Cinco Bilhões

1

I

Keyra apreciava o belo pôr do Sol que se estendia por todo o horizonte. O tom avermelhado emitido pela estrela, nos últimos anos, demonstrava que sua existência estava ameaçada. Ela, ciente deste fato, aproveitava para banhar sua pele semitransparente enquanto ainda podia. Yves se aproximou.

— Sabia que a encontraria aqui.

— Estou aproveitando enquanto posso.

— É, mas você sabe… Em breve o Sol Vermelho irá explodir. Teremos de deixar esta galáxia.

— Uma pena. Se houvesse algo que pudéssemos fazer… Nem com a tecnologia que dispomos foi possível elaborar alguma coisa.

— Por isso vim ao seu encontro. O Conselho descobriu uma estrela gêmea, semelhante à nossa, mas relativamente mais nova.

— Estão certos disso? Onde?

— Este é o problema. Eles sabem que ela existe, mas nossa carta astronômica não a demonstra. Por isso precisam de você. Você é a melhor em cosmocálculo da equipe.

— Porque fui criada assim.

— Mas você é diferente. Os outros cosmocalculistas não expressam sentimento e nem fazem questão de tê-los. Você vem aqui fora todo dia apreciar a luz direta do Sol Vermelho por algum motivo.

— Ou seja, sou uma aberração para minha espécie.

— Pare com isso, Keyra. Você pode ter um papel fundamental em descobrir uma cura para nosso Sol.

— Acha que é possível?

— Sim. Falta algo, só não sabemos o que é. Estudando uma estrela semelhante à nossa, em seus primeiros bilhões de anos de vida, talvez…

— E nossos registros? Não indicam nada?

— Não. Não temos os dados dos primeiros anos de vida do nosso Sol Vermelho.

— Algo que nem aqueles que nos criaram foram capazes de encontrar… Como saberei o que falta?

Yves permaneceu calado. Flutuaram juntos sobre a superfície queimada e arenosa. Seus corpos produziam uma sombra tremeluzente e curiosa sobre as rochas maiores.

Keyra estendeu a mão e tocou suavemente o controle da cúpula. O hexágono derreteu, liberando a passagem. Não precisavam de código de identificação. O controle na porta era apenas preventivo, caso ocorresse alguma emergência. Na verdade, apenas uma ínfima parte da população possuía o estranho costume de sair da zona habitável — não havia motivo e nem demonstravam vontade em fazer isso.

Os tecnoeternos tiveram mais de quatro bilhões de anos para aperfeiçoá-los e agora era possível gerar novas formas de vida seguindo um padrão desejado. Keyra fugia a este padrão, por algum motivo obscuro. Haviam encomendado uma cosmocalculista racional e, por obra do acaso, acabou nascendo uma cosmocalculista emocional. Isto já acontecera outras vezes em sua longa história, um evento raro, mesmo que apresentasse certa tendência em se repetir.

As crianças já sabiam desde cedo a que coletividade pertenciam. Em pouco tempo criavam elos com outros de sua espécie e formavam grupos segundo interesses em comum. Keyra era diferente desde pequena. Passava muito mais tempo olhando atentamente aquela imensa esfera brilhante sobre a cúpula, alheia aos assuntos principais. Como ninguém poderia apreciar a beleza exótica daquela estrela?

Quando atingiu a adolescência descobriu que o Sol Vermelho estava morrendo e passou a sair lá fora todas as tardes, enquanto sua equipe fazia intervalos nos estudos científicos.

Yves era o único de sua espécie que tentava compreendê-la. Keyra gostava de estar ao seu lado. Como não havia contato físico propriamente dito, todos os grupos denominavam esta espécie de sensação como “sentimento rudimentar”. Ela possuía uma ligação com ele, mas era tão superficial que ia embora tão rapidamente como havia surgido. Yves, frustrado mesmo sem perceber, costumava murmurar “Keyra possui uma ligação com o Sol”.

Agora, estando frente a frente com os Conselheiros, Yves lembrava-se de sua estranha ligação com ela. Pensando melhor, parece que já a tinham escolhido devido às suas habilidades especiais. Ele sabia o que estava envolvido no projeto de reabilitação do Sol Vermelho. Haveria consequências se ela não aceitasse.

O Conselho era formado pelos três tecnoeternos mais antigos, que os aguardavam pacientemente. Os dois maiores demonstravam dificuldade em se locomover devido à sua altura. Portavam em seu peito algo semelhante a um laboratório portátil, de onde seus vários membros retiravam a massa comprimida de DNA. Suas faces triangulares, já desgastadas pela ação do tempo, não demonstravam a menor expressão. O menor deles, de aparência humanoide, apesar de andar sobre rodas tracionadas, se aproximou.

