Cirro

1

Algumas gotas do xarope de bordo escorrem pela lateral das duas panquecas e encostam no prato, fazendo uma pocinha viscosa que nauseia Niang ainda mais. Ela flexiona os dedos nas têmporas, movimentos circulares, respira com toda a calma que consegue reunir. Debra come em silêncio, tentando não observar sua esposa. Existe uma pontada de arrependimento em ver panquecas tão boas sendo desprezadas — e sabe que engordará ainda mais se colocá-las em seu prato já com sua dose matutina —, mas não consegue evitar servi-la como sempre teve prazer em servir.

“Você precisa comer, anjo”, diz enfim, quando tudo que Niang conseguiu fazer nos últimos minutos foi massagear a cabeça e suspirar em resignação.

Os olhos curtos da chinesa se abrem com dificuldade, como se eles — e não ela — não quisessem ver sua amada. Estica o braço, sua mão enrugada engatinhando pela toalha da mesa, ignora a jarra de bordo que a separa de Debra e encontra aquela mão nove anos mais jovem. “Eu preciso tomar um pouco de ar”, comenta como se precisasse de alguma permissão para fazer isso em seu próprio lar. Debra aquiesce com a cabeça, os rolinhos loiros tremendo feito molas com o movimento. A cadeira range quando Niang se afasta da mesa, agarrada à bengala que repousava ao seu lado. Seus passos também rangem, lentos e tensionados. Os joelhos se recusam a dobrar propriamente. Os praguejos são inevitáveis.

Niang atravessa a sala de estar enquanto um acesso de tosse a atravessa. Repara no aparelho de rádio desligado sobre a prateleira, junto a tantas fotografias de sua juventude inacessível — de um mundo inalcançável. Vai até ele, seu dedo correndo pelas curvas empoeiradas na madeira. Gira o controle de volume até o mínimo e, após olhar para os lados com suspeição, liga o rádio. Aproxima seu ouvido do alto-falante, da voz incompreensível, e parece um pouco mais surpresa do que nos outros dias em que fez isso.

Dirige-se à varanda após desligar o aparelho. Senta-se em uma cadeira igual à da mesa de jantar — o jogo de quatro cadeiras foi dividido para que duas servissem de apoio para os dias ao ar livre. Não é como se elas tivessem visitas, mas Niang há tempos não se censura pela solidão. Acende um de seus cigarros já preparados, tosse mais um pouco e observa a fumaça que se liberta da boca. Ao horizonte, árido e acinzentado, um carro em marcha a ré cruza a estrada mais próxima de seu chalé.

Debra abre a porta da frente, encontrando sua esposa e sentando-se na outra cadeira de não-jantar. Carrega consigo uma pequena bandeja repleta de pedaços de bolo de milho. Mastiga sem dizer uma palavra, observando o mesmo carro que não desiste de sua marcha reversa.

“Você está ansiosa”, Niang diz de súbito. Olha para Debra e encurta um sorriso que antigamente seria muito mais jocoso.

“Muito”, ela responde com a boca cheia.

“Deve ser horrível ficar ansiosa em meio a tanto ócio.”

“Acho que ainda preciso de mais alguns anos de vida pra me acostumar.”

Niang afasta seu olhar para o horizonte mais uma vez. “Você terá muito tempo depois que eu morrer.”

“Não me lembre disso.”

“O câncer está me comendo pelo avesso.”

“Você sabe que eu morro assim que você morrer, certo?”

“Talvez seja o melhor pra nós duas.”

“Eu já tô fazendo hora extra, anjo”, e Debra oferece sua bandeja. Niang arrisca petiscar um pedaço de bolo. Um caminhão em marcha a ré aparece na estrada.


Alguns anos atrás, ou à frente, um carro desvia do asfalto para correr pela terra amarelada onde o chalé de Niang foi construído. Uma névoa poeirenta sobe para todas as janelas, dificultando a visão do homem que dirige o automóvel. “Não acredito que ela mora aqui”, diz para seu chapéu-coco no banco do passageiro, olhando as estruturas metálicas e fios a uma distância segura em torno da casa de madeira. Encara a garrafa de vinho ao lado do chapéu, uma cortesia boba que trouxe para sua ex-colega, e começa a duvidar da sanidade de uma mulher que já julgou ser a mais inteligente do mundo.

Acho que eu vou precisar desse vinho mais do que ela depois dessa tarde. Estaciona o carro e sente esse impulso de dar meia-volta e retornar aos braços de sua esposa grávida. Vê a minúscula fotografia de Vanessa em seu retrovisor e acaricia seu rosto tão avermelhado, o sorriso estalado sob aquele calor sulista. Nunca amou tanto alguém, talvez nunca tenha amado antes dela.

