Entrevista: George Amaral

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foto_george_facebookGeorge Amaral é paulistano, formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade de São Paulo e em Roteiro Audiovisual pela PUC-SP. Cursou Design Gráfico e da Imagem na Escola Panamericana de Arte e História em Quadrinhos na Quanta Academia de Arte. Atua como gerente de marketing, consultor de arte para editoras, ilustrador de livros infantis e escritor de literatura e roteiros. É fundador do Gonf Studio, voltado para design, ilustração e projetos criativos.

George, você é formado em publicidade, estudou roteiro audiovisual, mas além de escrever também ilustra e produz histórias em quadrinhos. Qual dessas áreas é sua favorita?

É difícil para mim escolher apenas uma dessas atividades como favorita. O que eu gosto mesmo de fazer, e que permeia todas essa áreas, é criar mundos imaginários e o planejar estruturas narrativas que se passam dentro deles. Um roteiro, romance, HQ ou ilustrações para livros são, na minha opinião, o resultado dessa criação prévia, que envolve pesquisa, detalhismo e criatividade.

Código Fonte é baseado na ideia de que é possível “transferir” uma mente, muito trabalhada também no Cyberpunk. Qual a origem deste conto?

Escrevi este conto como um exercício para um Núcleo de Narratividade que participava no ano passado. A intenção em relação à forma do texto era criar uma história com um segredo revelado apenas no final, mas apontado desde o começo. Trata-se do que o romancista Orhan Pamuk chama de “esconder o centro”.

A partir disso, defini que o tema principal seria a famosa busca pela imortalidade, mas sob a ótica da ficção científica. Fui atrás de referências nas histórias sobre a fonte da juventude, e vem daí alguns dos nomes dos personagens, como Ponce de León, um colonizador espanhol que dizia que a fonte da juventude estava na América. Reportagens reais sobre pesquisas relacionadas ao cérebro, apontando que ele teria muito mais controle sobre o corpo humano do que imaginamos, ajudaram a criar a virada no texto, pois antes os personagens focavam as pesquisas apenas nos telômeros, que é um elemento real no envelhecimento das pessoas. Somando tudo isso, criei a ideia de que era possível reprogramar o cérebro e fazer com que ele rejuvenescesse o corpo, imitando padrões de outro cérebro. Dessa forma, em vez de uma troca de almas, seria como trocar um código vital de uma pessoa para outra.

Apesar de não ser o foco da pesquisa dos protagonistas, a principal aplicação das pesquisas vai para a indústria de cosméticos. Há algum motivo particular para essa escolha?

Como o tema central do conto era a busca pela imortalidade, ou pela eterna juventude, durante meus rascunhos acabei inevitavelmente caindo em questões de beleza e estética. O que são plásticas, preenchimentos faciais, maquiagens, tinturas, e tantas outras coisas desse tipo, além de ferramentas para manter-se mais jovem ou mais belo? Como os personagens não eram realmente de boa índole, entendi que faria sentido cederem ao apelo do dinheiro que a indústria de cosméticos certamente colocaria em pesquisas como essa. E, se atualmente saúde, bem estar e felicidade se tornaram apelos para a venda de cada vez mais produtos, no futuro certamente essa indústria será ainda mais poderosa.

O conto termina um tanto amargo, até desumano. Quais são suas referências neste sentido?

O próprio Retrato de Dorian Grey, que León cita no texto, foi uma grande referência para essa decadência. Assim como contos de Edgar Allan Poe, para o lado gótico desse conto. Em ficção científica, Ray Bradbury tem contos que terminam muito mal, e Philip K. Dick e Gibson mostram muitas vezes a clássica amargura cyberpunk em relação à humanidade. Não posso deixar de dizer que sou fã de literatura de horror e suspense, e muitos dos meus contos acabam destacando esses elementos.

Você tem contos publicados em coletâneas das editoras Estronho e Llyr. Sobre o que se tratam?

Considero ambos como fantasia urbana com predominância de horror. Para a Estronho, a coletânea era sobre o demônio da inveja, Leviathan, e meu conto mostra um edifício em que as boas memórias das pessoas eram roubadas por um invejoso poderoso. A coletânea da Llyr, que deve sair em breve, fala sobre lendas urbanas. Eu foquei o conto em um ritual comum na Bahia na véspera do dia dos mortos, quando pessoas usam máscaras e assustam a população.

Há algo mais que queria destacar ou divulgar nessa entrevista?

Gostaria de parabenizar o trabalho da Trasgo, uma iniciativa corajosa e que tem tudo para crescer, pela qualidade dos contos, da curadoria, visual e divulgação. Acompanho revistas de literatura fantástica no exterior e já pensava em começar a traduzir contos quando soube da Trasgo. E fiquei muito feliz em ter o conto selecionado.

Onde podemos encontrar mais do seu trabalho?

No meu site pessoal, georgeamaral.com.br e do meu estúdio gonf.com.br, é possível encontrar meu trabalho com ilustração, design e projetos para livros. Tenho focado a produção literária em coletâneas e também em dois livros que estão no forno, mas em breve pretendo criar uma área de contos breves no meu site. Também estou no Facebook.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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