Entrevista: Fábio Fernandes

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foto_fabioFábio Fernandes nasceu no Rio de Janeiro em 1966, mas vive em São Paulo, onde trabalha como professor universitário e tradutor. Em português, escreveu dezenas de contos para antologias e publicou a coletânea de contos Interface com o Vampiro e o romance Os Dias da Peste. Escreve em inglês desde 2009, e publicou em várias antologias nos EUA, entre as quais Steampunk Reloaded, Stories for Chip, POC Destroy Science Fiction. Estudou na conceituada oficina literária Clarion West, tendo como instrutores Samuel Delany e Neil Gaiman. É slush reader da revista Clarkesworld e revisor da editora Wordfire Press.

Qual foi a fagulha inicial de "Amor: uma arqueologia?"

Há pouco mais de um ano, fui convidado pelo amigo Ivan Hegen para participar de uma antologia de contos sobre o amor. Entre os subtemas sugeridos por ele, estava "o amor no Uruguai nos tempos de Mujica". Nunca fui ao Uruguai, mas fui apaixonado por uma uruguaia, e foi essa história que deflagrou o processo de escritura do conto.

Como é o seu processo criativo? Você é do tipo disciplinado, ou a produção é mais caótica?

Meu processo de criação sempre teve um pouco de cada. Por exemplo, quando vou escrever uma história mais longa, como uma novela ou um romance, geralmente começo pelo início, vou direto para o fim e depois ataco o meio. Não deixa de ter uma certa disciplina, mas ainda é algo muito vago e nebuloso. Comecei a me disciplinar mais e melhor após a Clarion West, onde aprendi, com meus instrutores e meus colegas, a encontrar horários para escrever diariamente (ou quase) e resgatar velhos hábitos, como escrever a mão em cadernos de notas. Hoje posso dizer que produzo de maneira mais consistente e disciplinada.

Lembro de seu comentário sobre a distância do escritor brasileiro com a chamada "great conversation", o diálogo inter-obras da ficção científica mundial. Como você acha que podemos diminuir esse lapso?

Quem insiste muito nesse ponto é John Clute, um dos responsáveis pela monumental Encyclopaedia of Science Fiction, e com quem conversei muito na Clarion West (ele é marido da escritora Elizabeth Hand, que foi nossa instrutora na primeira semana, e ele acabou se tornando um instrutor honorário também, inclusive nos concedendo atendimentos individuais). Para ele, e para mim também, só existe uma saída de verdade: ler, ler muito, ler sempre, ler a produção atual. Sempre insisti e continuarei insistindo nisso: ler os clássicos é bom e fundamental, mas você não pode mais (se é que algum dia pôde realmente) ser um bom escritor de FC sem ler o que está sendo publicado hoje. Para começar, que tal ficar por dentro dos lançamentos das editoras? É fácil seguir alguns autores mais conhecidos pelo Twitter ou Facebook – em pouco tempo você estará seguindo um grupo grande de ótimos escritores, 99% dos quais nunca foi publicado (nem será) no Brasil, e que lançam livros todo ano – ou publicam contos nas principais revistas de língua inglesa, a maioria das quais você consegue ler de graça na web.

Falando em FC e Fantasia, quais são seus autores favoritos que precisam ser mais explorados pelos brasileiros?

A relação é grande e está sempre mudando. Neste momento em que escrevo isto (13:58 da tarde de 5 de julho de 2016), os autores que estão fazendo a minha cabeça são: Nnedi Okorafor, Richard Kadrey, Kim Stanley Robinson, Nisi Shawl, Aliette de Bodard, Hannu Rajaniemi, Ann Leckie, Lavie Tidhar, Leena Krohn, Charlie Jane Anders, China Miéville, David Zindell, Anne Charnock, Tade Thompson, Cixin Liu, Ted Chiang, Ken Liu. Há muitos outros, mas neste momento os que estou lendo ou li recentemente são esses.

