Entrevista: Felipe Cotias

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Felipe Cotias é pseudônimo literário de Rodrigo Bahia, advogado carioca desenvolvendo carreira jurídica e comercial em uma multinacional. Introspectivo de nascença, sempre apreciou descobrir e produzir ficções. Seu amor pelas artes e humanidades o levou a fundar o ficcoeshumanas.com, para publicar ensaios e contos, hoje tocado em parceria com o historiador e resenhista Paulo Vinícius dos Santos.

"Saccade" é um conto que me prendeu pelo seu começo, da figura do personagem caminhando num único momento da existência. Qual foi a fagulha inicial, o processo de construção desse conto?

Fui assolado pela imagem de um garoto vestindo um sobretudo, com um gato no ombro, e que, sem saber como, parava o tempo quando quisesse para resolver problemas. Isso já tem mais de dez anos, então vai saber o que me influenciou! Acredito que em parte a estética noir do andarilho solitário, em parte o flerte com o absurdo dos animes que eu assistia.

Sempre havia enxergado a história em formato de quadrinhos, e, como não desenho, ela ficou arquivada esses anos todos até que eu me engajei com a ilustradora Cássia de Mattos (que trabalhou comigo na minha noveleta A Terra Prometida) e começamos os primeiros esboços e estruturação do roteiro. Entretanto, a Cássia se afogou em outros projetos e ela própria me sugeriu trocar o formato para conto.

Hesitei. Como assim descrever em prosa cenários e ações passadas no tempo de um sutil movimento dos olhos? Não é que saiu?

O dilema religioso do protagonista acrescenta uma camada a mais na história, principalmente depois com a aparição de Dália. Seriam os deuses super-heróis?

A construção da personagem de Dália foi um processo imaginativo longo e gratificante. Infelizmente, das centenas de cenas dela que imaginei vividamente, pouco pude aproveitar na trama.

Sem intenção de questionar nenhuma crença, sua história me levou a ponderar sobre como reagiríamos ao defrontar uma divindade que de fato atendesse ou não a preces com fundamento num grande plano, com toda sua benevolência, como costumeiramente se prega.

“Sim, sou eu, Maria. Que bom estar aqui na sua cidade, faz mais sol que na Galileia, e é tão bonita! Eu amo muito você, e faço planos para você. Estava ao seu lado quando seu cachorrinho se acidentou e você me pediu para salvá-lo. Ponderei muito, mas achei que seria melhor para você que ele morresse, para você aprender a tomar mais cuidado ao atravessar a rua, tá bom?”

Confortante ou aterrador?

Há uma discussão interessante envolvendo acaso, religião, causa e consequência em "Saccade". Onde você se posiciona nessa bagunça toda?

Sou apaixonado por filosofia e seus desdobramentos na psicologia. Foi natural, assim, que a disputa dos personagens principais envolvesse ponderações, ainda que bastante sutis, sobre utilitarismo, consequencialismo e subjetividade.

Os super-heróis que voam por aí salvando pessoas desejam mesmo isso ou estão apenas buscando validações inconscientes? E quem pode afirmar que as consequências de seus “salvamentos” não produzirão mais mal do que bem no longo prazo?

Justamente por amar a filosofia, minha posição preferencial é me agarrar à dúvida e à perplexidade, e ler cada vez mais bons raciocínios sobre esses temas com a mente aberta.

Em Saccade, tomei a resposta emprestada do filósofo dinamarquês Soren Kierkgaard: seja livre para cumprir a sua verdade, que pode surpreender ou decepcionar o que esperam de você. Será esta a melhor?

Como costuma ser o seu processo de criação?

Todas as minhas histórias, assim como meu próprio desejo de colocá-las para fora, começam com uma fantasia entrelaçada a um sentimento pessoal. Vejo uma imagem, como um sonho (às vezes de fato em sonho), que mostra algo que eu desejo, ou que representa meu estado de espírito, na forma de símbolos exagerados. Então a história se desenvolve, na minha imaginação, junto com minha evolução pessoal com respeito ao sentimento.

Por exemplo, eu guardo um incômodo íntimo e profundo sobre a velocidade com que a vida passa e atropela momentos que poderiam mudar nossas vidas para sempre. A prisão temporal, em Saccade, funciona tanto como um desafio a ser superado (como no filme O Feitiço do Tempo) quanto como uma fantasia – quem dera que, em cada breve momento crítico de decisão, tivéssemos tempo para meditar durante uma longa viagem, discordar violentamente do consequencialismo e recuperar nossa fé…

Eu agarro esse estado de espírito no quanto posso até colocar para fora o que eu quero, ordenada e obsessivamente. A música Speed of Light, do duo Alphawezen, me inspirou a redefinir Saccade com seu elemento romântico e serviu de âncora para me manter conectado ao sentimento. Durante os meses que produzi o conto, creio que a ouvi em loop tantas vezes que, se houvesse fiscalização de playlists e afins, teriam me internado!

Quais são as suas principais referências como escritor?

Em fantasia e ficção científica, embora eu tenha me deleitado com inúmeros clássicos (Verne, H.G. Wells, Tolkien, Huxley, Burroughs, Bradbury, LeGuin, entre outros), minhas principais referências são dos quadrinhos (principalmente compilações como a Heavy Metal), videogames, animes e filmes.

As artes gráficas seguem me encantando em qualquer estilo; já nas letras, tenho buscado mais as emoções e pensamentos inspirados no “mundo real” de clássicos da literatura dramática. Leio muitos livros de não-ficção também, não apenas em filosofia e psicologia, mas sobre qualquer assunto que me ajude a entender um pouquinho mais as complexas relações humanas.

No que tem trabalhado, que poderia revelar aos leitores da Trasgo?

Finalizei muito recentemente Humanos no Café Pupille, uma noveleta de baixa ficção científica, que publiquei no Wattpad para testar a ferramenta.

Estou para escolher a próxima história a transmutar de anotações em obra; acredito que ainda vou ficar na fantasia/ficção científica com um conto sobre um orfanato de mutantes (se tudo der certo, mais sombrio e bem diferente de nossos queridos X-Men).

Para quem gostou de "Saccade", onde pode encontrar mais sobre você e seus trabalhos?

Por ora, quero testar o Wattpad (wattpad.com/user/fcotias) como principal meio de apresentação de minhas ficções.

Além de Humanos no Café Pupille, pretendo relançar na plataforma alguns trabalhos que já havia publicado mas que retirei de circulação para reedições, como a já mencionada A Terra Prometida e uns tantos contos curtos.

Costumo publicar, ainda, ensaios sobre artes e humanidades no ficcoeshumanas.com, escondidos entre as múltiplas resenhas e ponderações do meu parceiro superprolífico.

E fico à total disposição para contato pelo meu e-mail, felipecotias@gmail.com

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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