu território. Ninguém viu mesmo nada?

— É melhor a gente reforçar a vigilância.


Eu nasci cego.

Sem olhos, sem nervos ópticos.

Isso foi há muito tempo, antes da segregação, antes da cúpula.

Minha mãe vendeu tudo o que tinha e jogou no ralo da medicina todo o seu dinheiro tentando me fazer enxergar.

Foi inútil, nada deu certo.

Continuei sem olhos.

Sempre que recordo minha juventude sem luz, sem cores, lembro da pior escolha de minha vida.

Lembro da mulher misteriosa que veio falar comigo no hospital, depois de mais uma cirurgia fracassada.

Ela chegou perto e disse: “Você quer enxergar? Você quer mesmo enxergar? Eu sou a fada dos olhos.”

Eu respondi: “Tarde demais, não temos mais dinheiro. Minha mãe gastou tudo. Agora somos párias, vamos viver na favela.”

Ela disse: “Você quer mesmo enxergar? Posso fazer isso de graça, sou muito rica, não preciso de mais dinheiro.”

“Por quê?”

“Pra irritar algumas pessoas. Meus sócios. Quero humilhar meus sócios. Quero humilhar toda a comunidade neurocientífica.”

“De graça?”

“Totalmente de graça.”

“Aceito.”

“Posso dar a você a visão. Mas é bom que você saiba a verdade: precisarei remover os olhos saudáveis de outra pessoa.”

“Os olhos de outra pessoa?”

“Implantarei em você os olhos e os nervos ópticos de outra pessoa. Sinto muito. Não há outra alternativa.”

“Quem?”

“Qualquer pessoa saudável. Tua mãe, por exemplo.”

“Absurdo. Não aceito.”

“Tua mãe aceitou.”

Depois de muito hesitar, eu também aceitei.

Foi a decisão mais difícil de minha vida.

Eu sabia que estava vendendo a alma ao diabo.

Essa última cirurgia também foi inútil, não deu certo.

Isso foi há muito tempo, na época em que os pais ainda amavam os filhos.

O céu ainda era azul e a chuva não era de ácido sulfúrico.

Ainda havia uns poucos velhos animais no zoológico.

Os últimos.


— Siriema conseguiu sair do labirinto. O nevoeiro baixou.

— Garota sortuda.

— Outra informação quente. Fura-Bolo encontrou mais uma perna e um braço no lixão.

— Caralho, eu mandei vigiarem as escotilhas, não mandei?

— A gente vigiou. Ficamos de olho a noite toda. Movimento: zero. Ninguém tentou invadir a favela, ninguém tentou fugir pra cidade.

— Três coisas: manda Fura-Bolo trazer a perna e o braço. Manda a Siriema verificar se Mustafá já encontrou Cafuné. Manda o Aranha chamar o Açougueiro.

— Aranha ainda é prisioneiro do Turco.

— Puta merda, é verdade. Esse Turco é mesmo muito frouxo. No lugar dele eu já tinha liquidado o Aranha há um tempão.

— Coitado do Aranha.

— Quer levar um catiripapo? Quer?!

— Desculpa. Mas a galera não para de comentar. Você e o Turco… Vocês são mesmo irmãos? Tipo Esaú e Jacó?

— Meu ouvido ruim não escuta besteira. Desconfio que as pernas e os braços caíram do céu. Foram jogados de um flutuador.

— Jogados do alto, chefe? E a redoma?

— Procurem um buraco na redoma. Alguém deve ter feito um buraco bem no topo.

— Isso dispararia o alarme. Seria um escarcéu medonho.

— A menos que alguém tenha descoberto um jeito de fazer um buraco na redoma sem disparar o alarme, sua besta!

— É verdade, chefe. Tem gente que adora encarar desafios. Burlar o sistema. Principalmente gente desocupada.

— Acabou a jujuba amarela?

— A amarela acabou. A verde e a vermelha também. Quer uma azul? Ou uma branca?

— Uma branca.


— Mustafá voltou. Mas nem sinal do Cafuné.

— Grande merda. Às vezes eu canso de chefiar.

— O senhor trabalha demais, chefe.

— Nada parece dar certo. Não é fácil ser o rei da favela. Ainda mais cego.

