Droneboy

1

Os carros buzinavam sobre a ponte enquanto Ícaro passava acima deles. Uma verdadeira fila de aço e estresse. Ninguém movia um dedo.

Pudera. Quinta, sete da noite. Nessa hora, o trânsito podia ser resumido em uma palavra: inferno. Ícaro sentia-se bem só de não ter de se juntar à massa lá embaixo. Voar era mesmo o melhor jeito de se locomover nessa cidade.

O drone passou ao lado dum poste, tirando poeira da lâmpada. Tranquilo. Sensor de proximidade aqui não deixa fazer cagada. Mais fácil perder a encomenda que pombo bater.

No fone, UDP comendo solto. HC Zona Leste, banda só de minas. Unsolicited Dick Pics. Ícaro não fazia ideia o que significava, mas o som era foda.

Dois minutos e quinze, ele leu no canto direito. Melhor correr antes que a pizza esfrie. Balançou o celular, jogando o drone para o alto; cidade girou numa espiral, camadas de prédios e lâmpadas fluorescentes entortando, a mina berrando BOMBARDEADUUU no ouvido.

Por cima do túnel, a centopeia de carros ficando para trás. Nunca entre num túnel, cara, nunca entre num túnel. Navegabilidade é uma merda e tem sempre motoboy filhodaputa tentando te derrubar. Bando de morfético. Não aceitam competição e sabe por quê?

Porque um: eles são lerdos;

Porque dois: eles são velhos;

Porque três: eles caem no asfalto e ficam só no canudinho. Buá, buá.

Com droneboy é diferente. Mais rápido, mais novo, mais sexy. Foda é que se a cliente aparece de baby doll não tem muito o que fazer. É deixar a encomenda e zarpar fora. Ossos.

O que fez Ícaro pensar: o que é que amarraram na patinha do pombo dessa vez? Da branca, da preta ou da azul? Nego come pizza chapado, saca? Dãããã, novidade.

Deve ser bom, mas Ícaro não mexe com essas coisas. Menino fica chapado só de ar, imagina. Se toma um bagulho desses é capaz de enfartar.

Mas nem uma vezinha?, já lhe perguntaram na escola.

Nããão, muito novo pra isso. Catorze aninhos, bigodinho ainda crescendo. Deve ser por isso que motoboy fica puto. Precisa ter no mínimo o quê, vinte um? Velho pra caralho!

Rostinho pulou e sacudiu na frente de Ícaro, atrapalhando a navegação. Mamis. Velha também, tadinha. Agora não, mamis, e jogou o rostinho para o lado. Mais uma vez o rostinho. Caramba, mãe, dá licença!

Passou pelo prédio da JVC. Sessenta andares, placas de aço azul na fachada. Parecia o mar pendurado num cabide. No topo, uma pichação brilhava de fora a fora. Ser droneboy te ensina até este princípio básico da arquitetura nacional: se pode ser construído, pode ser pichado.

Quase chegando. A mina do UDP cantava mais rápido que o PretoNix quando Ícaro escutou algo à direita, um bang!, como rojão. De canto, viu motoboys vindo acelerados, dois no viaduto, outro por baixo.

Porra, de novo? Ícaro jogou um yaw, e o drone piruetou como um salmão na piracema.

Mais um rojão, agora da esquerda. Que isso? Convenção de boy?

O terceiro tiro acertou a antena, zoando com a navegação. Drone começou a descer, perdendo altitude. Não, não, não…

Controlando como pôde, Ícaro jogou de lado, embicando por um beco e despistando os motoboys; o drone voou torto, mas ele conseguiu manobrá-lo para dentro duma lixeira. Última coisa que viu foi um gato pulando assustado.

“Merda!” ele gritou, lançando o celular na cama e tirando os óculos VPP. Sua cabeça estava suada, o cabelo pregado na testa.

Levou as mãos ao rosto, angustiado pelo drone, sozinho naquela lixeira.

Alguém vai roubar ele, pensou, quando alguém abriu a porta de repente. Ícaro virou o rosto.

Mamis.

Ela entrou no quarto. Estava de cabelos amarrados, rosto cansado. Devia ter acabado de chegar do serviço.

“Pô, mãe. Bate na porta.”

Ela fez um gesto, apontando para a própria orelha. Ícaro tirou os fones de ouvido.

“Eu bati,” ela respondeu. “Tá com fome?”

“Depende,” Ícaro disse, coçando o peito magro por baixo da regata. “O que tem pra comer?”

“Bibimbap ou pizza de queijo.”

“Airgh, odeio bibimbap…”

“Pizza de queijo, então.”

“Melhor,” ele disse, notando como ela olhava ao redor do quarto. Um bot de limpeza entrou para debaixo da cama e, sobre a mesa, além do televisor enorme, estava o videogame que Ícaro pedira no Natal. O mesmo que sua mãe não tinha comprado porque custava os olhos da cara. De fato, havia tantos eletrônicos caros no quarto que o lugar mais parecia uma loja da Fnac.

“É…” disse ela. “Eu devia entregar pizzas com você. Isso é o que parece dar dinheiro hoje em dia.”

“Mãe,” Ícaro disse, “a gente já discutiu sobre isso. Pode deixar que eu cuido da minha vida.”

“Ícaro—”

Ele girou os olhos. “Quê?”

Ela pousou a mão na maçaneta, olhando para ele com aquela expressão preocupada que o fazia se sentir um nenê. “Atende seu telefone quando eu ligar.”

“Tá, mãe… que mais?”

“Quando a janta ficar pronta eu aviso,” ela disse e fechou a porta.

Ícaro soltou um suspiro. A música escorria do fone para a coberta.

“Droga,” ele murmurou, alcançando os óculos e dando uma conferida. Nada. Com a queda, o drone provavelmente danificara a câmera.

O celular vibrou. Por cima do ombro, ele viu o aviso.

Mensagem do Chico Lenovo.

Ícaro sentiu o sangue gelar.

