Babel

1

Poesia era algo que ele odiava.
Foi há quinze anos, em seu primeiro ano de aprendizado com as escultoras. Edissa era feliz, quando suas novas amigas faziam-na rir de todas as coisas do mundo. Mas a maldição de ser bela — ou alta —, sempre a perseguira. Aquele mestre dos recursos a encontrou, puxou-a pelo braço e levou-a para um péssimo passeio. Constrangeu-a e humilhou-a e, mesmo enchendo-a de joias, ela não queria vê-lo nunca mais. E ele finalizara com um pedido de casamento.

Odiava-o com todas as forças.

Odiava tudo o que ele amava e amava tudo o que ele odiava.

Edissa preparou-se para mais um dia, vestida com tecidos luxuosos. Colocou uma pequena tiara celeste, com desenhos que remetiam às esculturas de Babel. Logo a luz do sol beijava a face da torre, projetando sua sombra ao oeste.

Quatro sinos no topo da torre badalavam ao mesmo tempo, podendo ser ouvidos por todo o Vale de Sinar. Os trabalhadores despertavam e se moviam em direção às suas oficinas; para um lado iam os pedreiros, para outro as escultoras. Os ecoadores começavam seu canto forte, dizendo quais elevadores iriam subir e quais iriam descer.

As pedras começariam a rolar pelas vias em direção aos tijoleiros, e estes as levariam para as escultoras que depois levavam para os elevadores, e assim os bois puxavam as roldanas gigantescas que erguiam os elevadores rumo à construção no último andar. Lá em cima, os construtores colocariam cada tijolo esculpido em seu lugar, e fariam a torre continuar a se erguer, até o dia em que os homens alcançariam o Alto.

Edissa subiu vinte andares e foi até a ala dos Curandeiros. Dois guardas abriram a grande porta para ela, e logo que entrou, seus serventes e acólitos apareceram para reverenciá-la. À esquerda e à direita havia macas, cheias de feridos e doentes.

— Vou vê-los mais tarde — disse, dirigindo-se para sua sala, esquivando-se dos serventes. — Traga-os até mim em algumas horas — finalizou, fechando a porta atrás de si.

Sua sala abrigava uma gigantesca estante de livros e pedestais com pergaminhos raros de medicina milenar. No centro, havia uma tapeçaria com a ilustração do Alto — um homem barbudo e esplendoroso, pintado do pescoço para baixo, com uma túnica albina e servos curvados diante de seus pés.

Pegou um manuscrito de poesias, que adoçavam seu espírito. A leitura era um ritual diário para esquecer o mestre dos recursos que amargou sua vida. Entregava-se aos poetas exilados sempre que podia. Por vezes ia à cidade, até os salões onde moças jovens recitavam poemas e cantavam ao som de flautas. O maldito odiava bebidas cheirosas, e ela se embriagava em chá de lavanda.

Ele também odiava sacerdotes. Portanto, Edissa tornou-se sacerdotisa. Havia outras razões. Sacerdotes se mantinham castos. Eram protegidos e escoltados pelos guardas sempre que iam à cidade, garantindo que ela jamais seria molestada pelo homem novamente.

Entrou para a história como a mulher mais jovem a se alistar para o sacerdócio. A antiga Anira havia levado-a para ala dos Curandeiros, ensinando-a tudo o que sabia, e quando faleceu, colocou a própria Edissa em seu lugar. Agora ali estava, imersa, deprimida e solitária, mas acima de tudo, segura. O mestre dos recursos desapareceu de sua vida.

O tempo passou rápido enquanto ela lia. Quando se deu conta, Eoda batia à porta.

— Entre! — Disse, já se preparando para lidar com o doente e sua gangrena. Engoliria seu asco para curar aquele pedreiro.

Eoda entrou sozinha, no entanto:

— Perdão, minha superiora. Não trago o doente, mas há um guarda de alto escalão. Ele diz trazer um comunicado de grande urgência.

Sentiu suas pernas fraquejarem e seu corpo esfriar.

— Autorize-o a entrar… — Não se dispensava um guarda de alto escalão.

Entrou um homem altivo de armadura, com a esguia e alta torre esculpida em sua placa de peito.

— Sacerdotisa Edissa? — O homem fez uma referência à ela, ainda que o certo fosse o contrário.

— Sim — ela disse, assim que se curvou diante dele.

— O Conclave a convoca para o Último Andar.


Galgou os últimos degraus da escadaria espiral com leveza, embora já estivesse ofegante. Estava diante da estrutura em forma de cone revestida de ferro, suspensa por cordas da grossura de um tronco antigo. Aquilo tinha o tamanho de duas colinas. Dois serviçais estenderam uma rampa em direção à passagem de madeira da estrutura. O guarda adiantou-se e bateu na aldrava do belo portal branco e celeste.

Então, abriu-se o Último Andar, a ala do Conclave.

Aquela ala tinha este nome, mas não se localizava exatamente no último andar, e sim no penúltimo. Acima dela ficavam as construções, os andaimes e as engrenagens, roldanas e puxadores dos elevadores. Sempre que a torre ganhava alguns metros, o Último Andar era suspenso um pouco mais.

Logo quando entrou, a luz que invadia o aposento pelo topo aberto cegou sua visão das figuras que se assentavam em círculo à sua frente. Quando pôde distingui-las, viu que eram cinco homens e quatro mulheres. Eles se levantaram um após o outro, e cumprimentaram Edissa com o tipo de reverência que se faz a um igual. Não sabendo como reagir, reverenciou-os da mesma forma.

— Bem vinda, senhora Edissa dos Curandeiros — saudou um dos homens. Os cinco eram idosos, aproximando-se do centenário. — Não és mais Edissa dos Curandeiros. És Edissa do Conclave. Agora faz parte do nosso sagrado grupo que almeja o único objetivo maior: chegar ao Alto!

— Chegar ao Alto! — Disseram os outros em eco.

— Edissa do Conclave, assente-se — O velho começou a dizer. — Ocupará o lugar de Éfema, morta durante o sono — e assim, ela encontrou a única cadeira desocupada, feita de ossos antigos. À sua direita havia três idosas e à sua esquerda a única pessoa jovem de todo aquele conclave, uma mulher de cabelos morenos e pele bronzeada, aparentando estar em seus quarenta anos.

