Entrevista – Marcelo Porto

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Marcelo Porto é baiano, analista de sistemas, administrador e escritor nas horas vagas. Cinéfilo, leitor voraz de quadrinhos e de livros também. Sempre foi envolvido com as letras, não é jornalista, mas trabalha em jornal desde sempre. Atualmente reside em Mato Grosso do Sul.

Em Náufrago você utiliza os contornos da Baia de Todos os Santos para localizar o leitor no espaço (e no tempo), e domina bem o vocabulário náutico. Tudo isso foi produzido de memória ou foi necessário uma pesquisa para produzir o conto?

Sou soteropolitano e conheço a região profundamente, durante a minha adolescência atravessava a Baia de Todos os Santos praticamente toda semana para curtir as praias da Ilha de Itaparica. Muitas vezes as travessias eram interrompidas por panes nas embarcações, que não primavam pela manutenção. Também sou aficionado pela História do Brasil, e por ter crescido onde o nosso País nasceu, tive a oportunidade de estar em locais históricos durante toda a minha formação escolar, o que facilitou bastante na construção do ambiente do conto, precisei pesquisar apenas as características das naus antigas para passar verossimilhança à narrativa.

Diogo é um personagem com atitudes heróicas, colocando o bem dos outros a frente do seu. Você prefere escrever esse tipo de personagem? Quais são seus heróis favoritos na literatura?

Gosto do herói que todo homem comum carrega dentro de si. O Diogo é uma pessoa que poderíamos encontrar na esquina. Sou fã de personagens que descobrem seus atributos (bons ou ruins) nos momentos críticos.

Além disso, sou fascinado pela figura histórica em quem se baseia o conto. Para mim o mais misterioso personagem da História do Brasil, que teve uma atuação decisiva para nos tornar a nação que somos hoje.

O conto começa urbano até aparecerem os elementos de Ficção Científica, ainda em doses moderadas. Você prefere a ficção misturada a elementos cotidianos ou partir para a criação de cenários futuristas ou alternativos?

Sou fã de ficção cientifica, adoro tramas que utilizam os elementos clássicos do segmento, mas como escritor prefiro trazer esses elementos para a nossa realidade. Em todas as minhas narrativas a referencia sempre é “como um homem (ou mulher) comum lidariam com isso?”

Pode nos contar um pouco sobre seu primeiro livro, Paradoxo?

Paradoxo é uma história clássica de ficção científica, que utiliza o mais incrível dos elementos deste tipo de literatura, a viagem no tempo. Semelhante a Náufrago, também coloco uma pessoa comum numa trama onde ele precisará se desdobrar para salvar os seus entes queridos.

Na narrativa o protagonista descobre que é o responsável pela morte da sua namorada e do seu mestre, trinta anos no futuro. Lidando com as dores do amadurecimento, ele é obrigado a enfrentar o seu “eu” do futuro para impedir a tragédia. A viagem no tempo serve como alegoria para mostrar o choque entre gerações, levado ao extremo.

A história também é ambientada em Salvador e ressalto uma vertente desconhecida da cultura local, o ambiente acadêmico e cientifico, colocando o primeiro Nobel brasileiro na sociedade baiana.

Para tornar a história mais crível, estudei a vida de um dos maiores cientistas brasileiros, o físico e matemático Cesar Lattes. Que no livro inspira o Dr. Alberto Prattes, tornando-o o descobridor do Bóson de Prattes, partícula de possibilitaria a viagem no tempo. O Bóson de Prattes seria algo parecido com o Bóson de Higgs, que para a minha felicidade foi comprovado na mesma época do lançamento de Paradoxo.

Você acabou de lançar outro livro, Déja Vu, um desdobramento do primeiro. Sobre o que se trata?

Durante a escrita de Paradoxo, surgiu a inspiração para uma nova história baseada nos efeitos colaterais da viagem no tempo. A escrevi como uma história independente que pode ser lida separadamente, utilizando o universo criado no livro anterior.

Nesta nova trama, o protagonista descobre um estranho poder de premonição que pode ser efeito da experiência que viveu. Em meio às agruras do novo dom (ou maldição), ele também precisa lidar com uma conspiração que envolve politica, poder e a herança do seu antigo mestre. Em Déjà vu a história fica ainda mais urbana, tornando-se um thriller policial pelas ruas de Salvador, com grandes doses de ficção científica.

Pelo visto seu estilo favorito é ficção científica. Quais seus autores preferidos, clássicos e contemporâneos?

Sou fã incondicional de Ficção Científica, mas também gosto muito de romances históricos e autores brasileiros. Gosto do Aydano Roriz, um historiador baiano que cria tramas com grandes personagens e fatos históricos do Brasil, que em “O Fundador” traz Tomé de Sousa numa história que recria fielmente a época da colonização com elementos fictícios interessantíssimos. Leio também o João Ubaldo Ribeiro e vejo muito de ficção científica nas tramas do maior escritor baiano vivo, a exemplo da manipulação genética em “O Sorriso do Lagarto”.

Dos estrangeiros gosto muito do Philip K Dick e do Douglas Adams, estou descobrindo os clássicos do gênero como Asimov e Ray Bradbury, mas confesso que estes estão na minha estante aguardando a sua vez.

Acompanho alguns autores brasileiros que têm me fascinado pela criatividade e pela abordagem nova de temas clássicos. Marcus Achiles autor de “Danação”, escreveu um excelente romance de terror em que se utiliza do folclore brasileiro para criar uma trama aterrorizante pelo interior de São Paulo na época da colonização. Tem também o Christian Petrizi, outro autor brasileiro que subverte o romance policial ao criar no universo LGBT, um casal de detetives homossexuais em “Crimes Bárbaros” e “Perdendo a Cabeça” que se envolvem em tramas à lá Agatha Christie, repletos de suspense, ação e humor.

Há um terceiro livro por vir?

Entre contos, família e a carreira profissional, tenho me desdobrado para escrever o meu terceiro livro, que ainda não tem título. A trama gira em torno de uma conspiração nuclear e também é ambientada na Bahia, onde está a única mina de urânio da América Latina, de onde sai o combustível que alimenta Angra I e II. Desta vez pretendo utilizar dos elementos da ficção cientifica para criar uma história atual sobre os riscos da energia nuclear, utilizando a licença poética para colocar esse perigo no meio do estereótipo clássico do povo festeiro da minha terra.

Onde os leitores podem encontrar um pouco mais do seu trabalho?

Tento manter um blog, onde posto alguns contos e outras coisas que escrevo, mas não consigo fazer a contento. Quem quiser ver mais algumas viagens minhas é só dá uma passadinha por lá. Bytes e Letras em http://byteseletras.blogspot.com.br/

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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Um comentário

  1. Bruno Eleres / 23 de janeiro de 2014 at 21:37 / Responder

    Também gosto da ideia de ver como as pessoas normais reagem a eventos sobrenaturais. Acho que torna o enredo bem mais interessante do que personagens super poderosos e no comando de tudo.

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