Entrevista: Bruno Magno Alves

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Bruno Magno Alves é um paulistano de 21 anos fazendo vezes de carioca há quatro. Está para terminar a faculdade de Produção Editorial. É assistente editorial na Bertrand Brasil, revisor e preparador de texto freelancer e escritor nas horas vagas. Publicou contos pela Editora Draco e nas revistas Flaubert e Subversa. Também tem uma coluna sobre literatura no TagCultural.

“Um Ladrão de Cores” tem uma estética bastante única. Enquanto lia, vi as cenas como uma HQ ou um curta de animação. Quais são as suas referências?

Referências… Sempre me complico ao pensar nisso! Na questão do ritmo da história, tentei escrever como se fossem vários “frames” separados, fotografias, momentos congelados no tempo, acho que não tive muitas referências. Lembro-me de uma leitura que me marcou bastante, o romance “Após o anoitecer”, do Haruki Murakami. Nele, o narrador nos leva de um cenário para o próximo como se controlasse uma câmera, dando zoom, close, passando pelo cenário ou partindo para o próximo. Foi quando percebi que brincar com essa perspectiva do leitor era possível, apesar de eu ter tentado fazê-lo de outro jeito. Agora, na questão das cores e suas ausências, lembro-me de um jogo, “Digital Devil Saga”, da série de RPG japoneses Shin Megami Tensei, que muito me inspirou na hora de criar esse mundo cinzento. O visual me marcou bastante.

Consigo pensar em algumas leituras para “um colecionador de cores em um mundo cinza”, mas gostaria de saber qual a sua favorita?

Eu diria que é um pouco de encontrar a beleza nos detalhes. O ladrão de cores sempre leva tudo o que pode em sua caixinha, sempre objetos pequenos, pontuais, geralmente sem qualquer valor. Mas pela preciosidade visual, pelo valor simbólico de cada coisa, cria-se essa beleza do detalhe, pelo qual vale a pena continuar perseverando adiante.

Há um contexto de guerra fria, tecnológica e anacrônica. Gostei muito da frase “na guerra contra os outros, eles roubaram nossas cores ou as perderam tanto quando nós?” O que pode nos contar deste detalhe do conto?

Pois é: há esta guerra longa, que se alastra, que transforma planícies em cinzas; que, gradualmente, diverge recursos de outras partes da vida e vai se tornando a preocupação primordial, o foco das atenções. Assim vai roubando o mundo de suas cores. Não pensei nela exatamente como “fria”; o fogo está em uma curta pausa. E, ao mesmo tempo, não se sabe como está do outro lado: tão desolado quanto? Ou, quem sabe, uma vida melhor do outro lado do rio, da fronteira?

Se a guera roubou as pequenas belezas do mundo, não sei se há como ter certeza de que isso não aconteceu para o outro lado, também. Porque, apesar de sempre haver uma certa dicotomia, um maniqueísmo forçado para tornar uma guerra mais aceitável — daí o “eles” contra os “outros” —, não se pode dizer que apenas um lado é o prejudicado. É como dizem: o único jeito de ganhar é não jogando.

Quais são seus autores e livros favoritos, e recomendações recentes?

Se eu fosse escolher alguns autores que me atraem bastante pelo conjunto da obra, acho que seriam: William Gibson (tanto em sua ficção científica, marcando-me com seu clássico Neuromancer, quanto em sua ficção mais contemporânea, como Reconhecimento de Padrões), Philip K. Dick (acho que sempre farei questão de ler Valis uma vez por ano) e Haruki Murakami (não sei nem citar meus favoritos dele). Já livros, obras avulsas, teria de ficar com House of Leaves, do Mark Z. Danielewski, melhor livro de terror que já li, todo trabalhado na diagramação pós-moderna. Um jeito de contar uma história como nunca vi.

Recentemente li (e gostei bastante) de Popular Hits of the Showa Era” do Ryu Murakami (outro autor chamado Murakami, sim!); é incrível como ele consegue tornar uma premissa cotidiana e esquisita — um bando de homens jovens de vinte anos e um grupo de senhoras de meia-idade, todas chamadas Midori, que após um assassinato começam a perseguir uns aos outros, cada grupo querendo matar o outro primeiro — em algo tão interessante, em uma atmosfera meio grotesca e um tanto bizarra e contrastante com o cenário urbano comum.

Como costuma ser o seu processo criativo? Você trabalha como revisor, então costuma já se policiar enquanto escreve, ou a primeira versão é mais livre?

Fico um pouco no muro. Não tento já criar uma versão final logo no primeiro rascunho (o que é bem impossível, na minha opinião), mas evito ao máximo deixar passar qualquer erro enquanto escrevo. Como sempre digitei rápido, não é problema; só aquelas regras mais nuançadas da gramática, de vez em quando, me escapam. Como costumo escrever em fôlegos rápidos, geralmente aproveitando uma animação especial, tendo a colocar o máximo possível no papel em pouco tempo.

O que você tem para sair que pode nos adiantar?

Estou participando de duas coletâneas da Editora Draco que saíram agora, ambas pautadas em elementos culturais japoneses: Samurais x Ninjas e Monstros Gigantes. Na primeira, meu conto “Inexpressivo” é até de certa forma conectado a este na Trasgo, no sentido de eu ter buscado uma estética pautada em cores (lá é branco, enquanto aqui é cinza); e “O último café” herda um pouco do ritmo mais lento, por se tratar de algo mais descritivo que propriamente uma história que se desenrola.

Tenho mais algumas coisas na manga, mas nada ainda com editora. Terminei recentemente de escrever uma novelinha, Um horizonte de vermelho e corvos, sobre as desventuras de um casal desconhecido em um cemitério de mundos alternativos, que julgo ser o melhor texto em que trabalhei. Já nos trabalhos atuais, estou desenvolvendo uma história ainda não intitulada sobre um “mago”, por falta de palavra melhor, que procura encontrar Deus em uma metrópole moderna selada no centro (literal!) de um mundo pseudo-medieval, côncavo como uma bacia.

Para quem gostou do seu trabalho e quer conhecer mais, qual o caminho?

Mantenho uma página de publicações no meu blog abandonado, se alguém tiver interesse no que já publiquei. Também mantenho uma coluna quinzenal sobre literatura no site TagCultural (tagcultural.com.br). Mas acho que o melhor jeito é me seguir no Twitter (@brunoctem) ou me adicionar no Facebook (fb.com/brnoalves); escrevo apenas esporadicamente, por uma falta preocupante de disciplina. Estou sempre disposto a fazer novos contatos virtuais.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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