Emet

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…Abrabrabratôindo…
…abrabrabrabrajátôindo…
…abrabrabrabramasqueporrajádissequetô…
…abrabrabrabrabra.

A porta me abraça e me cospe pra dentro. Demoro uns bons segundos pra descolar a cara do chão. Aliso a circunferência do rosto. Sempre fico com medo de um trincado ou outro arruinar essa coisinha tchutchuca e gotosa, como minha mãe dizia. Me recomponho e sento no balcão.

— O que vai ser?

— Cardápio?

Ele joga uma tabuleta burilada e corro os olhos pro final.

 

BEBIDAS
. água de termais 48°C
. água com toques de madrepérola
. vitamina de lodo com algas marinhas
. cachaça de gramíneas
. cerveja outonal

 

— O que tem nessa cerveja outonal?

— Folhas, galhos de eucalipto, raízes cítricas, restos triturados de insetos—

— Que insetos?

— Besouros, formigas e grilos. Mais água de chuva fresca, grama e terra roxa.

— Parece bom.

— É uma delícia. Prata da casa.

— Tá, vê uma.

— Tá em falta, meu chapa.

Peço água quente pra amansar as juntas. Antes fossem só golens por aqui. Somos ríspidos e sérios mas nos entendemos. Não que a gente não se misture com elementais da terra e híbridos animalescos, só não costuma dar muito certo.

Mesmo assim, um elemental sentado sozinho numa mesa nos fundos acena pra mim. Olho ao redor mas sou o único na direção que ele olha. Ando até lá.

— Sim?

— Por que… demorou tanto? — Ele diz, ou melhor, continua dizendo, mais um pouquinho, pronto. A velocidade da fala dos elementais da terra é notória. Seus concílios duram estações inteiras. Suas discussões mais triviais, dias. Há um esforço, apreciado por todas as outras espécies, de acelerar o que dizem e fazem quando estão perto de nós. Caso contrário a convivência seria impossível. Ainda assim, puxar papo com um deles só é aconselhável se você tiver descansado e com cafeína por perto.

— Desculpa, eu te conheço?

— Agora conhece… Por favor se sente… Bo.

— Como sabe o meu nome?

— Você nos disse… quando ligou… A propósito… sou o Josias… Trouxe o dinheiro?

— Que dinheiro?

— Da expedição… oras bolas… Que solicitou na agência… dois dias atrás… quando ligou.

— Não sei do que você tá falando. Na verdade nem lembro de como cheguei aqui.

— Não importa… você está aqui agora…. Olhe no seu bolso… às vezes você lembrou… de colocar lá.

Claro que quando meto a mão no bolso tem um bolo de pedrinhas brilhantes amontoadas no ímã pomo. Desligo a atração e caem na mesa. Josias enfia a mão no peito. É uma parede de folhas e galhos e musgo. Tira a mão. Abre os dedos. Há outro ímã pomo ali. Ele aperta o botão. As pedras se amontoam. Fecha os dedos. Enfia de volta no peito.

— Pronto, Bo… Agora pode me considerar… o seu guia.

— Guia?

— Claro… Nosso contrato estabelece… que você ouça… minhas orientações… Tenho certeza… que será supimpa.

Ele faz um joia pro barman, que devolve com uma continência. Saímos por uma porta lateral que dá num corredor longo e escuro. Há uma abertura iluminada no final e andamos na direção dela.

— Agora… a nossa expedição começa… Qualquer dúvida… é só me perguntar… Responderei na medida… do possível.

A abertura dá num grande vale, a luz do sol banhando tudo com um cristalino que arde os olhos. Morros verdejantes abundam e convergem pruma depressão no centro, onde o matagal é alto e as árvores parecem prensadas juntas. Pulamos na grama e depois de uns passos olho pra trás. O corredor de onde saímos parece o fim de um grande cano, e muitos outros se amontoam no paredão, como um sistema de tubulação que acaba aqui.

