Cápsula de liberdade

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A maioria das pessoas não faz a mínima idéia do que é liberdade. Vivi os últimos anos, dos meus vinte e cinco, com minha família dentro de um prédio abandonado da megalópole São Paulo. Quarenta conseguiram fugir naquela noite sete anos atrás, mesmo com todos os protocolos de segurança. Homens, mulheres, meninos e meninas. Um bando de clones correndo o mais longe possível do laboratório que nos dá e tira a vida. Se fome e frio foram nossos primeiros desafios fora do GenInova, não demorou para aprendermos que precisávamos de mais do que abrigo e comida.

O GenInova é o fazendeiro cruel das histórias infantis, que pune os animais desobedientes com dor, muita dor, a mesma que está matando o Miojo neste momento. Seu grito ecoa por todo prédio.

― Segura ele, Gato, não consigo aplicar a morfina.

― Eu tô tentan… ― Gato é interrompido pelo joelho do Miojo, agora jorra sangue do nariz para todo lado.

Miojo tá se debatendo tanto na mesa que não consigo parar seu sofrimento, apenas assisto ele se esticar com as veias do pescoço saltadas.

― Tô aqui ― seguro a mão dele ―, fica calmo, já vou aplicar a morfina.

― Eu tô com medo. ― As lágrimas correm sobre as tatuagens nas bochechas, a VC.431 na esquerda, feita pelo GenInova, era o seu código do laboratório, e o grande L na direita, nosso símbolo, nossa marca de liberdade. Só as crianças não têm.

A vida dos clones no laboratório é de dor e sofrimento, cobaias, objetos de estudo. Fora dele somos mendigos doentes e esfomeados. Pelo menos, quando decidimos fugir, nós tomamos as rédeas de nossa vidas. Temos uma chance de escolher nosso destino.

― Olha pra mim, Miojo. ― Me aproximo do seu rosto, uma troca de olhar que parte meu coração quando vejo os seus olhos amarelados pela hepatite. ― Ninguém mais vai te machucar. ― Ele esboça um sorriso no meio de toda a dor, percebo que quer acariciar meu cabelo azul, mas não consegue. ― Liberdade aos Iguais, Irmão!

Ele aperta minha mão com tanta força que quase a quebra, uma nova convulsão começa e sua boca espuma. São minutos que parecem horas, até seu corpo parar de funcionar. Miojo está livre. A mesa improvisada tem mais um cadáver de clone. Gato me lança um olhar perdido enquanto estanca o nariz.

― Desculpa, Safira.

Deixo ele para trás, sei que ninguém aqui tem culpa, minha cabeça tá latejando e tô ofegante, preciso tirar esse grito preso na minha garganta. Saio do apartamento sem porta, no estreito corredor a família aguarda na meia luz, esperando minhas ordens.

― Preparem a despedida.

Abelha e Beija-Flor passam por mim de cabeça baixa, a maioria tem medo quando estou neste estado. Sabem do que sou capaz.

Atravesso o corredor esperando uma brecha para explodir em fúria. Como um desejo ao gênio mágico da lâmpada, o motivo vem até mim. A tela improvisada em um dos apartamentos transmite o programa Vamos Falar Sobre…, um show de entrevistas transmitido via internet que aborda os assuntos mais polêmicos do momento. Em qualquer outro dia teria ignorado esse desperdício de tempo, mas isso mudou assim que ouvi a voz dela.

Dra. Luzia Almeida, clone LA.157, atual Chefe de Pesquisas Científicas do GenInova. Ela herdou o nome da sua antecessora e matriz genética. A atual Dra Luiza é uma das responsáveis pela forma que os clones são tratados. A criatura mais sem empatia do universo, que nem percebe que ela mesma é propriedade do GenInova, como todos nós. A vejo dando entrevista com seu sorriso esnobe, roupas elegantes e aparência saudável, enquanto Miojo jaz pálido num prédio abandonado e fedendo a mijo, sua boca espumante da doença.

― Mas, doutora, o quanto eles sofrem? ― pergunta a Jornalista.

― Não mais do que o necessário ― responde a cretina.

Pego a barra de ferro mais próxima e me atiro pra cima da tela.

― EU VOU TE MATAR! FILHA DA PUTA! DESGRAÇADA! PEDAÇO DE MERDA AMBULANTE!

Os gritos e xingamentos duram até não ter mais nada para destruir. A tela, o único lazer que tínhamos, agora é um amontoado de plástico, vidro e circuitos. E pior, fiz isso na frente dos mais jovens da família, Girassol e Valente, de sete anos e que, graças a mim, choram assustados. Demorou um pouco para ouvi-los. Só parei quando percebi o estado dos dois.

― Satisfeita agora, Safira? ― Abelha voltou correndo porque se assustou com os barulhos, ela os abraça rapidamente e os leva para outro apartamento, sempre com o tom manso e apaziguador.

