Da’ath – O último grito da carne

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Da’ath – דעת

Trecho do diário de guerra do esquadrão militar conhecido como “Sayeret Duvdevan” – O Batalhão das Cerejas.

O Quinto Império é conhecido como a nação mais poderosa de Nordara, grande parte desta fama se deve à Kabalah, sua elite militar. Desde sua criação ela tem sido a principal força de combate contra os Titãs, criaturas antigas que enlouqueceram devido a seu imenso poder e escravizaram a raça humana durante anos.

A Kabalah nasceu quando Shoah, seu primeiro guerreiro e messias, venceu os Titãs com seus nove seguidores e os aprisionou em obeliscos espalhados pela região do Quinto Império. Depois disso, os seguidores de Shoah organizaram-se em grupos conhecidos como sephirah, cada uma com uma habilidade específica e responsabilidades dentro do exército.

Os da’ath são a inteligência do exército. Cientistas, estudiosos, filósofos, estrategistas, eles se mantém como uma força intelectual voltada para a guerra e para o sucesso de suas missões. Mas engana-se aquele que pensa que este grupo é formado por guerreiros inábeis: os da’ath aprendem a analisar seus inimigos e entender seus pontos fortes e fracos, para depois usar isso contra eles. Para os da’ath o campo de batalha é como um tabuleiro de xadrez e eles já decoraram os movimentos de cada peça muito antes de o jogo começar.

O símbolo dos da’ath é uma roda dentada de cor vermelha, representando suas duas características principais: inteligência e revolução.

 

O último grito da carne

A oficina cheirava a metal aquecido e tinha uma camada de fuligem que persistia, mesmo após as faxinas. Cada mesa espalhada pelo galpão agrupava objetos específicos para o trabalho manual, como maquetes, ferramentas, peças de reposição, manuais de instrução e comida. Esta última exalava um cheiro agradável, que o iniciado não conseguia ignorar.

A barriga de Khalin roncou de fome, ele olhou constrangido para os dez da’ath mais velhos ao seu redor. O círculo era composto por todos seus professores e ele precisava impressioná-los no último teste antes de ser aceito pela elite militar, a Kabalah.

— Eu vou falhar — ele enfiou um pedaço de pão quente na boca e queimou a língua. Jogou o pedaço fora e virou um copo de suco gelado garganta abaixo, o alívio suprimiu a dor.

— Você vai tentar de novo — Binah, o pai adotivo, arrumou a alça de seu macacão surrado.

Khalin tinha ideia da sujeira nas suas roupas. Uma camada de graxa cobria o lado esquerdo de seu rosto, destacando seus olhos azuis. Os cabelos, pretos e bagunçados, caíam em franja até o nariz pontudo, e o canto da boca fina ostentava um corte, herança do treinamento militar pelo qual passara.

— Chegou a hora, Khalin Pandora. — Markelos, o líder do ritual, pronunciou. Seu macacão era muito parecido com o do iniciado, incluindo as manchas de óleo e graxa.

Para Khalin parecia que quanto mais sujo e surrado o macacão, mais respeitado era o da’ath. Isso explicava Markelos.

— Você me ouviu? Eu vou falhar — Khalin tremia. Queria os companheiros por perto para ajudá-lo, mas sabia que todos os que treinaram com ele estavam passando pelos rituais de aceitação. Nem imaginava como encará-los se falhasse. Na verdade, morrer lhe pareceu uma opção melhor do que falhar.

— Você passou pelos quatro anos de treinamento do Cenóbio de Ahator, foi aprovado em todos os testes anteriores que lhe impusemos e agora diz que não pode abrir a caixa? Qual o problema, Khalin? Do que você tem medo? — Binah circundou-o enquanto os outros da’ath murmuravam em aprovação. O teste final dos inventores buscava o aprimoramento de suas características principais, o progresso e a revolução.