Descemos o morro. Sei que se abraçasse as pernas e abaixasse a cabeça chegaria lá em pouquíssimo tempo. Alguns golens dizem que rolar morro abaixo é se rebaixar, é deixar a natureza ditar o que faríamos caso não tivéssemos consciência. Besteira. Qual golem não gosta de tomar banho de sol e chuva deitadão na terra? Rolar morro abaixo é como respirar. Mas vou atrás dos passos lentos de Josias. É até bom porque me permite reparar melhor nos arredores. Posso, por exemplo, agachar e passar os dedos na grama e sentir que na verdade não é grama coisa nenhuma.

Apanho uma folha e ela esfarela na mão. São pedregulhos verdes amontoados em formato de grama.

— É pedra, Josias. Tudo isso aqui é pedra.

— Tudo é pedra… Mas o que não é… feito da mesma matéria… Eu e você… parecemos diferentes… mas somos feitos… do mesmo… no fim das contas.

— Se você considerar tudo num nível primário, mas o que eu tô dizendo é que a gente tá sendo enganado. Isso aqui é artificial, Josias. Você tá me levando por um parque temático. Uma simulação.

— Tudo é simulação, Bo… Você se preocupa com coisas… que não são importantes… Tente ver… além disso.

Chegamos no matagal alto. Tomo a dianteira, fascinado com as árvores que respiram. São várias, amontoadas em círculo, troncos robustos e raízes dançantes que afundam no solo e ressurgem sedentas. No meio vejo pedras de todos os tamanhos e formatos. Há uma espécie de ordenamento, como se alguém tivesse tentado montar algo e desistido. Elas possuem concavidades, bem onde estariam seus olhos e bocas se fossem cabeças. As feições dos golens desaparecem quando se cansam. Não morremos, só desistimos de viver.

— Isso é um cemitério, Josias? — Procuro o elemental mas não o encontro. As árvores dançam.

Empurro e puxo as pedras, desmontando a estrutura. Encontro uma bola soterrada no fundo, um minério preto e mole. Tento tocá-la, mas a mão treme e teima. Reparo melhor numa das pedras caídas, um corte grotesco onde estaria uma sobrancelha.

— Pai? — Lembro do talho que o lenhador fez no rosto do meu pai quando eu era moleque. É idêntico. Sinto uma mão venenosa me apertando a barriga por dentro. Onde tá o maldito Josias pra me explicar o que é isso?

As raízes se contorcem num ritmo suave e se alongam e agarram as pedras, devolvendo-as ao seu lugar de origem, uma por uma. Saio de fininho, achando que fiz algo errado e serei punido assim que acabar a arrumação. Me colocarão de castigo ou chicotearão minhas costas ou ficarei sem comida.

Saio do círculo de árvores e subo o morro do outro lado. Depois do matagal encontro Josias, as mãos na cintura.

— Onde é que você tava? Eu queria entender aquilo lá embaixo.

— Eu não podia entrar… Avisei você… na descida.

— Não avisou não. Parecia um cemitério.

— Não faço a mínima… ideia do que está… lá embaixo… Há lugares que… não me são permitidos… Vamos continuar?

Subimos até o topo do morro e vejo outros vales, espalhados até onde a vista alcança. No fundo deles há mais círculos de árvores. Josias segue até um maquinário que não notei antes. É uma cabine de osso sobre dois pés retorcidos, três asas no topo. Notando o manche e o rotor na cauda eu diria que não passa de um helicóptero rústico, mas não é bem um helicóptero. Parece construído das entranhas de um grande animal e adornado com peças sobressalentes de espécimes menores, estacionado sobre uma montanha de galhos.

— O que é isso?

— Nosso transporte… Ou você achou… que teria que seguir… meus passos… até o fim?

Dou aquela risada amarela pra não ter que concordar com o óbvio. Você não diz prum elemental da terra que ele é lerdo. Porque quando querem os elementais da terra são capazes de coisas… Bom, melhor não entrar em detalhes.