— Azar demais, chefe. As cirurgias deram errado.

— Deram muito errado, Violão. Hoje em dia todo mundo enxerga maravilhosamente bem. Só eu nasci cego e vou morrer cego.

— Azar demais, chefe.

— Dizem que os engenheiros da metrópole viajam a Saturno doze vezes ao ano. Eles e os cientistas e os cirurgiões. Mas não conseguiram algo muito mais simples: me fazer enxergar.

— Não quero piorar tua depressão, chefinho, mas o Turco mandou avisar que vai executar o Aranha amanhã cedo.

— Manda o Turco tomar no cu. Que sujeito mais escroto. Quero uma jujuba.

— A jujuba acabou.

— Até a branca?

— Até a branca.


Minha mãe gostava de borboletas.

Quando ela era criança e ainda existiam borboletas, ela atravessou um enxame e sentiu cócegas nos braços, nas pernas e no rosto.

Riu bastante.

Muito tempo atrás eu tentei a conexão mental.

Açougueiro colou em minha careca uma touca cheia de eletrodos.

Minha touca estava ligada a outra, na cabeça de outra pessoa.

Açougueiro explicou que, assim que ele ligasse as toucas, eu enxergaria através dos olhos da outra pessoa.

Adivinhe quem era a outra pessoa.

Aranha.

Eu não conhecia o Açougueiro.

Era minha primeira consulta na favela.

Perguntei a ele se ele já havia testado o equipamento em alguém.

Ele respondeu: “Dezenas de vezes. Sempre funciona. É divertido, você vai ver.”

Não funcionou.

Levei vários choques no centro do cérebro, foi horrível. Pareciam ferroadas.

Em vez de eu enxergar através dos olhos do Aranha, foi o Aranha quem enxergou minha mente.

Meus medos.

Meus segredos.

Desde então tenho pesadelos com aranhas e borboletas elétricas.


— Cafuné voltou!

— Saiu do labirinto? Vivo?

— Saiu. Vivíssimo! Está vindo pra cá.

— Está trazendo a perna?

— Bigode disse que Cafuné está trazendo a perna, sim.

— Ótimo. Agora eu tenho duas pernas e dois braços. Amanhã bem cedo vamos ao mercadão negociar essas peças. Trocar por açúcar. Ou sal.

— Cafuné tá esquisito, chefe.

— Ele sabe que vai morrer. Ele me traiu. Todo mundo fica esquisito quando sabe que vai morrer.

— Ele não parece preocupado. Parece satisfeito. Quase feliz.

— Enlouqueceu. O labirinto faz isso com os desgraçados. A maioria morre lá dentro. Cafuné vai morrer aqui fora. Trairão.

— Bigode tá dizendo que Cafuné disse que encontrou um tesouro no labirinto.

— Tesouro? Enlouqueceu mesmo.

— Bigode tá dizendo que Cafuné disse que encontrou uma árvore no centro do labirinto.

— Árvore?

— Árvore.

— As árvores estão extintas. Você sabe. Eu sei. Todo mundo sabe. Faz quinhentos anos que ninguém vê uma.

— Bigode tá dizendo que Cafuné jura que encontrou uma.

— No centro do labirinto?

— É.

— Cafuné mente demais.

— Bigode tá dizendo que Cafuné tá esquisito. Nem parece ele mesmo.

— Violão, você já teve a sensação de que a vida não é real? De que tudo não passa de um sonho? Um sonho, não. Um pesadelo?

— O tempo todo, chefe. O tempo todo. Esqueceu que eu sou casada?


— Açougueiro vem na quinta.

— Só na quinta?

— Ele não tá se sentindo bem, chefe. Enxaqueca braba. A nova prótese neural deu defeito. Tá bagunçando as memórias do velho. Confundindo as datas.

— Quem mandou brincar com o próprio cérebro? Essas próteses canadenses não prestam.

— Outra informação quente. Procuramos um buraco na redoma. Procuramos com cuidado, usamos todas as câmeras de vigilância. Nada, chefe. A redoma está intacta. As peças não foram atiradas do alto.

— Se ninguém atravessou as escotilhas e a redoma está intacta, como as pernas e os braços foram parar no lixão?

— Por baixo, talvez.