Dos seus vários trabalhos de tradução, qual foi o livro mais desafiador, recompensador ou favorito?

Laranja Mecânica, sem dúvida. Foram nove meses de trabalho intenso e integral, que produziram uma tradução da qual até hoje me orgulho muito.

We See a Different Frontier. Pode contar um pouco como foi editar a coletânea, qual foi o seu propósito?

Na verdade tudo começou quando eu respondi a um call for editors de Djibril al-Ayad, editor da revista The Future Fire. Djibril queria editores para edições especiais da revista voltadas para minorias e diversidade, e estava aberto a propostas. Eu então enviei uma proposta para uma postco anthology (antologia pós-colonialista), e ele achou muito interessante, sendo ele próprio britânico descendente de argelinos. Então começamos a conversar. O título foi dado por mim em homenagem a um excelente conto de Bruce Sterling, We See Things Differently, exatamente sobre esse choque de culturas. A ideia era não bloquear a participação de autores anglo-americanos, mas deixar bem claro que o objetivo ali não era publicá-los. Acabamos publicando duas autoras americanas da gema, Sandra McDonald e Sunny Moraine, mas essa postura me custou a amizade com dois escritores/editores americanos conhecidos. Não cito nomes porque as discussões foram privadas, e com um deles eu falo cordialmente quando há necessidade – mas isso me deixou mais claro ainda por que precisamos nos afirmar perante o mundo. Não somos inferiores aos escritores de língua inglesa. Somos tão bons quanto eles.

Vamos falar um pouco do universo que tem construído: Obliterati. O que já está publicado por aí, o que tem para sair?

Este universo está sendo criado há quatro anos, e já gerou uma noveleta, Obliterati, que não foi publicada. Em 2012, enviei-a para a revista Giganotosaurus, onde foi analisada pela sua editora à época, Ann Leckie. Ann me deu dicas valiosas para melhorar e ampliar a história, e ela acabou virando um romance, ainda em construção. O worldbuilding dessa história se revelou tão mais vasto do que eu mesmo havia imaginado que percebi que vou precisar de anos para trabalhar tudo o que cabe nele. Desde então, outros contos foram surgindo para alicerçar esse universo. Dentre eles, "The Gambiarra Effect" (publicado em We See a Different Frontier), uma espécie de origem apócrifa desse universo, “Mycelium”, uma história que se passa no começo da Obliteração (publicada na revista online Perihelion), onde a quimiotelepatia é descoberta para valer, e “Nine Paths to Destruction”, uma história passada depois de Obliterati, que sairá no numero 3 da revista online Shattered Prism, em novembro. Agora dei uma parada e provavelmente vou focar no romance, mas como ele não tem prazo para ficar pronto, pode ser que eu escreva mais alguns contos nesse universo antes.

Li há pouco um comentário sobre as línguas nos universos de FC e Fantasia. Há, inclusive, o detalhe do "brasiguaio" em "Amor: Uma arqueologia". Pode comentar um pouco sobre essa relação entre escrita e linguagens?

O "brasiguaio" de "Amor: Uma arqueologia" não corresponde totalmente à realidade. Se eu fosse colocar tudo ali como se diz, acredito que ia ficar bem chato para os leitores, talvez difícil de compreender em algumas passagens. Mas procurei fazer o melhor possível para dar ao leitor uma sensação de textura sonora, ou seja, uma fisicalidade na personagem. Voz narrativa é tudo na criação de uma personagem, e nada melhor que um idioleto, um dialeto ou um sotaque (desde que não seja carregado, porque aí pode virar um estereótipo, e o efeito acaba sendo o contrário do desejado).

Uma última pergunta: qual linha do tempo paralela você exploraria no Dispositivo?

A linha da Nina, que me parece uma realidade ecologicamente correta. Depois que terminei o conto percebi que tem coisa ali – talvez eu escreva um conto tendo esse universo como base.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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