Atrás da tela que destruí tinha uma pichação tão descascada quanto a parede. O choro é grátis!!! Minha respiração fica pesada, as pernas amolecem, começo a soluçar e então as lágrimas jorram. Fico sozinha por um tempo, gemendo da minha alma dilacerada até Fortaleza aparecer. Primeiro ele me tira do chão e me põe no sofá, então começa a tirar os cacos de vidros do meu joelho. Com as feridas limpas, ele me abraça, pressionando meu rosto contra seu peito largo. Aproveito o momento para soltar os urros de ódio que habitam meu coração.

Quando me acalmo, meu corpulento amigo me ajuda a deitar no sofá, acaricia meus cabelos azuis brilhantes enquanto me abraça, e por um momento nossos corpos parecem apenas um, até porque nossa pele tem o mesmo tom moreno.

― Safira ― diz Fortaleza depois de um tempo ―, uma pedra linda e preciosa como você! Foi por isso que escolheu esse nome?

― Eu só gosto da cor, por isso pinto o cabelo de azul.

Ele ri e fica ao meu lado. Os olhos pesam até que finalmente apago.

Queria dormir pra sempre, que nem o Miojo e tantos outros antes dele. Não aguento mais assistir impotente a morte dos meus irmãos. Porém uma minúscula e magricela clone me faz despertar. É Girassol, ela escolheu seu nome por causa do cabelo loiro e porque adora os dias de verão. Ela procura uma boneca de trapos velhos que Abelha fez para ela. Ainda existe uma mágica esperança tanto nela quanto na Valente, algo que eu e os outros adultos jamais teríamos. Conseguimos libertá-las ainda bebês, antes de sofrerem com agulhas, procedimentos dolorosos e testes científicos.

Abro os olhos devagar e a vejo fuçando numa pilha de roupas. Assim que acha a boneca, ela se vira pra sair, mas congela quando me vê olhando. Estendo a mão oferecendo (e pedindo) carinho. A relutante menina aceita. Lentamente a trago para se deitar comigo e a abraço.

― Me desculpe ― sussurro em seu ouvido. Ela acena com a cabeça. Crianças são maravilhosas, entendo porque Abelha prefere passar mais tempo com elas.

― Safira ― ela diz depois de um tempo ―, vai acontecer com a gente o mesmo que aconteceu com Miojo e os outros?

Hesito em dar a resposta, minhas opções são poucas. Ou minto e preservo sua inocência, ou digo a verdade e destruo tudo que a faz ser umas das coisas mais belas que temos.

Escolho o meio termo.

― Girassol, eu vou fazer tudo que puder pra nenhuma coisa ruim acontecer com você. ― Uma promessa que eu poderia cumprir.

Ficamos em silêncio até Abelha aparecer e nos chamar para a despedida do Miojo. Nosso ritual não chega nem aos pés das grandes cerimônias que já vimos pela rede, não mesmo, porém seu significado faz com que ele seja mais importante de qualquer enterro de presidente.

Subimos para o terraço do prédio, todos estão lá, quinze clones adultos e seis crianças num círculo em torno do corpo do Miojo enrolado com um pano branco. Dezenove já sucumbiram desde de que fugimos. Como sou a líder da família, eu conduzo a despedida.

― Irmãos e irmãs, hoje os olhos de mais um irmão se fecharam para nunca mais abrirem. Miojo, nascido contra a vontade e escravizado como VC.431, agora nenhum facínora usará o seu corpo. Agora, não há mais dor, mas sua luz se foi. Liberdade aos iguais.

Sempre me esforço para não deixar os outros verem meu choro nas despedidas, um bom truque é olhar para cima na hora que estou quase chorando. Outro dia, Saci até perguntou se procuro Deus quando faço isso. Ri tão alto que ele nunca mais tocou no assunto.

A despedida prossegue com cada um indo até o Miojo, sussurrando uma lembrança junto ao seu ouvido como se fosse um segredo. Algumas boas, outras nem tanto. Como de costume sou a última. Enquanto isso, Luz faz o grafite no Mural do Irmãos, cada um que se foi tem seu símbolo desenhado. Borboleta, Cão, Nuvem, B-boy e tantos outros agora ganham companhia, uma cumbuca com um par de hashis e um miojo soltando fumaça. Luz desenha tão bem, seria tão bom se o mundo pudesse reconhecer arte.

Me distraio e não percebo que todos já fizeram sua despedida, e apenas aguardam minha vez. Fortaleza chama minha atenção coçando a garganta e faço minha parte, vou até Miojo e repito em seu ouvido o que disse aos demais irmãos que já partiram: “Eu ainda não sei como, mas a desgraçada vai pagar por todo mal que nos fez”.