— Pra onde agora?

— Para cima… Aqui os vales… só acabam… depois de um tempo… que não temos.

— Não temos?

— Eu tenho… outros clientes… e uma família… para sustentar, Bo… Por isso solicitei… o calóptero.

— Tudo bem. Meu problema não é esse. Quero saber onde estamos. Por que eu contratei um guia?

— Oras… Você contratou um guia… justamente para descobrir… o que é este lugar.

Bom, isso faz sentido.

Escalamos os galhos e subimos. Os vales perdem definição com a distância. No teto do lugar, se é que posso chamar assim, tentáculos com uma textura molenga de polvo vasculham o espaço que margeia a entrada de uma abertura. É possível ver o interior, anéis concêntricos empilhados formando um paredão circular. O sol agora tá muito mais perto. E não é o sol. É uma monstruosa lâmpada de bulbo.

— O sol, Josias. É uma lâmpada.

— Sim… A agência preparou… a sua excursão… já que sem a lâmpada… a única fonte de iluminação… seria o brilho musgoso… emitido pelos… tentáculos guardiões… que quase não iluminam… lá embaixo.

— Tentáculos guardiões?

— Sim… eles guardam a passagem… que leva adiante.

— Mas por quê? Este lugar não tá morto, desabitado?

— A morte é relativa… Os habitantes de outrora… já não existem mais aqui… O que importa é que a natureza… está sempre viva… mesmo quando não aparenta… Não é porque a água… não mata mais a sede… que o rio deixa de correr.

— Mas o que os tentáculos guardavam?

— O mesmo que guardam hoje… O retorno… ao que já foi… Estamos fazendo o caminho inverso… nesta terra esquecida… pois possuímos… certas vantagens.

— Que vantagens?

— Para começo… de conversa… você possui um guia.

Ele ri, ou acho que ri. Quando chegamos a certa altura Josias estende os braços, e os galhos e folhas e barro e cascas e ramos e frutas e patas que compõem sua estrutura se alongam e se ramificam e se conectam aos tentáculos, que abrem nas pontas como trombas de elefantes, recebendo um carinho que eriça as rachaduras da minha nuca por algum motivo que só me parece claro depois que a brincadeira tá rolando por algum tempo.

— Josias. Você tá fazendo o que eu acho que tá fazendo?

— Estou fazendo… o que precisa ser feito… para seguirmos em frente.

Puta merda. Os carinhos ficam mais abruptos e um relaxamento logo é notado em toda a estrutura. Os tentáculos pendem murchos. Subimos pela passagem, por dentro dos anéis úmidos, gotículas correndo na direção da grama lá embaixo. Josias pilota o calóptero com habilidade, manejando pelas curvas e reentrâncias.

— Essa cidade, essa terra, como você chamou, é vertical?

— Não na minha… percepção.

— O que são essas ranhuras? — Aponto uma das marcas retilíneas que decoram todo o paredão.

— São heranças… dos que por aqui passaram… antes… Você também pode… deixar a sua… se assim desejar.

— Claro. Com o quê?

— Aqui… use isso.

Ele faz crescer um longo galho do braço e me entrega. Cutuco o paredão e deixo a força da subida fazer o resto. É uma textura macia como carne crua, e o rasgo fica avermelhado. Me sinto culpado. Não entendo de onde veio a motivação pra fazer isso. Jogo o galho fora e ele despenca batendo nas laterais.

Emergimos da abertura num deserto castigado por um vendaval. Josias pousa numa duna e descemos, mergulhando os pés na areia quente e fofa. Não há lâmpada aqui; não há necessidade, já que a própria areia brilha.

Como lá embaixo com os vales, aqui as dunas se estendem até o infinito. A areia levantada pelo vento gruda na epiderme de Josias e ali fica, empanando-o feito um filé de frango.

— Essa areia te incomoda?

— Nada do que… é previsto… me incomoda.

