Aceita viajar pela empresa?

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Aquilo estava me matando.
Literalmente. É isso que uma corda amarrada no seu pescoço faz. Principalmente quando se está pendurada e o peso do seu corpo fica apertando o nó… Sabe, tipo enforcamento?

— Vamos, vamos, podem descer ela.

As criaturas — sim, criaturas com metade da inteligência de um cachorro bem estúpido e três vezes a força de um cavalo — olharam para Nani.

— Não me façam repetir. É sério, soltem ela.

O maiorzão do grupo me segurou pelas pernas e eu parei de sufocar. Outro cortou a corda com uma das unhas e o terceiro fez o favor de me colocar no chão.

Eu estava quase desmaiando…

(Ah, claro, tudo isso que eu tô contando aí em cima, bom, obviamente eu não vi, é só uma racionalização a posteriori, como diria meu professor de filosofia.)

— Ei, ei, Nanda. Tudo bem?

Abri os olhos e encarei minha chefe. Nani era uma espécie rara por ali. Conseguia sorrir em situações que, francamente, não deixavam dúvida de sua dramaticidade. Eu podia ter quebrado o pescoço! Eu podia ter sufocado antes de ela aparecer. Mas não, ela estava ali, sorrindo:

— Tudo resolvido.

— Sério?

— Sério. Você ganhou…

— Quer dizer que nós ganhamos…

— Mais dois dias para conseguir o Perdão.

— Dois dias? E como você acha que vamos conseguir isso em dois dias?

— Bom, podemos começar saindo daqui e voltando para Troia.

E ela saiu saltitante em direção ao nosso veículo. Veículo. Sim, eu ainda não sabia como chamar aquela coisa.


Oi, meu nome é Fernanda — oi, Fernanda — e eu tenho um sobrenome e tudo mais. Só que ele não é importante aqui.

Nenhum sobrenome é.

Nem o dos Onassis seria. Ou Suplicy. Ou Kennedy. Ou, sei lá, Silva.

Não importa.

Onde estou, então?

Não tem um nome, exatamente.

Os mirz chamam de Grande Terra, os povos do Deserto de Vidro chamam de Inferno, os garanhenses chamam de Vetor, nunca conheci um atlântico para saber como eles chamam e os grhszs — aquelas criaturas que estavam me ajudando a sufocar — usam um barulho gutural impossível de reproduzir com o aparelho fonador humano para se referirem a essas terras. Eu chamo de Aqui. É Aqui que eu estou, não faz muita diferença.

E como foi que eu cheguei Aqui?

Bom, foi através de um anúncio de vagas de emprego.

Chegou pelo meu e-mail, coisa mais boba do mundo. Eu estava atrás de qualquer bobagem que me tirasse do maldito estágio, então cliquei na vaga de “Assistente de Comunicação”. Trabalho interessante que incluía “viajar pela empresa”. Deixei o currículo à disposição para avaliação e quando dei por mim, estava na dinâmica mais estranha do universo: eu tinha de invocar um espírito.

Sim, exatamente. Era isso que eu tinha de fazer. Em um prédio abandonado no centro de São Paulo, eu tinha de invocar um espírito. Primeiro, eu pensei, é cada dinâmica que esses RHs inventam hoje em dia… Depois, eu raciocinei, tá, o que pode acontecer? Só o que aconteceu. Invoquei o fantasma de uma criança morta atropelada. Obviamente, fiquei apavorada. E fugi.

Mas eu tinha conseguido a vaga.

Foi Nani quem me recebeu quando eu cheguei Aqui. Ou quando acordei Aqui. Não me perguntem como. Eu só sei que a “viagem” pela empresa era um tanto quanto mais longa do que eu tinha previsto (e eu só queria conhecer Paris).

O trabalho era fácil, na verdade — depois que você se acostumava. Eu devia ajudar Nani a se comunicar com seres de outros mundos. Era ela a responsável pelo trabalho pesado: possessões, enfrentamento de demônios, lidar com clientes insatisfeitos, esse tipo de probleminha de final de expediente. Sua última assistente, ela me disse, tinha fugido para Creta com um caçador de magos e nunca mais tinha dado notícia.