A encomenda do Lenovo. Havia se esquecido dela.

A pizza que se dane, mas, e a encomenda do Lenovo?


Apanhou a bicicleta e saiu do apartamento. Sua mãe perguntou onde ia. “No Bruno,” ele disse.

O corredor entre os apartamentos cheirava a mijo. Ícaro não tinha certeza, mas podia apostar que quem ficava mijando pelos cantos era o menino do 711, o da incontinência urinária. Já tinha pegado ele mijando na escada duas vezes, os pais dele sempre com a mesma desculpa: o coitadinho não conseguiu segurar. Oito anos e com incontinência urinária. Esse condomínio era mesmo uma piada.

Bem diferente do condomínio do pai. Devia ter ficado com o picareta, Ícaro pensou, apertando o botão de térreo no elevador. Lá sempre tem refri na geladeira e o picareta não torra os neurônios. Além do prédio não cheirar a mijo.

Fazia um tempo que não via o pai. A última vez que se encontraram havia sido no shopping, três meses antes. Cinema e McDonald´s, o clássico do picareta. Pelo menos daquela vez não tinha perguntado se Ícaro queria um McLanche Feliz.

Quando ele era mais novo, os dois se viam todo final de semana. Era ainda a época do ´toma aí, pega aí`, quando sua mãe e seu pai passavam Ícaro de um lado para o outro como naquele jogo do balão que enche até explodir. Como isso estressava. Às vezes, a única coisa que queria era passar o domingo assistindo desenho e brincando. Só isso. Nada de parque, casa de vó ou McNuggets.

Mas essa época passou e balãozinho não explodiu. Ícaro lembra o dia exato em que sua mãe perguntou se ele ia passar o findi com o pai. Estava jogando Battle of Universes, o monstrão de Arkhanar urrando pelas seis bocas. Ele respondeu que não sem nem ao menos olhar para ela. Tinha doze anos. No ano seguinte já estava entregando pizzas da San Ruggero por aí.


A roda fazia um barulho gozado no piso do saguão. Ki-ki-ki, enquanto ele apertava o freio. O porteiro fechou a cara. Ícaro sabia que isso o irritava, mas que se dane. Achava engraçado. Além disso, pagava um terço do aluguel do apartamento. Tinha direito de zoar um pouco nesse prédio. Não tinha gente que até mijava?

Ele checou o celular. O drone estava paradinho na lixeira, a uns dois quilômetros dali. Tranquilo para ir de bike. Ainda bem que havia instalado aquele RFID. Senão, seria o quarto drone que perderia, o terceiro por causa de motoboy. Bando de morfético.

Do lado de fora, passou ao lado do parquinho do condomínio. Eram oito da noite e a pivetada tava toda lá. Inclusive o Filipe com aquele cachorro. Gato. Cachorrogato.

“Ícaro!” ele gritou.

Ele tirou os olhos do celular, vendo Filipe correr até ele. O cachorrogato veio junto, balançando os rabos. Bichinho parecia bem.

“Olha quem chegou do veterinário,” Filipe disse.

“Gadanha,” Ícaro falou, agachando. Passou a mão na cabeça do bichinho, que ronronou um latido. “Tá curado?”

“Sim,” Filipe disse, segurando a coleira com as duas mãos. “Brigado pelo dinheiro, Ícaro. Minha vó—”

“Ei, não esquenta,” ele disse, levantando-se. “Tenho que ir agora.”

“Vai aonde?”

“Por aí.”

O garoto mordeu o lábio. “Vai na minha festa no domingo?”

“Vou tentar,” Ícaro respondeu, montando na bicicleta.

Pedalou o mais rápido que pôde, seguindo pela calçada sempre que dava. Não era permitido ultrapassar sinal vermelho, mas podia pedalar entre pedestres, vai entender. Única coisa que ele queria era fazer dezesseis logo e tirar carteira. Dois anos, Ícaro. Só dois anos.

Na esquina da Dalva, uma mulher vendia churrasco grego. O cheiro de carne assada e condimentos atiçou sua fome como um beliscão. Não tinha nem almoçado ainda. Pedalou distraído, pensando na pizza de queijo, quando se surpreendeu com um homem careca encostado a um poste.

Freou, mas acabou batendo nele. Os dois foram ao chão.

“Gandu!” o homem gritou, levantando-se. “Presta atenção!”

Ícaro levou a mão ao joelho.

“Machucou?”

“Não,” ele respondeu. “Só uma batidinha.”

O homem o ajudou, erguendo ele e sua bicicleta. “É assim mesmo, garoto. Mundo louco. Toda essa pressa em que vivemos.”

“Pra você ver…”

“Sabe qual o problema das pessoas hoje em dia?”

“Das outras pessoas eu não sei, mas—”

“Isso aqui,” o homem lhe cortou, apontando para a própria cabeça.

“Calvície?”

“Não!” o homem esbravejou. “Consciência, garoto. Pensar. A distinção do bem e do mal. O fruto proibido. Eis a fonte de todas mazelas.”

Ícaro o encarou. “Quê?”

“O mundo,” o homem continuou sem prestar atenção a ele, “as guerras, a miséria, a fome. Tudo fruto da consciência humana. Devemos eliminá-la. É a única solução.”

“Verdade…” Ícaro moveu a cabeça. “Escuta, adoraria ouvir mais, mas tenho que ir mesmo, cara.”

Foi embora, deixando o homem lhe encarar.

Doido de pedra, pensou, enquanto pedalava. O mundo estava lotado de gente desse naipe: tecnófobos, datafobos, gnosefobos… proliferavam por aí mais que igreja evangélica! Alguns chegavam ao ponto de ir para o meio da Floresta Amazônica, na esperança de serem aceitos por awás ou qualquer outra tribo de índios isolados. Os mais radicais tomavam aquelas paradas que dissolviam o DNA humano de seus corpos, a consciência virando mingau aos poucos. Ícaro sentiu um calafrio só de imaginar o processo.

