Código Fonte

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— Ainda usando esses discos BluRay, William? — comentei com o velho barman. — E que música é essa?

Eram pontualmente seis e meia da tarde da sexta-feira. O RetrôPub estava cheio de geneticistas da D.N.i. que tomavam uma cerveja antes de voltar para sua porção de horas extras. O Jardim dos Sóis se tornara o grande polo de empresas voltadas para a pesquisa genética de São Paulo, fazendo parte do anel empresarial sul-leste, onde poucos anos antes ficava a favela de Heliópolis.

— Forever Young, clássico dos anos oitenta — William respondeu. — Já tem mais de quarenta anos, você nem tinha nascido — rabugento, ele levantou as sobrancelhas para mostrar os grandes olhos negros sem as lentes digitais que todos usam atualmente. — E não confio nessa de usar tudo alocado nas nuvens, gosto do bom e velho disco que posso tocar quando quiser.

— O termo “nuvem” não é usado há uns dez anos, meu velho Will. Mas não foi isso que quis dizer. Se pretende ser “retrô” de verdade, tem de arrumar uma boa vitrola de agulha e discos de vinil com rock da época de ouro. Talvez um Led Zeppelin ou Doors.

Will franziu o cenho a ponto de quase sumir com os olhos.

— Tem essa cara de moleque, mas parece entender da vida real, hein, filho.

— Eu sei pesquisar o que é importante, só isso. Passe pra cá um gim com tônica.

O velho enrugou a testa novamente, mas serviu a bebida.

Olhei em volta. Numa mesa redonda do canto estava um rapaz na casa dos 30 anos, moreno, olhos fundos e expressão triste. Bebia sozinho, diferente dos outros cientistas, que se reuniam em rodas. Hesitei por um instante, mas concluí que era quem eu imaginava. Aproximei-me.

— Alexandre? — Perguntei.

Ele não respondeu, parecia perdido em pensamentos. Tomava uma dose de conhaque. Repeti a pergunta, ele se sobressaltou e olhou para mim, em dúvida.

— Não se lembra de mim, não é? Sou o Cris, da sua turma na faculdade.

— Ah! Lógico, como pude esquecer. Já foram tantos anos, não é? Venha, sente-se.

— Passou um bom tempo, realmente — puxei uma cadeira para me sentar. — Desculpe se atrapalhei seus pensamentos. Parecia preocupado.

— Não se desculpe. Fantasmas rondam minha cabeça.

— Às vezes é bom colocar os fantasmas para fora, talvez eles não voltem. Se quiser conversar com um velho amigo, ainda estou no primeiro gim.

Alexandre me olhou desconfiado e eu fingi que não percebi.

— Esses dias mesmo eu estava recordando as coisas que aprontávamos na faculdade — continuei. — Bons tempos. Lembra-se de quando hackeamos a câmera contextual do uniforme das jogadoras de vôlei? “Dez ângulos diferentes de visão do vestiário”, você disse. Só não pensamos que logo as roupas iriam para o cesto e perderíamos a melhor parte do show.

Alexandre deu um sorriso falso.

— Ah, é mesmo, é verdade.

— Lembra-se do que disse depois?

— Hum, tentar outras câmeras?

— Exato, nas toalhas! Mas naquela época os tecidos ainda não tinham processamento suficiente para filmar e também absorver água. Você sempre pensou à frente do seu tempo.

Terminei o gim e ele o uísque. Um silêncio constrangedor pairou entre nós até que Alexandre decidiu falar.

— O problema é meu… pai — ele suspirou. — O velho Gomes está em uma casa de repouso mental. Sofreu um surto alguns dias atrás e agora diz que não é ele mesmo. Afirma que sou eu e que eu sou ele. Sim, ficou louco, de fato.

— E isso começou sem nenhum motivo? — Incentivei.

— Não, eu acho que foi resultado da nossa pesquisa dos últimos vinte anos. Eu era ainda criança quando meu pai começou a estudar sobre as causas do envelhecimento. Seu principal foco eram os telômeros, a substância que protege a integridade do cromossomo e permite que as células se dupliquem. Com o passar do tempo os telômeros diminuem, a reprodução das células fica mais lenta até que para completamente e a pessoa morre. Nosso objetivo era encontrar um remédio ou vitamina que impedisse a deterioração dos telômeros e, consequentemente, evitasse que as células diminuíssem a duplicação e o corpo se mantivesse jovem.

“Tudo ia bem até o orçamento estourar. A pesquisa era extremamente cara e a universidade não podia arcar com todos os custos, então nos pressionaram para conseguir fundos ou parcerias para fornecimento de equipamentos e suprimentos. Foi uma época difícil em que quase desistimos. Fomos obrigados a demitir o professor León, que estava no grupo desde o começo. Indignado, ele tentou levar consigo algumas patentes, mas a universidade estava do nosso lado e León levou só o que merecia.