Então sai do carro. Veste o chapéu-coco e empunha a garrafa de vinho procurando por algum sinal de vida nas janelas sujas. Realmente terá que bater na porta, então sobe o pequeno lance de escadas e fecha o punho livre. Ergue o braço e dá pequenos petelecos na madeira com os nós dos dedos. Silêncio. Um silêncio ruidoso, diga-se: o vento chacoalha os lençóis limpos estendidos no varal, fazendo o farfalhar místico de uma ave gigantesca. Uma harpia, talvez, ou um grifo. Ele percebe que o chalé tem uma composição maciça, por mais malcuidado que esteja. Pisa com certa força e seus pés encontram uma resistência que, pensa, esses apartamentos recentes com certeza não oferecem. O seu é uma espelunca de paredes de gesso que se passa por vanguarda. A modernidade está cada vez mais frágil.

Bate mais algumas vezes na porta. Encolhe-se no paletó que já respira a poeira do ambiente. Sente uma pequena película de suor sob seu bigode e começa a se abanar com o chapéu. Há uma pequena e desigual trilha de formigas passando por baixo de seus sapatos, desordenadas como se confusas com sua presença. Elas logo se reorganizam em uma trilha curva quando ouvem os curtos passos por trás da porta. Fechaduras vão sendo destrancadas, um assovio fraco saindo da boca de Niang que, a tão pouca distância do sr. Greene, parece não fazer grande caso diante da situação, mesmo sendo a primeira visita que recebe nos últimos dois anos. Puxa a porta e encontra aquele senhor bigodudo, vermelho de calor, o chapéu-coco levando suas madeixas descuidadas para o lado. Sorri até todas as suas rugas afundarem ainda mais.

“Não pensei que viria, senhor Greene.”

“Você me conhece melhor que isso, Niang”, comenta com uma mesura antiquada. Aperta a mão da anfitriã e estranha a velhice precoce em sua pele antes tão corada. O tempo não foi generoso com Niang, presume. “E, por favor”, adiciona ao adentrar a casa, “me chame de Tom.”

“Como desejar, Tom Greene”, ela desafia, sempre dócil.

Greene não consegue identificar o cheiro que sente ali dentro. É como se estivesse dentro de um livro velho, corroído, onde o ar oferece tanta resistência quanto as estruturas de madeira. No centro disso tudo, café fresco fumegando aos fundos, na cozinha simplória e atulhada de caixas.

“Pode se sentar”, Niang diz, estendendo o braço em direção a uma poltrona encapada com um lençol escuro. Dirige-se ao aparelho de rádio sobre a prateleira — as mesmas fotografias decoram suas laterais — e sintoniza uma emissora que toca Elvis Presley. “O que você acha dele?”

“Elvis? Bem, não dá pra fugir dele hoje em dia”, Greene responde.

“Ele faz com que eu me sinta velha. Mais do que já sou, digo”, comenta indo à cozinha, sem tomar conhecimento do visitante. Vasculha armários até encontrar duas xícaras onde despejar seu café.

“O sucesso não aguenta a velhice, ele sempre tem que se renovar.”

“E por isso acaba ficando no mesmo lugar. Escuta, o que é isso em seu colo?”

Greene se espanta com sua própria descortesia. “Ah, sim! Um presente”, e levanta a garrafa de vinho. Niang posiciona uma das xícaras sobre um pires e a leva para a sala, trocando-a pelo agrado alcoólico. “Lembro de você gostar desses mais doces.”

Ela rotaciona a garrafa em suas mãos, as sobrancelhas erguidas. “Claret… olhe só. Espero que você presenteie sua esposa do mesmo jeito que me presenteia.”

“Ela que escolheu, na verdade.”

Niang gosta do que ouve. Deixa o vinho sobre o balcão e leva sua própria xícara de café para a sala de estar, sentando-se de frente para Greene. “Me conta mais sobre o presidente Diêm.”

“Primeiro-ministro, na verdade.”

“Ah, sim.” Niang tenta soar interessada, mas os olhos estão cansados de brilhar. “As emissoras de rádio estão bem ruins com as informações que passam.”

Greene beberica em sua xícara. O ardor do café adormece a ponta de sua língua. “Algumas até querem ser ruins.”

“O senhor… você parece cético, Tom.”

“Ando com a cabeça um pouco cheia”, ele responde. “Por mais que as coisas estejam mais tranquilas sem o Stalin por aí… enfim, o Diêm. Ele parece bem disposto a nos acolher.”

“E os Estados Unidos vão porque lhes é conveniente.”

“O pessoal da Fundação adoraria te conhecer. Precisamos de gente um pouco menos patriota por lá.”

Niang olha para as próprias unhas roídas, desinteressada. “Foi o que eu te disse naquele telegrama: vocês estão todos cegos. O Vietnã ainda vai causar muitos problemas para os Estados Unidos. A Rússia também, com ou sem Stalin.”

“É por isso que precisamos de gente que não fala ‘América’, na minha opinião”, Greene diz. “O mundo precisa ser visto… de fora.”