As outras mulheres idosas pareciam parentes, três ameixas secas gêmeas, mas uma delas era ainda mais velha, com um nariz empinado e um olhar severo.

— O ritual para garantir sua entrada no Último Andar é como qualquer outro — continuou o velho a dizer, com seu pomo de adão pendente, e voz que remetia a um túmulo se abrindo. — Mas não pense que é um ritual prosaico. Trata-se da passagem do conhecimento milenar, que acompanha Babel desde o seu primeiro tijolo e acompanhará até seu betume final. Nossos rituais envolvem a tradição oral, que mantém Babel viva como uma árvore que nunca para de crescer. Apresentaremos-nos, e lhe doaremos nosso conhecimento. Expiai vossa vida! Se se considerar digna e pura, se considerar que seu alvo é o Alto, diga-nos. Aceitará ou negará o chamado do Conclave?

Ela tinha certeza que uma negação levaria à sua ruína. Mas ainda assim, hesitou na resposta.

— Eu aceito — disse, após uma longa e silenciosa demora.

— Muito bem — o velho disse, e levantou-se, juntando as palmas da mão e fazendo uma breve reverência. — Eis Cafreim do Conclave — ele voltou a se assentar. — Nossa instituição vem coordenando a construção de Babel desde os dias obscuros em que os povos sobre a sombra da torre se desacordaram. Nós trouxemos a paz, e unificamos os objetivos, em nome do objetivo maior. O Alto, aquele que criou este mundo, anseia pelo dia que iremos chegar até ele.

O homem à sua direita se levantou. Este era careca como um ovo e os olhos cegos. Sua pele era negra, com muitas pintas embaixo dos olhos.

— Eis Sefã do Conclave — e desabou na cadeira novamente. — O Último Andar coordena todos os afazeres de Babel. Nós somos aqueles que instituem todas as coisas. Não há um homem ou mulher que nos desobedeça, ou deverá enfrentar as consequências de afrontar àqueles que evitaram a catástrofe. Nós temos voz de poder e decisão, o último juízo em todas as matérias.

O próximo era pálido, um fantasma, com os cabelos e barbas longos que o escondiam por completo.

— Eis Gisaé do Conclave. Você agora é parte desta instituição, e deverá agir com sabedoria e sensatez. Todo e qualquer membro do conclave que tomar alguma atitude irresponsável é banido e expurgado. Se o fizer, deverá deixar Babel, mas não poderá ser pelos elevadores ou pelas escadas.

O seguinte era um rato, baixinho e cinzento, porém o mais novo entre os homens.

— Eis Loquê do Conclave. Isto significa que a pena para uma atitude que conspire contra o objetivo maior e contra aqueles que trabalham a favor de Babel, assim será punido: será atirado do alto da torre, e encontrará no chão a misericórdia do Alto.

O último dos homens era galináceo, com olhar severo e nariz adunco.

— Eis Menor do Conclave. Não estará sozinha ao governar, jamais. Terá sua segurança reforçada, e a guarda sacerdotal estará inteiramente a sua disposição. Terá seus próprios mensageiros. Exigirá a reverência total de todos, visto que se tornou a autoridade babeliana máxima.

A primeira mulher seguiu.

— Eis Inera do Conclave. Lembrai as leis de Babel, as quais você, acima de todos, deve cumprir. Lembrai a máxima que rege as leis. Todo homem e mulher deve obedecer à hierarquia de Babel, e para a torre deve trabalhar. Aquele que conspirar contra a hierarquia e contra os trabalhadores, será punido. Esta máxima rege-nos, e impede que o caos domine.

A segunda mulher seguiu.

— Eis Merissa do Conclave. O Alto possui ele mesmo uma hierarquia de anjos, aqueles que dançam nos céus e comunicam os desejos vindos do Alto para nós. Ele pune os anjos que não o obedecem atirando-os na terra. Com os anjos caídos não se deve comungar. São proibidos nas terras de Babel, onde quer que a sombra da torre toque.

A terceira, a mais velha do nariz empinado, levantou-se em seguida.

— Eis Quesora do Conclave. Todos os seres nascidos híbridos devem ser mortos. Estes são frutos dos anjos caídos e o Alto nos instrui a rejeitar esta corja, no que nos dedicamos. Assim, e só assim, expurgaremos aqueles que querem subverter a ordem e trazer o caos e anarquia.

Por último, foi a mulher jovem quem se levantou, numa desenvoltura que deixaria aqueles idosos com inveja.

— Eis Odara do Conclave. Passaste pelo rito. Deve levantar-se e apresentar-se. Agora, a tradição oral foi passada para você, que ocupa o lugar de Éfema. Um dia, será sua vez. Este conclave é formado de homens mortais, e quando um destes passar, nos reuniremos novamente para decidir quem ocupará o lugar vazio. Por enquanto, trataremos apenas de vossa presença aqui. Diga então, quem és?

— Eis Edissa… do Conclave…

Sua voz vacilou diante do olhar profundo que Odara a dirigiu com seus olhos de jade. Engoliu seco e sorriu para a outra mulher, talvez assim quebrasse aquela sensação de estar sendo julgada.

— Lembre-se — Quesora ressaltou. — O Último Andar existe apenas pelo objetivo maior: chegar ao Alto!

— Chegar ao Alto! — Todos ecoaram, inclusive Edissa.

— Agora, que se sirva nosso chá! — Inera ordenou, batendo três palmas.

— Temos muitos assuntos a tratar — adicionou Gisaé.

A sala então se encheu de serviçais, que traziam uma longa mesa de madeira branca. As cadeiras foram carregadas em direção à mesa e o chá foi servido em três bules de porcelana com inscrições de hieróglifos antigos.

Uma serviçal de cabelos loiros cacheados servia o chá, enquanto outros ajudavam os idosos a levar as xícaras à boca. O único esforço que faziam era o de sorver o líquido quente.

Quesora foi a primeira e única a falar.

Começou dizendo sobre as insatisfações dos camponeses nas aldeias rurais. Eles exigiam cada vez mais que os impostos baixassem. Questionava: isso se considerava heresia e conspiração contra Babel? Ou um apelo exagerado?