— CG0.999/KYR e CG1.000/YVS, conhecidos por Keyra e Yves. É um prazer tê-los conosco.

Ainda que não encontrassem um sentido funcional na gentileza, certos costumes haviam sido programados em suas mentes. Parecia a coisa certa a se dizer diante de outra espécie. Mediante o silêncio, prosseguiram.

— Para atualizar-lhes sobre o andamento da missão: a estrela gêmea continua a emitir uma radiação específica. Não conseguimos encontrá-la. No entanto, é semelhante a ecos registrados em nossos arquivos. Isso, através da lógica, prova que estamos perto de uma solução.

— Entendo. Mas qual o motivo real de sua preferência por mim, além de minha aberração particular?

— Este termo está incorreto. Você possui habilidades não programadas que se desenvolveram por si só. O termo correto seria “especial”. Há, ainda, outra informação relevante: você teve muito mais contato com a radiação solar durante estes anos do que todos nós.

— As minhas saídas?

— Sim. Nós sabemos sobre sua estranha fixação em nossa estrela e seus “banhos de sol”. No entanto, foge à nossa compreensão.

— Existe algo que vocês não saibam?

Yves tentou interceder e foi interrompido por ela. O tecnoeterno continuou.

— Seu comportamento é incomum, até para nossas mentes complexas. A verdadeira questão é: você deseja salvar a estrela que tanto admira?

— Sim. Desejo.

— Então utilize sua sensibilidade. Auxilie-nos a identificar a origem da estrela gêmea.

Ele se afastou enquanto os três dedilhavam extensos comandos à sua frente em uma tela invisível. Um aparelho, semelhante a um capacete, se materializou. Keyra inseriu a cabeça no espaço curvado e imediatamente suas conexões neurais foram ativadas. Um universo de estrelas explodiu em sua face.

— O que devo fazer?

— Sentir.

Keyra lembrou-se dos raios solares avermelhados percorrendo sua estrutura corporal. Não sabia explicar, mas era reconfortante. A carta astronômica se moveu velozmente. A estrela vermelha preencheu o cenário principal e encheu a sala com a mesma cor. Yves apenas acompanhava tudo, admirado. O tecnoeterno do centro retomou o diálogo.

— A estrela gêmea possui o mesmo padrão de assinatura sensorial. Procure outro corpo celeste que lhe provoque o mesmo sentimento.

Estrelas iam e vinham. A projeção parecia enlouquecida, enquanto sua mente se deslocava por espaços desconhecidos. Nebulosas, quasares e até um buraco negro foram vistos de relance, até que uma explosão de amarelo e laranja a fez parar. A sala foi preenchida com uma luz quente, aconchegante. O vermelho escuro deu lugar a uma luz amarela absurdamente viva. As coordenadas foram registradas. Keyra não sabia o que dizer. Apenas sentia. Era exatamente assim que imaginava. Sua estrela, mais de quatro bilhões de anos atrás, deveria ser idêntica.


II

Andrew Dent, um cidadão americano, já estava cansado daquelas conferências sobre ética envolvendo engenharia genética e tecnologia avançada. Os dois lados (se é que não haveria mais) possuíam sua parcela de razão, mas as discussões eram intermináveis. As grandes doenças que assolaram o século XXI começavam a desaparecer e a inteligência artificial permeava quase noventa por cento de tudo o que o ser humano tocava e consumia.

Estes fatos tornavam Andrew um indivíduo mais fechado, focado apenas na conclusão de seus estudos.

Seu projeto era impopular, mas não tanto quanto as ideias do cientista Halley. Daniel Halley, um cidadão brasileiro, alto e de boa aparência, chamava a atenção dos jornalistas por defender o uso de autômatos na ala de farmacêutica embrionária. Segundo ele, era muito mais seguro uma inteligência artificial manusear ampolas contendo espécimes bacteriológicos, utilizados para testar novas vacinas, do que humanos inaptos. E isso poderia ser estendido para a área das provetas. Sem contato humano, sem riscos para ambos os lados. Sem erros.

Mas a ideia de seres humanos nascerem pelas mãos de um autômato gerava um quadro mental forte demais até para os que possuíam a mente mais aberta.

Em meio à confusão ocasionada pela imprensa, teve tempo de observar um senhor carrancudo que parecia amaldiçoar tudo aquilo. Nutriu certa curiosidade a seu respeito.

Daniel conheceu Andrew em uma destas convenções. Apesar da distância mantiveram contato durante os anos que se seguiram.

Os dois cientistas já possuíam uma idade considerável quando o primeiro autômato manipulador genético foi instalado em um complexo científico localizado na área norte brasileira, em caráter experimental. Se tudo corresse bem, como era previsto, novas portas seriam abertas…

O projeto ‘Dandrew’ prosseguia em paz, após um início conturbado com ondas de protesto dia após dia, até que outro acontecimento desviou a atenção da mídia. Foi encontrada uma gigantesca esfera metálica no meio da floresta amazônica. Aparecera do nada. Não existiam vestígios das queimaduras características de reentrada na atmosfera terrestre. Simplesmente surgiu.