Ela se levanta e se oferece para levar a xícara vazia de Greene. Ele acata enquanto a ouve comentando algo incompreensível, talvez cantando em conjunto às ondas de rádio. “Alguém sabe que você está aqui?”, Niang questiona, sustentando o semblante leve.

“Ninguém.”

“Posso confiar em você?”

“Pode?”, e dentes amarelados surgem por baixo do bigode de Greene. Niang reage ao sorriso escarninho com impassividade, voltando ao sofá.

“Sei que são tempos difíceis, mas não gosto de meias-palavras.”

“É claro que você pode confiar em mim, Niang. Você me conhece melhor que isso.” Greene está visivelmente desconcertado com aquelas rugas e Niang sabe disso.

“A última vez que te vi foi há cinco anos”, ela comenta. “Cada fração de segundo é uma mudança. Você não é o mesmo Tom que entrou por essa porta”, diz apontando para trás.

“E com certeza não serei o mesmo ao sair daqui, mas não temos tempo pra papo furado”, ele retruca, já acostumado ao aroma insalubre, à situação insalubre, à sua ex-colega tentando se passar por salubre. “Há gente querendo saber o que você está fazendo por aqui.”

“Fiquei feliz da Fundação não ter enviado qualquer pastiche de espião para minha casa”, Niang resmunga. “Eles tiveram a decência de enviar um conhecido.”

“Estou aqui mais como um auditor”, Greene tenta apaziguar. “Você ainda tem vínculos com o governo americano, inclusive vínculos financeiros.”

Ela se ergue mais uma vez, os dedos das mãos estalando entre si. “Bem, os Estados Unidos têm que me ressarcir de alguma maneira, não?”

“Com certeza. Ninguém cortará seu seguro. Mas você não é uma senhorinha aposentada ou um garoto que perdeu uma perna: você é importante para a América.” Greene aperta o chapéu-coco em suas mãos e sabe que não consegue soar convincente.

“Tom, você sabe que…”, e o corpo de Niang tremula como uma chama ao vento. Apoia-se na prateleira e quase derruba um porta-retrato. A respiração se arrasta, o fio da conversa se perde. A primeira coisa que vê são os olhos arregalados de Greene, abalado com o desequilíbrio repentino. “Às vezes acontece. Não muitas vezes. Enfim, você sabe que eu e você… nós somos armas dos Estados Unidos. Somos armas que constroem outras armas.”

“Você sabe que a América é grata por…”

“Os Estados Unidos.”

Greene respira fundo. “Os Estados Unidos são gratos por tudo que…”

“Ninguém tem gratidão por uma arma nuclear.”

“Você poderia parar de me interromper.”

“Poderia.”

Niang está a cada frase mais insalubre.

“Eu não quero um Eisenhower de pelúcia sentado em minha poltrona apontando para mim e dizendo uma seleção de frases programadas”, ela diz. “Você não precisa me comprar com o que eles disseram para você me dizer.”

“Eu só quero saber o que está acontecendo contigo.” A voz de Greene soa cheia de auto-piedade. É o ex-colega, e não o auditor, falando através daquela boca.

“Se eu te contar, terei que te matar.”

Niang arreganha um sorriso pouco efetivo. Greene se levanta e afasta seu paletó bege para trás, exibindo o coldre suspenso em seu ombro. “Eu sei que você anda armado”, ela diz, entediada. “Eu te conheço melhor do que isso.”

Ambos se dirigem à varanda. Descem a escadaria e encontram o solo poeirento e áspero onde o chalé foi firmado. Greene sente os pedregulhos querendo furar a sola de seus sapatos e os amontoados de poeira que rastejam sob eles.

“Estou morrendo, Tom”, começa enquanto andam sob os grossos fios que, muitos metros acima deles, ligam uma torre metálica à outra.

“Câncer?”

“Já era de se esperar.”

“Nós temos alguns remédios para isso.”

Niang apoia seu joelho no chão e ignora Greene completamente. Ele percebe um pequeno ramo verde que desponta da areia, duas folhinhas escuras que sua ex-colega acaricia com afeto quase materno.

“Não quero prolongar minha vida, Tom”, diz enfim, já se erguendo mais uma vez. Aos fundos da grande residência, encontram ramos, árvores e arbustos organizados em longas e meticulosas fileiras. “Já contribuí o bastante para a civilização, para esse século.”

“Essas torres à nossa volta dizem o contrário.”

“Não é como se eu fosse esperar minha morte tricotando.”

“Mas você ainda quer contribuir para esse século”, Greene insiste.

“Vamos chamar isso de… projeto pessoal”, e Niang coloca as mãos nos bolsos folgados do casaco. Aperta os olhos e tenta, sem óculos, enxergar as últimas torres ao longe, onde demarcou após anos de cálculos. “Um projeto que vai ter reflexos na sociedade, mas ainda assim um projeto pessoal.”