Antes que qualquer um pudesse responder, ela mesma posicionou-se, dizendo que era heresia e sugerindo modos de punir os conspiradores. Falava em taxá-los ainda mais, talvez perseguir seus líderes e reprimir seus ideais. Sefã pediu moderação, dizendo que deveriam apenas reforçar os rituais, fazendo-os esquecer de suas revoltas.

Outros assuntos vieram ao longo das tediosas horas que se sucederam. Inera falou sobre o aumento dos acidentes entre os construtores e Cafreim dissertou sobre a reforma nos elevadores. Menor e Loquê debateram sobre a qualidade das safras. Tudo aquilo deixava Edissa cada vez mais ansiosa e chateada. A vida parecia ser mais interessante entre os Curandeiros.

Os três bules já estavam secos quando terminaram a longa conversa. Então a mesa foi retirada e as cadeiras carregadas pelos serviçais de volta à posição circular. Os cinco homens levantaram-se ao mesmo tempo.

— Nossa reunião começará amanhã — disse Cafreim para Edissa.

— Não se atrase, ou será punida — disse Quesora. — A punição será expulsão.

— Vamos fazer uma breve ronda na construção — disse Gisaé. — É sempre um passeio muito interessante, por que não nos acompanha, Edissa?

— Não! — Odara disse, levantando-se.

— Por que tanta pressa, Odara do Conclave? — Gisaé questionou.

— Pretendo que Edissa vá comigo para um julgamento… — explicou Odara — Na aldeia rural de Sifrem… — e então, olhou para Edissa com firmeza. — Você virá.

— Irei? — Edissa não compreendeu se aquilo era um pedido ou uma ordem. Achava que não havia superiores no Conclave.

— Irá! Apronte-se e me encontre no elevador central — disse, dirigindo-se à porta. — Vista algo fresco, pois as aldeias rurais são quentes.


O barco se movia rapidamente nos rios artificiais, criados para a irrigação das plantações. Edissa se encontrava atrás do grande homem que comandava os remadores com seu tambor. Estava realmente quente, e o rio corrente a convidava a um mergulho. porém, elas rumavam para aldeia de Sifrem, que ficava numa ilha quadrada na parte mais larga do rio, próximo às fronteiras da sombra.

Em silêncio, Edissa admirava Odara ao seu lado. A mulher usava um vestido leve, mesclando branco e celeste. Parecia vestir-se com o céu aberto diurno, mas sua pele por debaixo do tecido transparente era o céu noturno, principalmente em suas pernas. Era alta como se deveria ser. Para os homens simples, os sacerdotes precisam ser sobrenaturalmente gigantes, como Babel e como o Alto. Ela devia ser vista como uma anja sendo daquele tamanho.

Chegaram a Sifrem ao entardecer. Sem dizer uma palavra, Odara rumou para o centro a aldeia, e Edissa apenas a seguiu.

A aldeia inteira era feita de madeira e pedra comum, e mesmo as grandes casas eram empobrecidas. Isso se devia aos decretos que proibiam o uso de qualquer material luxuoso para construção civil, que iam todos para Babel. Porém, nada impedia que alguns tentassem ostentar uma bela pintura, e isso distinguia os mestres dos camponeses.

No centro da ilha havia uma grande construção em forma de domo, o Tribunal de Sifrem. As portas estavam abertas e o lugar estava cheio. Não parecia um julgamento, mas uma festa.

— Fique perto de mim — ordenou Odara, trazendo Edissa para si.

As duas começaram a andar praticamente coladas. Ela sentia-se abafada em meio à multidão. Ninguém parecia se importar com as duas sacerdotisas. Edissa se perguntava se, por acaso, aquela gente não sabia quem eram.

Quando chegaram ao centro do lugar, Odara se pôs na ponta dos pés, procurando alguém em meio à turba. Então, puxou Edissa em direção a um homem velho e sereno com uma longa barba trançada.

— Eu o acuso! — Ela apontava para o rosto dele.

Edissa estava confusa. O homem, pelo contrário, pareceu lisonjeado. Ele apenas colocou a mão sobre o peito e ergueu a sobrancelha.

— De que me acusas? — Perguntou.

— Conspiração — Odara sussurrou.

— Então venha…

Andaram por um corredor até uma porta pequena, que o velho destrancou. Lá dentro era escuro e Edissa hesitou em entrar, mas Odara a empurrou para dentro, entrando logo atrás. Após o velho trancá-las lá, nem mesmo a festa no tribunal podia ser ouvida. O único barulho ali dentro era o de passos distantes.

Os sons tornavam-se cada vez mais altos e o coração de Edissa acelerou ainda mais. Estava quente e de repente esfriou. Uma vela se acendeu à frente delas e iluminou uma garota, de largo sorriso e olhos negros. Edissa se espantou e a garota deu uma risadinha. Odara disse algo em uma língua estranha, a garota fez uma reverência e adentrou a escuridão.

— É uma híbrida — Odara explicou, enquanto andava. — Porém, ela não é demoníaca. As leis, ainda assim, se aplicam a esta jovenzinha, por isso ela vive escondida aqui. Do lado de fora, ela seria presa e morta, simplesmente por ser híbrida. Aqui embaixo está segura. O povo de Sifrem a protege.

— Mas você é uma sacerdotisa do Último Andar, parte do Conclave! — Edissa disse com indignação, e calou-se em seguida, sem saber o que dizer. — Como você pode permitir isso?!

— Eu tenho coração. Você também. Diga-me algo: você prenderia e mataria esta simplória alma?

— Eu não sei…

— Você não o faria — Odara foi ríspida. — E se fizesse, seria com pesar no coração.

— É verdade — Edissa admitiu —, mas a lei precisa ser cumprida.

— Nem todas.

— Isso não quer dizer que… — ela começava a compreender. — Você é uma conspiradora.

Pararam por um instante e se entreolharam.

— Se eu confirmar, me denunciará?

Houve um silêncio longo entre as duas. Edissa, relutante em respondê-la, apenas bufou e disse:

— Como poderia? Você é mais forte do que eu. Poderia me matar aqui, neste lugar escuro. Então, o Conclave me substituiria e você sairia impune.

