Entrevista: Nikelen Witter

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Nikelen Witter é escritora, historiadora e professora universitária. Agenciada desde 2016 pela Increasy Consultoria Literária; é autora de “Territórios Invisíveis” (Estronho, 2012/Avec, 2017), “Guanabara Real e a Alcova da Morte” (Avec, 2017), e de diversos contos publicados em antologias.

Seu conto lida com temas sobrenaturais, você se inspirou em alguma lenda regional? Como surgiu a ideia de escrevê-lo?

Sim. Os enterros de dinheiro são uma lenda conhecida do Rio Grande do Sul. o acúmulo de guerras durante o século XIX acabou dando asas às tradições antigas sobre tesouros enterrados. Diz-se que as pessoas de posse enterravam joias e moedas de ouro com medo que fossem roubadas ou perdidas, coisas que envolvem não só um cotidiano de batalha, mas também a ocorrência de grupos armados passando pela região. A mesma tradição fala que um escravo era levado para cavar o buraco em que o tesouro ficaria enterrado e depois era morto para não contar sua localização. Aí se passa a falar que essa alma ficava presa lá até que alguém fosse resgatar o tesouro. Lembro de minha avó contar sobre os tais sonhos (ela garantia que havia recebido um) em que o enterro lhe era entregue, mas era sempre para duas pessoas. Um ficava rico e o outro, fatalmente morria. Ela nunca foi buscar o que lhe cabia.

Há muito eu queria escrever uma história em que essa lenda estivesse envolvida. Quando fizemos a Noite Alucinante na Feira do Livro de Santa Maria – passamos à noite em uma livraria para escrever um conto de terror – a história veio junto com o título.

“Passando pelo Rincão dos Infernos em direção ao Passo das Enforcadas” é um título bastante chamativo. Porque você escolheu esse nome para seu conto?

Simples, porque esse lugar existe!!! Sério! Criei a história que os envolvia, mas minha nossa, uma localização dessas, merece um conto, até um romance. É quase boa demais para ser verdade. No próximo verão quero ver se agendo com uns amigos para ir até o Rincão do Inferno, o lugar é lindíssimo (basta googlar para ver), e pertence a uma comunidade quilombola, então, precisa de agendamento para chegar. Mas quero ir lá, cavar mais histórias. A lenda garante que há uma caverna em que se chega aos portões do inferno.

Você utiliza regionalismos linguísticos que enriquecem muito seu texto. Você acha que por vezes os autores se privam desse recurso em busca de uma linguagem mais "neutra"? Isso deveria ser mais explorado?

É um tema polêmico. Acho que depende especialmente do tipo de texto que se está propondo. Tenho um conto todo em linguagem regional, gosto muito, mas pode se tornar cansativo para quem desconhece a maioria dos termos. Mas, no caso desse conto específico, a linguagem regional colore falas bastante ligadas com os jovens protagonistas. Acho que aqui, uma linguagem "neutra" apagaria elementos que envolvem a lenda e até mesmo a localização. Portanto, realmente penso que depende. Tem textos que pedem isso, e neles explorar tais tipos de linguagem é realmente enriquecedor. Noutros, talvez ficasse estranho. O importante é uma prosa com ritmo, capaz de imergir o leitor no espaço proposto. Isso vai do feeling de cada autor.

Nos conte um pouco sobre como funciona seu processo criativo.

Não sei se tenho alguma regra. Qualquer imagem ou ideia pode parecer um ponto para começar a criar uma história. Tenho muitas coisas que vêm em sonhos, outras de memórias ou histórias que me são contadas. Sendo historiadora, tenho também uma fonte inesgotável de inspiração dentro do meu trabalho.

Depois da primeira ideia eu uso um longo tempo de maturação. Mesclo pesquisa com insights que surgem especialmente quando eu caminho (sou uma caminhadeira e isso parece abrir a minha cabeça).

Com a coisa maturada, começo a buscar o tom da escrita. Primeiro pensando, depois colocando no caderno ou no note. Mas o caderno é sempre meu caminho mais fácil de destravar e dar os primeiros passos.

Quando acho o tom, vai ter vezes em que as coisas meio que se escrevem quase sozinhas. Outras são mais exigentes. Sou lenta. Mas a vantagem é que o que chega aos arquivos do computador precisa de ajustes sim, mas nem tantos quanto se eu escrevesse a primeira coisa que me viesse à cabeça.

Você lançou recentemente o livro “Guanabara Real: A Alcova da Morte”, juntamente com A.Z. Cordenonsi e Enéias Tavares, gostaria de nos contar um pouco sobre como foi participar desse projeto?

Olha, as pessoas perguntam geralmente é: como deu certo? Minha resposta é sempre que deu certo por três motivos: somos amigos, respeitamos e confiamos no trabalho um do outro, e somos profissionais quando nos dedicamos à escrita. Foi um projeto trabalhoso, sem dúvida, mas especialmente satisfatório de se ver pronto. Claro que trabalhar à três tem seus prós e contras, mas no nosso caso havia mais pontes para superar do que para emperrar. Nenhum dos três é ególatra em relação ao texto e embarcamos no projeto com a ideia de que queríamos o melhor resultado possível e batalhamos para isso. A capacidade organizacional do André, a imaginação do Enéias e minha busca pela harmonia do tom se combinaram super bem. Além disso, em todo o processo contamos com a assistência de nosso editor, o Artur Vechi, da Avec Editora. O Artur catou os buracos da trama e as inconsistências com grande cuidado, nos levando à melhor finalização possível do processo.

Você está trabalhando em algo atualmente que queira dividir conosco?

Eu tenho um romance finalizado. Uma distopia steampunk que minhas agentes da Increasy Consultoria Literária estão negociando com as editoras. Então, estou na expectativa para poder revelar mais dele, que, por enquanto, tem o título de Viajantes do Abismo.

No momento, estou iniciando meu quarto romance (o terceiro solo). Este será uma ficção científica. Um ramo complicado da literatura de gênero, mas eu tenho absoluta paixão por coisas que envolvam astronomia, ciência e o futuro da humanidade. Aliás, do jeito que as coisas andam por aqui, cada vez mais a gente tem vontade de conhecer outros planetas, não?

Quais os meios para os leitores da Trasgo acompanharem seu trabalho?

Olha, eu tenho uma página no Facebook fb.com/NikelenWitterescritora onde divulgo meus trabalhos. mas não tenho problemas com convites de amizade em minha página pessoal. Estou também no Instagram e no Twitter, basta buscar por Nikelen Witter que vocês me acham. Por fim, tenho um blog maio adormecido, mas com um bom repositório de crônicas e ensaios: nikelenwitter.sul21.com.br

Lucas Ferraz
Lucas Ferraz
Lucas Ferraz é um Consutor de TI que se meteu a escrever e não parou mais. Participa dos podcasts CabulosoCast e Papo Lendário, sobre literatura e mitologia respectivamente. Escreve crônicas e edita os contos do Leitor Cabuloso e participa da Trasgo como revisor lucasferraz.com | @ferraz_lucas

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