— Tá bom. Onde a gente tá agora?

— Estamos… no deserto.

— Isso é óbvio. Mas o que tem pra ver aqui?

— Muitas coisas… se você tiver vontade… de vê-las.

— Porra, Josias. Para de me enrolar. Essa ventania tá infernal.

— Como quiser… Bo.

Ele entra no chão. Algumas centenas de metros adiante uma ponta surge no solo, crescendo, ganhando corpo, uma pirâmide que engorda e se torna reta nas laterais. Colunas se erguem ao seu redor e vitrines e portas de vidro aparecem. No chão ao redor das colunas, marcas lembram delimitações de vagas em um estacionamento. Josias brota da areia, empanado e pronto pra fritura.

— O que você fez, Josias?

— Eu apenas… revelei o que estava… soterrado.

— Ótimo. Mas um shopping? Isso não parece fazer parte do cenário.

— Nada parece… até parecer.

— Você é uma figura.

As portas de vidro abrem pra nos receber. O silêncio é agradável. Cuspo a areia que entrou na boca e respiro fundo. O cheiro também é agradável, embora velho, como uma biblioteca antiga. Seguimos pelos corredores. Viveiros, jardinagem, cerâmica, costura, lapidação, aquários terrestres, tudo o que se encontra num shopping center comum. Lojas fechadas, esvaziadas de vida, luzes apagadas, produtos empoeirados.

— Era um povo moderno que vivia aqui, Josias. Shoppings são recentes.

— Tão moderno… quanto podemos julgar… pelo que deixaram… para trás.

— Não tô entendendo direito o propósito disso. Mas por aqui acho que já deu. Qual a próxima atração?

— Há algo interessante… aqui dentro… que você ainda não viu.

— Então vamos lá. Não sou arqueologista, mas tá valendo.

— Todos somos… arqueologistas… ao tentar fazer sentido… dos pedaços… que nos são ofertados… Não concorda?

— Josias, já te disseram que você leva a conversa pra onde quiser com essas abstrações?

— Já me falaram… tanta coisa… que não consigo lembrar.

Chegamos a um espaço aberto que conecta outros corredores, uma encruzilhada. No centro há um enorme pêndulo, uma foice no lugar da bola balançando de um lado pro outro, e na frente uma estátua em formato de golem criança, feita de gesso, com olhos negros que seguem a foice em seu movimento irresistível.

— Os olhos se mexem. Por quê?

— São ímãs instalados… nos globos oculares… para seguir o pêndulo… enquanto ele não para.

— E há quanto tempo tá desse jeito?

— Incontáveis épocas… embora o tempo… me escape… me preceda… me iluda.

— O que acha que quiseram dizer com isso? Obviamente essa coisa foi construída pra durar.

— O significado… também me parece… fugidio.

— Você sabe de tudo, Josias. Como pode não saber isso?

— Nem tudo… infelizmente… Bo.

Enfio o dedo na barriga da estátua. Ele entra com facilidade no gesso. Dou a volta sem tirá-lo, abrindo um rasgo até as costas, enfio a mão inteira, puxo. É uma casca, oca por dentro.

— Me ajuda aqui, Josias.

Um montículo de areia se ergue do solo sob meus pés e me eleva à altura da cabeça da estátua. Abro caminho com as mãos e reparo nas bolas que se movem atrás dos olhos. Feitas do mesmo minério preto e mole que descobri lá embaixo. Tento tocá-las e não consigo. Sinto uma dor lancinante no peito. Meu coração, penso. Mas não tô tão velho pra ter esse tipo de problema.

Chuto o resto da estátua e ela desaba, reduzida a farelo. As bolas continuam seu movimento no ar, o pêndulo sem mostras de cansaço. Sento e começo a juntar as migalhas, amassá-las, fazer castelinhos como castelos de areia na praia, tentando terminá-los antes que a maré suba e desmanche tudo, os gritos de animação no ouvido, estridentes, alegria infantil. O peito arde.