Entreolharam-se novamente. Edissa encarava-a de forma desafiadora, enquanto Odara o fazia de forma altiva, até que deu uma risadinha e continuou andando, deixando Edissa no escuro.

— Vejo que você é bem inteligente!

— Eu fazia parte dos Curandeiros — retrucou, enquanto tornava a segui-la.

— Agora que é do Conclave, precisarei de sua inteligência para outro assunto. Não é uma ameaça — Odara dizia, sem esboçar nenhum cansaço, ao passo que Edissa já sentia uma pontada de dor. — Apenas quero lhe pedir um favor que você só pode aceitar.

Edissa começava a ficar aflita:

— Peça.

— É conspiração, mas não contra Babel. A torre está sendo ameaçada, de fato. Também os cem mil trabalhadores e os trinta mil moradores que estão nela. A conspiração para qual eu te chamo é contra o Conclave, este que você agora faz parte.

— Você quer derrubá-los, é isso? Os outros oito.

— Nós iremos derrubá-los.

— Não pode me envolver nisso — advertiu Edissa. — Minha função no Conclave não se trata de servir seus interesses.

— Não são meus interesses… Eles pretendem fazer algo terrível, além da imaginação.

— Quer me dizer que aqueles homens estão fazendo algo assim tão ruim?

— São as mulheres — corrigiu Odara. — Apenas Quesora, Merissa e Inera. Os homens estão cegos.

— E o que elas pretendem?

— Aniquilar toda população babeliana.

— Por que razão elas fariam isso? — perguntou Edissa, sentindo sua pressão baixar. Aquilo era além de sua imaginação.

— É uma boa pergunta.

— Você tem alguma resposta?

— Não. Ainda não. Vou descobrir, provavelmente.

— Sabe ao menos como três centenárias poderiam realizar algo assim?

— Entenderás. Acompanhe-me.

Em silêncio, andaram por mais algum tempo até uma porta de pedra. Quando Odara a abriu, as pupilas de Edissa se contraíram diante da luz do entardecer. Andaram um longo trecho em meio a um bosque, até chegar no alto de uma colina. Ouviram de longe os quatro sinos a tocar, indicando o fim do labor divinal. A visão era singular.

Dali era possível ver as cidades e aldeias aos pés da grandiosa torre de Babel. Sua base era como uma colmeia, com centenas de portões; uns para pessoas, outros para animais e carregamentos. Elevadores escalavam suas laterais. Embora seu corpo fosse belíssimo, seu topo ainda estava em construção. Ela crescia, sim, mas havia algo preocupante naquela paisagem.

— Está se curvando — disse Edissa.

— A torre está cada vez mais pesada — Odara adicionou —, a base não irá aguentar um grande abalo. Basta um tremor e Babel vai ao chão.

— E o Conclave?

— Quesora, Inera e Merissa conhecem a situação da torre, também estão cientes que um abalo chegará. Uma vez a cada século o Cometa de Varo passa pelos céus. Ele possui uma energia tão grande que, por onde passa, causa tremores, grandes ondas no mar e até mesmo os vulcões entram em erupção. Nunca, na história deste mundo, desde que o Alto o fundou, este cometa jamais passou sobre o Vale de Sinar. Da última vez, porém, ele esteve bem próximo.

— Passará na próxima?

— Sim, Edissa… — ela falou. — Houve um grande intelectual na Baía de Carca. Ele fez cálculos e mais cálculos, estudou a história de todo o mundo, viajou por toda parte para concluir sua pesquisa. Descobriu, então, que em duas viradas de lua, na última noite de lua cheia, o Cometa de Varo virá sobre o Vale de Sinar. Sobre a Torre de Babel. Se não for avisado, o povo babeliano continuará lá dentro e haverá uma catástrofe. Meu pai tentou alertar o conclave, mas Quesora o assassinou cruelmente. Então me infiltrei no conclave. Tudo para poder enfrentá-la, depô-la e talvez conseguir salvar Babel. Mas todos aqueles que se tornaram meus aliados foram mortos, como Éfema, Desara, Aera, tantas outras… Fui isolada pela maldita. Mas agora eu estou mais que preparada. Em todos esses anos, conquistei aliados e mais aliados, por toda a cidade. O povo de Sifrem está comigo, também tenho amigos em meio aos guardas, ecoadores, construtores, mestres e até mesmo entre os sacerdotes. Agora preciso do apoio mais crucial. Posso contar com você para salvar Babel desta megera arrogante?

— Estou contigo…


A lua cheia era inspiradora na véspera da passagem do cometa. Edissa não conseguia dormir, então passou toda a noite admirando o luar banhar as cidades, os rios artificiais e os montes de pedras ao entorno de Babel. E, já passada a meia noite, Oila bateu em sua porta.

A serviçal de cabelos loiros cacheados estava encapuzada. Fez apenas um sinal com a cabeça e Edissa a levou dali. Subiram para a ala dos Curandeiros, onde Eoda havia tomado o lugar de Edissa. A antiga acólita reverenciou-a como se ainda fosse sua superiora entre os curandeiros. Trouxe-as para dentro, até sua sala.

— Há algo que eu possa oferecer-lhe, minha superiora?

— Sim — disse, dirigindo-se para a estante de livros.

Encontrou o volume falso. Atrás dele havia uma pequena corda. Bastou puxá-la e a tapeçaria no centro da estante começou a se erguer, revelando uma portinha.

Ao entrar com uma vela, Eoda ficou surpresa, mas também Oila espantou-se. Aquele era o cofre secreto de Edissa, onde ela guardava seus segredos medicinais, suas ervas, remédios e venenos mais raros. Era como uma biblioteca de frascos, rigorosamente organizada.

— Procurem pela Erva de Oreque — ordenou às duas.

— Aqui! — Eoda disse depois de alguns instantes. — Para que serve?

— É um sonífero poderoso — explicou Edissa.

— E por que você precisa disso, minha superiora?