Um pequeno grupo encarou aquilo como um sinal dos céus. Era coincidência demais. Os extremistas prepararam um assalto ao laboratório, com o objetivo de encerrar suas atividades. Aquelas pesquisas não eram algo natural.

As câmeras aéreas de várias emissoras os cercaram. Os pequenos robôs voadores assustaram a fauna da região e acabaram por espalhá-la. Em pouco tempo os militares foram acionados para evitar o contato humano com o objeto desconhecido. Era preciso controlar a situação, antes que curiosos ou manifestantes contaminassem o local da queda.

A miliciência, bonito nome para o que tratava-se apenas do grupo científico militar, cercou a mata ao redor e iniciou os testes de radioatividade. O material que revestia a esfera era desconhecido. Os testes de Carbono 14 enlouqueceram e demonstraram números impossíveis.

Dispersaram de uma vez só as pessoas que insistiam em adentrar aquela área. Lembraram-se que havia um laboratório próximo, o que os obrigou a deslocarem uma equipe para lá.

Após estes fatos, nada extraordinário aconteceu. Alguns grupos permaneceram estudando a esfera e em questão de meses aquilo se transformaria mais em atração turística do que experimento científico. Enquanto isso, o primeiro autômato manuseava com relativo sucesso todos os aparatos necessários e adequados às suas funções.

Cientistas não costumavam festejar, mas Daniel convenceu Andrew a tirar umas férias e talvez mais tarde, quando o projeto estivesse concluído, conhecer as praias brasileiras. Preparou um evento particular e o convidou. Foi nessa festa que algo inusitado ocorreu.

Daniel notou uma agitação incomum nos seguranças que cercavam o jardim central. Depois dos últimos eventos, contratar uma equipe dessas fazia-se necessário. Tentavam em vão ajudar uma mulher que insistia em se esconder atrás das pequenas árvores ornamentais. Estava extremamente assustada, ainda mais por estar nua. Rapidamente retirou seu casaco e, afastando os seguranças, a cobriu. A garota acalmou-se por um instante. Andrew já estava um pouco “alto” àquela hora.

— Tirou a sorte grande, hein?

— Quieto Andrew… Ela parece estar em estado de choque…

A garota olhava de forma admirada para suas mãos. Daniel notou que ela tentava pronunciar algumas palavras incompreensíveis. Andrew suspirou “turistas”, esquecendo-se completamente de que era um deles, relacionando o fato aos eventos recentes. Foi ignorado logo em seguida por seu amigo.

— Ela precisa de alguma roupa. Vamos levá-la até o laboratório e depois avisaremos seus parentes. Será rápido.

— Assim que ela sair do… daquele negócio… Estado de choque.

A festa poderia esperar. Nenhum deles tivera coragem de mencionar, mas ela era muito atraente. O percurso não era longo e durante todo o trajeto ela não tirava os olhos de suas próprias mãos.

Daniel encontrou as roupas e jaleco de uma mulher de sua equipe e carregou no braço. Ficou de frente para ela e falou algumas frases. Encostou a mão em sua face e elevou seu rosto em sua direção. Ela olhou atentamente e agradeceu de alguma forma. Procurou explicar que era melhor passar a noite ali até que se recuperasse. Sem saber o que dizer, ela aceitou. Havia entendido como gentileza os gestos efetuados até agora. Fechou os olhos. Eles saíram…

… E então amanheceu.

Uma luz reconfortante penetrou vagarosamente por entre as janelas do laboratório. Era quente. O Sol desceu no decorrer dos minutos até encontrar o rosto da garota adormecida. Que sensação estranha era aquela… Abriu lentamente seus olhos e teve de fechá-los depressa. Uma lágrima escorreu. Levantou de sua cama improvisada e correu em direção à porta de saída. Ao abrir viu-se inundada por sensações desconcertantes jamais experimentadas.

Era uma luz forte, aquecida e… Amarela! Um Sol Amarelo!


III

Os tecnoeternos discutiam entre si. A distância era apropriada? A forma de deslocamento se comportaria conforme o esperado? A distância calculada por Keyra era absurda e ao mesmo tempo paradoxal.

— Isto vai além de nossos cálculos. É improvável que estes dados existam.

— Tenho certeza do que senti, Conselheiro.

Dedilharam mais algumas vezes nas telas vazias e encerraram a sessão.

— Nos veremos novamente daqui um mês.

Os dois se retiraram da sala e conversaram. Keyra, como há muito tempo não se via, permanecia entusiasmada.