Param. Estão entre quatro blocos de plantações maduras: milho, trigo, ervas e frutos diversos. Um pouco além da encruzilhada, uma área alagada reserva um arrozal modesto e um arranjo de placas negro-azuladas. Greene consegue avistar um poço à esquerda dos fundos da casa, assim como mais placas presas ao que consegue ver do telhado.

“Energia solar?”, ele pergunta. “Você parece estar investindo seu seguro muito bem.”

“Consigo quinze por cento com elas”, comenta.

“Ninguém consegue quinze por cento. Nem a Bell. A deles consegue seis.”

“Eles não têm o meu tempo livre”, ela ri para si mesma. “Pois bem. Bem-vindo à minha horta.”

“Espero que seu projeto pessoal não seja isso”, Greene debocha.

“É uma parte dele. Uma parte importante, na verdade. Tem o poço ali, as placas solares… tudo para manter uma subsistência independente.”

“Se o seu plano é se isolar da sociedade, você está tendo muito êxito nele.”

Niang ignora os comentários ácidos. Afasta-se de suas plantações e vai ao encontro de um aro enferrujado, camuflado no solo. Puxa-o com força até que uma abertura retangular se abra abaixo dele. Chama Greene para entrar junto dela no alçapão. “É aqui que a aventura começa”, diz.

Logo que já estão abaixo do nível do solo, Niang puxa a porta e deixa-os em completa escuridão. Ouve-se um clique e a grande escadaria e corredor são iluminados por lâmpadas fluorescentes que acendem, duas por vez.

“Você é a única pessoa que já entrou aqui além de mim”, ela diz, descendo as escadas com passos delicados que ressoam, metálicos, no tubo acústico. “Claro, além dos trabalhadores que construíram esse lugar. Mas, sinceramente, não acho que você está preparado para o que verá.”

Greene se mantém em silêncio. Percebe que existe uma fagulha de empolgação nos olhos de Niang ao deixá-la discorrer sobre o que quer que ela esteja tramando além desse corredor.

“Esse é um trabalho de anos”, ela comenta, apertando um botão que abre a porta de um elevador modesto. Greene tem que apertar seu corpo contra as laterais dele para não acabar grudado a Niang. “E existe um motivo muito especial para ninguém conhecê-lo.”

“E qual seria?”

“Ninguém aprovaria”.

Já no andar inferior, uma sensação claustrofóbica obriga Greene a sair do elevador antes de Niang. Desamarrota seu paletó, ajeita o chapéu-coco em sua cabeça e olha para onde está. Deixa o queixo cair.

O grande laboratório, com um pé-direito tantas vezes maior do que o do chalé, tem um primor quase obsessivo pela harmonia visual. Tudo é fluorescente, acinzentado, sóbrio. Há camadas de poeira, no entanto, especialmente onde Niang não alcançaria sem a gigantesca escada retrátil que repousa à sua direita. O centro reserva um maquinário complexo cheio de tubos conectados ao piso, enquanto uma das paredes está coberta por computadores dispostos em cinco níveis diferentes, todos interligados e piscando suas luzes e alavancas. Ainda há espaço para uma miríade de livros empilhados sobre um balcão e outras portas que, pelas sinalizações, parecem levar para cômodos como banheiros e quartos — como se Niang morasse ali embaixo e o chalé fosse apenas um simulacro, um disfarce.

Apesar disso tudo, e da improbabilidade de apenas uma pessoa conseguir gerir algo de tamanha magnitude, o que calou Greene foi ver Debra após tantos anos.

“Eu tinha vinte e três anos quando vim para os Estados Unidos”, Niang diz como se tivesse ensaiado tais palavras. “Debra foi meu alicerce, até mesmo minha salvação. A única pessoa que se importava com a vida que deixei para trás, que perguntava sobre meus pais, minha irmã.” Anda com as mãos cruzadas atrás do corpo, passos mais altivos do que no chalé acima. “Lembro de como ela parecia nunca desviar o olhar de mim enquanto eu contava sobre minha infância, sobre meu primeiro namorado, ou sobre quando quebrei o pé na escada de casa.”

Niang sobe outro lance de escadas que leva ao gigantesco cilindro onde Debra está. Coloca a palma de sua mão sobre o vidro, vê-se no reflexo do líquido amarelado que a envolve. “Você é daqui, Greene. Você nasceu nos Estados Unidos. Você não sabe o que é se sentir apenas uma arma importada. Eu soube… sempre soube. O convite para o doutorado não foi à toa. Eles me queriam fora da Ásia antes que a guerra estourasse de vez, e já sabiam há tempos que isso poderia acontecer. Albert sabia, pelo menos.” Desiste de seu rosto translúcido e encara Greene com os olhos curtos, desdenhosos. “Ele também sabia que eu iria para Berkeley. Provavelmente sabia de você em Princeton. Mas você só foi usado; eu fui fabricada para a guerra. Pode se aproximar, Tom.”

Greene inspira com força. Olha com receio para as portas entreabertas à sua volta e tenta ao máximo ignorar Debra. Suas mãos percorrem as grades no entorno do equipamento irreal, reluzente e asséptico demais para o mundo que conhece. Vê as engrenagens repousando, seus dentes pontudos como os de serras.