A resposta rápida e violenta estava na ponta da língua de Edissa, mas percebeu que não devia fazer isso. Sempre mal humorada, ela nunca percebeu o quanto Eoda era respeitosa e gentil em aguentar sua atitude carrancuda. Tinha mais do que uma serva, e disso só soube ali, naquele instante.

— Lamento não poder te dizer — respondeu. — Agora, para sua segurança, vá para cidade. Sei que é tarde, mas deves ir. Você irá compreender. Leve seus serventes e acólitos também.

E assim, Eoda lhe obedeceu.

— Tome, Oila — entregou o frasco brilhoso com a erva dentro. — Lembre-se de ter cuidado e não servir isso para mim e Odara. Apenas duas folhas vão bastar.

— Muito obrigada pela chance — disse a serviçal. — Sempre quis me vingar de Cafreim.


Bastou uma ordem e todos os membros do Conclave foram convocados para uma reunião extraordinária no meio da madrugada. Edissa notou que Quesora não estava dormindo, pois não bocejara uma única vez e estava em pleno vigor.

— Por que nos acordou? — Sefã falou enquanto se espreguiçava.

— Uma reunião emergencial pela segurança de Babel — falou Edissa.

— E qual a discussão? — Perguntou Gisaé.

— Descobri um covil de conspiradores no seio da cidade. Vamos ao Último Andar!

— Não é simples assim — Quesora explicou. — Você precisa ser apoiada por algum outro membro do conclave para fazer esta reunião.

— Eu apoio — Odara falou, se apressando para a ala do conclave.

— Sendo assim… — disse Sefã, seguindo Odara.

Chegaram ao Último Andar com pressa, pois agora parecia que todos queriam saber da descoberta de Edissa. Os serviçais pareciam estar acordados há horas; A mesa já estava posta e as cadeiras arrumadas. Quando todos ocuparam seus lugares, Oila chegou com dois bules de chá idênticos.

Era preciso que todos aceitassem o chá. Parecia haver duas mãos a enroscar a garganta de Edissa, aliviando-a da tensão a cada um que aceitava e Oila servia com o bule da esquerda. Quesora… Inera… Merissa… Edissa e Odara com o bule da direita. Gisaé… Menor… Cafreim… Loquê…

E então, as duas mãos apertaram de vez.

Sefã rejeitara.

Edissa não se conteve e começou a tremer, mas conseguiu esconder sobre o volume das vestes. Uma tempestade começou em sua mente. De repente, seu pensamento anuviou-se. Esquecera tudo o que pretendia dizer para delongar aquela reunião. Não havia outro modo senão continuar mentindo.

— Havia um mestre de recursos próximo da oficina de escultoras onde eu morava — começou a dizer. Odara deu um gole no chá, e os idosos pareciam tentados a fazer o mesmo. — Ele queria me tomar como esposa…

— E o que isto tem com conspiração? — perguntou Sefã.

— Ele queria me impressionar — disse, desesperada, olhando para as xícaras de todos os membros. — Estava desviando materiais de construção luxuosos para uma casa numa aldeia rural — todos haviam bebido. — Queria construir uma mansão… Para quando… — e então, o primeiro baque.

Um após o outro, os membros do conclave começaram a despencar, como se um sono profundo tivesse acometido um a um. Eles caíam sobre os próprios ombros ou colos, e Cafreim bateu com a cara na mesa.

— O que está acontecendo aqui? — Sefã disse levantando-se abruptamente.

— Ora, nesta idade — Odara disse serenamente. — É uma má ideia tirá-los do sono neste horário.

— Vocês duas estão tramando alguma coisa! — Ele gritou. — Guardas! Guardas! Prendam estas duas conspiradoras!

As portas se abriram, e apenas os serviçais entraram e as fecharam atrás deles. Odara se levantou, e num único movimento se livrou de suas peles, revelando a cota de malha que usava por baixo. Uma espada longa pendia de sua cintura. Ela desembainhou de uma só vez e fez Sefã se render.

— Velho tolo! — Disse, com a lâmina quase tocando o rosto dele. — Babel agora está sobre meu comando.

— O que você quer?

— Você sabia da conspiração de Quesora?

— Não! Que conspiração? Do que está falando?

— Do Cometa de Varo!

— O cometa dos tremores? O que quer dizer?

— Ele irá passar amanhã sobre o Vale de Sinar. Quesora sabia e não fez nada a respeito. Ela planejava deixar acontecer. Babel cairia por completo! O povo babeliano inteiro morreria!

— Não… Não pode ser… Quesora? Ela pode ser uma megera, mas não a ponto de… Oh! Éfema! Devia haver uma razão. Aquela moça nos sugeriu um treino para evacuar a torre… Por isso… Por isso ela ordenou que nos livrássemos da pobrezinha… Não pode ser…

— Certo — Odara disse guardando a espada. — Se, naquela época, eu ao menos soubesse que vocês velhotes iriam fofocar para Quesora, eu não teria permitido que Éfema dissesse nada! Agora me diga. Tenho sua ajuda?

— O Alto irá me perdoar por meus atos se eu a ajudar.

— Estamos perdendo tempo com conversa — disse Edissa. — Por que não tomou do chá?

— Deviam ter sido mais inteligentes. Quem toma chá no meio da madrugada quando acaba de acordar? Qualquer bebida quente deixa as entranhas queimando se tomada à noite. Eles rejeitariam… Se tivessem algum cérebro, eles rejeitariam…

— Quase… — disse Edissa.

— Se Quesora tivesse rejeitado, seria ela a quem vocês teriam de enfrentar!

— E o que ela faria? — Disse Odara.

— Ah… — Sefã secou a testa que começava a suar. — Há algo que vocês não sabem.


Sefã lidava com os quatro sinos de Babel. Suas badaladas eram monstruosas, como o grito de bestas metálicas rugindo sobre o som de mil vozes dos moradores da torre, saindo de seus apartamentos e descendo as escadas ordenadamente, sem nenhum pânico.

— Levantai! Levantai! — os ecoadores diziam em coro. — Levantem, ó povo de Babel! A torre deve ser evacuada! Dirijam-se para os portões!

Repetiam isso várias vezes, enquanto dúzias de militares de alta patente desciam pelos elevadores para auxiliar a multidão a sair pelos muitos portões da torre. Alguns deles eram aliados de Odara e encabeçavam toda a operação.