— Um túnel? No morro, na rocha sólida?

— Não seria a primeira vez que alguém cava um túnel na favela. Zumbi já fez isso. Turco também. É o que dizem.

— Não acredite em tudo o que dizem por aí, Violão. São só boatos. Lendas. Eu sou cego mas não sou trouxa.

— Outra informação quente. Fura-Bolo encontrou um tórax no lixão.

— Grande novidade. Manda trazer aqui. Cadê o Cafuné com a perna que ele roubou?

— Cafuné fugiu, chefe. Derrubou Siriema e Mustafá e voltou ao labirinto.

— Tá brincando comigo?

— Não, chefe. Siriema e Mustafá foram nocauteados. Juro.

— Cafuné, sozinho, derrubou os dois?

— Tava possuído pelo diabo, o pivete. Parecia em transe.

— Um pesadelo. Estou num pesadelo. Quero acordar.

— Mas Cafuné deixou a perna. Mandou entregar ao senhor. Depois derrubou Siriema e Mustafá e correu de volta ao labirinto. Sumiu no nevoeiro.

— Eu bato, bato a cabeça na parede. Mas não acordo.

— Outra informação quente. Turco teve um piripaque intestinal.

— Ótima notícia.

— E adiou a execução do Aranha.

— &#@§#&§@!


— Está tudo aqui. Pernas, braços, tórax.

— Todos os membros são do mesmo fabricante?

— Do mesmo fabricante e do mesmo modelo, chefe. São os componentes de um androide do sexo masculino.

— Não vou estranhar se um dia desses aparecerem também a cabeça, o abdome, as costas e o quadril.

— O senhor podia pegar a perna direita, o que acha? Podia trocar sua perna podre.

— Não adianta, Fura-Bolo. Seria rejeição na certa. Meu corpo não aceita implantes, próteses, nada.

— Que azar, chefe.

— Azar demais. Açougueiro chegou?

— Chegou. Tá esperando na cozinha.

— Trouxe mais jujuba?

— Trouxe. Bastante. Já está distribuindo, a galera tá feliz.

— Manda ele entrar.

— Pode entrar, Doutor.

— Saudações, comandante.

— Tá se sentindo melhor, Doutor? A enxaqueca, a confusão mental…

— Passaram. Estou bem melhor, comandante. Eu mesmo extraí aquela prótese do diabo. Malditos canadenses. Como vai a perna necrosada?

— Cada vez pior. Cada vez pior. Dói demais. Sem as jujubas, parece que estão torrando a carne com um maçarico.

— Azar demais, chefe. Azar demais.

— Doutor, preciso que entre em contato com seu velho amigo do mercadão. Quero negociar. Material de primeira.

— Estou vendo. Que beleza. Encontraram no lixão?

— Só não pergunta como tudo isso foi parar lá. É mais fácil explicar de vez o sentido da vida.

— Que beleza. O resgate do Aranha tá mais do que garantido.

— De novo essa história? Aranha? Aranha! Porra, como vocês são chatos. Não posso pagar resgate algum. Minha reputação, entendem? Sou o rei da favela. Minha reputação! O que foi, Fura-Bolo? Desembucha.

— Informação quente, chefe.

— Fala, rapaz!

— As partes que estão faltando. Mustafá encontrou no lixão.


Os engenheiros das forças armadas trabalharam rápido.

A cúpula desceu no meio da madrugada.

A favela foi dormir em liberdade e acordou apartada da metrópole.

Desde então a gente tem se virado do jeito que dá, sem qualquer contato com o mundo exterior.

Sem comunicação, quase sem água e comida.

Boatos circulam.

Péssimos boatos.

Os mais paranoicos dizem que o exército planeja encher a cúpula com gás venenoso.

Dizem que só não fizeram isso ainda porque uns poucos militantes dos Direitos Humanos estão atrapalhando.

Mas não é nisso que eu estou pensando enquanto todos os membros do androide vão sendo arrumados no chão de meu gabinete real.

Eu penso na extinção das borboletas.

Na extinção dos índios.

Em minha própria extinção.

Vá lá, na extinção do Aranha.

Pouco.

Penso bem menos na extinção do Aranha e mais, muito mais, nas outras.

Aranha é o cara mais chato que eu conheço.