“Não precisa ter medo”, Niang itera sem esconder a superioridade. “Isso é parte da família.”

“É impossível… não sentir medo do que… do que não conhecemos”, ele responde com vergonha, sentindo os joelhos querendo dissolver a cada passo na escada.

“Ainda é melhor do que temer o que conhecemos”, ela comenta. Estende a mão para que Greene a acompanhe na estreita plataforma circular. “A guerra é algo temível, talvez por ser tão conhecida, ou tão… óbvia.”

Um gosto ácido de bile e café se aloja na base da língua de Greene. Algo borbulha em seu estômago ao ver Debra tão próxima, tão jovem, como se ainda estivesse viva.

“Eu tive medo quando Debra se alistou”, Niang conta, as costas de seus dedos acariciando a porção de vidro mais próxima do rosto de sua amada. “Mas ela não conseguia se sentir confortável em não servir o seu país. Ela queria se sentir útil, em especial por viver ao lado de alguém tão… tão importante à época. Eu também sabia como ela era uma ótima mecânica, como poderia se dar bem lá na Europa. Mas eu conhecia a guerra. Ela sempre esteve nas minhas lembranças de infância, mais do que qualquer paisagem ou refeição familiar. Você vê, Greene”, diz enquanto enxerga sua sombra através do líquido amarelo, um borrão oscilante apoiado no corrimão, “a guerra sempre fez parte de mim. Mas, assim como uma doença crônica ou um vício, com o qual convivemos por anos a fio, nunca deixei de sentir medo do que ela poderia fazer conosco.”

O semblante de Niang empalidece. Encara os olhos fechados de Debra, todos os tubos que atravessam seus orifícios, o corpo nu e invadido. “A guerra traz a morte. A guerra traz devastação. E eu, e você… nós fomos a guerra. Nós ajudamos a exportar o inferno.”

Greene sente seus pés úmidos por baixo das meias, escorregando nos sapatos. Retira o paletó mesmo sentindo a brisa do ar climatizado. Vê uma poça de suor feito flecha cortando o meio de sua camisa branca e percebe que não está desconfortável à presença de Niang. Está com medo.

“Você está passando muito tempo sozinha”, ele diz.

“Nove anos, para sermos precisos. Nove anos desde Quando as nuvens passam. Ela estava amando aquele filme. Foi a única vez que a vi sorrir desde que voltou da Europa. Mas um pingo de felicidade não adianta de nada… em um oceano de tristeza.”

É uma cena recorrente na mente de Niang. Sinatra cantava ao fim do filme, à frente de uma orquestra vestindo o mesmo branco esmaecido de seu paletó. Abrindo os braços, entoando que estava cansado de tentar, cansado de viver. Foi assim que ela começou a arfar. Niang achava que sua amada estivesse chorando de emoção — por mais desacostumada que estivesse ao dramalhão ocidental, alheio à sua infância e adolescência na China — e não percebeu que lhe faltava ar.

E sobrava dor.

“Assim como ela, quase morri de tristeza”, ela conta. “Tristeza de saber que fiz parte de um ciclo que nunca vai acabar. A guerra nunca vai acabar. E eu fui a guerra, eu fui a morte. E Debra também, mas ela… ela não conseguiu suportar o fardo de ter ajudado a compor tantas mortes, algumas que ela acabou assistindo. Ela tinha o coração mole, e esse coração rachou. Ela queria que adotássemos uma criança, ela queria um vestido de noiva, ela não suportava o segredo.”

“Não era segredo que vocês tinham algo”, Greene refuta. Não consegue ouvir a própria voz.

“Nunca pudemos dizer. Todos vocês só inferiam isso. Vocês nunca aceitariam me ver ao lado de Debra, beijando Debra, dizendo a ela… como eu… a amo.”

Niang desliza as mãos pela extensão do cilindro, como se quisesse abraçar o corpo através do vidro. Encosta a bochecha no tubo e imagina a pele calorosa de Debra, as sardas espalhadas em seu colo. Inventava constelações ali, riscando de caneta preta as ligações estelares que compunha em seu corpo. Aperta os olhos e deixa uma lágrima tímida escorrer do olho exausto.

“Eu trouxe seu corpo para casa e fiz um velório de caixão fechado para que todos me deixassem em paz. Eu já sabia a minha nova missão nesse mundo”, explica, secando o rastro úmido com as costas da mão. “Eu não mais seria a morte; eu seria a vida.”

Então Niang desce os degraus. Greene a acompanha apenas quando ela sinaliza com a mão. Puxa uma alavanca na base da máquina e uma abertura ao lado se revela, uma porta da qual ele não havia tomado conhecimento.