— Yves, se você pudesse sentir o que senti lá dentro… A estrela gêmea é magnífica, amarela e tão… Tão…

— Não sei se gosto disso, Keyra.

Sua expressão mudou.

— Por quê?

— Os tecnoeternos nunca nos explicaram o que ocorreu realmente nos períodos ocultos.

— Antes de um bilhão?

— Isso… E ainda há o fato de serem paradoxais os dados que você encontrou.

— Se for para salvar nossa estrela, valerá a pena.

— Por que se importa tanto com isso? Se ela explodir, iremos para outra galáxia. A solução é simples.

— Não sei. Sinto que algo estranho está para ocorrer.

— Algo estranho?

— Você não entenderia. Desculpe, mas é a verdade.

Na cúpula principal, os Conselheiros buscavam a melhor forma para viajar tal distância. Neste caso, “forma” era literalmente a dimensão que o transporte deveria assumir. Acabaram definindo que uma esfera se adaptaria bem a qualquer distância percorrida, seguindo dados específicos repassados por um deles. Aquele projeto era de suma importância, principalmente para os nascidos naquela era.

A promessa de que “se o Sol explodisse iriam para outra galáxia” era verdadeira. Mas não dizia especificamente qual dos grupos teria essa chance. Viajar à velocidade da luz não era algo próprio para seres orgânicos. Seus corpos frágeis se desintegrariam em segundos. Somente os tecnoeternos sobreviveriam a uma viagem dessas.

Por isso trabalhavam há anos para descobrir o fator que ainda não haviam encontrado. Reiniciar a civilização não era uma tarefa fácil. O que faltava para que ela continuasse e evoluísse?

Keyra era sua última esperança.

E o mês passou rapidamente.

A esfera metálica ocupava um habitat inteiro. Todos os cosmocalculistas haviam trabalhado nela, com auxílio dos astroengenheiros, sob supervisão dos tecnoeternos do Conselho. Keyra entrou sob olhares curiosos. Yves sentiu que devia perguntar algo.

— Tem mesmo certeza disso?

— Tenho. Sou a única dentre todos que pode encontrar a estrela gêmea.

Um dos tecnoeternos se aproximou e disse, calmamente:

— Há pouca probabilidade de você voltar.

Calou-se por um instante e meditou.

— Já que posso não vê-los nunca mais, gostaria de fazer uma última pergunta.

— Faça. Se a informação requerida estiver em meu banco de dados, responderei.

— Qual é seu nome?

Aquilo deixou todos surpresos. Ninguém, jamais, sabia o verdadeiro nome de seus criadores. Eles apenas nasciam, encontravam seu grupo mais adequado, criavam ligações e contribuíam para o bem estar de sua comunidade. Como consequência, os grupos se desenvolviam, o planeta se desenvolvia e os mais adultos deixavam as questões existenciais de lado. Os tecnoeternos eram apenas mais uma classe de seres que habitavam sua terra natal. Os únicos mais respeitados eram os membros do Conselho — os mais velhos de sua classe, ainda ativos. Se perguntar o nome de seus criadores era desnecessário, perguntar o nome de um Conselheiro era um ultraje.

Devido às circunstâncias, ele respondeu.

— Não temos nome propriamente dito. Meu número de série é AMG I. A cada dez mil anos um de meus pares é construído. Está em nossa programação.

E, como se novas conexões neurais surgissem em seu frágil cérebro semitransparente, voltou-se para Yves e disse:

— Não se preocupe. Dará tudo certo!

— Como pode ter certeza?

— Porque… Eu JÁ FIZ isso!

A esfera envolveu-se em uma luz difusa e com o som de um relâmpago, desapareceu diante de todos. Imediatamente uma diretiva adormecida no complexo cérebro do tecnoeterno entrou em ação. O ano de quatro bilhões, novecentos e oitenta milhões e trinta, ficou para trás.


Keyra já estava ciente de algumas coisas, mas não de tudo. A máquina fora programada com os dados adquiridos por meio da sondagem mental. Com a tecnologia disponível, a viagem ocorreu sem maiores problemas. Exceto por um estranho fenômeno que a deixou desorientada por um longo período: sua estrutura celular parecia estar retrocedendo. Já não era mais transparente. Um solavanco a fez bater a cabeça.

Havia chegado? Mas nem saíra do lugar! Como era possível? As distâncias astronômicas eram absurdas, conforme seus próprios cálculos. Tocou nos controles. A porta derreteu a fim de liberar sua passagem. Saiu cambaleando. O ambiente ao redor era confuso, úmido e verde. Bem mais adiante havia luzes. Com a mão na testa esgueirou-se por entre aquelas estranhas estruturas. A esfera lacrou sua entrada.

Tinha que sair dali. Mas para onde iria? Parou um instante e olhou ao redor. Desvencilhou-se de galhos e avistou um buraco no meio daquela mata. Uma caverna?

