Entrevista: Antonio Luiz M. C. Costa

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Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e foi analista de investimentos e assessor econômico-financeiro antes de reencontrar sua vocação na escrita, no jornalismo e na ficção especulativa. Além de escrever sobre a realidade na revista CartaCapital, é autor da série de romances Crônicas de Atlântida, de dezenas de contos e novelas e de livros de não ficção publicados pela Editora Draco. Twitter: @aluizcosta

O seu conto nos traz um universo interessante e que abre espaço para muitas histórias. Pretende contar novas aventuras de Babu no futuro?

Depende de como os leitores receberão esse primeiro conto, mas em princípio sim, talvez cruzando sua história com a de Jaya, cuja primeira história contei na coletânea Super-Heróis da Editora Draco. A parceria de uma super-heroína baseada em fantasia mágica e herdeira de mitos antigos com outra baseada em ficção científica e vinda de um universo futurista me parece ser um desafio capaz de gerar situações interessantes.

O conto tem uma forte inspiração em super-heróis. O Brasil, com sua cultura tão rica e plural, tem potencial para criar muitos heróis. Por que você acha que isso não acontece?

O problema não é criar heróis, muitos já foram inventados e experimentados. Duvido que exista um só fã brasileiro de quadrinhos que não tenha imaginado seu próprio herói ou grupo de heróis em algum momento. O problema está em passar da inspiração à transpiração, em reunir as habilidades editoriais, narrativas e artísticas necessárias, fazer parcerias e criar um mercado, tanto mais difícil quando se tem que competir com tradições estrangeiras de quadrinhos que são bem aceitas pelo público. É tão difícil quanto criar qualquer outra indústria capaz de competir com multinacionais: um trabalho longo, frustrante e sem sucesso garantido. Mas fica bem mais simples quando se fica no âmbito da literatura, que aceita um trabalho mais individual e artesanal. Desde que não se tenha a ilusão de ficar rico e famoso com isso, é claro.

No seu conto vemos uma menina negra com poderes dos orixás. A representatividade é uma preocupação constante em seu trabalho?

Desde o início, a diversidade cultural e de gênero e as relações entre etnias e gêneros são centrais nos meus trabalhos de ficção. A representatividade é consequência disso. Ambientei a maioria de meus contos e romances em três universos fantásticos criados de modo a explorar melhor esses temas. O primeiro é o mundo das Crônicas de Atlântida, um universo de fantasia multiétnico e multicultural, sexualmente liberado e meio matriarcal, no qual os primeiros protagonistas são um índio heterossexual, uma negra bissexual e uma oriental lésbica. O segundo é o Brasil dos Outros 500, uma série de contos de uma história alternativa na qual os portugueses trataram os índios como seres humanos, os escravos conquistaram sua liberdade muito mais cedo e o resultado foi um Império Luso-Brasileiro mais afro-indígena e mais diverso e rico, com protagonistas de todas as raças. O terceiro é o Universo da Solidariedade Galáctica, no qual a presença de inteligências transumanas, artificiais e alienígenas permite levar a diversidade ainda mais longe.

Dito isso, vale notar que o ponto de partida deste conto específico não foi “quero contar a história de uma menina negra” e sim “quero contar uma história sobre as iabás, as orixás femininas, no mundo moderno”, e ter uma negra como protagonista foi a consequência lógica. Colocar, digamos, uma catarinense loura para viver uma história baseada na cultura afrobrasileira seria inadequado. Um conto de fantasia já pede ao leitor para aceitar o impossível, acho melhor poupá-lo do que seja desnecessariamente inverossímil.

Você possui contos e romances publicados, quais as diferenças no seu processo criativo para esses dois formatos?

Um conto geralmente parte de uma ideia central, os personagens e os pormenores do ambiente são criados para expressá-la. Tenho desde o começo um assunto e um esquema de história, o problema é lhes dar vida e conclusão dentro de um espaço limitado. Imagino qual a situação e o que quero que o personagem faça, o problema é imaginá-lo de maneira que escolha fazer exatamente isso.

Já com uma novela ou romance, o tema é algo menos preciso e mais abrangente e o esquema da história é mais vago e flexível. O fio condutor, para mim, é a personalidade e desenvolvimento dos protagonistas, que podem levar a história para além daquilo que foi inicialmente planejado. Trata-se de entrar em sua pele e imaginar como reagiriam frente à situação e não de apenas usá-los como instrumento do enredo.

Neste conto, a primeira questão foi como ambientar as iabás, tais como são vistos os mitos, nos dias de hoje. Na cultura de 2015, seus poderes fariam pensar em super-heroínas, mas eu queria uma figura mais humana, com a qual fosse mais fácil se identificar. Imaginei que uma menina as encontraria e teria acesso a seus poderes divinos e eu gostaria que ela experimentasse seis maneiras diferentes de ser uma heroína, que também representam seus modos de crescer e agir como mulher. Restou então concebê-la de modo que fosse convincente ao entender a situação e reagir da maneira que eu queria.