Quinze minutos depois, ele chegou ao beco onde o drone caíra.

O lugar estava escuro, apenas um poste no início e outro no final do beco. Um filete de água brotava do chão e no alto via-se as janelas por onde as pessoas costumavam despejar lixo. Um cheiro de bebida e comida azedando pairava no ar, cheiro forte e gordurento. Brilhando sob uma lâmpada fluorescente, havia uma placa de bar. “Sete Lobos,” Ícaro leu. A lixeira estava bem ao lado.

Ícaro se inclinou sobre ela, dando de cara com uma escuridão fétida. Apanhou o celular e, usando o flash, tentou enxergar alguma coisa. Sacos e mais sacos de plástico preto, restos de comida e latas de Brahma e Tsingtao. Encontrou até o que parecia ser um bicho morto, mas e o drone?

Checou de novo o celular. Buscou no mapa e viu o pontinho representando o drone se movendo.

Desesperado, Ícaro pulou para fora da lixeira. Montou na bicicleta e pôs-se a pedalar. O drone não estava longe dali, mas movia-se de maneira rápida duas ruas à frente.

Ele ganhou velocidade, o celular preso ao guidão por um suporte. Quase atropelou uma mulher. Ela fez um gesto para ele, gritando alguma coisa sobre cortá-lo com uma navalha.

“Desculpa!” ele gritou.

O ladrão — porque só podia ser ladrão, já que o drone não voaria sozinho — seguiu pela Terenas, em direção à rodovia para fora da cidade. Pra onde esse puto tá indo?

Pulmão começou a queimar, mas Ícaro continuou. Estava num ritmo tão acelerado que, mesmo que parasse, suas pernas iriam pedalar sozinhas.

Entrou quente na rodovia, seguindo pelo acostamento. Proteção zero, porque o acostamento tinha pouco menos de metro e meio de largura. Caminhoneiros passavam ao seu lado, buzinando e jogando farol.

Pelo celular, Ícaro viu que o sinal do drone havia parado de se mover.

“Não, pera—”

Freou com os pés, quase tombando de novo. Aproximando o rosto, viu que o drone estava a 4 km dali.

Tirou o celular do suporte e ampliou o mapa, dando zoom na tela.

Por cima, era possível ver a teia de trilhos espalhados por todo perímetro, como se intestinos de ferro brotassem do chão; as construções, em cores e formatos distintos, faziam pouco ou nenhum sentido quando vistas do alto e convergiam todas para um complexo e perturbador desenho ao centro. O drone estava bem ali, quietinho.

Ícaro abaixou o celular e olhou perdido para a rodovia. O ladrão, seja lá quem fosse, tinha ido pro Zoing-Zoing World. Fofuras viviam ali agora.

Um caminhão passou, golpeando Ícaro com uma corrente de ar. Ele olhou novamente o celular.

“Ah, que se foda esse drone!” ele falou. Montou na bicicleta e voltou para casa.


Na manhã seguinte, Ícaro zumbizou nos primeiros horários. O professor até tentou acordá-lo, mas desistiu. Talvez ele mesmo soubesse que não havia sonífero melhor do que ouvir sobre as diferenças entre C++ e VBA às sete da manhã.

A sirene do intervalo tocou. Arrastando-se entre bocejos, Ícaro saiu da sala. Comprou um Red Bull e sentou debaixo da árvore em frente à cantina. Ficou a sorver o xarope gelado esperando que aquilo o acordasse. Bruno apareceu vindo da quadra.

“Cê hibernou na aula de programação,” ele disse, encarando Ícaro com os olhos bem abertos. Tinha quase dois metros, o Bruno. Parecia um urso pelado. “Ficou no pornô até tarde?”

“Ah, num fode,” Ícaro respondeu, dando outro gole no Red. “Rolou treta ontem.”

“Treta?”

“Roubaram meu drone.”

Bruno sentou ao lado dele. “De novo? Como?”

“Como tu acha? Motoboy atirou nele.”

“Putz. Chamou a polícia?”

“A polícia? Porra, mermão, não. Tá maluco?”

“Qual problema?”

Ícaro olhou para os lados e depois para Bruno. “Vamo dizer que a polícia não é fã de quem faz esse tipo de trampo.”

“Entregar pizza? Qual problema?”

“Não, Bruno,” Ícaro disse. “Tô falando do outro trampo.”

“Cê ainda tá mexendo com isso?”

“Tô.”

“Pô, cara. Isso é errado…”

Ícaro balançou a cabeça: “Ah, tá! Falou o santo que ano passado vendia balinha aqui na escola.”

Vendia, do verbo não vendo mais… O que que tem esse outro trampo?”

“Como assim o que que tem? Roubaram o meu drone.”

“Sim, você já falou. E daí?”

Bruno às vezes tinha de pegar no tranco igual a moto do irmão dele. “Cara, como você acha que eu entrego as parada? De skate? De busão?”

Bruno ficou em silêncio, olhos ainda escancarados como se tivesse levado um susto. “Putz,” ele falou depois de uns segundos. “Cê usa o drone pra entregar as drogas?”

“Fala mais baixo,” Ícaro sussurrou, olhando por cima do ombro do amigo. “Pô, tá querendo me foder?”

“Dicupa. O que cê vai fazer agora?”

“Pagar por tudo,” Ícaro disse. “Mais tarde vou na pizzaria ver se consigo um adiantamento.”

“Mas cê num colocou aquele negócio de localização no drone?” Bruno disse. “Vai lá e busca ele.”

“Difícil.”

Bruno cruzou os braços. “Por quê?”

Ícaro tirou o celular do bolso. Acionou o mapa e o mostrou para ele. “Por isso,” falou. “Reconhece esse lugar?”

Os olhos de Bruno continuavam estáticos. “É aquele parque abandonado… como se chamava?”

“Zoing-Zoing World.”

Bruno aproximou o rosto. “E esse pontinho mexendo é o seu drone?”