Conhecia bem as cavernas de seu mundo e foi para lá que se dirigiu. Estava escuro e uma mistura de sensações percorria seu corpo. Entrou naquela fenda e ali permaneceu. Desmaiou. Sua mente não estava preparada para tal deslocamento. Sonhou com o razoável calor que o Sol Vermelho emitia, mas seu corpo sentia algo bem mais reconfortante.

Não sabia quanto tempo permanecera desacordada. Era noite novamente. Um barulho indescritível encheu de pavor seus sentidos. Estavam quebrando minerais no céu? Decidiu que era muito mais seguro se aproximar da luz. Saiu de seu esconderijo e correu. Seu corpo estava relativamente mais pesado.

A esfera ficou cada vez mais para trás. Às vezes tropeçava, levantava e continuava. Objetos não identificados riscavam sua pele. Sentia dor. Mas não permaneceria naquele lugar perigoso. A luz estava cada vez mais perto.

Tropeçou uma última vez e rolou morro abaixo. Para sua sorte aquele lugar estava limpo e forrado com grama.

Parou perto de uma luminária luxuosa. Levou a mão à cabeça. Quando aquelas criaturas tentaram segurá-la finalmente olhou atentamente para suas mãos. Estavam recobertas por pele! E entrou em estado de choque, até que alguém pronunciou alguns ruídos estranhos e a cobriu com um artefato de textura macia…

Depois disso acordou em cima de um retângulo confortável, onde uma luz quente desenhava caminhos tortuosos. Um rosto! Teria sonhado? Abriu lentamente seus olhos e teve de fechá-los depressa. Uma lágrima escorreu. Levantou de sua cama improvisada e correu em direção à porta de saída. Ao abrir viu-se inundada por sensações desconcertantes nunca antes experimentadas.

Era uma luz forte, aquecida e… Amarela! Um Sol Amarelo!


IV

Daniel chegou antes de Andrew e a encontrou lá fora, deitada sobre a grama baixa do único jardim do complexo. Seus braços estavam abertos e parecia aproveitar bem a luz solar. Queria se bronzear, talvez. Sentou ao seu lado e tentou iniciar um diálogo.

— Então… Sente-se melhor?

Levantou assustada, mas ao gesto da mão de seu salvador, parou. Ela reconheceu aquele rosto. A mão foi direcionada para o solo, ao seu lado. Sentou-se cautelosamente. Era difícil entendê-lo. Aquela linguagem parecia muito o “antepassado”, um conjunto de letras e símbolos que formavam um som específico. Estudavam quando eram crianças, mas somente os tecnolinguistas a dominavam.

— Não sei se consegue me compreender. Você entende o que estou dizendo?

Fez alguns gestos em língua de sinais.

— Eu… Sol… — Disse, enquanto procurava se lembrar de outras palavras.

— Você gosta de estar ao Sol? Creio que sim. Também gosto.

Assentiu com a cabeça e sorriu. Daniel estava satisfeito por ter feito uma boa ação em meio à enxurrada de críticas e desavenças que recebia todo dia.

Daniel estendeu sua mão e a convidou para visitar as instalações. O contato gerava uma sensação incomum, mas agradável. Todos aqueles equipamentos e maquinários pareciam extremamente antigos aos seus olhos.

Lembrou-se de sua missão original. Aquele planeta do Sol Amarelo possuía uma cultura desconhecida. Era preciso aprender. Mas por que falavam o “antepassado”?

Um das alas chamou-lhe a atenção. Instintivamente segurou seu braço enquanto observava aquela máquina trabalhando com tubos de ensaio e componentes químicos. Não poderia estar enganada. Aquelas três esferas vermelhas sobre uma face triangular, ombros largos onde se encaixavam dois braços de cada lado no tronco em forma de trapézio, terminando em um conjunto tracionado de rodas. O autômato virou-se e se ainda restavam dúvidas, esvaíram-se como poeira de estrelas.

Estava escrito em suas costas, em letras maiúsculas: AMG I.

Então tudo fez sentido…

O que havia encontrado era na verdade ecos de sua própria galáxia em tempos remotos. Por este motivo os cálculos eram tão paradoxais. E por este mesmo motivo nunca mais poderia voltar. Aquele não era outro Sol em outra galáxia. Nunca existiu uma estrela gêmea. Era o mesmo Sol!

Definitivamente ela estava no passado!


Levou um tempo até que se entendessem plenamente, mas Daniel e Andrew acabaram compreendendo que ela não tinha família ou amigos. Este foi um dos motivos pelo qual decidiram oferecer um emprego fixo no laboratório, como residente. Daniel e Keyra tornaram-se próximos, o que, para Andrew, não fazia muita diferença.