Quando entram, Greene mal consegue ficar em pé. “Me desculpe”, ela reconhece, “essa parte não foi feita para alguém além de mim e Debra.” Passa as mãos sobre as duas camas metálicas no centro da cápsula, todas adornadas com mais tubos, luzes e grossas algemas presas a suas laterais. “É aqui onde a mágica acontecerá.”

“E você precisa me dizer o que vai acontecer”, ele comenta, o pescoço curvado à dor dentro do recinto.

“Eu serei a vida. Debra será a vida. Nós viveremos em paz.”

“Você só pode estar brincando.”

“Queria eu não precisar falar sério sobre isso. Acho que você vai se interessar pela papelada.”

Vão até o balcão atulhado de livros. Niang puxa uma pasta de couro de sob algumas enciclopédias e abre sobre a superfície gélida. São blocos e mais blocos de papel, amarelados e cheios de anotações e clipes ao redor. Greene analisa os desenhos, os recortes de outros livros colados às páginas desordenadas. Umedece o dedo a cada folha virada e encontra dentro de si um desespero crescente. Range os dentes ao ler as legendas de cada desenho, entendendo o pouco de alemão em alguns manuscritos. “Isso é Einstein?”, ele pergunta.

“Não foi só com você que troquei cartas durante esse tempo.”

“Ele sabe disso tudo, disso… disso aqui?”, e aponta com um chumaço de papéis na mão para o corpo flutuante de Debra.

“Albert só me considera uma interessada em seu trabalho. Ele tem uma biblioteca impressionante sobre energia negativa.”

“Energia negativa não tem a ver com… com ressuscitar uma pessoa”, Greene interfere. “Ela tem a ver com a expansão do Universo, com a propagação…”

“Do tempo.”

“É claro.”

“Mas Tom, eu nunca disse que ressuscitaria Debra.”

As sobrancelhas de Greene levantam seu rosto inteiro em raiva. “Como não?”, pergunta com a voz elevada. “O que é aquilo ali em cima, então? Responde!”

Niang não esconde o sarcasmo quando usa o canto dos olhos para enxergar o ex-colega. Por um momento, não acredita que um cientista tão conceituado como Greene consiga ser tão relapso.

“Eu nunca disse que Debra está morta, Tom.”

“Mas o que…”, e Greene interrompe o próprio impulso. Assim como ela, lembra-se das palavras de Niang, quase morri de tristeza.

Quase.

Corre para a escadaria que leva ao cilindro, sente a aflição atrofiar seus músculos e encara o perfil do corpo de Debra. Os grandes cachos claros espalhados pelo líquido, uma série de pequenos fios de borracha saindo de seu tórax.

“Os médicos foram generosos na cirurgia”, Niang conta.

Greene encontra a barriga de Debra.

“Os médicos salvaram seu coração e a salvaram da morte.”

E ela vai.

“Mas Debra nunca mais acordou.”

E volta.

“Isso finalmente vai mudar.”

Greene revisa os papéis em suas mãos. Percebe que segurou o maço com tanta força que acabou amassando as folhas. Lê os trechos anotados de Niang e Einstein. “O tempo não importa”, diz a letra inclinada, cheia de curvas sucintas. “O tempo pode nos levar onde quisermos, do jeito que quisermos. O Universo é um fantoche do tempo, o tempo materializado. E nós ainda somos muito pequenos para entendê-lo, quanto mais dominá-lo.” Um parágrafo abaixo, a assinatura do físico.

Desce as escadas em silêncio. Niang continua falando sobre energia negativa e um ponto no tempo-espaço onde o próprio Universo poderia acordar qualquer ser senciente. “Infelizmente”, diz, “você nunca vai saber se o experimento deu certo por dois motivos: o primeiro é que eu e Debra não estaremos nessa dimensão se tudo se acertar, e o segundo…”

Ele não se importa. Joga os papéis no chão e estapeia o rosto de Niang assim que se aproxima dela. O rosto dela é lançado para a direita, a bochecha avermelhando no formato de três dedos. Não se move.

“Você é uma vaca antiética”, Greene diz entre os dentes apertados. “Você é uma vagabunda clandestina que acha que a ciência é o que você quiser que seja. Que a ciência não tem a ver com o que acontece lá fora. Que a ciência pode ser um capricho seu. Você é repugnante. Insana.”

“E ainda assim foi você quem me deu um tapa”, responde ainda virada para o lado, os olhos fechados e o nariz levantado como se respirasse uma brisa marítima.

Dois passos para trás e Greene puxa o revólver de seu coldre. Aponta para a têmpora de cabelos raros. Destrava a arma e respira em ruídos, urros. “Eu vou levar essa pasta inteira pra Fundação. Você e Einstein nunca mais vão tocar no dinheiro da América. Vou fazer de tudo para que você vá para a cadeia.”

“Você não precisará fazer muito.”

“CALA A BOCA!”

“Atire logo em mim, Tom.”

“Você não sabe o quanto quero fazer isso.”

Niang estala o pescoço e endireita o rosto para encará-lo. O cano do revólver está a dois dedos de encostar em sua testa. “Você não terá outra chance”, diz. “Pode me matar, sei que mereço.”