“Aham.”

“As Fofuras tão lá nesse parque, né?”

“Aham.”

“Então já era…”

“Aham.” Ícaro sondou o rosto de Bruno. “Pô, mermão. Vai ficar o dia inteiro sem piscar?”

“Quê?”

“Seus olhos. Parece que tu tá querendo me engolir com eles.”

“Putz, tinha até me esquecido, credita?” Ele levou a mão ao pescoço, pressionando o lenço que tinha amarrado ali. O ar ao redor do seu rosto pareceu vibrar.

“Pronto,” ele disse, piscando. “Tava usando isso pra poder dormir na aula.”

“Usando o quê?”

“O projetor,” Bruno respondeu, apontando para o lenço no pescoço. “Ei, quer ver um negócio gadanha?”

“O quê?”

“Fecha os olhos.”

“Pra quê?”

“Pra eu te mostrar um negócio. Fecha os olhos.”

Ícaro soltou um suspiro, mas obedeceu. “Pronto.”

“Espera um pouquinho.”

Um grupo de crianças passou ao lado, correndo e rindo. Ícaro pôde sentir o cheiro doce de merenda e suor.

“Abra os olhos…”

Ele abriu. O rosto à sua frente parecia um cilindro de carne rosa, os ossos do nariz, inchados, empurravam os olhos para os lados, dando à cabeça de Bruno a aparência de um tubarão com megacefalia. O rosto sorriu e foi o sorriso mais horrendo que Ícaro já tinha visto.

“Puta merda!” Ícaro gritou, derrubando a lata de Red na grama. “Tira esse negócio! É horrível!”

Bruno riu, apertando o lenço. O tubarão deformado sumiu. “Qualé? Cê assustou igual minha irmãzinha. A diferença é que ela só tem seis anos.”


Depois da aula, Ícaro foi até a San Ruggero. Era quase uma da tarde e o sol ardia sobre sua cabeça. Ele prendeu a bicicleta num poste e entrou na pizzaria.

A moça do caixa lia uma Marie Claire que tinha uma modelo de quatro braços na capa. Ícaro se aproximou.

“Oi… Roger tá aí?”

A moça abaixou a revista e ergueu uma sobrancelha. “Menino… não chama o homem assim que ele fica doido…”

“Certo,” Ícaro falou. “O Ruggero tá aí?”

“Lá no escritório,” ela respondeu, enfiando o rosto de volta na revista.

Ele seguiu em frente. Passou pelos clientes que almoçavam nas mesas ao fundo. O movimento àquela hora era fraco, mas havia tanto floco de farinha no ar que pareciam estar produzindo pizzas para um batalhão.

Ícaro bateu na porta do escritório e aguardou.

“Quem é?” uma voz engasgada perguntou.

“Sou eu, seu Ruggero. O Ícaro. Pode entrar?”

“Um momento… entra.”

Ícaro abriu a porta. Espremido atrás da mesa, estava o dono da pizzaria. Era um sujeito grande e de braços peludos, o rosto avermelhado como se houvesse acabado de virar um copo de vodca.

“Quem é você?” ele perguntou.

“Ícaro. Trabalho pra você.”

O homem franziu a testa. Tinha um computador na mesa que, comparado às suas mãos, parecia mais uma calculadora financeira.

“Droneboy,” Ícaro completou. “Faço as entregas aéreas.”

“Ah, você…” o homem disse, ajeitando as costas na cadeira. “Recebemos ontem a ligação de um cliente. Ele não tinha recebido a pizza que pediu. O que houve?”

“Motoboys atiraram no meu drone.”

“Motoboys, hem?”

“Sim,” Ícaro disse. “Me acertaram perto—”

“Isso não me interessa,” o homem o cortou. “Já descontamos o valor da pizza do salário que você tem para receber.”

“É sobre isso mesmo que eu queria falar, seu Ruggero,” Ícaro disse. “Preciso de um adiantamento.”

“Adiantamento?” o homem soou quase ofendido.

“Sim. É que meu gato tá doente,” Ícaro falou.

Era uma mentira deslavada, mas, pelo modo como os olhos do homem brilharam, parecia ter colado. Apesar de durão, seu Ruggero tinha loucura por gatos; o carro do homem vivia lotado de pacotes de Whiskas.

“Seu gato?” A voz saiu quase terna.

“É, seu Ruggero… O coitadinho tá fraco, e preciso comprar os remédios.”

O homem espremeu uma caneta entre os dedos como a pensar. Então, como que voltando a si, ele falou: “Não trabalho com adiantamento.”

“Mas eu também tenho que consertar o drone…”

“Não é meu problema.”

“Pô, seu Ruggero, eu pensei—”

“Pois pensou errado. Isso aqui não é banco… Mais alguma coisa?”

“Posso comer uma pizza? Não almocei ainda.”

“E eu tenho cara de madre Teresa, rapaz? Vai, vai. Pode ir.”

Ícaro virou as costas, mas o homem lhe chamou de volta.

“Percebi que você anda demorando bastante com suas entregas…”

“Problemas de navegabilidade, seu Ruggero. O fio da antena tá velho, daí a recepção fica ruim. E tem os rotores roí—”

“Não me enrola com papo técnico, rapaz,” o homem disse. “Seguinte: se eu descobrir que você está fazendo outra coisa durante o serviço na minha pizzaria, não vou nem me dar o trabalho de chamar a polícia. Eu mesmo te busco e te arrebento.”

“Que isso. Quanta desconfiança…”

“É só um aviso. Entendido?”

Ícaro fez uma continência. “Roger…”

“O qu—”

“…Ruggero.”

O rosto do homem endureceu, as veias arrebentadas do nariz pipocando. “Vai! Chispa logo daqui!”

Ícaro abriu a porta e saiu. Pela fresta, viu o homem tirar uma garrafa da gaveta.

Antes de ir embora, ele voltou na moça do caixa. Ela abaixou a Marie Claire.