Pouco depois fechamos uma parceria com uma grande empresa de processadores, que foi a salvação para nossos problemas financeiros. Nosso conhecimento sobre reprodução celular era a peça que faltava para a criação dos microchips intracorporais – os intrachips – que quase todos os médicos aplicam hoje, capazes de navegar na corrente sanguínea e emitir remédios se necessário. O efeito deles nos telômeros ainda era apenas preventivo, mas estávamos avançando, e o dinheiro dos chips permitia investirmos em outras vertentes.

Sintetizamos substâncias que aceleravam a regeneração das células fibrosas da pele e dos músculos. Esses intrachips possibilitaram uma revolução nos tratamentos de beleza, sem os efeitos colaterais dos antigos métodos que enrijeciam a pele e deixavam as mulheres deformadas. A indústria de cosméticos nos despejava um caminhão de dinheiro toda semana.

Essas são apenas algumas das muitas descobertas que fizemos ao longo desses anos que hoje estão espalhadas pelas prateleiras de farmácias, lojas de esportes e suplementos, além de hospitais e clínicas. Tudo sempre com o objetivo de retardar o envelhecimento. Porém, nada ainda é capaz de parar ou, mais ainda, reverter o processo, o que buscávamos desde o início.

Apesar de não faltarem recursos, não avançávamos mais nas pesquisas e, para piorar, meu pai descobriu um câncer generalizado. Seus telômeros haviam se transformado em uma verdadeira arma contra o corpo, multiplicando células em uma taxa absurda. Sem dúvida, a exposição a tantas substâncias durante anos de pesquisa afetou seu organismo. Mas todo risco era pela pesquisa. Ele chegou até a se submeter a experimentos arriscados na tentativa de reverter seu próprio envelhecimento.

Pesquisamos dia e noite por uma cura, mas tudo que tentamos pareceu intensificar a ação do câncer. A doença já havia se tornado pública na comunidade científica e o velho professor León, aquele mesmo que havíamos dispensado — e quem dera nunca tivéssemos lhe dado ouvidos novamente — apareceu em nossa porta com uma cura milagrosa. Disse ter seguido com as pesquisas por conta própria em laboratórios subterrâneos, pois era acusado de roubar direitos autorais que julgava serem seus. Alegou, arrogante, que, mesmo sem as condições ideais, descobrira o segredo para vida e morte.

Segundo ele, os cromossomos, telômeros e células eram apenas um espelho de uma matriz primária gravada em áreas não estudadas do córtex cerebral. Tratava-se do código-fonte de cada ser humano, registrado quimicamente em pulsos elétricos entre os neurônios.

Não acreditamos muito, mas topamos realizar o experimento, que consistia em nós dois deitarmos em macas lado a lado e interligados por fios. Nos monitores, León delimitou as áreas dos nossos cérebros onde circulavam os pulsos elétricos matriciais, para que meu código-fonte dissesse às células desordenadas de meu pai como se comportarem de forma saudável. E, então, ele ligou as chaves. Recebemos uma carga de eletricidade de seis mil volts, que devia ser suficiente para trazer um morto de volta à vida, ao estilo dos filmes de terror do século passado. Eu teimava em acreditar que funcionaria, era a última chance de meu pai.

E funcionou.

Meu pai se curou do câncer, mas perdeu para sempre sua lucidez. Às vezes me pego pensando que seria melhor ele ter morrido como o cientista brilhante que era do que viver mais alguns anos como um louco.”


Deixei o RetrôPub refletindo sobre toda aquela história e decidi visitar o velho Dr. Gomes para confirmar seu estado.

Casas de repouso mental eram uma espécie de spa psicológico. Tratamentos agressivos e confinamento total não eram mais utilizados há décadas, substituídos por terapias de convívio e estímulo do eu interior.

Encontrei Gomes na frente de um videogame qualquer, interagindo com o cenário que era projetado ao seu redor. Pulseiras discretas davam aos nervos das mãos e dos braços a sensação de peso e resistência dos objetos, como a arma de raios virtual que ele segurava e apontou para mim quando cheguei perto. Tudo sumiu quando ele saiu do raio de ação dos sensores.

— Cris! — Gomes me reconheceu imediatamente, como Alexandre faria. — Sabia que algum dos meus amigos viria me salvar dessa loucura!

— Dr. Gomes, fico contente em vê-lo em boa forma.

Apesar da aparência enrugada e a pele cheia de manchas, o cientista parecia disposto e ativo. Tinha apenas setenta anos, afinal.