Nosso veículo saltava pelas areias do deserto em direção a Troia. Nani estava folheando uma revista, sentada na cabine de pilotagem. Eu olhava pela janela. Estávamos a mais de um metro de altura, o peso da cabine principal suportada por uma dezena de “patas” longas que terminavam em raquetes de tênis e que deixavam marcas de waffles na areia. Eu já enjoara muito naquele troço. Tantas vezes que tinha até desistido de pedir para que ela me ensinasse a pilotar (bom, não que tivesse tanta dificuldade, já que ela simplesmente ficava ali, lendo, descobrindo qual era a última tendência da corte de Atlântida).

— Bom, vamos ter de começar tudo de novo, imagino…

Levantei a cabeça. Nani tinha parado de ver as fotos do casamento de Telia Telanus Miakanus, herdeira do império de importação de sementes de gelo e olhava para os controles do veículo. Passei a mão no rosto:

— Imagino que sim.

Ela me olhou. Estava sorrindo:

— Se não conseguirmos, podemos fugir para Miríades. Aposto que conseguimos um postozinho legal junto de algum circo…

Era uma ideia tentadora:

— Podemos fugir agora… Temos um adiantamento…

— Na… acho melhor tentar antes, vai que dessa vez funciona. O Grande Mu, ou o cretino que vier depois dele, pode ficar bastante agradecido.

Eu não conseguia imaginar um Grande Mu agradecido. Principalmente se ele descobrisse que nós o chamávamos de Grande Mu. Os Musser eram a mais poderosa tribo de Aqui. Diziam ser negociantes, mas, na verdade, eram contrabandistas. Os grhszs trabalhavam para eles desde os tempos das auroras — segundo um Musser que eu conheci em um dia de folga — e os obedeciam cegamente.

A vida de um Musser era perfeita. Até a hora de morrer. Quando a hora chegava, o Musser precisava do perdão de todos aqueles que ele um dia já tinha ofendido. Ou ele não podia morrer… Isso significava agonizar por dias e dias, até anos, dependendo da sorte.

Era esse o problema do Grande Mu.

Ele tinha conseguido o perdão de todos que ele podia lembrar, então, ele nos contratou para descobrir os que faltavam. E nós descobrimos. E quase todos o tinham perdoado…

— Você acha que dessa vez vamos conseguir que ela colabore?

Nani fez uma careta.

— Vamos ter de tentar de qualquer jeito. Não sei você, mas eu não curto muito ser estrangulada por um grhsz…

É… Pela minha experiência recente, eu não curtia, não…


Troia era uma espécie de capital do Aqui. A última cidade antes de se entrar definitivamente no Deserto de Vidro e aí, bom, depois só Miríades ao Oeste ou Torian ao Norte, depois de milhares e milhares de quilômetros de areia. A cidade era grande. Tinha prédios altos e comércio. Água em abundância e aquele cheiro de metrópole que é inconfundível. Ela me lembrava um pouco de São Paulo. Mas sem o trânsito. E com a eterna sensação de que o Han e o Luke sairiam da primeira taberna…

— Vamos fazer um pouco diferente dessa vez — Nani saltou do veículo com a elegância de anos de prática. Eu me agarrei na escada e a segui, sem me preocupar em parecer uma bailarina.

— Diferente como?

— Eu vou falar com a mulher.

Congelei antes de pular para o chão, agarrada nos degraus. Isso significava que eu seria possuída.

— Mas eu nunca…

— Fique tranquila. Você vai se sair bem. — Ela já estava entrando na Especiais do Jo.

E eu fui atrás.

— Ei, querida, você voltou! Achei que os grhszs teriam arrancado sua cabeça a essa hora!

— Não, conseguimos um pouco mais de tempo — ouvi Nani responder, com um sorrisinho afável. — Não muito, claro.

— Não, isso seria gentileza demais da parte dos Musser. — Jo riu, como se aquela fosse uma piada genial, saída dos Simpsons. Sim, eu estava de mau humor. Não, eu não queria ser usada como marionete por um espírito.

— Jo, vamos precisar de algumas coisinhas…

— Diga…

— Uma corda seria bom para começar.

— Uma corda…

— Sal, dez velas… Vou querer cordeiro para o almoço…

— Certo…

— E uma boneca.

— Certo. Me dê dez minutos para ir buscar a boneca no estoque…

— Dou até quinze. — Ela se recostou na bancada e começou a folhear um dos catálogos.

— Nani…

— Diga.

— Por que eu vou…?

— Porque eu tenho mais experiência com invocações. Dã. E porque assim, se nós falharmos, o Grande Mu não vai poder culpar você, dizendo que a sua invocação foi uma grande piada…

— Mas eu sou sua assistente. Nunca fui possuída antes…

Ela me encarou. Dessa vez seu sorriso tinha sumido.