“Oi,” ele forçou um sorriso. “O seu Ruggero deixou eu levar uma de calabresa pro almoço.”


Pedalou para casa, mastigando uma fatia de pizza. No caminho, viu que o Lenovo tinha voltado a ligar. Cinco ligações só enquanto estava na escola.

Agora como vou arrumar esse dinheiro? Como? Dependendo do que colocaram no drone vai sair caro pra cacete. Pó, imagina se for pó; um pacotinho daqueles de cinquenta gê, mermão… E se for uma daquelas bolonas de sinuca? Tô cagado!

Chegando ao condomínio, Ícaro subiu as escadinhas que levavam até o seu bloco. Deixou o resto da pizza com a pivetada do parquinho, prometendo de novo ao Filipe que iria na sua festa. Moleque insistente!

Tomou o elevador. Empurrou a bicicleta para dentro e, quando a porta estava quase fechando, ouviu alguém do lado de fora.

“Segura!”

Ícaro esticou a mão, dando passagem para uma garota entrar. Ela carregava uma sacola com laranjas e usava óculos de armação grossa e esmaltada.

“Brigada,” ela disse.

O elevador começou a subir. No silêncio que se estabeleceu entre os dois, Ícaro olhou de canto para ela. Era mais alta que ele e parecia descendente de chineses. Ícaro nunca tinha visto ela no prédio.

Antes de atingirem o terceiro andar, a garota apertou o botão de parada, fazendo o elevador travar com um solavanco.

“Que cê tá fazendo?” Ícaro perguntou.

A garota se virou para ele e sorriu. Era bonita. Meio nerd, mas bonita. “Você é o Ícaro.”

Não foi uma pergunta. Ícaro a encarou, meio interessado, meio desconfiado. “Sim…”

“Mora no sétimo, não é?”

“Moro…”

“Filho da Marina?” ela perguntou, piscando um olho.

Totalmente desconfiado agora. “Quem te disse?”

“Ah, um passarinho,” ela respondeu, colocando a sacola no chão devagar. Com o sorriso ainda nos lábios, ela lhe desferiu um soco bem no nariz.

Ícaro foi ao chão, batendo a cabeça contra o quadro da bicicleta. A garota se agachou em frente a ele.

“Estamos a manhã toda tentando falar contigo,” ela disse. “Por que não atende o telefone?”

“Eu… esqueci ele em casa.”

Outro soco, agora na barriga, e dor deslizou como uma cobra até a virilha.

“Não mente pra mim, merdinha,” ela disse, ameaçando socá-lo novamente.

“Calm… espera,” ele disse, tentando recuperar o fôlego.

Ela o encarou, olhos serenos como os de um inseto. “Por que não entregou a encomenda?”

Apoiando-se sobre os cotovelos, Ícaro se ajeitou. Passou a mão no nariz, sentindo o sangue melecar os dedos. “Roubaram meu drone.”

“O quê?” ela quase gritou, seus olhos arregalando.

“Roubaram meu drone,” ele repetiu.

“Puta merda, garoto. Quem roubou?”

“Num sei!”

“Sabe onde ele está?”

Ele engoliu um pouco de ranho com gosto de ferro. “Sei.”

“E o que você tá fazendo aqui que não foi buscá-lo?”

“É complicado,” ele respondeu. “Mas num esquenta que eu vou pagar pelas parada. Tenho um dinheiro sobrando e posso vender algumas coisas.”

“Acho que não é tão simples assim, menino,” a garota disse.

“Por quê?”

Ela ajeitou os óculos no nariz. “Seu drone estava levando uma encomenda muito, muito mais cara que o normal,” ela disse, franzindo os lábios. “Você poderia vender um rim que ainda não pagaria por ela.”

“Merda…” ele disse, olhando da garota para o chão e de volta para ela. “Que encomenda é essa?”

“Isso já não é da sua conta, certo?” ela disse. “Me fala onde está o drone. Deixa que eu mesma busco ele.”

“Tudo bem,” Ícaro disse, controlando-se para não sorrir. Abriu a mochila, tirou o celular de dentro e fingiu uma expressão de surpresa. “Mas olha só… estava aqui o tempo todo…”

Ela franziu os lábios de novo. Cara, que gracinha!

Acessando o mapa, Ícaro mostrou o endereço para ela, que tomou o celular dele.

O rosto dela escureceu. “Escuta, menino,” ela disse, apontando para a tela do celular. “Seu drone tá aqui?”

“Tá.”

Ela jogou o celular de volta pra ele. Tirou o próprio celular do bolso e fez uma ligação.

Começou a andar de um lado para o outro, falando rápido igual aos chineses do shopping popular. Seja lá com quem estivesse conversando (Chico Lenovo, provavelmente), esse alguém não parecia nada contente porque dava para ouvir a gritaria saindo do celular. Ela olhou de canto para Ícaro, o mesmo olhar que sua mãe lançava para ele quando recebia uma ligação da escola.

Ela terminou a ligação e guardou o celular. “O Lenovo não ficou nem um pouco feliz com a novidade e quer que a gente busque o seu drone o quanto antes.”

“Então cê vai comigo?”

“Sem chances,” ela respondeu. “As Fofuras que vivem naquele parque são umas canibais.”

“E então?” Ícaro apalpou com cuidado o nariz.

“E então que você vai dar seu jeito,” ela disse, puxando o botão de parada para fora. O elevador voltou a subir e parou no quinto andar.

A porta se abriu. “Traga o pacote de volta pra mim até domingo. Se você não me entregar até lá, prometo que nossa próxima conversa não vai ser tão agradável como a de hoje,” ela disse, sumindo da vista de Ícaro.

O sinal do elevador piscou, a porta fechando. Ícaro olhou para o chão. Ela havia esquecido as laranjas.


Ícaro ainda sangrava quando chegou ao apartamento.