Tento enfiar a mão lá dentro mas não sou feito de gesso.

Josias me observa, curioso.

— Não há sentido algum nisso — digo. — Vamos embora. Quanto falta?

— O tempo—

— É relativo, né?

Refazemos o caminho até o calóptero e continuamos subindo. Como a iluminação vem da areia, quanto mais nos afastamos, mais escuro fica. Só sei que Josias continua ao meu lado pois ouço sua respiração e os barulhos do manche.

— Tá certo isso? Tamos indo na direção certa?

— Estamos nos encaminhando… para o fim… se é isso que quer dizer.

— E essa escuridão toda?

— Não tenho poder algum… sobre as curvas ou o relevo… das paragens que exploramos.

— Mas é meu guia. Então pode ao menos me explicar o que é?

— Claro… Estamos atravessando… um espaço que é… uma nuvem densa… de significado.

— Nuvem densa de significado?

— Nuvem… pois é oca… e ao mesmo tempo cheia… Significado… porque todos… os lugares desta terra… ocultam memórias… de tempos pregressos… e até mesmo o aparente nada… é tudo.

— Josias, quanto mais longe a gente vai menos eu entendo.

— É uma pena pois… é o oposto… do que eu pretendia… Do que todos… pretendiam.

— Todos quem?

— Todos da agência… Prezamos… pelo profissionalismo.

— E essa nuvem não acaba nunca?

— Acaba… assim que chegarmos… ao fim.

— Maravilha.

Não demora muito mais, de qualquer jeito. Somos engolidos por algo acima do calóptero. O transporte se despedaça e o elemental é destroçado e moído e prensado contra meu corpo. Ignoro o cheiro de inhame azedo. Quando sinto os membros prestes a racharem o aperto é afrouxado. Tonto, sou encaixado numa esfera maleável que termina de subir por um canal trepidante até um novo ponto de luz. Saio rolando pela superfície vermelha até topar com algo pontiagudo que perfura meu casulo e deixa eu e os restos de Josias no chão.

Passo alguns minutos fracionando a consciência em focos de energia agregadora nos novos lascados. Preciso urgentemente de uma loção restauradora de lava ou corro sérios riscos. Josias se refaz utilizando elementos do novo território. Por isso não é mais verde e marrom, mas uma mistureba dessa textura vermelha e repleta de pelotas e do marfim das pilastras descomunais que nos rodeiam à distância. Estamos dentro de um coliseu, pelo jeito.

Centenas de barracas de acampamento estão espalhadas ao nosso redor. Aqui a vida se manifesta em individualidades. Golens, pequenos e grandes, elementais e híbridos, morfozolos, a fauna toda.

— Essa espremida me ferrou. O que foi isso?

— Um portal… uma espécie de iniciação… que desmonta… e remonta… de uma nova maneira.

— Eu não fui desmontado. Tô inteiro.

— O que é uma pena… apesar de você… supor o contrário.

— Olha, Josias, não me leva a mal, mas tô de saco cheio dessa viagem, dessa expedição, ou sei lá como você chama isso.

— Foi você… quem me procurou… e me convenceu, Bo… Não pense… que sou o responsável.

— Se você diz. Agora, sério. Tô com uma dor de cabeça insuportável.

— Me acompanhe… tenho algo que… pode ajudar.

Desviamos das barracas e dos grupos ao redor das fogueiras jogando cartas, conversando, comendo de panelões, e chegamos num tronco oco de árvore. Josias bate na casca e duas pequenas versões suas saem correndo de dentro, mergulham em seus pés e despontam como cabecinhas sobressalentes nos ombros.

— Olá… papai.

— Você… voltou.

— Olá… crianças… Este aqui é o Bo… um grande amigo… e hoje sou… seu guia.

— Claro… papai… nós sabemos… quem ele é.

Josias pega um copo e enche com água de uma chaleira fumegante pendurada num galho da casa. Me entrega, a bebida transbordando.