Outros elevadores eram usados para os doentes e debilitados. Edissa viu a própria Eoda ajudar Odon dos Pedreiros, cuja gangrena havia feito perder parte da perna.

Odara trancara-se no Último Andar junto de Oila. Um dos militares foi até Edissa, apressado e furioso.

— O que está acontecendo? — Esbravejou. — Por que estamos todos sendo acordados como se fôssemos construtores?

— O Último Andar manda — ela respondeu. — Obedeça e se dirija aos portões.

— Ora, você sabe com quem está falando?

— Obedeça! Dirija-se aos portões ou eu mesma te levarei até lá — bradou Edissa igualmente furiosa, então colocou a mão no peito dele. — Empurro-te e você chega lá mais rápido do que pelas escadas ou elevadores. Você é quem devia saber com quem está falando! Sou Edissa do Conclave, e você deve reverência a mim.

— Ó… Certo, eu estou indo…

— E por que já não foi?

Sefã então apareceu da escada que levava para os sinos.

— Estes sinos são tão belos quanto engenhosos — ele disse. — É uma pena perdê-los quando a torre cair…

— A torre… O quê? — o militar disse.

— Nada, meu rapaz. — disse Sefã. — Por que não está nos portões?

— Então é isso? — respondeu desesperado. — A torre está desmoronando? Não!

Saiu correndo e gritando pelas escadas.

— Sefã, veja o que você fez!

— Não foi minha intenção. As pessoas iriam saber de uma forma ou outra, oras.

Mas os gritos daquele homem começaram a ficar perigosos.

— A torre vai cair! — Ele esperneava, como um recém-nascido. — Babel vai cair! Corram todos! Salvem suas vidas!

Aquilo se espalhava por toda escadaria, e mesmo os ecoadores levantando a voz, não foi suficiente para abafar o desespero que se propagou como um incêndio. Logo, a multidão também começou a gritar e correr. Estavam todos em pânico, o próprio homem mais do que todos. Em algum momento, ele errara os passos e, num tropeço, rolou escada abaixo. Odara fora categórica ao explicar que o pânico só tornaria a evacuação em um desastre. Sefã foi correndo chamá-la.

As escadas viraram um rio veloz e perigoso. As pessoas lentas e menores estavam sendo praticamente carregadas. Tinha certeza de que alguma pessoa estava sendo pisoteada pela multidão. Alguns se atiravam das escadas para os elevadores em movimento, que já estavam sobrecarregados. Aquilo a estressava, então correu para a alcova onde o ecoador mais próximo ainda entoava o mesmo e ordenou que ele dissesse outra coisa.

— Não entrem em pânico! — Disse, e logo todos os ecoadores estavam dizendo a mesma coisa.

Sefã passou por ela sem dizer uma palavra, e subiu para os mecanismos do elevador.

— Mantenham a ordem! Mantenham a ordem! — Passaram a ecoar depois, e mesmo isso não adiantava.

Odara surgiu, transbordando sua ansiedade.

— Precisa nos ajudar! — Edissa falou, segurando os ombros dela. — Estão todos desesperados!

— Não se preocupe com isso — ela falou. — Preocupe-se em evacuar todo o Vale de Sinar. Preciso que você escreva mensagens para os chefes de todas as aldeias rurais e da cidade, urgentemente.

— Certo… E o que faremos com Quesora, Merissa e Inera?

— Nós iremos matá-las.


Edissa, Sefã e Odara retornavam ao Último Andar, logo após terem enviado os falcões para todos os chefes do Vale de Sinar.

Quando entraram ali, os primeiros raios de sol infiltravam-se pela abertura no topo e refletiam por toda estrutura, banhando os corpos que se encontravam serenos na mesa. O efeito da erva logo passaria, e eles precisariam estar acorrentados. Porém, faltava um. Cafreim.

Edissa e Sefã quase desmaiaram quando encontraram o corpo dele ensanguentado, com uma faca de cozinha sobre seu colo. Ele havia sido golpeado repetidas vezes na barriga e uma vez no rosto. Odara já esperava por aquilo.

— Oila, apareça! — Ela gritou.

— Estou aqui — respondeu a serviçal chorosa que tinha sangue espalhado pelo rosto, cabelos e mãos. — Me desculpe… Eu não devia…

— Você se vingou — Odara disse. — Este homem nunca mais vai abusar de você ou de suas colegas novamente. Agora vá, deve ajudar as outras serviçais a irem embora daqui.

A garota passou correndo por ela, chorando copiosamente.

— Você irá atrás dela, garantir que o estado em que ela se encontra não interfira no que eu a mandei fazer — Odara ordenou a Sefã.

— Certamente — ele respondeu —, mas o que fará com elas?

— Algo que você deveria ter feito quando a conheceu.

— Por favor, entenda! Eu não poderia! Eu não poderia fazer nada, eu tenho um coração. Eu não fui subornado como os outros. Fiz tudo isso por que não acreditava que ela poderia ser tão ruim só por ser uma híbrida!

Uma lágrima correu pelo rosto enfurecido de Odara, mas ela secou com as costas da mão.

— Ele está certo — Edissa interferiu. — Não se contradiga, Odara. Você também tem um coração.

— Mas não deixe seu coração turvar a sua justiça — Sefã concluiu. — Faça o que tiver de ser feito.

E então, ele saiu dali, deixando as duas sozinhas.

— Não é a mesma coisa — Odara tentou argumentar.

— Sei que não é como a garotinha de Sifrem. Estas mulheres cometeram verdadeiros crimes. O correto seria aprisionarmos todos. Devemos amarrá-los agora, levá-los daqui e julgá-los depois. Vamos expor os crimes deles para todos babelianos, e eles decidirão. Ninguém tem autoridade sobre a vida de ninguém. Você não pode ser irascível assim.

Uma lágrima rolou dos olhos de Odara.

— Elas mataram Éfema — ela respondeu, mas Edissa parecia inflexível. — Ela era feliz antes de eu tê-la enfiado por completo nessa conspiração. Isso a enlouqueceu… Ela sonhava em salvar Babel tanto quanto eu. A morte dela não vai ter significado se eu não… Eu preciso condená-las… Não posso deixar que essas nefilins vivam! São filhas de anjos caídos. Em seu sangue corre a destruição. Eu preciso fazer isso…

Então ela subiu em cima da mesa e desembainhou a espada.