Keyra demonstrava um estranho respeito pelo autômato — o qual seria, em um futuro muito distante, um de seus prováveis criadores. Obviamente não poderia contar-lhes toda a verdade. Jamais acreditariam. Procurou aprender tudo sobre o projeto ‘Dandrew’.

Se ela ainda estava ali era porque o ciclo não havia sido quebrado. Sua desistência poderia ocasionar um desvio no contínuo original, e de algum forma, aquele futuro do qual viera poderia nem existir. Mas ainda precisava descobrir como salvar o Sol… Como faria isso trabalhando de auxiliar de laboratório na Amazônia?

O autômato a observava com certo interesse. Nova funcionária, novos costumes. O fato era recíproco. Chegou mais perto.

— Como é seu nome?

Ela deu um passo para trás. O futuro tecnoeterno esperou.

— Keyra…

E só então seu lado cosmocalculista despertou. Aquela informação poderia alterar tudo. Aproximou-se mais e procurou acompanhar o que estava fazendo. Era necessário que ele apagasse aquele dado específico de seus registros. Foi direto ao assunto.

— Onde pretende chegar com estes resultados?

— Um ser humano mais bem adaptado às condições terrestres.

Ou crianças com habilidades especiais em alguns bilhões de anos — pensou. Os cosmocálculos entraram em ação e se espalharam através de seus neurônios. Aquela evolução só teria efeito até o ano dez mil. Depois disso existiam dados incompletos. Mas o que teria ocorrido? Os cálculos do futuro tecnoeterno eram perfeitos. Arriscou uma última pergunta.

— Caso a evolução pretendida encontre alguma barreira, qual diretriz você seguirá?

— Dar o próximo passo.

Dar o próximo passo? Mas o que isso queria dizer? Resolveu deixá-lo trabalhando. Daniel a esperava para jantar ao pôr do Sol. Ela adorava aquela sensação. Estava apaixonada, só não entendia.

A luz solar desceu o horizonte suavemente, até tornar-se vermelha. Sua face sempre mudava ao presenciar o final da cena. Introduziu o assunto de forma tão repentina que o assustou.

— Daniel, o que a expressão “dar o próximo passo” significa?

— Bem…

Não sabia como se expressar. Tossiu um pouco e continuou.

— Em um relacionamento significa ir mais a fundo, passar mais tempo juntos… Casar-se… Repartir o mesmo lar… E… Dormir juntos. Mas, se você se refere ao jargão científico significa “encontrar outra solução”. Em suma, testar a hipótese seguinte para a solução do problema.

Ela levantou de uma vez só da mesa, deixando a xícara cair.

— Keyra? O que houve? Se foi algo que eu disse, me desculpe!

Mas os gestos não tinham nada a ver com ele. Aquilo significava muita coisa. O autômato deixaria de produzir humanos, devido a sua estrutura frágil, e passaria a criar seus irmãos — a futura classe dos tecnoeternos. O próximo passo. No entanto, eles precisariam existir. Ou ela nunca teria nascido. Ou terá nascido. Estava confusa. Sentou-se novamente.

Daniel a convidou para ir à sua casa e relaxar, visto que ela nunca saía. Keyra aceitou. Já eram bastante íntimos para isso.

E, naquela noite, quando dormiram juntos, instintos adormecidos em seus genes há mais de quatro bilhões de anos finalmente despertaram. Clareando sua mente, compreendeu plenamente o que deveria fazer para salvar o Sol Vermelho — que já não era tão importante quanto a salvação de sua espécie.

Então, amanheceu…

Keyra chegou cedo ao laboratório. Não havia ninguém. Encontrou o autômato e iniciou uma conversa hipotética sobre o futuro. Pediu que arquivasse tudo em seu banco de dados e jamais revelasse a informação. Nem seu nome deveria ser pronunciado quando o período chegasse. Deixou apenas uma instrução fixa, de suma importância. Era vital que não ocorressem quaisquer erros no que havia dito por último.

“… No ano quatro bilhões, novecentos e oitenta milhões, uma garota especial irá nascer. Você poderá nomeá-la como desejar. Não entrarei em detalhes, mas uma descoberta exigirá uma cosmocalculista — você saberá o que isso significa no tempo certo. Ela deverá ser escolhida. Após isso, uma máquina terá de ser construída seguindo as especificações da esfera que se encontra neste momento no meio da mata… Mais uma coisa. Isso é importante. Essa esfera precisa conter um mecanismo que faça a garota escolhida assumir uma forma completamente humana, tornando possível sua sobrevivência aos raios de Sol desta geração.”

A mente avançada do autômato assimilou rapidamente as informações. Os cálculos apresentados estavam corretos. Keyra voltou ao trabalho. Suspirou de alívio.