— Tome… Vai melhorar, Bo… Pelo menos espero… que melhore.

Viro goela abaixo. Sinto o líquido acariciar tudo e parar na barriga com um calor reconfortante.

— O que é isso?

— Um chá… daquilo que nós… aprendemos a utilizar… do nosso habitat.

— Falando em habitat, onde estamos? Aqui já não é mais parte daquela terra?

— É o limiar… Um pouco de vida resiste… nas extremidades… mas tudo é cada vez mais… expulso do centro.

— Por quê?

— Eu esperava… que você soubesse… a resposta.

Só agora percebo a azia. Das brabas. Muito tempo sem comer, é provável. Dois arrotos se arremessam garganta acima e não consigo segurar. Sinto um azedo na boca, um azedume persistente, incontrolável, um fungo clandestino sob a língua. Uma mancha preta surge no canto direito da visão e se espalha e some. Que porra. Me seguro na árvore. Josias coloca a mão no meu ombro.

— Você está… se sentindo bem… Bo?

— Não. Nem um pouco. Parece que só pioro. Minha cabeça não para de latejar.

— Tenho outro remédio… que fará efeito… mas não o suficiente.

— Me dá. Qualquer coisa. Tá insuportável.

Ele me entrega uma pílula que parece uma bala de alcaçuz, do mesmo material das bolas pretas lá de baixo. Mas essa é tão pequena e inofensiva. Engulo. A tontura piora. — Acho que vou desmaiar — tô cansado disso tudo. Quero ir embora. Mas pra onde?

— É normal… o que você sente, Bo… É porque estamos… perto do fim.

— Perto do fim? Que bom. E depois?

— Depois você vai… embora… eu volto pra casa… e a vida continua.

— Continua como?

— Como você decidir… lutando ou seguindo… em frente.

Um barulho de hélices aveludadas. Olho pra cima e uma cópia de Josias pilota um segundo calóptero. Aterrissa ao nosso lado. Jovens de várias espécies rodeiam a máquina, impressionados. As crianças do elemental pulam fora do seu corpo e se juntam a eles.

— Este é o… meu marido, Cristóvão… Este é o meu cliente… Bo — diz Josias quando o outro elemental se aproxima, esticando a mão.

— Claro que é… É um enorme… prazer.

— Igualmente.

— Venha… vamos embarcar — Josias me puxa até a cabine e entramos. Decolamos com as crianças pulando pra tentar nos alcançar.

— O que foi aquilo que você me deu, Josias?

— Um dos remédios… que você precisava… Procure descansar.

Seguimos num voo lento até as pilastras de mármore. São amareladas e esburacadas, com manchas aqui e ali. Andamos um bocado e elas continuam crescendo e todo o resto fica miúdo. Abaixo de nós vejo lagoas dispersas, a maioria ressecada, crateras circulares no chão vermelho.

Chegamos a uma das aberturas entre duas pilastras. Passamos devagar, Josias concentrado no manche evitando choques. Do outro lado é escuro. Ele liga um refletor. Penso em xingá-lo por não ter ligado isso antes, naquela escuridão completa, mas lembro que era outro calóptero. Saímos num espaço cavernoso entre as pilastras e um paredão cinza. Há um tablado costurado na pedra mais adiante, um cais improvisado. Pousamos.

— E isso aqui, Josias? Quem construiu isso?

— Faz tanto tempo… que ninguém mais lembra… O importante é… que ainda funciona.

No fim do tablado há uma escavação no paredão, um túnel que segue pra baixo e pra frente, como o início de um tobogã. Josias pede minha ajuda e empurramos o calóptero até a abertura. Ele cabe, desde que a passagem não fique mais estreita adiante. Mas não possui rodas e não há espaço pra manobras.

— Você quer passar com calóptero e tudo por aqui?

— Sim, Bo… Só precisamos… de um incentivo.

