Entrevista: Leonardo Maran Neiva

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Leonardo Neiva é jornalista porque, quando criança, achava bonito ver o pai fazendo listas de compras e também porque lhe disseram que passaria menos fome do que se fosse escritor (só não avisaram que não seria muito menos). Nasceu e vive até hoje em São Paulo e ainda sabe onde estão suas duas orelhas, o que, segundo me contou de forma confidencial, é mesmo uma grande sorte. Escreve porque precisa (mas não volta porque te ama). Já publicou contos nas revistas Escriva, Gueto e Originais Reprovados, da USP, e no site Obvious. Atualmente está escrevendo um livro que não tem final porque até agora também não teve começo.

O seu conto “O Estranho Caso dos Professores que Assobiavam”, tem referências mitológicas e um clima Lovecraftiano. Como surgiu a ideia para essa história?

De fato, Lovecraft acabou sendo a principal referência para a atmosfera da história, mas não cheguei a pensar no autor quando comecei a escrevê-la. Na verdade, eu queria criar uma ficção científica que tratasse um pouco da ideia do eterno retorno, que é um conceito relativamente antigo e depois acabou sendo essencial para a filosofia de Nietszche. Estamos vivendo um momento em que o mundo parece repetir padrões destrutivos do passado. Nesse contexto, o ditador da história acaba sendo, além de um tirano, uma representação desse retorno sucessivo das coisas sob diferentes disfarces.
Depois que comecei a escrever, achei que inserir essa ideia do eterno retorno na história, até sob um ponto de vista mais teórico, poderia ser interessante. Para isso, reforcei o fato de que tudo aquilo se passa em um mundo que não é o nosso. Talvez um universo paralelo, um outro planeta, realmente não sei. Mas me fascinou a noção de que aquilo pudesse se passar ao mesmo tempo tão perto e tão longe da gente.
Foi durante o ato de colocar essa ideia inicial no papel que acabei descobrindo em Lovecraft uma certa sobriedade, uma seriedade excessiva, que chega a ser quase paródica para os dias de hoje, e que cabia perfeitamente naquilo que eu queria contar.

O conto apresenta o conceito das “escolas de esperança”, num contexto pós-derrubada de um governo ditatorial. Como você teve a ideia dessas instituições e o que elas representam na história

Ah, sim… A realidade que vemos no início da história é um momento positivo, de euforia, de libertação após anos tremendamente obscuros. Eu nunca tive a intenção de desenvolver profundamente o conceito das escolas de esperança na história. Como vários outros elementos ali, ele ajuda a compor uma narrativa dessa sociedade que apenas aponta para uma ideia, algo que existe em algum lugar para além do texto. Eu queria que esta fosse, ou melhor, parecesse ser uma sociedade complexa o suficiente a ponto de ser impossível narrá-la por completo no espaço de algumas páginas.
Na história, essas escolas representam, talvez de forma não muito sutil, uma nova filosofia que enxerga o futuro sob uma luz bem mais positiva. Me pareceu também que, depois de um período de tão longa e profunda depressão, a esperança pudesse ser algo a ser ensinado, um estado de espírito que as pessoas precisassem ser recondicionadas a sentir novamente. Em última instância, porém, é um conceito com uma carga um tanto negativa, porque ali elas têm um quê de moda passageira, algo que nasce e morre ao sabor dos tempos. Imagino que seja difícil reaprender a ter esperança, mas esquecê-la pode ser um exercício quase instantâneo, infelizmente.

O seu conto pode ser descrito como weird fiction. Conte-nos sobre seu envolvimento com esse gênero.

Meu envolvimento vem principalmente pela leitura de autores como o próprio Lovecraft e Edgar Allan Poe. Vejo que há muitos escritores, da ficção científica e terror ao realismo mágico, que hoje são associados direta ou indiretamente ao gênero. Clive Barker é um autor de terror bem mais recente de que eu gosto muito e que também associaria ao weird fiction em uma vertente mais moderna. Para mim, é uma narrativa de horror e fantasia que vai além de seus próprios gêneros, adota outros estilos, engloba aspectos míticos, o caos, aborda a sociedade e mostra em algum grau uma perversão do ser humano e da natureza muito mais macabra e assustadora do que qualquer assombração algum dia poderia ser.