— Eu vou falhar por que ainda não estou pronto. Vocês me pedem que eu abra a caixa, que eu abandone minha consciência e minha individualidade e me torne, para sempre, um membro da Kabalah. Mas o quanto eu preciso sacrificar? O quanto eu posso proteger de mim mesmo neste ritual? O que vai sobrar de mim quando eu entrar no Deserto de Apep e ouvir as palavras de Chorozon? — Khalin se afastou dois passos para trás, até a linha limite, riscada com giz no chão. Se desse mais um passo, falharia.

A caixa era negra, sem detalhes ou marcas, exceto por um arranhão na tampa. Era feita de obsidiana e possuía um fecho de latão. A possibilidade de abri-la e adquirir o conhecimento final dos da’ath o atraía, como os outros de sua espécie, ele seria capaz de sacrificar qualquer conceito moral e ético em busca de novas descobertas. Seus anos de treinamento o expuseram a pesquisas que aterrorizariam o mais bravo guerreiro. Cada dia enfiado em laboratórios transformara a mente bondosa e humanista de Khalin em uma máquina cética que via a humanidade como um caldeirão de informações.

— A natureza seleciona o mais apto e desqualifica o inapto. Esta é a verdade. — Binah falou alto, para que os presentes ouvissem e concordassem.

— Os mais aptos não são os mais fortes, não existe verdade absoluta — Khalin devolveu, para espanto da plateia.

— Enfrente Thantifaxath. Liberte-se de suas fantasias, de suas restrições morais, dos seus desejos. Conhecimento é poder e poder é magnitude. — Binah parou atrás de Khalin, segurou suas mãos e as colocou sobre a caixa.

— A força bruta que impede a evolução. O Titã da inatividade e da submissão — Khalin murmurou, aprendera durante toda a vida que os Titãs eram criaturas imbatíveis e incontroláveis.

Thantifaxath estava na caixa. Aprisionado para servir como o último teste dos da’ath, era a essência oposta ao conhecimento, representação da preguiça, a inação, o silêncio e a proibição. Por um momento Khalin questionou a si mesmo quantos daqueles vinte mestres inventores tinham passado por aquela provação, mas a resposta era tão óbvia que chamou a si mesmo de estúpido. Porém, vendo-os no círculo de observadores, não conseguia imaginá-los como garotos covardes e mal preparados.

— Eu vou ser o primeiro a fracassar — murmurou, desta vez Binah não ouviu.

— Thantifaxath nega a você o direito básico à manifestação e imaginação. Ele é a voz do falso profeta, que proíbe o crente de pensar por si. Ele é o escudo da milícia que bloqueia a passagem do povo quando ele reivindica seus desejos. Thantifaxath está em todo lugar, espalhado na forma de preguiça e medo, silêncio e involução. Abra a caixa. — Binah sentenciou.

— Você não manda em mim — Khalin recuou mais um passo, apagando a marca de giz no chão. Parou ao perceber onde estava. Respirou fundo e cobriu o rosto com as mãos, pronto para receber os gritos dos mais velhos. Mas o que imperou foi o silêncio.

Ao seu redor, trevas. Não estava mais no galpão, mas em um deserto de areia azulada e fria que se estendia em todas as direções e parecia não ter fim. Não havia lua, nem nuvens, nem estrelas, mas era noite, por que o céu era negro. Os sons que produzia ao caminhar eram abafados, o único cheiro lembrava o mar.

— O Deserto de Apep — disse, só pelo prazer de ouvir algum som. A voz soou diferente do normal, mas ainda era a sua. Olhou para baixo e viu um fio de prata saindo de seu umbigo e serpenteando deserto à frente. Puxou-o e o descobriu das areias. Sem opção, seguiu-o.

Depois de caminhar por muito tempo Khalin chegou a um oásis. O fio de prata o conduzia para o último ponto, a caixa preta, que jazia ao lado de uma lagoa e um coqueiro.