— Não quero ver isso… — Edissa virou as costas. — Ao menos faça um ritual antes de executá-las.

— Certo… Merissa do Conclave, eu a condeno por conspirar contra Babel.

A espada desceu e Edissa só ouviu o som de algo caindo sobre o chão e rolando.

— Inera do Conclave, eu a condeno por conspirar contra Babel.

Outra vez o mesmo som.

— Quesora do Conclave, eu a condeno…

— Por conspirar contra Babel — outra voz completou a fala de Odara.

Edissa virou-se para trás. Quesora estava em pé, segurando firmemente a lâmina da espada de Odara entre seus dedos ensanguentados. Aquilo quase fez Edissa cair de costas.

A velha estava ereta e vigorosa, quando deu um berro que ressoou por toda a ala. Sua cabeça parecia entrar em erupção. Seus olhos se encheram de sangue, e seus dentes se tornaram presas afiadas. Ela cresceu rapidamente, asas brotaram embaixo de seus braços, sua coluna se curvou, seus dedos se tornaram garras ossudas. Transformou-se em um morcego gigante e horrendo. Soltou um rugido e voou na direção de Odara.

O lugar era apertado demais para ela voar, então apenas pairava, tentando atacar Odara com mordidas e coices. Pousava e tentava atacá-la com as garras e asas.

Odara era ágil e conseguia desviar das mordidas, mas os coices jogavam-na para trás e as investidas com as garras arranhavam-lhe a cota de malha. Sua espada não era veloz o suficiente, e seus ataques não conseguiam atingir a nefilim.

Edissa correu até junto do corpo de Cafreim e pegou a faca em seu colo. Estava esperando o momento certo para atacar Quesora por trás, quando sentiu uma mordida em sua perna. Era a cabeça de Merissa, que rolara na direção dela. Mesmo decepada, ela parecia ter seus sentidos completos, e estava transformada como Quesora. Ela tentou chutar aquela cabeça, mas quando conseguiu, a cabeça de Inera veio em sua direção. Com um golpe da faca, rasgou a boca que tentava mordê-la, pegou-a pelos cabelos e atirou em Quesora.

Odara aproveitou a distração para se colocar embaixo da mesa, onde os corpos de Gisaé, Menor e Loquê jaziam. A nefilim deu um soco na mesa, mas quando o fez, Odara aproveitou para alavancá-la. A mesa soergueu-se subitamente e bateu na cara de Quesora. Os corpos voaram e caíram sobre o chão com grande força, esmagados de imediato.

Edissa correu até a cabeça de Merissa, e também a atirou na nefilim, mas dessa vez não adiantou. Quesora continuava atacando Odara. Então, houve um grande estrondo. Quesora urrava histérica.

— Vocês estão acabados, o Cometa vem! — Ela disse, transformando-se novamente em humana. Desta vez mais jovem, embora com o mesmo nariz empinado. — Ouve este som? É o badalo da vitória dos nefilins sobre os babelianos. Por milênios vocês desta maldita torre vêm nos assassinando cruelmente. Não nos permitiram nunca entrar em vossas malditas terras férteis.

— Vocês também mataram nosso povo em repetidas guerras, causaram fome e morte! Acha que nossa suspeita não tem fundamentos? — Respondeu Odara. — Agora vocês se infiltram no Conclave e levam-nos à ruína. Se você não tivesse matado o general Idao, nós teríamos nos preparado.

— Seu pai foi só o primeiro. Nós matamos centenas de pessoas que sabiam que a torre estava caindo, e todos aqueles que falavam do cometa. Você sabe por que eu não fiz o mesmo com você, Odara do Conclave? — Ela riu — Queria que você fosse vista como a louca. E você, este tempo todo, estava tramando quando eu achei que tinha desistido! Argh! Eu te condeno…

Então, algo brilhou sobre o pescoço de Quesora.

— Incorreto. Eu a condeno, Quesora dos Nefilins, à morte por uma centena de razões — disse Edissa, com a faca apertando a jugular da mulher.

— Você não ousaria — sua pele voltou a entrar em erupção. — Por isso você está no lugar de Éfema. É burra como um carneiro, não seria capaz de me matar, nem se sua vida dependesse di…

E então, a faca se encheu de sangue. Edissa a puxou e libertou o corpo de Quesora para cair no chão. Odara levantou a espada e golpeou o corpo da nefilim uma última vez no meio da cabeça. As duas se entreolharam. Estavam cobertas de sangue e suor, mas se abraçaram.

Edissa estava sem palavras, mas sentia necessidade de expressar seus sentimentos. Não pareceu uma ideia brilhante, mas, confusa, ela fechou os olhos. Seus lábios foram de encontro com os de Odara, porém, a mulher se esquivou, espantada.

As duas estavam suspensas. Edissa se sentia uma idiota, estragara tudo de uma só vez. Não era o momento ou lugar apropriado, e talvez nunca haveria outra chance. No fim das contas, aquilo era errado, não importava onde ou quando. Queria sumir dali. Usou as mãos para cobrir a face, e as lágrimas derramaram-se aos montes, enquanto Odara parecia não acreditar naquilo, passando os dedos entre os lábios.

Outro estrondo fez com que elas se lembrassem de onde estavam.

— Precisamos sair daqui — disse Odara.

— Sim…

— Eu tive uma ideia… Para descermos mais rápido.

Utilizando a mesa destruída como rampa, ela correu velozmente até a abertura no teto, por onde o sol saia. Enfiou-se ali e desapareceu. Seguiram-se barulhos de corda se partindo e contrapesos caindo, e num instante, Odara voltou para dentro da ala. O Último Andar começou a tremer, e então, o chão parecia estar cedendo.

— O que você fez? — perguntou Edissa.

— Transformei isso em um elevador, só precisei cortar algumas cordas. Se segure!