Me afasto em silêncio e então Fortaleza faz sua parte, pega o corpo de Miojo, põe em seu ombro e o leva pelo caminho improvisado até a chaminé da central de lixo próxima ao prédio que moramos. Quando o calor começa a aumentar, Fortaleza joga Miojo chaminé abaixo e as chamas consomem seu corpo junto com o lixo dos consumistas. Adoraria dar uma despedida menos atroz aos meus irmãos, só que não podemos nos dar ao luxo de sermos rastreados pelo GenInova, assim não pode sobrar nada dos nossos corpos.

O sol já some no horizonte quando a cerimônia acaba e cada um volta para seu quarto. Eu espero Fortaleza, preciso de companhia esta noite, tô muito irritada pra transar, apenas quero ter um pouco de carinho e provavelmente ele também.

De todos os irmãos, Fortaleza é a quem sou mais ligada, passamos a maior parte da vida juntos no laboratório, mas em lados opostos. Enquanto eu era objeto de estudo, ele era guarda, condicionado a não ter empatia pelos demais clones. Quando estávamos fugindo do GenInova, ele podia escolher entre nos matar ou fugir conosco. Não preciso dizer que se não fosse por ele não teríamos fugido. Na verdade, nem teríamos sobrevivido tanto tempo, já que ele conhece bem os procedimentos do GenInova e sabe nos manter invisíveis.

Apenas o espero na porta que sai do terraço enquanto o vejo atravessar de um prédio a outro por tábuas, morrendo de medo de uma delas quebrar com o grandalhão. Penso no dia cagado que estou tendo e perder Fortaleza, definitivamente, seria o fundo do poço. O desgraçado não cai da tábua e ainda me dá um sorriso pretensioso. Tá se achando demais. Ri da minha cara, se diverte com minha preocupação, até que sua feição muda e ele leva a mão ao lado direito do corpo. As coisas vão de bem à merda, Fortaleza de repente esguicha um jato de vômito amarelado com sangue no chão do terraço.

Enquanto corro em sua direção, caio em prantos, cansada de perder quem amo.


Não faço a mínima ideia de onde estou, parece o corredor da nossa casa, com pichações e abandono, mas não tenho certeza, está escuro demais. Tateando a parede sigo em frente, tropeço algumas vezes até ver uma luz fraca. Sem muita escolha sigo até ela. A claridade enfim revela algo pra mim, o Mural dos Irmãos. Passo a mão sobre cada um dos grafites de todos que se foram e percebo alguns novos. Os desenhos são um girassol e uma fortaleza medieval. Entro em pânico, passo a mão tentando apagá-los mas continuam lá. Olho minhas mãos e estão vermelhas, o cheiro é de sangue, sangue que começa a escorrer de todos os grafites. Tento gritar mas não consigo. O sangue inunda o lugar e cobre meu corpo e então… eu acordo.

Estou na enfermaria, dormindo sentada ao lado de Fortaleza.

Por um momento, respiro aliviada, foi apenas um pesadelo. Então me lembro que o fígado dele já está começando a ir pro saco.

― Seu cuzão, por que não me disse nada? ― digo em seu ouvido, ele abre os olhos lentamente.

― Safira… ― Ele tenta responder mas eu não deixo.

― Vômitos com sangue são sintomas avançados. ― Me controlo pra não arrebentar a cara dele. ― Que merda você tem na cabeça?

― E ser mais um peso? Mais uma dor de cabeça? Eu vejo o mundo caindo nos seus ombros e vejo sua cara de medo com o peso dele.

Minha mão fechada rapidamente encontra com a boca dele. Um soco é pouco perto do que ele merece.

― Muito bem, que bonzinho você é. Agora sem o tratamento que devia ter começado há mais de um ano, você vai morrer em dois meses, seu idiota ― eu esmurro seu peito ―, ao invés de ficar aqui e me ajudar.

Fortaleza apenas encara minhas lágrimas, provavelmente meus socos mal fizeram cócegas, ainda assim eu continuo. Ele faz uma tentativa de enxugar meu choro e eu explodo.

― Se eu carrego o mundo em minhas costas, foi por escolha minha; e se qualquer um disser que não aguento, eu arrebento no meio.

Saio furiosa da enfermaria e ainda escuto o cuzão rindo, às vezes ele me chama de Tempestade Azul, eu fico puta quando ele me chama assim, mais ainda por ele dizer que é por isso que tem razão.

A noite custa a passar, fico olhando para o teto ao invés de dormir. Não deveria ter problemas pra isso, passei duas noites do lado da cama do Fortaleza, além do desconforto tinha os pesadelos. Eu deveria estar capotada agora, de tal forma que se o prédio caísse eu não acordaria. Só que não durmo, minha cabeça está a milhão. Dezenove já morreram e eu sou a líder da família. Tenho que protegê-los e não simplesmente assistir enquanto morrem.

