Entrevista: Anderson Dias Cardoso

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AndersonDCAnderson Dias Cardoso, nascido em Anápolis-Go em 1979, residindo em Rondonópolis-MT. Formado em Belas Artes pela escola técnica Oswaldo Verano, cursou um ano e meio de teologia pelo SPBC, e agora é graduando em Direito pela Unic-Rondonópolis, onde cursa o 5° período. Aficionado em leitura desde a infância. Fã de Orwell, filmes inteligentes, e audiobooks. É blogueiro, contista, e péssimo em relações interpessoais.

O conto “Uma Antiga Aldeia e Seus Pequenos Deuses” apresenta um mundo fantástico e escuro, decadente. De onde surgiu a ideia de escrevê-lo?

Acho mitologia uma coisa interessante. Há alguns anos eu havia lido sobre os Hecatônquiros, três gigantes, filhos de Gaia e Urano, que foram aprisionados no Tártaro por seu pai. Por conta de sua monstruosidade e poder, foram usados por Cronos para derrotar aquele deus, sendo traídos e aprisionados novamente por quem ajudaram. Eles eram dotados de cinquenta cabeças e cem mãos, e eu fiquei imaginando o que poderia fazer com uma criatura tão bizarra, mas logo que comecei a escrever percebi que havia muita coisa interessante a ser explorada na história.

Resolvi ascender um daqueles seres, ferido, fraco, vulnerável; e o lancei num lugar e momento cheios de misticismo, no meio de um povo ancestral, e na trama, aquilo que poderia ser uma resposta dos deuses, com todo aquele efeito de estranhamento inicial, com o passar dos dias se tornou em lugar comum.

A santidade, quando não se impõe, acaba se tornando coisa vulgar, profana, então aquele deus foi despido de toda sua dignidade e se transformou num instrumento para a sobrevivência daquela aldeia, e o desejo das demais que a cercam. Até as crianças participam da “objetificação” do monstro, enquanto atiram poeira aos seus olhos para produzir água que iria irrigar as hortas de seus pais. Daí o assunto se desemboca numa tentativa de golpe de Estado, no monopólio do consumo das carnes do gigante, na profanação físico/espiritual daquele ser, que acabam lhe proporcionando o combustível psíquico para um impulso de enfrentamento de seus inimigos terrestres, e celestiais.

A aldeia retratada na história possui crenças religiosas firmes, mas ao mesmo tempo parece existir um certo caos na execução dessas crenças, em seus costumes. Em certo ponto, a religião para de servir ao divino e passa a servir o mundano – e então divino reaparece para subjugar os homens. Sinto que foi daí que surgiu a palavra “pequenos” no título. Por que concluir a história assim?

Eu acho interessante finais abertos. Naquela história vemos toda a dinâmica religiosa daquele povo, que vai de uma fé baseada em suas necessidades até a tentativa de auto-divinização de um dos aldeões. Temos uma criatura, a qual não há qualquer precedente histórico, e que seria nosso primeiro contato com algo que poderia ser um deus, e isso acaba cristalizando, limitando a visão daquele povo sobre todos os outros mistérios que permeiam o universo. O fim do conto nos diz que havia algo a mais, mas não nos conta o que viria depois disto.

O sacerdote que se torna parte do titã me parece ser a peça central para o entendimento do conto. O que ele representa, ou deveria representar, para o povo da aldeia?

Acho que ele seria uma representação da fé verdadeira. Do contato entre aquela divindade específica e o sacerdote e a identificação entre ambos, que resultou numa absorção daquele indivíduo pela criatura, e a sobrevida meio que simbiótica do primeiro em função do segundo. A relação entre os aldeões e o deus se baseava no interesse, necessidade e desejo, aparentemente o contrário do velho sacerdote, e também o irmão de Lajud.

Duas imagens ficaram marcadas na minha cabeça ao terminar a leitura: pessoas desesperadas se jogando de um penhasco e a carcaça de uma criatura colossal. O conto foi escrito numa linguagem que serviu à história, tornando-o mais robusto e animalesco ao mesmo tempo. Quais são suas inspirações literárias?

Para falar a verdade, eu não sei. Eu sempre li muito, coisas variadas. Gosto bastante de Orwell, Kafka, Palahniuk, Moacir Scliar, Santiago Nazarian, mas eu só comecei a ler os materiais deles, como alguém que escreve, há mais ou menos um ano. Talvez eu tenha incorporado, inconscientemente, muita coisa, de muita gente. Muito do que escrevo também se baseia em coisas do meu cotidiano, atos e fatos corriqueiros. Acho que não sou inspirado por ninguém em particular, mas por tudo e todos.

Quanto à linguagem; um belo dia percebi que algumas palavras se combinavam muito bem entre si, davam uma sonoridade aos textos, uma fluidez interessante, e um efeito dramático bacana. Uma amiga escritora disse que meus contos, naquela época, estavam mais pra poesia do que prosa. Eles são pra mim como pequenos quebra-cabeças, que envolvem personagens, trama, cenário e a musicalidade das palavras.

