Entrevista: José Roberto Vieira

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José Roberto Vieira é autor de fantasia e, no momento, estuda magia e ocultismo. Ele também acredita que a literatura pode mudar a mente das pessoas e a representatividade é importante para fazer a diferença no mundo. Com um pouco de sorte você pode encontrá-lo em encontros de RPG, Literatura, Mangás e cultura nerd em geral. Ele adora tirar fotos com fãs, coelhinhas da playboy e lutadores de MMA.

Seu conto se passa em Nordara, universo de “O Baronato de Shoah”, que conta com dois romances e outros contos. De onde veio a inspiração para construir esse universo de fantasia steampunk com tecnologia avançada ?

A ideia original de “O Baronato de Shoah” veio meio que sem querer. Quando eu estava na faculdade costumava escrever alguns poemas e distribuir entre meus colegas de sala. Aí, um tempo depois de começar a ficar com a minha noiva, ela me pediu para escrever algo especial para ela. Eu tentei na primeira noite e ao invés de um poema eu tive um conto (que é o capítulo de “O Baronato de Shoah” – A Canção do Silêncio – onde Sehn encontra a alma de Minerva na cidade fantasma). Na noite seguinte tentei escrever o poema de novo e…. Acabou saindo outro conto, dessa vez sobre um cavaleiro “steampunk” que encontrava uma medusa em uma cidade transformada em pedra.

Depois de um tempo eu percebi que ambos meio que se encaixavam e que eu podia começar algo novo dessas histórias. No meio dessas pesquisas acabei conhecendo o Conselho Steampunk de São Paulo e me apaixonando pela estética. Empolgado com a ideia de criar algo novo com as inspirações clássicas que eu sempre adorei, comecei a escrever “A Canção do Silêncio” o primeiro livro da saga “O Baronato de Shoah”.

Meu maior problema no processo de criação era o fato de que eu adorava a fantasia épica tolkeniana, mas ao mesmo tempo queria ver alguma tecnologia atual no meio das histórias. Eu queria misturar tudo, fazer um mundo onde magia e tecnologia nunca ficam muito bem divididas, onde você pode cavalgar um cavalo mecânico para chegar a um castelo medieval onde será recebido por um duque com braço metálico e espada mágica. O steampunk casou muito bem com a minha ideia de mundo por me proporcionar a liberdade criativa que eu precisava.

“O último grito da carne” é um conto que faz parte de uma outra obra, que está para sair. Pode nos contar um pouco mais sobre ela?

Este conto é parte do livro “Crônicas da Kabalah” que eu comecei a rascunhar logo após meu segundo livro “A Máquina do Mundo”. Conforme eu escrevia os livros ia percebendo que além do grupo principal, formado por Sehn e seus companheiros, havia muito mais gente envolvida nas forças militares do Quinto Império.

Eu pensava muito nas divisões dos X-Men, X-Force, X-Calibur e afins. Eles são personagens com um mesmo conceito em um mesmo mundo e suas missões os levam ao extremo.

É a mesma coisa com as equipes de Gears of War (o jogo): você joga com a equipe principal do “cenário”, a equipe do Marcus Fênix, mas ao longo do jogo vai encontrando diversas outras equipes que estão envolvidas em missões importantes e que influenciam no mundo.

Temos que lembrar que a Kabalah é o exército de elite do Quinto Império. Então enquanto A Canção do Silêncio está enfrentando o traidor conhecido como A Fênix Morta, muitos outros problemas estão acontecendo pelo mundo: há guerras civis em andamento, tráfico de drogas, questões diplomáticas, traições, perseguições, alianças, caça a monstros, a lista pode ser infinita. “Crônicas da Kabalah” serve para mostrar que o mundo de “O Baronato de Shoah” é vivo e dinâmico.

No conto existe um contraste entre o pensamento científico dos da’ath, na linha mais racional, com Tantifaxath e Chorozon, que aparecem no ritual como formas etéreas, quase como deuses. O que simboliza esse contraponto?

O Quinto Império se baseia no conceito de que os Titãs, criaturas muito antigas, foram aprisionados por Shoah, o salvador da humanidade, e que devem permanecer presos por toda eternidade para não voltarem a ser uma ameaça para Nordara. Os Titãs, como Tantifaxath e Chorozon, são representações de forças primordiais que enlouqueceram e hoje devem ser temidos. Mas, para combatê-los, a Kabalah desenvolveu uma série de técnicas especiais de controle da mente, corpo e espírito, que os colocam muito acima dos seres humanos “normais”.