Que merda eu faço?

Não sabemos o que temos e nem como tratar, o laboratório guarda esse segredo a sete chaves. Invadir o laboratório: suicídio. Procurar um médico: arriscado. Da última vez que tentamos isso, os guardas do GenInova apareceram e quase nos pegaram. Precisamos das cápsulas fora do laboratório, entretanto as que saem para clones vendidos para outros fins são em quantidades muito pequenas, além de ser arriscado. Que merda eu faço?

Passo a noite em claro e a única solução que encontro é a mais idiota e covarde possível, monitorar e aguardar. Temos uma pequena rede de contatos que nos fornecem algumas informações sobre o laboratório, assim sabemos se estão de olho em nós. Precisamos de um pouco mais do que um Eles estão indo, saia daí. A dúvida é quanto isso vai nos custar.


Já faz duas semanas e tudo que temos é silêncio. Fortaleza saiu da cama, os poucos remédios que temos tiram a dor e só. A maioria da família toma café da manhã em um grande salão que improvisamos de cozinha, Valente e Girassol ainda me evitam, ficando do outro lado do salão, talvez porque ainda estou com a mesma cara de feia de alguém que está prestes a explodir, igual ao dia em que destruí a tela de projeção.

Não culpo ninguém por me excluir. Na verdade, prefiro assim, sempre preferi. Quanto mais distante, menos dói quando morrem. Me aproximei demais de Fortaleza e agora sofro todas as noites por ele. Desgraçado mentiroso!

Beija-Flor chega correndo como sempre, nunca vi este tipo de pássaro, só em antigos vídeos, dizem que estão praticamente extintos. Pelo pouco que sei, são muito parecidos com nossa irmã: pequenos, ágeis, coloridos e lindos, vai ver é por isso que ela escolheu esse nome. Ela vem até mim, ofegante, deve ter subido todos os quinze andares do prédio na maior pressa.

— Safira ― gotas de suor escorrem do seu rosto ―, mensagem urgente dos informantes.

Ela me entrega um pequeno pacote, uma mapa dobrado com ruas e avenidas traçadas em rotas, uma foto impressa de uma van com data e horário e a frase A solução dos seus problemas. A van parece um dos veículos com condução computadorizada, com apenas assentos de passageiros, sem volante, sem painel. Acontece que elas podem ser customizadas para atender qualquer necessidade, colocando hack de armas, armários e qualquer outra coisa. Mostro para Fortaleza, que memoriza o que pode e me devolve.

— Beija-Flor, preciso de papel e caneta.

Ela tira ambos do bolso, já me conhece, sabe que não confio em qualquer aparelho que possa ter localizador, além de que pequenos rastreadores também podem ser inseridos em folhas de papel, por isso anoto tudo que preciso e devolvo o pacote à minha ligeira irmã que parte depressa. Não preciso dizer nada, ela sabe o que fazer: correr dez quadras e destruir o pacote.

Me levanto e percebo que todos no salão me observam.

— Conselho geral, reunião em 10 minutos.

A solução dos seus problemas.

Não faço ideia de que merda isso significa, preciso entender e preciso de ajuda, só as nossas cabeças juntas podem decidir o que faremos. Se atacarmos, alguém pode morrer e não vou tomar essa decisão sozinha.

Doze dos quinze adultos de nossa família chegam à sala de jogos, nos reunimos ao redor da mesa de sinuca detonada, sem carpete e caçapas. Fazer o quê? É nossa maior mesa. Abelha está com as crianças, Beija-Flor foi destruir o pacote e Caboclo está de vigia. Eu tomo meu lugar na cabeceira, Fortaleza ao meu lado, os demais circundam a mesa, Gato, Luz, Maribondo, Saci, Fantasma, Curupira, Carlota, Sabiá, Pintado e Onça.

― Bom dia, irmãos e irmãs, hoje recebi uma informação que quero discutir com vocês. ― Eles me olham apáticos, nunca fui boa em conversar com eles, não sou a mais legal da família, nem preciso ser, faço o que tenho que fazer e todo mundo sabe que é para o bem deles. ― Acionei nossa rede de informantes dentro do laboratório. Ficar sem a cápsula está nos matando. Morremos em uma maca berrando. Precisamos resolver isso. E hoje veio uma resposta.

― Que resposta foi essa? ― Carlota sempre foi a primeira a se posicionar, tem iniciativa, mas sempre evita as lutas.

― Daqui a três dias um dos veículos do laboratório estará transportando algo que nosso informante só definiu como A solução dos seus problemas.

― E? ― Carlota quer mais, sempre quer mais.

― Temos todos os detalhes do veículo, rota, data e hora. Só que não sabemos o que tem dentro.