— Fernanda, relaxe. Eu sei o que estou fazendo.


E a primeira coisa que ela fez foi amarrar meus pulsos.

Era o procedimento de praxe. Evitaria que eu me machucasse caso o espírito ficasse muito raivoso. Não que eu gostasse da ideia.

— Tudo bem aí?

Soltei um gemido que queria dizer “óbvio que não! Mais tarde te apresento minha carta de demissão”, mas ela interpretou como “ok”, enquanto terminava de traçar um círculo com sal em volta de mim.

Estávamos de volta à nossa sede. Um apartamento em uma construção de três andares no centro de Troia. Meio casa, meio escritório, meio laboratório de invocações espirituais. E tinha uma vista legal do mercado…

Nani tinha acendido sete das velas e se sentou à minha frente. As mãos cruzadas no colo, envolvida pela névoa das chamas:

— Cordeiro assado para o almoço amanhã.

Concordei com a cabeça. Era nisso que eu precisava me focar. No almoço do dia seguinte. O pensamento fixo impediria que o espírito caminhasse livremente pela minha cabeça, Nani tinha me dito uma vez. Foco no cordeiro…

Ela começou a lamúria baixa. Normalmente mudava e aquela eu não conhecia. Era bonita… Bonita daquele jeito que é ver decorações de Natal ou cachorrinhos brincando. Um bonito inútil e que não te seduz para mais nada além de deixar o bonito te invadir, sentar no seu colo e olhar nos seus olhos.

— Você está aqui outra vez!

Ai meu Deus! Senti um arrepio ao ouvir aquela voz saindo da minha boca. Os meus pés estavam formigando e um dos meus olhos estava desfocado. Eu via duas Nanis! E uma sombra. Uma sombra de mulher. Uma sombra de mulher de meia-idade morta há cinco anos. Câncer. Ou aquilo que de onde eu vinha se chamava câncer.

— Precisamos do seu perdão.

Eu me ouvi rir. O tipo de risada sarcástica que ficava muito bem em vilãs de comédias românticas. Nunca tinha tentado rir daquele jeito.

— A garota, a outra garota que me invocou devia ter dito: não vou perdoar o que ele me fez.

— Um homem está sofrendo…

— Ele não é um homem — ela repetiu o clichê dos clichês dos ofendidos —, é um monstro.

— Ele está agonizando…

— E pode agonizar pela eternidade! Eu não me importo. — Minha cabeça virou, analisando o sal espalhado. Cordeiro assado, cordeiro assado, cordeiro. — Vamos, garota, desfaça isso, quero ir embora.

Eu vi Nani respirar fundo três vezes e pegar a boneca no colo. O embaçamento do meu olho esquerdo passou para o direito:

— Rosa, me escute.

Algo semelhante ao medo tomou conta do meu corpo. Mas não era meu medo. E não era só medo. Tinha raiva ali também. E também não era minha raiva.

— Como sabe meu nome? — Eu me ouvi gritando.

— Rosa, me escute. Aquele homem, o Grande Musser, precisa do seu perdão…

— Não!

— E você vai me entregar! Agora.

Resfoleguei. Entendi o porquê das mãos amarradas naquele instante: eu destruiria a barreira de sal se pudesse.

— Eu preciso do perdão. Dê ele para mim. Agora.

Um ponto de luz surgiu no meu peito e eu arquejei. Nani estava com a bonequinha nas mãos, segurando-a sob os pequenos braços de madeira. Apertando seu peito. Meu peito. O peito de Rosa.

— Você não sabe o que ele fez comigo…

E então eu vi. A família de Rosa era de jovens comerciantes, tinham acabado de chegar Aqui. Vinham de longe. De além de Creta e traziam novidades a preços baixos. Os Musser não gostaram daquela concorrência e mandaram os grhszs visitá-los. O homem que agora era o Grande Mu fora junto. Supervisionar, ele disse. Cordeiro assado, pense no cordeiro assado…

Eles não negociaram. Destruíram toda a mercadoria da família. Roubaram o dinheiro. Espancaram os homens. E também a garota. Rosa. Eu tentava pensar no cordeiro, mas a névoa que cobria meu olho direito se transformou em uma venda. Eu via a cena, eu ouvia os gritos e por cima de tudo, o rosto do Grande Musser.