— Só pode ser piada — Khalin reclamou, escorregando pela duna. Desta vez não tinha como fugir, abriu a caixa.

Uma energia azulada escorreu a seus pés como se fosse o oceano e cobriu as areias do deserto tão rapidamente que Khalin nem teve tempo de entender o que acontecia. Ele sentiu as ondulações balançando seu corpo e provocando uma sonolência, mas algo em seu íntimo o mandou resistir e permanecer acordado.

— Conhecimento é liberdade. Se a verdade não existe, quais são as nossas amarras? O que nos prende ao mundo material? Tudo é permitido e nada é obrigatório? — A voz de Binah surgiu da caixa.

Khalin inclinou-se para olhar dentro dela, os da’ath velavam seu corpo no galpão.

— Eu não abri a caixa — murmurou.

Thantifaxath é a restrição, Khalin. Ele é o muro ao redor do castelo, mas ele também é o “cala a boca”. Se eu forço você a abrir a caixa… — Binah não continuou a frase, Khalin completou-a.

— Você está sendo Thantifaxath… Você está restringindo meu direito de escolha e me obrigando a seguir um caminho que eu não quero. Mas quando eu… — Khalin foi interrompido por Markelos.

— Conhece a ti mesmo. — O lema ecoou pelo deserto, parecia flutuar entre as ondas de energia que escapavam da caixa.

— Eu passei? — Khalin sorriu.

— Só você pode dizer quando o teste termina, Khalin — ouviu Binah.

Khalin abriu a boca para falar de novo, mas um pressentimento ruim o invadiu e ele saltou para a esquerda usando toda sua força.

— Criança… — A voz cavernosa emitiu uma vibração terrível pelo deserto, fazendo as areias se erguerem em uma tempestade que voou para longe do oásis. Khalin sentiu uma parte de sua alma se despedaçar.

Thantifaxath! — Khalin saltou de novo, o tentáculo ocupou todo o oásis.

O Titã era tão grande que a mente de Khalin não conseguia entendê-lo. A única coisa que o novato via à sua frente era um conjunto de imensos tentáculos azuis que se projetavam dos confins do deserto.

— Isso não faz sentido. Se você é tão grande, por que não me esmagou de uma vez? — Khalin raciocinou.

— Eu preciso voltar. — Sentiu a matéria ao redor se deteriorando, o fio de prata se desfazia, deixando o corpo cada vez mais distante. A cada momento era menos de si mesmo, menos daquilo que o definia como Khalin Pandora.

O tentáculo se esticou pelo deserto, provocando uma barulheira infernal e se transformando em uma barreira ao seu redor. O cheiro de oceano desapareceu, havia apenas a iluminação contínua e o azul-escuro de Thantifaxath. O tentáculo se fechava sobre o iniciado.

— Conhece a ti mesmo — Khalin se lembrou da voz de Markelos, o tentáculo parou. De perto, Khalin via a camada viscosa escorrendo do tentáculo e se juntando à energia que restara da caixa. Conforme se encontravam, a energia evaporava.

Kenosis… a diminuição das camadas de matéria, até que sobre apenas o eu. A liberdade total através da destruição do ego e da reconstrução do indivíduo. — Khalin tocou o tentáculo com a ponta dos dedos e a camada gosmenta o envolveu. Ele forçou o corpo e percebeu que estava preso, mas ao invés de se entregar, escalou.

A carne pegajosa cedia espaço para sua vontade. Thantifaxath resistiu, fechou-se com violência, mas Khalin já estava em cima do tentáculo. Envolto na gosma, perdera o fio de prata. O tentáculo se debateu para expulsar o intruso.

— Você não pode me derrubar por que meu corpo está no mundo físico, as leis da ciência não se aplicam aqui, Thantifaxath. — Khalin falou.

— Onde você acha que está? — Thantifaxath perguntou. Agitou os outros tentáculos, pingando a gosma incolor que os cobria. Não havia mais deserto, apenas um oceano de tentáculos embaixo de Khalin.