― Tá, então você quer atacar esse veículo sem nem saber se o que tem dentro vale ou não o risco? ― Carlota solta o seu sorriso irônico. Ela anda vai ficar sem dentes.

― Eu não quero nada, a família é quem quer as coisas e só faremos o que a família decidir. ― Tiro o sorriso da cara dela, então é minha vez de sorrir, a babaca só virou a cara.

Fortaleza interrompe a discussão focando no que interessa.

― O veículo é uma van automatizada, customizada, preta, sem portas laterais, com janelas pequenas e escotilhas para colocar os canos das armas pra fora. É uma das vans blindadas dos GenInova. ― Fortaleza coloca a mão no queixo e fica em silêncio por alguns instantes. ― Essas vans têm assentos laterais para tropas, cabem até 8 guardas totalmente equipados, e elas não tem a refrigeração para transportar os produtos químicos do laboratório, são usadas apenas para os esquadrões.

― E por que raios nossos informantes mandariam a foto da van dos guardas pra gente? ― Maribondo é o irônico da turma. ― A solução é fazer a gente morrer mais rápido?

Fortaleza permanece pensativo e nós ficamos em silêncio. Da família, só ele conhece a forma do laboratório operar.

― Houve uma vez ― ele quebra o silêncio ―, que usamos esse tipo van para transportar uma clone do laboratório até o aeroporto de Congonhas.

― Que fim levou essa coitada? ― diz Luz com tristeza na voz.

― Ela foi dada de presente a um político, como escrava sexual. ― Fortaleza tem um lado obscuro e uma culpa imensa que ele carrega por ter feito parte de um sistema que trata humanos como propriedade. Coloco a mão em seu ombro, da mesma forma que já fiz várias vezes. Seu olhar sabe o que meu gesto significa, ainda assim este é um sentimento que ele jamais vai abandonar. ― Qual a rota que eles vão usar?

― Partem da sede em Sorocaba pela Rodovia Castelo Branco, entram em São Paulo pela Marginal Pinheiros e por fim pegam a Avenida dos Bandeirantes até o aeroporto de Congonhas. Você acha que é possível eles estarem transportando um clone?

― É bem provável.

― Dependendo do tipo de clone que os desgraçados estão transportando ― diz Fantasma ―, podemos pedir um bom resgate.

― Nós somos clones, cabeção. ― Onça é outra irmã bem direta. ― Eles não vão pagar um resgate quando podem fazer outros de nós.

― O informante disse que essa seria a solução dos nossos problemas ― diz Curupira, o mais velho e ponderado de todos. ― Que tipo de clone eles podem transportar que vai nos ajudar?

A pergunta do milhão de reais que eu não sei responder, essa van era um grande Kinder Ovo. Só vamos saber se o que tem dentro é bom ou uma merda quando abrirmos.

― Vamos fazer isso ou não? ― Carlota é inquisitória, e timidamente todos concordaram em atacar. ― Fortaleza, a gente consegue parar e abrir a van?

― Abrir a blindagem não é impossível, eu tenho algumas coisas que vão derreter ela fácil, fácil, o maior problema é parar. ― Quando ele diz isso, meu estômago gela. Se algo o preocupa, o negócio é sério. ― O software de condução da van é um programa bem restrito, de uso exclusivo de guardas presidenciais, pode ir do modo Condução Normal à modo Combate em menos de um segundo. Se qualquer pessoa parar na frente dela armado, pum! É atropelado. Ele reage rápido e de forma agressiva. Em uma grande avenida é muito difícil pará-lo. Temos que considerar a van como um combatente.

― O que podemos fazer, então? ― pergunto.

Fortaleza volta a pôr a mão no queixo, depois de muito pensar começa a pegar entulhos e qualquer outra coisa que encontra, também encontra um carrinho de brinquedo que depois poderá ir para um dos meninos, mas que por enquanto era a nossa Van.

Ele tinha um plano, e se seguíssemos direito, tudo ficaria bem.


Os três dias passam voando e já é a madrugada do ataque à van. Antes de sair de casa vou até o Mural dos Irmãos e rezo, não para Deus, nem sei se existe um. Rezo para nossos irmãos e irmãs que já partiram, peço ajuda para trazer todo mundo vivo de volta.

Mandamos Abelha, Curupira, Luz, Carlota e Caboclo levarem as crianças para outro esconderijo, um novo que nenhum dos combatentes conheça, assim não tem o risco de entregarmos nossa família. Comigo ficam só os combatentes e Fortaleza, o que nos faz perigosos.