Estava particularmente feliz ao ver Daniel naquela manhã. Correu e o abraçou, gesto que o surpreendeu. Arrastou-o para o jardim e o fez deitar ao seu lado.

O Sol Amarelo… Era lindo. Quente, aconchegante, reconfortante…

Estavam certos. Yves estava certo. A solução era simples. O futuro estava salvo e agora ela poderia desfrutar exatamente do que faltava no longínquo ano de cinco bilhões: o contato humano, sua criatividade e, principalmente, filhos. As mentes estagnadas dos autômatos haviam perdido seu diferencial: uma mente humana que as guiasse para além do óbvio, além do certo e errado, do zero e um.

Atravessar a galáxia não era problema para quem persistia em sonhar…


V (Os períodos ocultos)

No ano de dez mil e um, apesar dos avanços científicos, a humanidade começou a definhar, contrariando as expectativas.

O Sol estava diferente. A alteração era quase imperceptível, mas a radiação aumentou em pequena escala. O projeto ‘Dandrew’ prosseguia ativo e com sucesso. O autômato AMG I já estava responsável por um terço do banco genético do mundo. Mas era um trabalho exaustivo, mesmo para uma máquina. Foi nesta época que AMG I deu início à construção de sua versão dois, seu irmão. Mais avançado, mais capacitado, mesmas memórias. Apenas um cérebro diferente.

Levaria tempo, mas isso ele tinha de sobra — fato que o levaria posteriormente a denominar seus irmãos de “tecnoeternos”. Caso apresentassem falhas no sistema ou peças desgastadas, poderiam consertar a si próprios. Foi a partir deste ponto de vista que AMG I deu o próximo passo, mas de forma diferente. Os humanos estavam fadados à extinção e não havia recursos na época que pudessem abreviar este fato. Guardou em seu banco de dados as informações e os materiais genéticos disponíveis.

No ano vinte mil, seu terceiro irmão foi criado e o embrião do que viria a ser o Conselho estava completo. Os humanos restantes já trabalhavam na teoria e prática de viagens espaciais para dentro e fora da galáxia. A constituição da esfera encontrada e os estudos relacionados a ela finalmente demonstravam seus primeiros frutos.

Os autômatos AMG II e AMG III ficaram interessados na questão. O Sol explodiria aproximadamente em quatro bilhões, novecentos e noventa e nove milhões e novecentos e oitenta mil anos segundo seus cálculos e, tendo a certeza de que não conseguiriam fazer nada para atrasar ou parar esta força cósmica, sair da galáxia parecia ser a melhor opção, enquanto podiam.

AMG I não gostava da ideia. Sair da galáxia não estava nos registros do contínuo. O que aconteceria se, antes do ano um bilhão, todos saíssem de seu planeta natal e viajassem até uma galáxia distante, deixando a Terra vazia? Conhecia os fatos pós-bilhões, mas não os anteriores. Estava confuso e não poderia contar com a ajuda de seus irmãos. A humanidade precisava existir por mais alguns anos para que tudo fosse esclarecido.

Mas eram tão frágeis. O Sol começava a lhes fazer mal.

Então, a pergunta que costumava assombrar os cientistas surgiu na mente de AMG I: “E se?”

Modificou algumas características genéticas e iniciou seus testes.

No ano trinta mil, as primeiras naves estavam prontas. No entanto, infelizmente, a radiação eliminou o que restara da humanidade. AMG I buscava uma cura para aquela anomalia. Realizava várias experiências, com pouco sucesso.

Seu irmão mais novo, AMG IV, estava à frente do projeto relativo às naves. As consequências que isso traria poderiam ser irreparáveis. Eles deveriam achar um meio de trazer a raça humana de volta e não somente avançar em tecnologia. O problema é que apenas AMG I pensava assim.

Enquanto continuava a estudar a radiação, suas cópias abandonaram completamente a tarefa, se dedicando apenas à exploração tecnológica.

O que fazer já que eles eram eternos? Somente uma medida extrema os conteria. O problema é que as viagens espaciais seriam atrasadas em bilhões de anos. Teria este direito?

A solução estava na esfera. Era a única superfície grande o bastante para reverberar um pulso eletromagnético que desligaria tudo por incontáveis anos. Inclusive eles, no processo. Era bem arriscado. Buscou informações de mais de vinte e sete mil anos atrás. Uma garota esbelta compartilhou uma história interessante, hipotética, sobre um futuro regido pela genética. Se ela havia pedido especificamente para ele escolher uma pessoa em um evento futuro, era certo que ele também deveria estar lá. Acima de tudo, lógico.

No ano trinta mil e cem, uma explosão de magnitude inimaginável desintegrou a esfera. Fortes e incríveis relâmpagos azuis impediram a entrada da luz do Sol por alguns minutos. A onda de choque foi tão grande que varreu toda a vegetação local. Todas as tecnologias que estavam em operação cessaram no mesmo instante. Os autômatos foram desligados. As naves estavam destruídas. E o sonho… Perdido.