E num instante, aquilo ganhara velocidade e tiveram que abraçar as grandes cadeiras de ossos para manter-se no chão. Ouviram um barulho de madeira se quebrando, e toda a estrutura freou. Correram em direção a porta, passando por cima dos escombros de diversos elevadores e estruturas esmagadas pelo Último Andar. Deixaram a torre correndo.

Os últimos cidadãos, os mais teimosos que se recusavam a deixar suas casas, viram o cometa no céu e decidiram fugir logo. Um homem, desorientado, tinha dois cavalos, extremamente agitados, e uma única biga, adiantou-se e implorou para Odara cavalgar um deles, carregando na biga sua velha mãezinha. Assim, ela o fez, colocando duas crianças na garupa, e Edissa com três mulheres vizinhas e a idosa na biga.

Cavalgaram em direção à cabeça dos rios irrigadores, onde a sombra de Babel não tocava. Esperavam encontrar uma multidão agitada e inquieta, mas Sefã pregava junto de alguns outros sacerdotes. Mantinha-os calmos.

— O Alto me revelou hoje que a Torre de Babel o desagrada — dizia em voz alta —, pois nenhum homem jamais alcançará o Alto sendo transgressor. E nos últimos anos, o povo babeliano permitiu a corrupção entre si, e como castigo, o Alto mandou este cometa que irá destruir Babel. Sua misericórdia livrou-nos da destruição.

Seu discurso seguia, quando então, Edissa olhou para trás. Contemplou o cometa, brilhoso como um segundo sol, com seu rastro de fogo no céu. O abalo começou assim que ele atingiu a posição do meio dia, e Babel veio ao chão de uma só vez.

Não havia horror no rosto do povo babeliano, que por milênios trabalhou naquela gloriosa torre. Havia apenas silêncio. Todos observavam a destruição do único mundo que conheceram: aquele que aspirava ao dia em que a Torre de Babel roçaria os céus, e assim, chegariam ao Alto-que-a-todos-criou.

Uma nuvem de poeira se ergueu e não puderam ver a torre cair, afinal. Todos cobriram os rostos e ouviu-se o choro de alguns entre o povo.

— Será este o nosso fim? — Alguém disse.

Quando a nuvem se dissipou, faltava no horizonte uma torre pretensiosa, que deveria tocar as nuvens. O vazio foi ocupado pela melancolia. Era como se o povo babeliano tivesse morrido naquele instante.

— O Alto me disse… — pregava Odara ao povo, direto do dorso do cavalo. — Que nós devemos erguer um novo povo, não uma nova torre. Cada um de nós será como uma torre. Devemos construir nós mesmos, a partir deste dia. Ao invés de tijolos teremos justiça, ao invés de betume teremos compaixão. Erguei novamente, ó povo de Babel! Erguei-vos! O caminho para o Alto não é uma torre, mas vossos próprios corações e almas.

A multidão se dividia em olhares tristes e olhares esperançosos.

Sefã continuou a pregar, enquanto Edissa andava perdida entre a multidão. Sua cabeça estava cheia, uma verdadeira tempestade de sentimentos. O alívio e a vergonha se conflitavam agora, mas também o orgulho estava nela. Salvara todas aquelas pessoas de perecerem na torre. Mesmo que tristes, havia esperança.

Saiu dali, adentrando os limites da floresta que fazia fronteira com o Vale de Sinar. Não sabia para onde iria agora, o que seria da sua vida. Talvez sentiria falta de estar dentro da torre. Não conseguiu evitar as lágrimas.

Sentiu uma mão firme a tocá-la.

— Onde você está indo? — Era Odara.

— Eu não sei… — respondeu. — Qualquer lugar, não me importa.

— Edissa, eu tenho que lhe agradecer. Sem você, eu não conseguiria evacuar a torre a tempo. Devo-lhe minha vida, e essas pessoas devem a vida a você também. Se elas ao menos soubessem a heroína que você é…

— Não sou isso tudo…

— Deixe disso. Preciso de você agora para algo novo.

— Posso recusar?

— Não — foi categórica, mas depois de um tempo cedeu. — Quero dizer, você pode. Não vou lhe obrigar. Mas você precisa estar comigo agora. Os babelianos viviam para a torre, mas agora sem ela, eles precisam que alguém os ajude a seguir. Sefã, eu e você devemos dar um novo significado para todos eles. Posso contar com sua ajuda?

— Estou contigo — respondeu Edissa.

— Era o que eu queria ouvir.

Houve um silêncio longo entre elas, que apenas admiravam o horizonte. A falta da torre incomodava.

— O Alto realmente falou aquilo para você? — Perguntou Edissa.

— Na verdade, não — Odara explicou. — Às vezes o sacerdote mente, principalmente quando ele tenta ser o interlocutor do Alto.

— Compreendo.

Entreolharam-se profundamente.

Aqueles olhos de jade estavam inundados, avermelhados. Odara precisava dormir e Edissa também. Porém algo não estava certo.

— Me desculpe — disse Odara.

— Por quê?

— Se eu fui muito autoritária e ríspida. Se de alguma forma eu te manipulei, ou te levei a fazer muitas coisas. Se eu te decepcionei por ter condenado aquelas mulheres à morte. Errei com muitas pessoas, mas só de você quero o perdão, de verdade. Por favor… Me perdoe!

— Eu a perdoo. Já passou…

— Mas, também, me perdoe por ter me esquivado.

E seus lábios se encontraram com os de Edissa outra vez.

Elisa Rovai
Elisa Rovai
Elisa Rovai é uma escritora transexual novata, nascida em Minas Gerais. Cresceu com Ruth Rocha e Ziraldo, estando sempre em contato com a tradição oral e o folclore de sua terra, com histórias de tatu, onça e cobra. A ficção científica entrou em sua vida mais recentemente, e uma paixão imediata se iniciou. "Babel" é o seu primeiro conto publicado oficialmente.

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Um comentário

  1. Cesar F. Miranda / 19 de março de 2017 at 10:58 / Responder

    Adorei o conto. O título me chamou a atenção e fiquei satisfeito ao ver como o tema foi tratado. Não só objetivamente, mas nos símbolos. Não sei quanto dos acontecimentos são “fatos” bíblicos, mas ficaram plausíveis. Odara ficou uma personagem interessante.

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