Greene não consegue evitar as memórias de quando conheceu Niang. Era uma mulher quieta, competente e nada jovial que nunca se permitia alguns goles de diversão no bar. Trabalhava noites a fio mas não se cansava. Nunca passou um dia sem que ela cumprimentasse todas as pessoas do laboratório, mesmo nos momentos mais críticos do desenvolvimento das bombas nucleares. Era a única mulher em um posto de confiança no projeto e por isso desprezada com frequência. Nunca foi vista praguejando e nunca lutou pelos créditos devidos. Apenas fazia seu trabalho.

Parecia ser a pessoa mais sensata e controlada naquela cordilheira de máquinas de guerra.

Parecia.

Trava o revólver e enfia-o no coldre com violência. “Não vou desgraçar minha vida por sua causa”, diz por fim. Recolhe os papéis espalhados em volta de seus pés e ajunta-os dentro da pasta de couro. “E você sabe muito bem”, prossegue com o dedo em riste, tremendo em frente a Niang, “que isso não daria certo de qualquer maneira. Que isso é só um luxo, um hobby antiético.”

“É uma pena que ache isso, Tom”, e pela primeira vez parece reconhecer o ardor deixado pelo tapa. “Ainda havia muito para te falar desse projeto.”

“Cala a boca e me deixa ir embora”, Greene pede sem dissimular o ódio.

Niang dá de ombros. “Como quiser”, e arrasta os sapatos até o elevador.

Quando Greene atravessa a abertura do alçapão, olha mais uma vez para os gigantescos postes metálicos à sua volta. Espera que todas as respostas para o desatino de Niang estejam na pasta sob seu braço. Quando se aproxima de seu carro, a ex-colega acompanhando a alguns passos de distância, resolve pegar sua garrafa de vinho de volta. Sobe as escadas, atravessa a sala e recolhe seu presente sem dizer uma palavra. Niang fica à porta, esperando a cena muda se desenrolar. Greene encontra a chave do carro do bolso do paletó dobrado em seus braços e logo ela está girando na fechadura do motorista.

“Tom…”, Niang diz, as mãos unidas em suas costas, uma pose tão impassível quanto confortável.

Greene se recusa a encará-la mais uma vez. No entanto, desiste de entrar no carro para ouvir o que quer que ela deseje falar.

“Existe mais um motivo para você não saber se o experimento dará certo.”

“Além dele ser cancelado amanhã mesmo pela polícia federal?”

“Sim.”

“Qual, Niang?”

Ela gira os olhos numa órbita vertical, indignada. “Pensei que me conhecesse melhor do que isso.”

Desentrelaça suas mãos e desliza a esquerda para baixo do casaco. Puxa um revólver de um coldre muito bem escondido. Greene nem mesmo vê a arma sendo destravada, o dedo apertando o gatilho. Seu chapéu-coco capota na areia e cai com a abertura para o alto, rodopiando com o vento incessante. Uma trilha de formigas se desprende da madeira da varanda e logo encontra a poça de sangue que o disforme buraco em sua nuca deixa no deserto. Niang desce as escadas e apanha garrafa e pasta, meladas em areia e sangue. Em momento algum parece se abalar, mesmo ao pensar em Vanessa, esposa de Tom. Ele é apenas mais uma vítima da guerra.


Quando Tom foi morto, a construção já estava em suas revisões finais. Menos de uma semana depois, Niang já estava retirando Debra de sua letargia líquida e deitando-a ao seu lado na pequena cápsula. Programou os computadores para ativarem a máquina cinco minutos após fechar a porta metálica e, lá dentro, acabou com o Claret. Amargo demais, mas deu a coragem necessária para se algemar sobre a maca.

Niang não pensava que o experimento tivesse grandes chances de funcionar sem efeitos colaterais. Para começar, a quantidade de energia nuclear para criar as condições perfeitas poderia causar um desastre que levaria uma bela fração da Carolina do Norte consigo. Havia também o risco de alguma falha antes mesmo da catalisação necessária, transformando aquele laboratório subterrâneo em uma bola de fogo no meio do deserto.

Além disso tudo, mesmo se tudo desse certo, as algemas poderiam simplesmente não abrir.

Foram cinco horríveis minutos de vinho amargo na boca e metal gélido nas costas. Ao ouvir o primeiro sinal sonoro e sentir as algemas se apertando sobre os pulsos e tornozelos, tentou se concentrar na coisa mais bonita que poderia conceber.

Lembrou-se dos olhos de Debra. Verde-escuros, olhos que choravam com qualquer cão vira-lata nas ruas, olhos que sabiam pedir clemência e respeito. Lembrou-se de Sinatra vestido de branco. Se Deus existisse, como Debra tanto acreditava, ele seria feito à imagem e semelhança de Sinatra em Quando as nuvens passam.