— Eu não sou Gomes! — Gritou.

— Ora, acalme-se! Venha, conte-me o que está havendo.

Sentamos em um banco no meio do jardim, distantes de ouvidos curiosos.

— Eu não sou Gomes, sou seu filho, Alexandre. Meu pai anda pelas ruas vestindo meu rosto e minha juventude enquanto eu definho nesse lugar. Tudo graças ao maldito León e sua máquina de terror. Ele prometeu a cura para o câncer de meu pai e de fato o fez, mas à custa de minha vida. Não tenho o câncer, mas perdi todo o resto. Não sei como o processo aconteceu. Quando acordei do experimento estava com a cara e a idade de meu pai, mas ainda tinha as marcas da queda que sofri quando instalamos aquelas nano câmeras nas toalhas de banho das nadadoras da seleção estudantil. Lembra-se de quando caí naquele fosso?

— Claro! — respondi.

Ele fez questão de me mostrar as marcas de cicatrizes profundas em suas costas.

— Não culpo meu pai pelo que aconteceu, pois ele não sabia qual seria o resultado da experiência. Mas, por me deixar apodrecendo aqui e nem mesmo vir me visitar eu lhe desejo de volta o câncer e, ainda mais, que definhe e morra.

— Acalme-se, eu prometo que vou verificar isso a fundo.


Entrei em casa, cumprimentei minha linda e jovem esposa e meu filhinho de um ano, tão envolvido com um jogo, que nem me deu atenção. Desci, então, ao apartamento no andar de baixo, que havia alugado para o laboratório. Entrei na sala antirruído, onde mantinha minha mais recente criação: eu mesmo.

— Pai… — a criatura resmungou. — Piedade. Eu não contarei nada, juro. Tire-me deste quarto. Sempre fui leal a você.

— É verdade, manteve-se próximo a Alexandre e Gomes sem levantar suspeitas. Nunca descobriram que era filho de León des Ponces, e menos ainda que me transmitia os segredos das pesquisas. Mas, mesmo assim, não posso correr o risco de você andar por aí, com a minha cara, dizendo bobagens, como está fazendo seu amigo. Por sorte, estamos na era dos mundos de mentira, e as verdades se tornaram tão obsoletas. Vou trazer para você também um videogame imersivo, talvez esqueça que existe uma vida fora desse quarto, como tantos jovens de hoje.

— Pai, faço qualquer coisa.

— Cristiano, meu filho. Tenho pena de você. Mas a única coisa que te pedi, devolveu com uma farsa. Pedi uma simples memória de faculdade, e você me contou tudo errado. Ainda bem que Gomes não sabia da história e concordou com tudo, e não tive tempo de falar nada para Alexandre antes que ele mesmo denunciasse a verdade. O que esperava? Que notassem a mentira?

— Não me crucifixe por isso. Por favor.

— A escolha foi sua. Tinha opção de entregar seu filho para o experimento, mas escolheu morrer por ele.

— É só um bebê!

— Tem razão. Talvez a experiência nem funcionasse. Ou pior, eu poderia reverter a um ano de idade. Seria um tédio voltar a usar fraldas. Mas ele ainda será útil.

— Fique longe de meu filho! E de minha mulher!

— Será um tanto difícil. Ainda mais, porque agora sou você, o jovem Cris des Ponces, que tem em seu futuro a fundação de uma maravilhosa cidade de ouro, com uma imensa fonte ao centro no formato de um relógio quebrado. E você, o velho louco León, que desapareceu em uma viagem à Guatemala aos noventa anos.

— Não, olhe para mim… Sou seu filho!

— Quando olho para você, é como se olhasse para um espelho. Mas, diferente de todo homem desde Narciso, eu não estou mais preso ao meu reflexo. Venci minha Nêmesis e fiz de você um eco de mim mesmo a definhar nesta caverna tecnológica. Dorian Grey me enviará cartões postais do inferno, pois minha alma mantenho livre de molduras.

Saí e fechei a porta para sempre.

George Amaral
George Amaral
George Amaral é paulistano, formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade de São Paulo e em Roteiro Audiovisual pela PUC-SP. Cursou Design Gráfico e da Imagem na Escola Panamericana de Arte e História em Quadrinhos na Quanta Academia de Arte. Atua como gerente de marketing, consultor de arte para editoras, ilustrador de livros infantis e escritor de literatura e roteiros. É fundador do Gonf Studio, voltado para design, ilustração e projetos criativos.

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Um comentário

  1. NerdKvothe / 15 de março de 2014 at 10:32 / Responder

    Cara, muito boa sua história. Bacana mesmo. Gostei do conceito de código-fonte, e a transferência do mesmo entre pessoas.

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