Quais são suas maiores influências literárias, nacionais e internacionais?

Definir isso é um grande problema, porque nunca me restringi a alguns gêneros ou autores e gosto de ler e escrever basicamente de tudo. Procuro aqui também fazer uma diferenciação entre meus autores favoritos e os que realmente influenciam minha escrita. García Márquez, por exemplo, considero um dos melhores escritores de todos os tempos, e sou absolutamente fascinado por seu Cem Anos de Solidão, mas o que escrevo está bem distante do seu estilo. Acho que ler e escrever, apesar da aparente proximidade, são ações bem diferentes. Não quero também, de forma alguma, me colocar perto desses autores citados, mas apenas apontar algumas semelhanças no tipo de escrita.

Diria que tenho influências no que faço de alguns autores bem diversos e até um pouco contraditórios quando colocados lado a lado, como Lovecraft e Philip Roth, ou H. G. Wells e Charles Bukowski. Em território nacional, acho que ainda estou, como quase todo mundo, sob um certo campo de influência machadiana, mas também adoraria ter um pouco da intensidade de uma Rachel de Queiroz, cuja obra, na minha opinião, merecia ser ainda mais lida e valorizada no Brasil.

Mas essas coisas vão mudando, e eu não sou tão fiel quanto gostaria com influências. Outro dia mesmo li um livro chamado “Stoner”, de John Williams, um autor que eu não conhecia. Fiquei louco com aquela escrita, tão direta e simples, mas ao mesmo tempo capaz de evocar sentimentos belíssimos por meio de pequenas coisas. Se um dia conseguir fazer algo que se assemelhe a isso, me darei por feliz.

Nos conte um pouco sobre seu processo criativo.

Eu não sou um escritor muito organizado, mas, quando estou trabalhando seriamente em algo, procuro escrever ao menos um pouco todos os dias. Mesmo que eu saiba que o que estou escrevendo é porcaria, e que no fim vou simplesmente ter de jogar tudo na lata de lixo. O próprio ato de escrever ajuda a continuar escrevendo. Se você parar um dia que seja, a possibilidade de parar no próximo, no seguinte e, no fim das contas, não terminar aquilo nunca mais é imensa.

Para buscar inspiração, em geral eu ando. Já tive ideias de livros inteiros (não necessariamente boas) durante caminhadas de algumas horas. Muitas dessas ideias se perderam completamente, porque não me importei em anotá-las. Agora tenho sempre um caderno e caneta nesses momentos. Anoto tudo, ainda que nunca mais volte para ler essas anotações.

Você tem algum trabalho em andamento que possa nos adiantar?

Já venho ensaiando há algum tempo começar a escrever um romance, um que eu realmente termine desta vez. Mas não posso adiantar exatamente do que se trata, talvez porque eu mesmo ainda não saiba.

Onde os leitores da Trasgo podem encontrar mais trabalhos seus?

Eu tenho um canal no Medium medium.com/@leomneiva2, mas alguns dos leitores podem se decepcionar. São textos bem pessoais que eu andei escrevendo de forma esporádica. Tenho também alguns poucos contos publicados em revistas por aí. Acho que “O Estranho Caso dos Professores que Assobiavam” vai ser meu primeiro conto ligado à ficção científica e fantasia a ser publicado. Não tem muita razão para essa demora, são gêneros de que sempre gostei muito. Inclusive tenho planos de iniciar uma série sobre temas ligados a eles no Medium. Para quem tiver um pouco de paciência e interesse, sugiro que acompanhe a página ao longo das próximas semanas.

Lucas Ferraz
Lucas Ferraz
Lucas Ferraz é um Consutor de TI que se meteu a escrever e não parou mais. Participa dos podcasts CabulosoCast e Papo Lendário, sobre literatura e mitologia respectivamente. Escreve crônicas e edita os contos do Leitor Cabuloso e participa da Trasgo como revisor lucasferraz.com | @ferraz_lucas

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