As coisas começam simples, Fantasma opera seus brinquedos eletrônicos para monitorar a movimentação da van. A nossa ação começa quando ela entra em São Paulo, seguindo pela Marginal Pinheiros. Beija-Flor e Saci usam nossos contatos políticos para organizar uma manifestação, o tempo tem que ser preciso para que o trânsito se forme e o sistema de condução desvie para a rota que queremos. Esta parte é perfeita, uma manifestação de luta por moradia gera um congestionamento rápido impedindo a passagem de qualquer veículo. A programação da van considera um risco ficar parado, então ela rapidamente desvia o caminho traçando uma nova rota. Ao invés de pegar o acesso direto para a Avenida dos Bandeirantes, ela terá que atravessar o bairro do Itaim Bibi, onde esperávamos.

Se tentássemos hackear algum sistema do GenInova ou da van, certamente seríamos descobertos, por isso agimos de outra forma. Havia muitas rotas práticas e rápidas para o aeroporto, então Fantasma passou os últimos três dias dizendo aos sistemas de GPS que a segunda rota mais rápida é a estreita Rua Tabapuã, onde armamos nossa emboscada.

Espalhados pelos prédios da esquina da Rua Tabapuã com a Rua João Cachoeira estamos eu, Fortaleza, Sabiá, Fantasma, Onça, Gato, Pintado e Maribondo. Sozinha na minha esquina, sinto a mão suando, um erro meu e alguém morre. Fico ofegante. Olho para Fortaleza no prédio do outro lado da rua, ele é um clone criado para o combate, nessas horas ele fica frio como se tudo que existisse fosse sua missão. Uma última missão.

Caralho, como eu queria ter essa frieza.

Fico tão distraída que quase perco seu sinal, então ele repete pra ter certeza que vi. Aceno para ele de volta, confirmando o comando. Escolhemos este ponto de ataque porque o movimento aqui é praticamente nulo de madrugada. No início do século XXI, ainda havia bares e moradores por aqui, hoje são basicamente escritórios e lojas, um lugar deserto de madrugada, perfeito.

O motor elétrico da van não faz nenhum barulho, mas posso escutar o atrito da borracha com o asfalto.

Respiro fundo, seguro meu rifle e saio do esconderijo.

Do alto do prédio, disparo contra a van, as rajadas não provocam grandes danos na blindagem, mas essa não era nossa intenção. Como Fortaleza disse, o sistema motorista da van reage rápido, sai da rua Tabapuã e realiza sua única opção: entrar na Rua João Cachoeira. Onde está a verdadeira armadilha.

Dez metros após virar a esquina, a van detecta os estrepes posicionados no meio da rua, porém sua inércia é grande e o tempo de resposta não é suficiente. Os pneus da van são dilacerados pelas setas metálicas presas ao chão, e ela se arrasta pela rua com dificuldades. Os três guardas dentro da van se preparam para o ataque, colocando os canos dos seus rifles nas escotilhas. Mas também estávamos prontos para isso. Gato, Onça e Maribondo disparam morteiros contra as escotilhas, que, ao explodirem, danificam uma parte da blindagem e destroem as armas pesadas dos guardas.

Nosso ataque surpresa nos deu uma vantagem! Porém isso ainda não é uma vitória. A van bate na calçada e ativa o modo de defesa, segundo Fortaleza agora ela deve estar mandando um sinal de emergência e se lacrando por completo.

Pintado, Sabiá e Fantasma podem se aproximar do veículo sem grandes riscos, é preciso hackear pra desativar o alarme. Fortaleza vai atrás com o enorme tonel de plástico que trouxe, ele disse que era melhor ninguém saber o que tinha lá dentro, eu acredito nele. A missão está fácil… fácil até demais.

Eles conseguem chegar bem perto. Assim que Fantasma dá o sinal de que a comunicação da van foi cortada, Fortaleza começa a jogar o líquido espesso na porta do veículo blindado. O cheiro que sobe é tão azedo que arde todo o nariz e nos faz tossir, meus olhos ardem muito rápido apesar de eu estar longe da van. A equipe de ataque se arrasta para longe. Pintado até vomita. Além do cheiro, fumaça branca cobre tudo ao redor. Recuamos o máximo possível.

― Parabéns, idiota! ― disse a Fortaleza. ― Você acabou de matar nosso alvo.

― Eles têm máscaras lá dentro.

Não discuto, não durante a missão. É uma péssima hora para isso. Depois quebrarei o nariz dele.

A fumaça diminui e temos um vislumbre da porta traseira da van caindo, está quase acabando. Fortaleza toma a frente com o rifle apontado.

― Irmãos ― diz ele aos clones dentro da van. Diferente dos outros membros dafamília, ele é um guarda, e o único que não os odeia ―, nós somos iguais, somos todos escravos do laboratório. Rendam-se e serão tratados com respeito e dignidade.

A compaixão de Fortaleza pelos guardas é justificável, são clones, iguais a nós, vítimas iguais a nós. Só que o propósito da sua “fabricação” é bem diferente do nosso. Sofrem condicionamento desde a infância para matar qualquer um que se opor ao GenInova.

