Entrevista: Luiz Bras

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Luiz Brasil nasceu em 1968, em Cobra Norato, pequena cidade da mítica Terra Brasilis. É ficcionista e coordenador de laboratórios de criação literária. Na infância ouvia vozes misteriosas que lhe contavam histórias secretas. Só acredita em biografias imaginárias. E nos universos paralelos de Remedios Varo. Dos livros que publicou destacam-se Distrito federal (rapsódia, 2014) e Sozinho no deserto extremo (romance, 2012). E o novíssimo Ateliê de criação literária (eBook Amazon, 2015).

“A última árvore” é uma mistura de ficção científica com um toque de surrealismo e metalinguagem. De onde surgiu este conto?

A primeira imagem que surgiu em minha mente foi a da última árvore do planeta. As questões ecológicas me interessam bastante. Quando consegui visualizar essa última árvore, outros elementos ficcionais começaram a grudar em seus galhos. Uma favela. Um labirinto. Então surgiu também a questão tão inquietante da segregação socioeconômica. O conto foi se materializando devagar. A linguagem é simples, sem ser simplória. É quase um conto de fadas futurista.

Há vislumbres de uma sociedade pós-apocalíptica, como a extinção da fauna e flora, ou a presença da cúpula. O quanto desse mundo estava construído em sua mente quando escreveu esse conto?

Esse mundo surgiu agora, não estava construído. O combustível de minha usina criativa é o humor. Não o humor escrachado, mas o humor sutil, a ironia… Só consigo pensar em cenários distópicos corroídos pelo nonsense. Em “A última árvore” não foi diferente. Nesse conto parece que a ideologia anarquista procura meios pra finalmente triunfar no admirável mundo insólito. Mas tudo o que ela encontra é um filão enorme de estupidez e loucura democraticamente distribuído.

Ao final aparece a ideia (e a possibilidade) de explodir tudo, de fazer coisas maravilhosas. (Que me trouxe um paralelo com o fim de “Clube da luta”, uma reconstrução do mundo a partir das cinzas deste aqui.) De qualquer modo, você escolheria a jujuba azul ou a vermelha?

Eu escolheria a jujuba vermelha sem titubear. Aliás, creio que já escolhi. Foi há muito tempo, na adolescência. Escolhi a jujuba do conhecimento em suas múltiplas formas. Principalmente na forma-filosofia e na forma-arte-literatura, exterminadoras de ilusões. A realidade nunca mais foi a mesma. Ela se desdobrou em múltiplas realidades, umas fascinantes, outras ameaçadoras. Por esse motivo, a ideia de uma renovação-revolução traumática é uma constante em meus romances e contos. Confio que a natureza ainda dará uma boa surra na espécie humana, antes de restar a última árvore, o último pássaro.

Sua literatura vai de ficção pós-apocalíptica em “Sozinho no deserto extremo” até histórias infantis como “Ganhei uma menina!”, passando por uma série de gêneros. O que prefere escrever, em qual deles se sente em casa?

Eu me sinto à vontade em todos os gêneros. Exercitar a prosa e também a poesia, escrever para o público adulto e também para o público jovem faz parte de meu projeto de autoconhecimento e conhecimento do mundo. Gosto de resenhar livros e escrever artigos sobre os principais aspectos da criação literária. Um gênero se completa nos outros: a prosa na poesia, a teoria na prática etc. De maneira análoga, as outras artes ajudam a estruturar minha literatura. A música, o cinema e os quadrinhos sempre foram importantíssimos pra minha sensibilidade criativa.

Como é o seu processo de escrita? Você é um autor de rotina, planejamento, estrutura, experimentações?

Sou um autor de rotina. Escrevo todos os dias, estudo todos os dias. Duas décadas de prática fortaleceram essa disciplina. No início, as boas ideias custavam a aparecer. Era um tormento. Agora elas formam uma fila insana na porta de casa. Parte do meu trabalho diário consiste em separar as poucas ótimas ideias da multidão de simples boas ideias e lugares comuns.

Fiquei muito feliz quando topou enviar um conto à Trasgo. Como você vê o papel das revistas (como a Trasgo) na divulgação e diversificação da literatura nacional?

As revistas alternativas, guerrilheiras, sempre estiveram na vanguarda da arte e da literatura. Elas apresentam em primeira mão as novas poéticas, os autores e as escolas que o mercado editorial conhecerá somente mais tarde, às vezes muito mais tarde. Um exemplo muito próximo de mim: o Projeto Portal, organizado tempos atrás pelo Nelson de Oliveira, contemplou a ficção científica brasuca, gênero ainda pouco respeitado pelos leitores e pela crítica especializada. Desejo à revista Trasgo vida longa e próspera. Estou feliz por fazer parte de sua história.

Em que tem trabalhado? O que podemos esperar de Luiz Bras para adiante?

Neste exato momento estou trabalhando, com meu alter ego Teo Adorno, numa HQ intitulada “Teoria do caos”. É um projeto autoral. Experimental. Trabalhamos apenas com um esboço de roteiro, com umas anotações bastante subjetivas. Teo vai desenhando sem muito compromisso, um pouco por dia. Não existe terapia melhor. Somos colecionadores de espantos.

Para quem deseja conhecer melhor o seu trabalho, quais as suas recomendações de links e páginas?

O melhor lugar pra encontrar qualquer escritor são seus livros, onde ele se revela plenamente. Mas, para os detalhes de menor importância (biografia detalhada, bibliografia, resenhas etc.), basta acessar meu blogue, ObjetoNãoIdentificado: luizbras.wordpress.com.


Crédito da foto: Tereza Yamashita

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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