Seguiu-se uma era de escuridão.

Por aproximadamente novecentos milhões de anos, a Terra permaneceu vazia. Um silêncio como há nunca se via. O planeta estava vazio.

No ano um bilhão, muito tempo após a Terra ter se recuperado, o primeiro autômato acordou de seu sono profundo. A primeira diretiva entrou em ação. Passou a consertar seus irmãos. Não sabiam onde estavam; quem os havia construído e para quê. Algumas informações estavam completamente dissolvidas devido ao tempo, como o projeto de viagens espaciais ou o fato de terem sido atingidos por uma onda desconhecida. Mas, como foram construídos com uma liga de material resistente, o banco genético permaneceu intacto em seu interior.

A estrela próxima brilhava de forma estranha. Segundo seus cálculos, ela explodiria em quatro bilhões de anos e os levaria consigo.

Aí estava seu novo objetivo: curar o Sol. Ou quem sabe, sair dali, viajando para outras galáxias. De alguma forma este último pensamento não agradava AMG I.

Quando se tratava de viagens espaciais, os cálculos eram irregulares por algum motivo. Precisavam de ajuda. Algo que transcendesse os dados necessários… Algo que expressasse… Criatividade. Recorreram ao banco genético.

E assim, os primeiros seres humanos adaptados à nova luz solar vermelha nasceram. Sua constituição era semelhante, mas sua pele semitransparente. Cada um era criado de acordo com a característica necessária para a execução de determinado trabalho. Deveriam agir em conjunto para o bem estar de todos. Conhecer sua história a partir de um bilhão era um requisito indispensável. Não existiam segredos. Quando alguém insistia em perguntar de onde os autômatos vinham, simplesmente informavam que eram eternos. Haviam acordado e iniciado seu plano de evolução. Não existia nada antes.

Mais tarde isso veio a se tornar a lenda dos períodos ocultos.

De vez em quando, muito raramente, nascia uma criança especial — capaz de cálculos complexos e ao mesmo tempo demonstrar sentimentos inexplicáveis. Os autômatos não possuíam nome, mas como precisavam chamá-los de alguma forma, inseriram um número de série em cada novo membro daquela sociedade. A primeira criança especial veio a ser uma cosmocalculista, que ganhou a seguinte denominação: CG0.999/KYR.

Aquele nome lembrava alguma coisa, mas não conseguiam acessar os dados perdidos. A imagem mental de uma esfera vinha à sua mente cada vez que pronunciavam este número de série. Era importante demais para ser ignorado. Assim, cada criança que nascia com aquele código genético específico era nomeada como CG0.999/KYR, até que aquilo fizesse sentido algum dia.

A última CG0.999/KYR nasceu no ano quatro bilhões, novecentos e oitenta milhões. Recebeu um nome peculiar: Keyra. Aquele nome lhes soava familiar. Pelo menos era o que um ínfimo byte na mente de um tecnoeterno insistia em “dizer”.


VI (O futuro)

Após a esfera partir, AMG I sentiu uma agulhada nos sensores de personalidade. Havia uma nova ordem: as novas crianças deveriam nascer de forma natural. Permaneceu imóvel por vários minutos, processando os dados. A informação tinha um “peso” de quase cinco bilhões de anos. Os outros autômatos se entreolharam. Os jovens que estavam ao redor ficaram perplexos. Um tecnoeterno poderia ficar doente? Mas não era nada assim. Voltou à ativa. Recuperou-se.

E o futuro também.

O sonho, que havia sido interrompido abruptamente e de forma tão cruel, poderia surgir e crescer novamente. O sistema solar já não era o bastante para aquelas mentes tão desenvolvidas. A galáxia estava de volta às mãos originais. Não pertencia especificamente a Andrew, nem a Daniel, nem a Keyra, e muito menos aos autômatos. Pertenciam à nova humanidade.

O ciclo estava completo. E um novo teve início.

Victor Oliveira de Faria
Victor Oliveira de Faria
Victor Oliveira de Faria é natural de Caxias do Sul/RS e possui 31 anos. Atualmente vive em Santa Catarina, exercendo a função de assistente administrativo. Há mais de dez anos escreve e publica seus contos em sites de literatura, sob pseudônimo. É entusiasta do gênero ficção científica e procura divulgá-lo.

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Um comentário

  1. Augusto Borges / 13 de abril de 2014 at 20:06 / Responder

    História maravilhosa! Daria um livro excelente, tem muita riqueza de conteúdo aí, daria facilmente um livro de 300 páginas, que nos permitiria ter o prazer de muito mais contato com estes personagens, enredo e ambientes criados pelo autor.

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