— Eu estava no Deserto de Apep, caminhando em direção ao Tehom, o abismo. — Khalin parou, um dos tentáculos caiu a sua frente, destruindo aquele onde andava. Ele saltou para o novo tentáculo. Tudo era escuridão azulada, o corpo de Tantifaxath. Restrição, preguiça, medo, ignorância. Ele continuou, sentindo cada vez menos de si, cada vez mais o abandono do corpo.

— Você está deixando o Malkuth, pare agora — Tantifaxath reclamou. Bateu outro tentáculo, despedaçando aquele em que Khalin caminhava. O garoto se prendeu como uma aranha ao novo caminho.

Malkuth é uma ilusão, um porto-seguro criado pela mente física para explicar nossa existência, Tantifaxath. Deixá-lo para trás é deixar nossos conceitos e nossas verdades. Isto é assumir que nada sabemos, que nada conhecemos, nem a nós mesmos. O lema dos da’ath não é uma afirmação, é uma dúvida. — Khalin parou no meio do tentáculo, desta vez não se moveu quando o próximo veio.

— Conhece a ti mesmo? — Khalin ironizou. — Você sabia que, nos sonhos, a iluminação é sempre igual? — Posicionou-se embaixo de uma gigantesca ventosa, que o engoliu antes do impacto dos dois tentáculos. A última coisa que sentiu foi a ausência total do corpo e do mundo material. Depois disso havia a sensação de vazio, que foi substituída pela sensação de liberdade.

— Meu nome é Chorozon e eu sou o primeiro da’ath — Khalin escutou o pronunciamento vindo de todos os lados da escuridão. Sentira que abandonara o mundo material e o Deserto de Apep, mas o nome lhe trouxera a referência que precisava para saber onde estava.

— Eu sinto você, morador do Abismo. Você não é um indivíduo, você é a ausência de forma e, ao mesmo tempo, a possibilidade de todas as formas, impulsionadas pela mente criativa e pela manifestação da inteligência. Você é o oposto de Tantifaxath — Khalin falou.

Os tentáculos pararam, alinharam-se e se desfizeram em partículas de areia. O Deserto de Apep reinava novamente. Khalin sentiu o tornozelo arder e a conexão com o corpo retornando. Seu “eu” reconstruído a partir do novo conhecimento.

— Aquilo que desconhecemos, reprimimos — Chorozon falou.

— Então me permita conhecer o nada e duvidar de tudo — Khalin abriu os braços quando o vento fresco soprou. Uma linha surgiu no céu, dividindo-o em duas partes. Por trás dela fileiras de dentes e uma língua. O firmamento era um gigantesco rosto que descia em direção à Khalin. O sol era o olho esquerdo, a lua o direito. Ele se viu no deserto, mas também na palma de Chorozon. Abriu os braços e fechou os olhos enquanto o mundo físico desaparecia mais uma vez e sua consciência era mastigada pelo primeiro da’ath.

— Estou na Cidade das Pirâmides e vim depositar meu sangue na Taça de Babalon — Khalin disse a si mesmo, ao Titã e a Chorozon. Também disse a Markelos, Binah e a todos os que assistiam sua passagem, assim como a todos os iniciados que, um dia, estariam ali.

Ele abriu os olhos, estava no meio do galpão, a caixa aos seus pés. Não havia energia, nem deserto, nem tentáculos. Apenas os rostos sorridentes de seus iguais.

José Roberto Vieira
José Roberto Vieira
José Roberto Vieira é autor de fantasia e, no momento, estuda magia e ocultismo. Ele também acredita que a literatura pode mudar a mente das pessoas e a representatividade é importante para fazer a diferença no mundo. Com um pouco de sorte você pode encontrá-lo em encontros de RPG, Literatura, Mangás e cultura nerd em geral. Ele adora tirar fotos com fãs, coelhinhas da playboy e lutadores de MMA.

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