Não dá pra dialogar com eles.

Queria tanto que Fortaleza entendesse isso.

Antes que possamos perceber, uma rajada de rifle parte de dentro da van atravessando o corpo de Fortaleza. O mundo pra mim deixa de existir. A única coisa que me importo é com o seu corpo caindo. Um eco distante grita comigo, não consigo entender e não ligo. Vejo Fortaleza cuspir sangue enquanto tenta respirar, até que sinto alguém me agarrando e me levando ao chão.

― Porra, Safira, volta pra realidade! ― Onça grita comigo enquanto mantém minha cabeça baixa, um tiroteio se formou e eu nem me dei conta.

Ele me arrasta para dentro de um prédio, nos protegendo dos tiros. Fico ofegante, as paredes estão se fechando ao meu redor e tudo que vejo começa a escurecer. Fico repetindo baixo, fudeu fudeu fudeu fudeu, até Onça me dar um tapa. Isso me faz voltar um pouco para os eixos, sair do estado de pânico. Só pra perceber que realmente estávamos fodidos.

Fomos muito burros, não pensamos nem por um instante que o GenInova poderia ter mudado um pouco as formas de fazer as coisas nesses últimos anos. Ah sim, eles investiram mais na equipe de guardas, compraram armas mais modernas e armaduras táticas. Agora podem nos ver por trás das paredes e atirar projéteis capazes de perfurar concreto.

Inutilmente, Pintado e Sabiá se escondem dentro de uma loja, os três guardas apenas observam os seus espectros, miram, disparam, a parede grossa fica toda esburacada. Tudo que vemos dos nossos irmãos é seu sangue, em quantidade suficiente para saber que não sobreviveram.

Onça sinaliza para Gato e Maribondo se esconderem e, com o lança morteiro, ataca um dos guardas pelas costas. O morteiro causa um rombo na armadura tática, um já foi, os outros dois são lançados para longe. Onça demora a recarregar o lança morteiro, tempo suficiente para o guarda conseguir mirar em sua direção. Para a sorte dela, Fantasma atira com sua pistola no capacete do guarda, não causa dano algum, porém desvia seu olhar. O hacker procura cobertura, não percebendo que é um esforço inútil.

O guarda se prepara para atirar em Fantasma. Quando saio do meu estado catatônico, Gato joga seu lança morteiro para mim do alto do prédio. Preparo, miro e atiro. O morteiro explode no pescoço do guarda, decapitando-o. Eu não me preocupei em me proteger, esqueci que havia um terceiro guarda e que esse apontava para mim.

Sinto algo acertando minha perna direita e perco o equilíbrio, só depois de alguns segundos a dor se torna insuportável. Urro desesperada, o tiro de rifle atravessou minha coxa. Esguichos vermelhos e encorpados jorram pela ferida, fico tonta e então tudo escurece de novo.


A claridade me incomoda e faz com que eu abra os olhos. Demora até eu estar consciente e perceber o que acontece ao meu redor. A sala que estou é familiar, só que ao mesmo tempo diferente. Sei lá, parece algum lugar que eu já tenha visto, só que mais limpo. Parece tanto a enfermaria, a mesma que Miojo e tantos outros morreram.

― Bom dia ― diz o completo estranho. ― Finalmente acordou a famosa Safira. ― Me sinto tonta e sem paciência, mais um pouco e vou mandar esse cara tomar no cu, mas as palavras não saem. ― Todo mundo ficou preocupado aqui, você dormiu por seis dias. Ah sim, antes que eu esqueça, uma garotinha deixou isso pra você ― era a boneca da Girassol. ― Quero muito agradecer o que vocês fizeram por mim. Obrigado, de verdade!

Puta que pariu, que falastrão irritante. Me esforço para entender onde estou e ele fala como se eu fosse a pessoa totalmente por dentro do assunto. Tem algo errado, alguma coisa nesse cara que é familiar.

― Quem é você? ― Minhas únicas palavras, da forma mais embriagada possível.

― Bom, o nome que me deram é LA.156, mas eu prefiro Luiz.

Um clone? Ele não tem tatuagem na bochecha, todos os clones têm seu código marcado. Todos menos um, o clone masculino da Dra Luiza, a maldita que fundou o laboratório e foi sucedida por outra clone sua, a LA.157, ele até tem os mesmos traços que ela, parecem irmãos…

― Você! ― Tento me levantar da cama com pressa. ― O preferido da maldita.

Quero matar ele. Salto da cama e minha perna direita dói, não consigo sustentar meu peso e só não vou ao chão por que Luiz me segura. Me esforço para agarrar seu pescoço e ele apenas se contorce para fugir das minhas mãos enquanto me põe na cama.