No caso desse conto o que eu queria mostrar é que a tecnologia dos da’ath é tão avançada, mas ao mesmo tempo tão misteriosa, que é possível confundi-la com magia. Na verdade, este é um ponto muito importante de Nordara: não existe limiar entre magia e tecnologia, este conceito é relativo em cada reino e tratado de acordo com a cultura de cada povo.

Como é o seu processo de criação do mundo? As estruturas rígidas e de classes já estão todas montadas e você cria as histórias dentro delas, ou vai moldando o universo para servir à narrativa?

“O Baronato de Shoah” passou por dois processos: o primeiro foi que eu criei toda a Kabalah e suas divisões e responsabilidades, para depois pensar no mundo além das fronteiras do Quinto Império. Este processo deu origem ao primeiro livro “A Canção do Silêncio”, mas me trouxe um problema grave: como é o mundo além das fronteiras? Quais as raças habitam este mundo? Como é sua economia e as relações entre os reinos?

Quando parei para pensar nesses detalhes é que me veio a história do segundo livro “A Máquina do Mundo”. Eu passei um tempo rascunhando os demais reinos e suas características mais marcantes, fazendo comparações, histórias menores e anotações. Depois eu pensei o seguinte: o que houve no final de “A Canção do Silêncio” foi grandioso, como uma guerra civil e uma revolta popular desta magnitude podem influenciar o meu mundo.

Então eu fui pesquisar os eventos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, os massacres de Ruanda, a Ditadura Brasileira, a Primavera Árabe e a Guerra dos Balcãs. A história humana me deu muito material para futuros livros e contos. Com base no preceito “como as ações dos meus personagens influenciaram na história de Nordara?” eu passei a construir meu mundo, organizá-lo de forma coerente e, até mesmo, dedicar mais tempo a detalhes dele que o tornaram cada vez mais vivo.

Hoje, por exemplo, enquanto o Quinto Império luta para sobreviver, regiões mais afastadas, como Ulan Bator entram em disputa territorial com Hissarlik e derrubam as leis de escravidão instauradas desde o último século. Aproveitando esta tensão política, os pequenos reinos que foram anexados por estes impérios pipocam com insurgentes prontos para gritar por sua liberdade.

Nordara me lembra das séries clássicas de RPG para NES e Super Nintendo, como os primeiros Final Fantasy. Qual o seu contato com esses universos, e quais os seus jogos favoritos no estilo?

Nordara foi fortemente influenciado pelos mundos de Final Fantasy, Phantasy Star e Wild Arms. Este mundo também possui algo de Krynn (o mundo do Dragonlance) e sua Quinta Era.

É difícil falar de Nordara, porque o mundo mudou muito nos últimos anos: ele começou como uma colcha de retalhos meio indefinida e copiada de mundos de videogame e hoje respira sua personalidade própria, caminha para ter sua economia, diferenças sociais e história.

Dentro da literatura, quais são as suas principais influências e inspirações?

Tá aí outro tópico difícil: eu me formei em Letras e já estudei fora do país, então as minhas influências começam nas revistinhas da Turma da Mônica e viajam até Ismail Kadaré e seu “Abril Despedaçado”.

O que eu posso dizer, com certeza, é que minha lista de influências passa por: Stephen King, Tolkien, Martin, Terry Pratchet, Stephen Pressfield, Bernard Cornwell, Terry Brooks, Glen Cook, Margareth Weis, Tracy Hickman, Salvatore, Ítalo Calvino.

O que podemos esperar adiante? Em que tem trabalhado, ou tem para lançar?

Meu novo trabalho é o terceiro volume de “O Baronato de Shoah”, intitulado “O Emissário do Leste”. Depois dele eu pretendo rascunhar um novo mundo, provavelmente me arriscar no gênero dos super herois, quem sabe?

Tenho duas ideias em mente e gostaria de trabalhar mais cada uma delas antes de me adiantar, mas a ideia de ter super herois brasileiros no meio da Paulista trocando porrada não me sai da cabeça.

Para quem quiser saber mais sobre você, quais os links, caminhos e indicações?

Eu tenho um blog, que ficou abandonado um tempo, mas vai ser retomado em abril deste ano: baraozero.wordpress.com.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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