Ele colocou a sacola de laranjas sobre a mesa da cozinha e lavou o rosto com água gelada da pia. Seu sangue misturou-se aos pratos com restos de pizza e queijo.

Em silêncio, ele fez uma compressa com alguns cubos de gelo e um pano de prato e foi para o quarto.

“Didi, UDP,” ele falou e a música começou a tocar, saindo da boombox.

Com o rosto frio, ele jogou a mochila na cama e tirou o tênis e a meia. Ficou sentado, apertando o gelo no rosto, sem pensar em nada. Algo, então, roçou-lhe os pés.

“Quê é isso?!” ele se assustou, largando a compressa. Os cubos de gelo se espalharam pelo chão. Ele se abaixou e viu o bot de limpeza passar, rodando tranquilamente para a outra ponta do quarto.

Ícaro deu um muxoxo. Tá na hora de instalar um sensor de proximidade nesse carinha.

Agachou para apanhar os cubos de gelo, enquanto a mina do UDP gritava alguma coisa sobre uma guerra na Amazônia.

Foi quando ele teve uma ideia. Largou o pano de prato e abriu a mochila, tirando o celular. Ligou para Bruno.

“Ei… Nada. Em casa. Escuta, acha que consegue pegar a moto do seu irmão emprestada?”


Ninguém sabia direito quem eram ou de onde vieram as Fofuras. Uns diziam que eram um bando de crianças que havia se enchido da sociedade e resolvera viver segundo suas próprias regras; outros, que eram filhas de um bioquímico interessado em linhas germinais e com uma obsessão doentia por desenhos antigos da Disney; e havia os que tinham certeza que as Fofuras eram resultado de algum experimento fracassado, desses que surgem dos laboratórios da Roche, PerkinElmer ou CHGB e que aparecem toda semana nos jornais. Mas em um ponto todos concordavam: as Fofuras eram loucas. Mais que loucas, perigosas, com relatos de canibalismo e tudo o mais.

A chinesinha sabia disso. Por isso ela disse Dá seu jeito, gatinho.

Tá, não foi com essas palavras, mas foi algo bem parecido, Ícaro pensou, sentindo a bunda tremer sobre o banco da moto. Tinha convencido Bruno a lhe dar uma carona até o Zoing-Zoing World. Ele o esperaria do lado de fora, enquanto Ícaro se aventuraria dentro do parque.

“Cê acha que vai dar certo?” Bruno perguntou por cima do ombro.

“Quê?” A moto fazia uma barulheira dos infernos.

“… dar certo?”

“Só tem um jeito de saber,” Ícaro disse.

Os dois seguiram pela rodovia que levava para fora da cidade. Próximo à Lafaiete, era possível ver uma fazenda eólica, quinze torres sugando sorumbáticas o vento seco e poluído.

Eram dez da manhã de sábado e em poucos minutos chegariam ao ZZW. A ideia inicial era ir ao parque de noite, mas Ícaro pensou melhor. Se o lugar já era assustador de dia, imagina à noite? De todo jeito, algumas das Fofuras deviam possuir visão noturna, o que jogaria por terra o elemento surpresa.

“Ei, olha,” Bruno falou.

À esquerda deles, via-se as torres de um castelo de conto de fadas. Ou o que devia ser a armação de ferro delas. Era como se tivesse acabado o material no meio da obra.

“Não pare muito perto,” Ícaro disse. “Barulhenta demais essa moto.”

Bruno assentiu e saiu da rodovia, pegando a estradinha que levava ao estacionamento do parque. Tufos de grama saíam do concreto e restos de tampas e canudos plásticos estavam espalhados por todo o local.

Bruno desligou a moto perto de uma fila de banheiros químicos. A entrada do parque ficava a uns duzentos metros dali, os letreiros Zoing-Zoing World apagados contra o céu cinza.

Ícaro saltou. Massageou a bunda com uma mão e ajeitou o projetor de máscaras com a outra. “Como isso funciona?”

“Você deixa a máscara que quer selecionada no celular e aperta esse botão no pescoço.”

“Xô testar,” Ícaro disse. O tubarão megacéfalo projetou para cima. “E aí?”

“Assustador,” Bruno disse. “Aqui, por quanto tempo eu tenho que te esperar? Tenho jogo de vôlei às duas.”

“Sei lá, cara.”

“Vou te esperar meia hora, então.”

Meia hora? Cara, eu posso estar correndo perigo lá dentro.”

“Eu sei, mas tu acha que eu vou lá dentro te salvar?”

“Pô… E a parceria?”

“Sempre falei pra tu não mexer com essas parada. Tu não ouviu de tonto que é.”

“Tá, tá,” Ícaro disse, desligando a máscara. Ele girou nos calcanhares e seguiu em direção à entrada do parque. “Se eu morrer a culpa é sua.”

“Tira uma foto!”

Ícaro virou o rosto. “Hã?”

“Das Fofuras. Quero ver como elas são.”

Tira uma foto… Pelo celular, Ícaro viu que o drone estava parado perto da praça central, bem entre o estande de souvenires e a roda gigante. O castelo que vira na estrada ficava umas duas quadras depois.

Passou pela cancela de ferro, que gemeu como uma velha doente. Barraquinhas de metal corrugado se aglomeravam lado a lado. Eram antigos quiosques de alimentação, locais onde os turistas enchiam a pança na entrada e na saída do parque. Parecia sobras de um filme, alguma favela alienígena sonhada por Neill Blomkamp. O vento soprava frio e os montinhos de papel rolavam de um lado para o outro.

Algo se moveu à sua frente, gingando por entre as árvores. Ícaro abaixou atrás de um banco. Saindo por entre as folhagens, viu um mico pulando do alto de um galho até o chão. Ele respirou aliviado e continuou.

A praça central estava perto agora. O letreiro do Bull Rider estava no chão, a gigantesca montanha-russa como uma escultura cinética morta.