Como foi o processo e a experiência de ter um conto traduzido para a coletânea Contemporary Brazilian Short Stories – Vol. 1 ?

Foi bem tranquilo. Aconteceu na época do antigo Orkut. Eu postava meus textos num grupo de escritores, e uma empresa de traduções, sediada nos EUA (Word Awareness) acabou se interessando por um deles. O nome é “Fetiche” e fala sobre um relacionamento de um homem, uma amputada e sua perna mecânica. Uma espécie de triângulo amoroso nem um pouco convencional (risos).

Confesso que fiquei surpreso por alguém querer publicar alguma coisa minha. Eles me mandaram o contrato, publicaram o conto em uma edição bilíngue, destinada a apresentar aos estrangeiros o material que é produzido aqui. Algum tempo depois eles entraram em contato comigo para dizer que estavam trabalhando numa versão em espanhol, e no futuro, talvez em italiano. Foi bem legal isso tudo.

Nos conte um pouco sobre o seu conto O Profeta de Aço.

Coincidentemente, outro texto abordando religião. Eu tenho um fascínio pelo assunto, e minha primeira tentativa de graduação foi em teologia, porém infelizmente o curso oficial era matutino, e a turma aberta no período noturno, da qual eu fiz parte, não se sustentou.

Bom, este conto faz referência aos profetas do Antigo Testamento e envolve uma situação em que as máquinas atingiram a singularidade, e a humanidade não vê mais necessidade num contato com Deus. Sendo nós, humanos, os pais da inteligência artificial, e diante de todas as possibilidades evolutivas desta, os “olhos” da mesma se voltam para algo que estaria além das limitações humanas. Algumas daquelas criaturas começam com um processo de conversão e proselitismo, tal qual figuras como João Batista, que se apartou num deserto, e ressurgiu pregando o arrependimento, e Elias, que no confronto com os profetas de Baal, fez cair fogo do céu e consumir seu sacrifício. É uma história bem visual, e com muita pirotecnia. Gosto dela.

Você compartilha diversos textos no seu blog, numa frequência invejável para muitos escritores. Como você mantém tamanha produção literária?

Eu sou uma pessoa totalmente desorganizada, e sem métodos. Não tenho orgulho algum disso, e essa minha característica acaba me prejudicando em muitas áreas da minha vida. Na escrita não é nada diferente. Eu comecei a escrever para o meu blog, por conta de um sério problema de concentração que tenho, e achei que escrever ajudaria a manter o foco, então criei pra mim uma meta de dois contos por semana. Por incrível que pareça, eu consegui manter essa média por um bom tempo. As ideias simplesmente apareciam do nada, ou alguma coisa me linkava a algo que havia visto, ouvido, lido, e aquilo se tornava uma pequena história… Tudo muito espontâneo.

Hoje em dia, por conta da faculdade, eu escrevo e posto quando dá. Às vezes a mente fica meio congestionada com todo aquele material que tenho que assimilar no curso, ou eu não tenho disposição pra escrever. Há um tempo eu havia deixado o blog de lado, mas acabei descobrindo que poderia escrever coisas ainda menores, como micro-contos, ou minicontos, e postar com mais frequência. Isso tem mantido meu “lugarzinho” menos abandonado.

Quanto ao efeito terapêutico sobre a falta de concentração, até hoje não vi surtir nenhum efeito.

Qual a melhor forma de te encontrar pela internet e acompanhar seus trabalhos?

Como disse acima, eu tenho um blog humildezinho, com uma boa quantidade de contos bizarros, no qual posto sempre que me surge alguma ideia. O nome é meio ridículo, (É Comigo???) o endereço ainda mais, mas a intenção é boa. Posto alguma coisa também no meu perfil do Facebook.

Os endereços são: dersinhodersino.blogspot.com e no Facebook podem procurar por Anderson Dc, que eu sou o primeiro da lista.

Para finalizar: que mensagem os sacerdotes da aldeia deixariam para os escritores brasileiros?

Olha, eu não sei se sobrou alguém daquele pessoal para fazer alguma recomendação não, mas acredito que a mensagem implícita deixada pelo que foi tragado pelo monstro seria:

“Se houver alguma possibilidade de você ser engolido por um Hecatônquiro, certifique-se que está usando roupas apropriadas, resistentes, e imunes a secreções gástricas… E levem umas cruzadinhas, para os momentos de tédio”.

Enrico Tuosto
Enrico Tuosto
Enrico Tuosto é escritor, revisor da Trasgo e rockstar fracassado. Também cuida das redes sociais e da newsletter da revista, mas o que ele gosta mesmo de fazer é jogar RPG. enricotuosto.tumblr.com/writing

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