Entrevista – Michel Peres

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MichelMichel Peres é professor, engenheiro, escritor e leitor. Natural da cidade de Matozinhos (MG), escreveu poesias que nunca passaram pelo crivo da gaveta e vive a desenvolver a sua mitologia pessoal (divertindo-se bastante com isso). “Sardas e Manchas de Sangue” é seu primeiro conto a ser publicado.

“Sardas e Manchas de Sangue” tem uma atmosfera noir, principalmente em função do personagem Juarez. Como esse personagem se apresentou para você e como foi escrevê-lo?

Acho que nesse conto em específico, o tipo de história acabou induzindo diretamente na criação do personagem. Na ocasião em que comecei a escrever “Sardas e Manchas de Sangue”, minha ideia era desenvolver uma trama de ficção científica com elementos das histórias de detetive. Assim, essa necessidade inicial foi satisfeita com um personagem policial, inspetor ou outro profissional do gênero.

Como não queria me ater apenas à trama de ação, comecei a pensar nas características de Juarez fora da sua persona profissional e o vi como um indivíduo no que se convencionou chamar de crise dos quarenta anos, vivendo entre a rotina do trabalho e o fim de um relacionamento. A escrita em primeira pessoa possibilitou mergulhar mais na psique dele, abordando esses aspectos particulares que correm em paralelo à trama.

Você nos apresentou um suspense criminal, mas que na verdade é uma história de ficção científica, gênero conhecido pelas reflexões que gera sobre a sociedade. Você quis instigar alguma reflexão no leitor? Qual?

Não intencionalmente. Ao imaginar o mundo em que a trama desse conto iria se desenvolver, comecei a pensar nos questionamentos que os próprios personagens teriam acerca de assuntos que permeiam esse mundo. Juarez, por exemplo, é mais conservador, enquanto Fisq e seus furistas possuem um posicionamento mais liberal.

Quanto àquela cena dos gimos no canteiro de obra eu diria que houve essa intencionalidade. Escrevi aquela cena pensando nos casos de trabalhadores encontrados em condições de escravidão em canteiros de obra no Brasil, muitas vezes canteiros localizados em grandes centros urbanos como São Paulo ou Belo Horizonte, onde imagina-se que isso seria impossível de acontecer. Ou seja, utilizei-me da técnica (bastante comum) de usar um texto ficcional para abordar/repensar uma questão atual.

Apesar da fama do gênero, alguns autores acreditam que uma história, às vezes, é apenas uma história, e não precisa ser mais do que isso. O que você acha?

Acredito que tudo irá depender daquilo ao qual o autor se propõe. Se ele pretende refletir sobre eventos do mundo real a partir de uma couraça literária, isso é plenamente possível.

Agora, também consigo enxergar o valor da arte pela arte e sei que uma história pode se manter apenas por si. Às vezes, a única coisa que o autor deseja é se deleitar com o aspecto estético do texto — sem preocupações de ordem didática ou crítica — da mesma maneira que um Rothko ou um Pollock desenvolviam suas técnicas de pintura.

Um dos personagens no conto é um engenheiro, e você também é engenheiro. Como sua formação influencia sua escrita?

Acredito que minha formação como engenheiro permite trabalhar com mais acuidade aspectos técnicos que passariam despercebidos a outros autores ou que muitas vezes nem mesmo entrariam na sua esfera de preocupação.

Como é seu processo de escrita? Possui alguma rotina ou método que costuma empregar?

Como toda pessoa que se dedica à escrita, meus textos começam com um rascunho. A partir daí iniciam processos de revisão (muitas vezes 3 ou 4 para um mesmo texto.) Se ao longo desse processo percebo que o texto não quer mais se abrir, eu paro e procuro me dedicar a outro trabalho. Pode acontecer desse texto ficar meses engavetado, a ponto mesmo de eu já condená-lo à condição de eterno rascunho. Em algumas ocasiões ele me chama e o processo volta a fluir. É o que está acontecendo agora mesmo com outro conto em que estou trabalhando. Achei que não voltaria a trabalhar nele, mas estava enganado (para minha feliz surpresa.)

Sobre minha rotina, tento escrever todos os dias da semana, cerca de uma a duas horas por dia. Se alguma vez eu falho nessa rotina, marco em meu calendário um sábado ou domingo para repor esse dia perdido. E como escrevo usando um notebook, tenho esse costume de criar uma pasta para cada história que estou trabalhando e inserir dentro dela arquivos que possam ajudar seu desenvolvimento, como imagens, mapas ou textos. Geralmente cada pasta dessas possui um pequeno arquivo chamado “bíblia,” onde consta um resumo da trama, o ambiente em que ela se desenvolve, o nome e as características dos personagens (mesmo daqueles secundários.)

Quem, ou o que, mais te inspira? Quais seus autores preferidos?

Qualquer coisa que atraia minha atenção pode servir de material. Assim estou sempre em estado de atenção inconsciente, pronto para reter aquilo que um dia posso usar (a comodidade do celular permite fazer anotações na hora).

Mas algo que realmente me fascina são histórias estranhas e muitas delas servem de combustível para minha escrita. Como a internet é uma gigantesca plantação delas, é comum eu me deter em artigos sobre paleotocas, transtorno de identidade da integridade corporal, roupas cultivadas em laboratório ou a geografia de Yukon.

Também me interesso bastante por artes plásticas e pelo influência mútua que pode se estabelecer entre elas com a literatura. Coincidentemente alguns dos meus autores favoritos (como Ballard, Saramago e Burroughs) também dividem esse mesmo interesse.

Qual o lugar certo para quem quiser ler mais das suas palavras ou encontrar outros projetos seus?

“Sardas e Manchas de Sangue” é meu primeiro conto a ser publicado. Assim, acredito que o principal meio para as pessoas saberem um pouco mais sobre meus futuros projetos é através do Facebook ( fb.com/michel.murta.peres).

Tenho uma conta no Tumblr, onde escrevia textos sobre artes e novas tecnologias. Faz um bom tempo que não insiro nada lá, mas para aqueles que se interessarem o link é sandaliasmagneticas.tumblr.com. Também possuo uma conta no Twitter. @MichelMPerez.

Última pergunta: se você fosse um morfo, se editaria para parecer com o que ou quem?

Buster Keaton com poder de sublimação!

Enrico Tuosto
Enrico Tuosto
Enrico Tuosto é escritor, revisor da Trasgo e rockstar fracassado. Também cuida das redes sociais e da newsletter da revista, mas o que ele gosta mesmo de fazer é jogar RPG. enricotuosto.tumblr.com/writing

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