A poucos metros da praça, viu o drone largado numa mesa. Correu para buscá-lo, mas, antes de chegar, uma figurinha vestindo macacão lilás surgiu de dentro de uma das barracas. Era uma menininha de cabelos pretos e pouco mais de 5 anos.

Aquilo, então, é uma Fofura? Até que é fofinha mesmo.

Ela saiu num pique e apanhou o drone, correndo para longe dali.

“Cacete,” Ícaro disse entre os dentes, indo atrás dela.

A menininha usava tênis pretos e se movia como uma ginasta. Saltou por entre os bancos da praça, levando o drone acima da cabeça, Ícaro logo atrás dela.

Os dois passaram pela Dizzy, uma montanha russa circular que borrifava pimenta nos olhos dos clientes. A droga do castelo ficava logo depois.

“Espera!” Ícaro gritou, mas a menininha ia longe. Ela atravessou a ponte que conectava a calçada ao portão do castelo e embarafustou para dentro dele.

Parando para recuperar o fôlego, Ícaro olhou ao redor. Se aquela pestinha estivesse sozinha, seria fácil tomar o drone dela. Ele limpou o suor da testa, seguiu em frente e entrou no castelo.

Parecia o interior da árvore de Hyrule. O chão ladrilhado era como um imenso tabuleiro de xadrez, enquanto sessões de escadas percorriam em caracóis as paredes até o topo. Era possível ver o céu através das torres, os pontões de ferro projetando em direção às nuvens como antenas góticas.

Ícaro viu um trono, o trono da princesa. A menininha estava sentada lá, cabisbaixa, mexendo com o drone.

Ícaro não queria assustá-la. Ela podia acabar gritando, chamando de vez a atenção das outras. “Psss,” ele fez, mas a menina nem tchum.

Ele se aproximou na ponta dos pés. As mechas da menininha estavam jogadas para frente e ela fuçava com interesse uma das hélices do drone. Ícaro acreditou ter ouvido um rosnado.

Quando ele estava à distância de um braço, a menininha levantou a cabeça. Olhinhos verdes e um par de bochechinhas gorduchas e rosadas. E ali, bem no meio do rosto, cravado no lugar do nariz, um focinho rude de cachorro projetava-se para frente, os bigodes pretos espetando o ar. Ela rosnou.

Ato contínuo, Ícaro apertou o lenço, fazendo o tubarão megacéfalo saltar. Ele agitou a cabeçorra, e a menina uivou de susto, largando o drone e escapulindo dali.

“Rá!” Ícaro disse, pegando o drone, mas antes que pudesse cantar vitória, ouviu rangido vindo de trás dele.

O portão estava fechando.

Ícaro ainda tentou correr, mas o portão estremeceu contra os tijolos de concreto, fechando-o dentro do castelo.

Ele se virou. O lugar havia escurecido e podia-se ouvir o vento choramingar pelo teto exposto do castelo.

Tem que haver alguma outra saída desse lugar.

Com cuidado, Ícaro voltou até o trono da princesa. Estava sujo e dava para ver as partes corroídas por cupins. Ele ergueu o pescoço.

Nenhum sinal da Fofura e até havia uma saída, mas estava bloqueada pelos tijolos grossos de uma parede que desabara sabe-se lá quando. O castelo da princesa se tornaria a tumba do sapo se ele não tomasse logo uma decisão.

Por cima. Pelas escadas. Era o único jeito. Ele olhou para o alto. Nuvens pretas se acumulavam no céu, contrastando com as torres enferrujadas. Quem tem medo de uma chuvinha?

Ele voltou até a entrada e subiu o primeiro lance de escadas. Tinha poeira e pegadas de tênis nos degraus. Adidas, tamanho 29.

Subiu devagar, na ponta dos pés. Evitou até respirar. Vai saber como é a audição dessas Fofuras. Havia uma entrada poucos degraus à frente.

Estava quase na metade, quando jurou ter escutado risadinhas. Ele espichou o pescoço. Fora o trono da princesa, não havia nada lá embaixo.

As risadinhas se tornaram mais altas e algo caiu ao lado dele.

Um tênis roxo com glíter.

Ícaro olhou para cima. Figurinhas em lilás surgiram por entre os pontões de ferro das torres, rosnando e grunhindo.

Ele agitou o tubarão, mas elas não pareceram se assustar. Ao contrário. Começaram a descer para dentro do castelo.

“Ai, meu pai!”

Ele correu e alcançou a entrada, adentrando um quarto espaçoso. Havia várias camas de madeira ali e um armário largo. O carpete rosa desbotado estava coberto de embalagens de salgadinho, de doce e o que deviam ser lascas de ossos.

Barulhos vieram pelas paredes, como bichos escalando. Ícaro se enfiou no armário, escondendo-se. Fora os mosquitos, não havia nada ali além dele.

Ele abaixou e olhou pela fechadura. Três meninas de uniformes de ginasta lilás entraram no quarto. Não era possível ver o rosto delas, mas dava para ouvir suas risadinhas. Ele esperou.

Uma delas pegou um pacote do chão e cheirou. Outra tentou tomá-lo e recebeu um rosnado em resposta. Do outro lado do quarto, ao lado da penteadeira, Ícaro viu uma porta. Era por ali que ele iria escapar.

Um relâmpago iluminou tudo, e o trovão que se seguiu pôs as Fofuras a ganir como cães. Assustadas, elas correram para fora do quarto.

Assim que saíram, Ícaro esperou quase um minuto. Não queria que seu medo, suor ou seja lá o que fosse denunciasse sua presença. Abriu a porta do armário e saiu.

À sua esquerda, as camas emitiam um cheiro contrastante de sabonete e pelo molhado. Um candelabro coberto de bichinhos de pelúcia estava suspenso no teto, no meio dele o que parecia ser uma cabeça encolhida.

Ícaro abriu a porta. Estava ainda mais escuro ali e um futum de açougue grudava nas narinas.

Ele deu um passo em falso e, sem perceber, escorregou numa espécie de tobogã, caindo sobre uma pilha de objetos brancos.