Agora, se eu estender esse conto para criar um romance, a proposta muda de figura. Tenho algumas ideias sobre o que poderia acontecer, mas será preciso imaginar a cada passo como a personagem concebida no início vai reagir e como vai mudar após enfrentar novos dilemas e passar por outras experiências. De certa maneira, ela vai ser uma parceira para escrever a história e pode levá-la para um rumo que eu não esperava.

Você parece trafegar com facilidade entre fantasia e ficção científica. Qual a diferença de escrever nesses gêneros?

Ao escrever fantasia, me baseio em desejo e intuição, com o cuidado de manter a coerência na construção do universo imaginário e de seus personagens. Na ficção científica, os alicerces são a razão e o conhecimento das possibilidades da ciência e da tecnologia, com a precaução de não ignorar o papel da subjetividade e do irracional. Ambos os gêneros me atraem igualmente por permitir imaginar sociedades diferentes daquelas que conhecemos, propor situações e pontos de vista inusitados e sugerir alternativas ao mundo que conhecemos que, espero eu, levem o leitor a se perguntar sobre como as coisas poderiam ser diferentes e se poderia mudar o mundo real.

O que te levou a lançar livros de referência (Armas Brancas, Títulos de Nobreza e Batalhas Espaciais)? Como foi a recepção dessas obras?

Esses textos nasceram inicialmente como ideias para o blog da Editora Draco a respeito de temas sobre os quais me parece que muitos escritores de ficção científica e fantasia deveriam conhecer mais, tanto para evitar equívocos quanto para ampliar horizontes, conhecer outras culturas e sair da mesmice. Ao começar a escrever, vi que o material era farto demais para algumas postagens de internet. A Draco queria publicar obras de não ficção e a proposta foi aceita. Segundo a editora, essas obras estão vendendo melhor que a maioria dos livros de ficção e a postagem na qual adiantei parte do material de Títulos de Nobreza é o mais acessado da história do seu blog.

Como você se descobriu escritor de ficção após passar por profissões distantes da área criativa?

Aconteceu ao incursionar no jornalismo, por meio de artigos publicados na CartaCapital. Quando se aproximava a comemoração dos 500 anos do “Descobrimento”, em abril de 2000, a revista me sugeriu uma matéria sobre como o a história do Brasil poderia ter sido diferente e melhor. O resultado foi a crônica “Outros 500” que criou o plano geral desse universo imaginário que continua a gerar novas histórias. A Solidariedade Galáctica surgiu um pouco depois, a partir das histórias sobre a heroína Jaya que escrevi inicialmente para meus filhos e as Crônicas de Atlântida, de pôr no papel um imaginário mais pessoal e fantástico.

Você tem algum projeto em andamento de que possa falar algo?

Estão para sair dois contos ambientados no Brasil dos Outros 500 a serem publicados nos próximos meses nas antologias Sherlock Holmes: o jogo continua e Dinossauros da Editora Draco, mais uma coletânea sobre o universo de Atlântida que inclui um conto inédito. No momento, estou com mais de meio caminho andado em mais um livro de não ficção, este sobre moedas e sistemas monetários, da idade da pedra ao bitcoin, incluindo capítulos sobre moedas imaginárias da fantasia e ficção científica. Depois disso, há três projetos a considerar: uma continuação da história de Babu, o terceiro romance das Crônicas de Atlântida ou um romance curto sobre Guataçara, personagem que apareceu no meu conto “Palestra de Lançamento” e é protagonista do meu conto em Sherlock Holmes. Ainda não decidi qual priorizar.

Onde os leitores da Trasgo podem te encontrar para saber mais sobre seu trabalho?

Meus livros de ficção e não ficção foram publicados pela Editora Draco e podem ser adquiridos nas livrarias físicas ou virtuais indicadas no site da editora, em editoradraco.com/?s=Antonio+Luiz e os contos podem ser comprados separadamente como ebooks . Além disso, os romances e contos relacionados ao mundo de Crônicas de Atlântida têm uma enciclopédia própria com mais de mil verbetes, na qual se podem encontrar mapas e informações sobre personagens, cidades, países, costumes e pormenores desse mundo imaginário, no endereço cronicasdeatlantida.com/enciclopedia/. Podem ainda entrar em contato comigo pelas redes sociais das quais participo, o Twitter (@aluizcosta), o Skoob e o Google+. Qualquer comentário sobre meus trabalhos de ficção é bem-vindo.

Lucas Ferraz
Lucas Ferraz
Lucas Ferraz é um Consutor de TI que se meteu a escrever e não parou mais. Participa dos podcasts CabulosoCast e Papo Lendário, sobre literatura e mitologia respectivamente. Escreve crônicas e edita os contos do Leitor Cabuloso e participa da Trasgo como revisor lucasferraz.com | @ferraz_lucas

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