— Os Musser podem ir atrás da sua família mais uma vez se não nos der seu perdão…

— Eles não sabem onde eles estão!

Nani respirou fundo e colocou a mão sobre o rostinho da boneca. Pressionou os lábios com os dedos.

— Onde eles estão?

O medo se transformou em desespero e a raiva de Rosa se transformou na minha raiva. Eu não queria que ela dissesse nada! Tentei engolir as palavras junto com a bile, mas não consegui. Ouvi minha voz, mais lenta, mais rouca, recitando:

— Eles estão em Torian. Perto da Universidade Nova. Eles têm um pequeno comércio lá. Vivem bem. Há dez anos. Por favor…

— Se não der o perdão ao Grande Musser — a voz de Nani me soou dura, esquisita —, os grhszs farão questão de visitar sua família. Seus filhos. Mais uma vez.

Eu ouvi meu próprio urro frustrado.

A mulher dentro de mim murmurou com a minha voz:

— Eu o perdoo.

Um fio de luz dourada escapou de meus lábios e deslizou para dentro de um frasquinho ao lado da sétima vela. Nani se levantou e destruiu o círculo de sal. Meus olhos voltaram a ser meus e eu estava enjoada demais para sequer pensar em cordeiro assado. Cai de costas no chão, mas logo que ouvi minha chefe falar, sentei.

— Missão cu…

— Não podemos entregar isso para aquele filho da puta!

Nani piscou:

— Ele…

— Eu sei.

Foi minha vez de piscar.

— Nanda, eu vi tudo na última invocação. E ele me contou o que fez. Ele me disse tudo, enquanto…

— Enquanto os monstros dele tentavam me matar!

— Nós fizemos o nosso trabalho…

— Nós estamos ajudando um…

Parei e me levantei. Ela pegou o frasquinho e o colocou sobre a mesa.

Saí da sala.


As propriedades dos Musser ficavam a setenta quilômetros da cidade, já entrando nas partes mais hostis do Deserto, perto das Gargantas de Ferro. Era um entreposto, a ligação entre a selvageria do deserto e o mundo habitável de Troia e seu comércio exuberante.

O velho Grande Musser estava deitado em sua cama, coberto de suor. Era basicamente uma caveira vestindo um roupão. Seus olhos estavam arregalados, olhando para o teto.

Foi seu sucessor quem nos recebeu, satisfeito pelo nosso trabalho.

— Ah, excelente! Já estava pensando em mandar os grhszs atrás de vocês. — Ele riu da própria piada com uma efusão desnecessária (não, ele não foi o Musser que eu conheci em meu dia de folga).

As mandíbulas do Grande Mu estavam trincadas. Dava para ver a força de sua mordida. Morda a língua e se engasgue, foi tudo o que eu pude pensar.

— Nosso pagamento…

— Assim que o perdão for entregue.

Nani abriu o frasquinho e a linha dourada dançou pelo ar. O Grande Mu relaxou a mordida e seus olhos se fecharam.

— Graças aos deuses. — O sucessor entregou para mim um saquinho cheio de moedas. — Não deve demorar muito agora. Saiam. Queremos honrar nosso líder.

Obedecemos.

Não nos falávamos desde o dia anterior. Nani desceu as escadas na minha frente, enquanto uma horda de Musser entrava no quarto do agora autorizado moribundo.

Passamos pelos grhszs e entramos no nosso veículo.

Nani se sentou na direção e girou o botão de ignição. Podíamos ver a janela do quarto do Grande Mu. Estavam todos ali reunidos. Eu só pensava no meu olho embaçado, nos gritos na minha cabeça, na boneca e na família que eu não conhecia.

Minha chefe estava olhando pela janela.

— Nani…

— Eu nunca vou perdoar você, Grande Musser.

O grito do Grande Mu ecoou por toda a propriedade. Os homens mais próximos da janela correram para a cama e Nani fez nosso veículo saltar o máximo que ele podia.

— Fernanda, o que você acha de Torian?

Eu estava extasiada.

— Dizem que é a cidade mais linda do mundo.

E tinha muros altos.

Jessica Borges
Jessica Borges
Jéssica Borges, 27 anos, é formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Autora de contos já publicados e ensaiando os primeiros passos no romance e na novela, tem como objetivo encontrar a arma certa para derrotar sua pior inimiga: a procrastinação. Tem seis cachorros e acredita piamente que Buffy, a caça vampiros, deveria ser considerada patrimônio cultural da humanidade.

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