Atordoado, Ícaro ajeitou o drone contra o peito. Levou a mão a um dos objetos da pilha.

Um crânio.

Crânio de gente!

Estava rodeado por ossos. Uma pilha barroca de ossos de gente, ossos de vaca, ossos de galinha, ossos e mais ossos! Brancos como se houvessem chupado até o tutano.

Atrás dele, um montão de tijolos chegava quase ao teto. Deve ter dado a volta até o outro lado do castelo. Havia uma saída logo à sua frente.

Começou a levantar, quando sentiu algo gosmento cair no seu ombro.

Através de uma claraboia, outras meninas o observavam, salivando. Elas usavam o mesmo macacão lilás das outras, mas os focinhos variavam de porcos e bicos de pato a pequenas trombas de elefante, uma sucessão de carinhas Disney raivosas. Elas gritaram ao mesmo tempo, urrinhos infantis estalando em gargantas de animais.

Ícaro se libertou da pilha de ossos, escorregando numa pátina gordurenta, o coração latindo em seu peito.

Tentou usar o projetor, mas a porcaria não quis funcionar. Devia ter estragado com a queda.

Sem pensar duas vezes, ele correu para fora do castelo, apertando o drone contra o peito. Um bando de meninas-selvagens vinha em seu rastro.

Correu como nunca correra. Nas barracas de comida, olhou para trás; as Fofuras avançavam, espuma brotando de suas bocas escancaradas.

Conseguiu despistá-las e chegar ao estacionamento primeiro. A moto estava lá, mas Bruno não.

Cadê esse filhodaputa?

Assoviando, Bruno saiu de um dos banheiros químicos. Ele fez um gesto para o alto, como se dissesse: “Ah, finalmente.”

“Liga a moto!” Ícaro gritou.

Bruno franziu a testa. “Foto?

MÓTO! Liga a móto!”

“Ah,” Bruno disse, seu rosto empalidecendo. O batalhão de meninas avançava pela cancela do parque em sarilhos, pulando e gritando em direção ao estacionamento. “Puta merda!” ele soltou, tirando a chave do bolso.

Os dois subiram na moto. As Fofuras estavam quase alcançando eles, quando finalmente conseguiram sair do parque e voltar para a segurança da rodovia, o ronco da moto engolindo os urrinhos.


Ela abriu a tampa do milk shake, mergulhou o último pedaço do hambúrguer ali e levou à boca, mastigando satisfeita.

Ícaro olhou para a cena boquiaberto. Primeiro, porque nunca tinha visto alguém fazer aquilo, e, segundo, porque era um sacrilégio tanto para o hambúrguer quanto para o shake.

“Aquelas meninas são mesmo ferozes,” a garota chinesa disse e limpou os dedos num guardanapo. “Já ouvi falar de umas três pessoas que morreram naquele parque. Você foi mesmo corajoso, menino.”

“Como se eu tivesse tido escolha,” Ícaro respondeu e bebeu do milk shake. Fuzzy bubbles com menta e chocolate. Seu favorito. Pousou o copo ao lado do pacote. Ele resistiu bravamente à tentação de abri-lo.

Era um pacote pequeno, na verdade um embrulhozinho de plástico que tinham escondido na parte interna da carcaça do drone. Foi sorte não o terem guardado junto com a pizza. As Fofuras teriam devorado o pacote sem nem notar.

“Não está curioso para saber o que tem aí?” a garota perguntou.

“Nããão…”

Ela tomou o pacote entre os dedos. Abriu o embrulho e tirou um colar de prata com uma pequena pedra escura na ponta.

Ícaro franziu a testa. “Então é isso?” ele falou. “Arrisquei meu cu pra salvar uma bijuteria?”

“Quase,” ela disse, dando um piparote na pedra. “Na verdade, é isso aqui que importa.”

“E o que é?”

“Mel roxo,” ela respondeu e Ícaro parou de sugar do canudo.

Mel roxo. Apelido dum químico que dizem ressuscitar pessoas com morte cerebral. Proibido em três continentes. Vale uma grana fodidi-dada.

Ícaro sorriu. Poderia ter fugido com essa parada.

“Sei o que está pensando e não acho que seja uma boa ideia,” a garota disse, guardando o colar num dos bolsos da japona que estava vestindo.

“Não pensei em nada,” ele disse. “Quem tá em coma?”

“A sobrinha do Lenovo,” disse a garota. “Devia ficar contente. Você salvou a vida de uma criança.”

“Daqui a pouco viro embaixador da Unicef.”

Ela riu e levantou da cadeira. “Bom. Tenho que ir agora. Falo pro Lenovo que você ainda trabalha pra ele?”

Se isso significa que a gente vai se ver mais vezes, pode apostar que sim.

“Claro.” Ícaro deu de ombros, tentando ser descolado.

“Ótimo. A gente se vê. E não se preocupe com o shake. Cortesia da casa,” ela disse, dando as costas.

Ícaro pousou os cotovelos na mesa e ficou a chupar o canudo, enquanto a garota sumiu na multidão. Escutou uma engasgadinha na mesa ao lado.

Uma família almoçava seu almoço de domingo no shopping. Uma menininha esticou a cabeça por sobre o banco e encarou Ícaro. Ela sorriu para ele, a boca lambuzada de catchup.

Domingo.

Tinha a festa do Filipe ainda.

Talvez desse um pulo lá.

Michel Peres
Michel Peres
Michel Peres é professor, engenheiro, escritor e leitor. Natural de Matozinhos (MG), escreveu poesias que nunca passaram pelo crivo da gaveta e vive a desenvolver a sua mitologia pessoal (divertindo-se bastante com isso). Já publicou na Trasgo e nos sites Leitor Cabuloso e Obvious.

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Um comentário

  1. André Barreto / 8 de junho de 2017 at 23:15 / Responder

    Caramba, um dos melhores contos que já li, f#d@!!!!!! Virei fã!

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