Entrevista: Elisa Rovai

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Elisa Rovai é uma escritora transexual novata, nascida em Minas Gerais. Cresceu com Ruth Rocha e Ziraldo, estando sempre em contato com a tradição oral e o folclore de sua terra, com histórias de tatu, onça e cobra. A ficção científica entrou em sua vida mais recentemente, e uma paixão imediata se iniciou. "Babel" é o seu primeiro conto publicado oficialmente.

Babel é uma ficção científica com ares de fantasia. Gostei de como Edissa parece ir "se descobrindo" enquanto descobre a verdade sobre Babel. Qual foi a fagulha que deu origem a este conto?

 Bem, em primeiro lugar, eu não sei ao certo se a definição ficção científica funciona para Babel. Eu sou um tanto descoordenada quanto a isso. Simplesmente escrevo, sem me preocupar com o gênero. Esse conto surgiu de uma forma um tanto inesperada, em parte da minha vontade de criar um mundo sucinto que fosse apresentado em um conto e que não fosse parte de algo maior, como muitos escritores fazem quando querem escrever algo menor. Queria criar um mundo que fosse rico, mas que fosse curto e desse pra ser apresentado no conto e apenas nele. Dessa vontade, eu parti pra algo que já está no nosso imaginário e que por si só já carregue algo sem que eu precise explicar. Por exemplo, quais idiomas são falados em Babel? Ora, segundo o Livro de Gênesis, seria uma proto língua que originou todas as outras. Qual é a religião deles? Seria uma religião monoteísta que enxerga Deus como um ser superior com o qual se pode alcançar através da torre. Tendo isso em mente, eu pensei em elaborar uma das coisas que mais gosto que são corrupções das histórias do Gênesis. A mitologia judaica em si é muito poética, mas uma poesia que é tida para os crentes como verdade histórica e antropológica, e isso em si carrega uma imensa fragilidade. E eu quis escrever esse conto pensando realmente nessa fragilidade, na necessidade de existir uma melhor explicação pra as origens da humanidade.

Babel é sua primeira publicação oficial, se não me engano. Bem vinda! Conte um pouco mais sobre sua construção na literatura: como começou a escrever, quando decidiu enviar Babel para a Trasgo?

Eu comecei a escrever aos 8 anos, antes de entrar na internet pra outra coisa sem ser joguinhos, e o que eu fazia era basicamente uma fanfic de "Avatar – a Lenda de Aang". Pois então com o passar dos anos, entrando nos fóruns de Pokémon e The Sims, eu comecei a escrever fanfic atrás de fanfic. Mas no começo a gente nem sabe que tem que colocar espaço depois de pontuação quando se escreve na internet. Foi uma construção lenta até eu começar a desenvolver minha primeira história original, e ainda mais lenta até eu começar a ter seriedade nisso. Nesse meio das fanfics, acabei entrando em contato com grupos no Facebook de fantasia, e eles sempre falavam da revista. Eu não sabia que eu, não publicada, podia enviar meus contos para vocês até o blog da Lady Sybylla explicar como era fácil o processo. 

Como é o seu processo criativo? Você é do tipo que planeja a história, ou prefere ver onde a história vai dar?

 Eu planejo muito da história, mas deixo o plano bem vago e abstrato, pois assim posso desviar dele sempre que a história vai onde eu não pretendia. O plano está sempre lá, mas ele não manda em mim, pra ser sincera. 

Babel parece ter uma mitologia  e cultura própria. Você pretende explorar outros aspectos de Babel em outros contos, ou já contou a história que queria contar?

Como já disse, acho que a história é suficiente para o mundo de Babel em si. Mas ainda pretendo abordar outras lendas do Gênesis, como Sodoma e Gomorra. Tenho uma teoria em mente que o pecado extremamente condenável dessas duas cidades era ainda mais sombrio do que supõem os teólogos. 

Quais são suas principais referências? Você disse que começou lendo Ruth Rocha e acabou na Ficção Científica? Conte pra gente essa história direito.

 Eu tenho muito prazer em ler livros infantis, mesmo depois de ter crescido, principalmente aqueles que tentam abordar conceitos que muitos adultos acham que as crianças não conseguem entender, como Flicts, do Ziraldo, abordando a diferença. Eu encontrei na ficção científica uma continuidade dessa abordagem de temas complexos, e é isso que eu sinceramente amo e pra mim essa é a função da literatura. Minhas principais referências são George R. R. Martin pois acredito que o trabalho dele carrega uma mensagem que os hippies estão tentando nos dizer desde os anos 60, George Orwell e seu trabalho artístico-político e alguns autores como William Blake, Eduardo Spohr, Jane Austen, Graciliano Ramos, Jack Vance, James Joyce, Affonso Solano, Mark Twain, Frank Herbert e Meg Haston. Recentemente, a literatura em forma de composição musical está ganhando cada vez mais reconhecimento, e acho necessário também citar esses artistas que também são minha referência: Patrick Wolf, Lykke Li, Karen Elson, Cocorosie, Björk, Tori Amos, Kate Bush, Banks, Shakira, Florence Welch e Isabella Summers. 

Uma coisa interessante em Babel é a sutil desconstrução de gênero em Edissa e Odara, temática que adoramos publicar na Trasgo. Poderia indicar outras obras que trabalham o assunto que podem interessar aos leitores da Trasgo?

Este tema está presente nos livros de muitas autoras femininas, principalmente por que a maioria delas está em um cenário de desafio, já que a literatura quase sempre foi dominada por homens. Recomendo "Americanah" de Chimamanda Ngozi Adiche, "Úrsula" de Maria Firmino dos Reis, "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen, "O Conto da Aia" de Margaret Atwood e "A Mão Esquerda da Escuridão" de Ursula K Le Guin. Em inglês apenas tem "An Untamed State" de Roxane Gay e "A Safe Girl to Love" de Casey Plett. 

Para autoras novas que querem ser publicadas, mas têm receio de enviar material para avaliação, qual a sua sugestão?

 Eu realmente não tenho muito a dizer além de: perca seu medo de uma vez, pois a avaliação é importante demais. É recompensador ter um fellow writer [companheiro de pena], um leitor crítico ou editor, coisa do tipo, isso só colabora pra sua evolução como escritor e pra identificação de como funciona o seu jeito de escrever.

Para quem se interessou pelo seu trabalho e quer conhecer um pouco mais, qual o caminho? Onde te encontramos?

 Eu ainda não tenho um blog ou coisa do tipo (embora esteja em meus planos pra 2017), mas as pessoas podem encontrar a minha escrita no Wattpad (wattpad.com/user/elisarovai). Tenho apenas uma postagem lá, o conto paranormal "James George", mas breve colocarei outros. As pessoas podem encontrar casualmente poesias e microcontos meus, assim como relatos da minha atividade política, tudo no meu Twitter @lisarovai, mas provavelmente vai encontrar mais é asneiras, já que este perfil é dificilmente comprometido com a seriedade. Também tenho uma conta no CuriousCat (curiouscat.me/lisarovai) pra qualquer pergunta sobre Babel ou sobre qualquer história, adoro recebê-las.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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