Entramos e ele puxa uma corda encostada na pedra, conectada a algum ponto mais acima. Uma torrente de água cai na nossa cabeça e nos dá impulso pra cabecear pela descida. Somos levados sobre o colchão de água, batendo nas paredes e nos segurando na estrutura da cabine, a luz vacilante do calóptero dando testemunho das curvas e desníveis. Ganhamos velocidade até chegarmos a um ponto luminoso, um recorte na rocha, e despencamos com a cachoeira, o sol lá em cima, o sol de verdade, as nuvens e um vento revigorante. Josias liga as asas e interrompe nosso mergulho. Lá embaixo, bem lá embaixo, verde e mais verde.

— De onde saímos? De uma montanha? — Ao olhar pra trás é isso que parece, uma rocha colossal contra o céu, nosso cano de escape um minúsculo furo.

— Você irá reconhecer… Agora preste atenção… porque o tempo aqui fora… é curto… É só aqui… que posso me comunicar… livremente.

— Do que você tá falando, Josias?

— Estou falando de você… da sua decisão… de desistir.

— Como assim?

— A guerra é cruel… e muitos são levados… Mas os que ficam… vivem para honrar… os que foram… Você testemunhou… o tanto de vida… que ainda se agita… em suas entranhas… E sabe que parar… não é o certo.

— Eu não quero parar, Josias. Eu tô aqui, só meio fraco. E confuso. Não lembro de onde vim. O que eu fazia.

— Você não lembra… porque escolheu… não lembrar… Mas eu e você… e tudo o que viu lá dentro… constituímos a partícula… de resistência… Seu pai… suas duas filhas… e seu marido… Você precisa se desapegar… Há outros motivos… outros bons motivos… para seguir em frente… Há crianças pequenas… que precisam de cuidado… e incentivo… alguém para cuidar delas.

— Tá querendo me dizer que somos uma alucinação? Que eu mesmo criei?

— Que você insiste em criar… apesar da dificuldade… de se convencer… Olhe.

Ele aponta a montanha. E daqui, desse distanciamento calculado, consigo me ver com clareza. O braço, a barriga, as costas, a cabeça, a boca por onde saímos, um túnel escavado nos lábios. Um punhado de pedras empilhadas, um corpo morto, expressão apagada, circunferência insossa.

— Há quanto tempo? Há quanto tempo estamos tentando?

— Muito… Mas não desistiremos… O seu marido… talvez por também estar… na frente de batalha… já foi superado.

— Você tá falando do remédio? A pílula que eu tomei?

— Sim… Agora restam os outros… Inocentes… Vítimas… Você precisará disso — ele tira o ímã pomo de dentro do peito e deposita na minha mão. Eu jogo no bolso. Estamos dando a volta, descendo.

— Por que você não consegue me dizer tudo isso lá dentro? Quando nos encontramos?

— Porque seu corpo… obedece… sua consciência.

— E somos o quê, então?

— Algo mais… ou além disso.

Ele vira o manche e seguimos pro meio das nádegas.

— Puta merda.

— Há escolhas… que não cabem a nós.

Pousamos num tablado onde outros golens nos aguardam.

— Ele está… pronto.

Um deles me entrega um copo cheio e tomo. Um segundo me dá um punhado de sementes pra mastigar.

— Isso vai restaurar… suas forças.

Paramos diante de uma porta. Daqui pra frente, dentro. Tontura, muito mais forte que antes. Remexo a cabeça.

— Você está bem?

— Tô ouvindo tudo errado. Palavras seee alongandodo. Atééééé aaassss minhaaaaaasss.

— É assim mesmo. Abrabrabrara aaaa portaaaaaa.

— Nãããoooooo conconsisiiigggooogogogooo.

— Abrabrabrabrabrabrabrabrabrabrabrabrabra…

Santiago Santos
Santiago Santos
Santiago Santos é escritor, tereréficionado, tradutor e jornalista. Atualmente reside em Cuiabá. Publica drops literários no flashfiction.com.br

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