― Se quer me matar, tudo bem, Safira. Só sugiro que você espere sua perna cicatrizar, ou você tem alguém aqui que saiba suturar uma artéria?

― Desgraçado, o que você tá fazendo aqui?

― Já disse, vocês me resgataram do laboratório. ― Faço uma cara de consternada que ele se vê obrigado a explicar. ― Quando LA.157 assumiu as funções da Dra Luiza, eu fui preso no subterrâneo do laboratório. Algumas semanas atrás eu consegui vazar para a imprensa algumas informações bem prejudiciais ao GenInova. Eles iam me isolar em outra instalação até decidir o que fazer comigo.

― Por quê um clone de uma velha escrota não foi morto no ato?

― Ah minha cara, esta mente aqui ― ele bate com o dedo na própria cabeça ―, sabe muita coisa, alguns segredos sobre o processo de clonagem, segredos que só a Dra Luiza sabia. Inclusive da fabricação da cápsula.

― Filho da Puta! Você faz ideia de quanto nós sofremos por causa desta merda? Quanta gente morreu por não tomar isso?

Ele fica calado, com uma cara de cu que me dá vontade de pular nele.

― Eu não posso mudar o passado, Safira, porém escolho meu presente e construo meu futuro. Tome. ― Luiz me passa um copinho com seis comprimidos coloridos e um pouco de água. ― Este coquetel substitui a cápsula, só que provoca danos ao estômago. Vou demorar um tempo para reproduzir a fórmula, isso vai segurar as pontas.

Encaro Luiz com a boca cheia de comprimidos. Engulo todos de uma vez, quase engasgo no processo, ele ri.

― Podemos ser grandes amigos se você quiser. ― O desgraçado é petulante mesmo, já tá se sentindo o dono do pedaço. ― Temos pelo menos um inimigo em comum.

Desconverso para ver se ele fica menos petulante. Pergunto se ele pode reverter o caso do Fortaleza, sua resposta é um olhar cabisbaixo. Sem dizer nada Luiz sai da sala e volta com Abelha, ela lança um olhar triste para mim e me abraça.

Abelha me traz ao Mural dos Irmãos, onde vejo em silêncio os três novos desenhos no mural: Um pintado, um sabiá e uma fortaleza medieval. Sento no chão e choro com a mão sobre a fortaleza, pensando em todas as brigas e discussões que tivemos. Como poderia ter feito as coisas de forma diferente. De como eu poderia ter evitado sua morte.

Com a ajuda de Luiz poderemos seguir a nossa vida, bem longe do GenInova. Entretanto, o laboratório seguirá matando clones dia após dia e somos alguns dos poucos interessados em mudar isso.

― Eles vão cair, meu amigo! ― Só consigo pensar no sorriso de Fortaleza. ― Nem que seja a última coisa que eu faça. Eles vão cair bonito!

Sandro G. Moura
Sandro G. Moura
Nascido no princípio da década de 80 em uma família circense, Sandro G. Moura cresceu tendo contato com arte. Cursou comunicação social, fez projetos culturais no circo, trabalhou como palhaço e em 2014 iniciou a carreira de escritor. Publicou em antologias e faz parte do coletivo literário Zinescritos.

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Um comentário

  1. JP Costa / 20 de novembro de 2017 at 15:08 / Responder

    Li este conto com o Google Maps na aba ao lado! Sim, queria saber exatamente o trajeto da van da GenInova até o ponto da emboscada. Este é um conto que tenho pouco a dizer a respeito, não porque ele não agrega ou algo assim, muito pelo contrário. Se alguém me perguntar o que penso sobre, eu diria, “Amigo, leia você mesmo”. Dinâmico e sem pausas, o conto te pega pela mão na metade da primeira linha e te conduz até o fim. Conhecer os personagens, não! Se você tem a cultura da leitura apenas pelos nomes – nada convencionais -podemos extrair a personalidade de cada um e assim senti como se já os conhecesse. Há Ficção presente do começo ao fim com toques fortes da “pimenta” ardente das críticas sociais. De fato, nos faz pensar muito bem e refletir, como na cena da manifestação a fim de desviar o tráfego, curioso saber que podemos facilmente por influência política criar tumultos. Digamos que foi um dos pontos altos da trama visto o cenário Nacional dos últimos dois anos, diria que o autor foi deliciosamente maquiavélico em deixar isto claro. Na entrevista o autor comenta que gostaria de enriquecer com a descrição mais minuciosa ou analítica do ambiente, eu acredito que para o contexto do conto em si isso não se aplicaria tão bem. Da forma que escreveu o conto ganhou um movimento dos personagens, e isso fez com que o mais importante fossem os dramas sociais e pessoais da Família que o cenário e ambiente. Em resumo Cápsula de Liberdade mostra bem que os problemas atuais, sociais e políticos, são bem pré apocalípticos.

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