Mala sem alça.

Então começa a baderna.

Ouço os membros do androide arrastarem, arranharem o chão.

Pergunto o que está acontecendo.

Fura-Bolo grita: “As pernas e os braços, chefe, eles estão se mexendo.”

Açougueiro dá mais detalhes: “Os membros estão se reunindo, comandante.”

Em dois minutos o androide já está montado e vivo.

Parado bem na minha frente.

É o que alguém sussurra em meu ouvido bom.

Essas máquinas costumam ser violentas.

Vingativas.

Sinto sua presença poderosa.

Penso se ele também está pensando em minha extinção.

Sem saber o que está acontecendo na sala, Siriema grita do corredor: “Turco cansou de esperar pelo resgate. Libertou o Aranha de graça mesmo. Parece que os dois eram cúmplices no plano do sequestro.”

Quanto mais eu rezo mais assombração aparece.


— Ele correu mesmo pro labirinto?

— Nunca vi nada mais rápido. Sumiu no nevoeiro.

— Pensei que ele ia detonar a gente.

— Em vez de atacar, o danado fugiu. Entrou a duzentos por hora no labirinto. Eu filmei tudo.

— Esse androide foi esperto. Se tivesse tentado entrar na favela inteiro, não teria conseguido. Entrou aos pedaços.

— Tudo isso apenas pra visitar o labirinto?

— Esquisito.

— O pessoal tá ressabiado. Cagões supersticiosos. Disseram que não vão caçar o invasor nem a pau.

— Siriema, você já teve a sensação de que a vida não é real? De que tudo não passa de um sonho? Um sonho, não. Um pesadelo?

— É estresse, chefe. O senhor trabalha demais.

— Às vezes eu penso que a gente não existe de verdade. Somos apenas personagens de uma história sem pé nem cabeça.

— A vida de rei do morro não é fácil. O senhor precisa descansar.

— Queria muito que tivesse um jeito de saber a verdade.

— A verdade?

— É, Siriema. A verdade. Queria muito descobrir se somos de carne e osso ou não. Queria muito saber se eu e você existimos mesmo. Se a favela, a cúpula e a metrópole não são apenas lugares imaginários. Invenção. Ficção.

— Ficção? Isso seria maravilhoso.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Se pudesse escolher entre a vida real e a ficção, você escolheria a ficção?

— Pode apostar.

— Escolha mais besta. Está explicado por que eu sou o rei do morro e você é só, sei lá… Você mesma.

— Se a vida real fosse uma jujuba azul e a ficção fosse uma jujuba vermelha, eu escolheria a vermelha. Pensa bem, chefe, nas coisas fabulosas que a gente poderia fazer numa história sem pé nem cabeça.

— Coisas fabulosas?

— Atravessar paredes. Botar pra quebrar. Explodir a cúpula. Explodir a metrópole. O planeta.

— Para de explodir as coisas, garota. Ficou maluca?

— Rê, rê. Brincadeira. Mas a gente poderia transgredir bastante. Sem explodir nada, é claro.

— Voar sobre o centro do labirinto. Encontrar a última árvore.

— Criar uma floresta inteira. Com animais, índios e criaturas do folclore.

— Reviver minha mãe, devolver a ela a visão roubada. Sair da favela, ir morar na metrópole. Ir morar em Saturno, se eu quiser.

— O senhor finalmente começaria a enxergar. Simples assim. Mágica.

— Siriema…

— Porra, chefe. Não seria do caralho? Na imaginação vale tudo.

— Siriema, é bizarro. É… É vermelho, é vibrante.

— Chefe?

— Eu estou enxergando.

Luiz Bras
Luiz Bras
Luiz Brasil nasceu em 1968, em Cobra Norato, pequena cidade da mítica Terra Brasilis. É ficcionista e coordenador de laboratórios de criação literária. Na infância ouvia vozes misteriosas que lhe contavam histórias secretas. Só acredita em biografias imaginárias. E nos universos paralelos de Remedios Varo. Dos livros que publicou destacam-se "Distrito federal" (rapsódia, 2014) e "Sozinho no deserto extremo" (romance, 2012). E o novíssimo "Ateliê de criação literária" (eBook Amazon, 2015)

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