A última coisa que sentiu foi um zumbido insuportável nos ouvidos e cada partícula de seu corpo querendo se soltar. Tantas eternidades passaram pelas suas veias e quiseram eclodir em novos mundos.

Tudo ficou branco por alguns minutos.

E então as nuvens passaram.

E as algemas se soltaram.

Niang sentiu o medo mais genuíno de sua vida. Não abria os olhos com medo de onde poderia estar, não tentava se mexer por medo de nada acontecer. O formigamento se dissipava pelas pernas e braços, sentindo o calor do sangue renascer seu corpo.

“Que lugar é esse?”, ouviu. Há muitos anos não ouvia essa voz — nem mesmo a reconheceu em primeira instância. “Por que tá tudo escuro?”, Debra insistia.

Uma saliva espessa se acumulava dentro da boca de Niang. Ela a engoliu para dizer as únicas palavras que conseguiria dizer:

“Bem-vinda de volta, anjo.”

E chorou da maneira mais ocidental possível.

Subiram para a superfície. As torres, as plantas, o poço, tudo estava intocado. Niang andava através dos pés de milho com Debra, as mãos dadas e nenhuma palavra correndo o risco de ser dita. Puxou seus sapatos com a mão livre e sentiu aquela terra, tão pedregosa e quente mas tão sua, fervendo seus dedos nus. Sorria olhando para aqueles cachos tão dourados, fofos feito nuvens, enquanto Debra admirava uma vida que não sabia possuir, um céu que não sabia estar sobre ela.

Então ela apontou para o céu. Niang acompanhou seu dedo e viu um avião ao longe, voando ao contrário. “Avião não tem marcha a ré”, Debra comentou, desconcertada.

Niang nada disse. Aproximou-se das torres, logo abaixo dos fios, e estendeu o braço. Sentiu uma resistência invisível e empurrou com força, vendo sua mão desfocar e tremular do outro lado. Um formigamento agressivo a atacou, fazendo-a prender a respiração para resistir um pouco mais. Puxou o braço de volta quando a dor se tornou insuportável e encarou Debra, que assistiu a tudo sem conseguir reagir.

“O resto do mundo está ao contrário”, concluiu. Andou até o arrozal e mergulhou os pés na água. “Esse”, e abriu os braços, desejando abraçar seus nove anos de suor, “esse é o nosso mundo agora.”

Acima de suas cabeças, o avião seguia sua trajetória reversa. O Universo estava a cada segundo mais jovem.


O sol está alto no céu. Ninguém pode dizer que ele se põe a leste onde Niang e Debra estão há mais de um ano. Entre as torres metálicas, em sua dimensão particular, elas assistem a todos os carros que andam de marcha a ré e ouvem as melodias invertidas dos pássaros. Estão acostumadas com a vida que levam no chalé, sem poderem sair do cubículo desértico. Às vezes sentem falta de comprar algo na mercearia ao invés de comer o que plantam, ou de como as transmissões de rádios vêm todas ao contrário e elas não podem ouvir uma música sequer.

De todos os furos possíveis em seu plano, Niang se arrepende de não ter comprado uma vitrola.

“Você se lembra da música do Sinatra?”, ela pergunta a Debra, que come o último pedaço de bolo de milho.

“Não. Eu só me lembro de como ele olhava para a câmera, como ele olhava… para nós.”

“Vestido de branco.”

“Vestido de branco.”

Niang vê uma curta trilha de formigas circulando sua cadeira. Pisa em algumas delas e acompanha as outras perderem o rumo.

“Eu deveria ter me perguntado se você queria voltar à vida”, diz de súbito.

“Deveria. Eu não queria.”

“Tom tinha razão quando chamou meu experimento de hobby antiético.”

“Tinha.”

“Por que nunca jogou isso na minha cara?”

Debra vê sua esposa a encarando, desconcertada. Estende sua mão e acarinha seu rosto flácido, fragilizado. “Um dia”, diz, “um dia a guerra teria que acabar.”

Ela se levanta para levar a bandeja vazia para a cozinha. Niang apanha sua bengala para acompanhá-la, mas logo desiste da ideia. Pressiona no cinzeiro o resto de cigarro entre seus dedos e olha para o alto. Vê nuvens felpudas, brancas como se vestissem Sinatra. Ela não sabe dizer para onde estão indo.

Alaor Rocha
Alaor Rocha
Alaor Rocha nasceu em São Paulo e herdou a ansiedade e a bronquite asmática da capital. Atualmente mora em Goiânia, onde cursa Design Gráfico e ouve sertanejo involuntariamente. Publicou os ebooks “Mulheres, sereias e aliens” e “Vênus acena de volta” na Amazon, além de participar das antologias “Equinócios de amor” (Editora Alcantis) e “O segredo da crisálida — Volume II” (Editora Andross).

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Um comentário

  1. Aurora / 28 de maio de 2017 at 00:08 / Responder

    O texto não me prendeu. As imagens iam e vinham, não me conduziam.

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