Entrevista: Ricardo Santos

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Ricardo Santos é um soteropolitano que adora confundir as pessoas com suas mentiras. Seus contos ganharam prêmios e foram publicados em coletâneas e sites. É autor do romance juvenil “Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos” e organizou a coletânea “Estranha Bahia”.

Como foi o processo de construção de "Wonder", a fagulha inicial do conto?

Minha ideia era escrever uma história em que crianças tivessem poderes além da compreensão humana (no caso, uma superinteligência), gerando fascínio e medo nos adultos. Eu queria especular como seria um mundo onde crianças deixariam de ser vítimas para se tornar donas de seus próprios destinos. Sempre dizem que as crianças são o futuro, mas os adultos cometem tanta barbaridade contra gente que mal tem como se defender. Violência doméstica, abusos sexuais, trabalho infantil, falta de escolas, menores de rua, extermínio nas periferias e por aí vai. Então esse futuro fica comprometido.

Em "Wonder" vemos os dilemas de um homem prestes a ser pai se cruzar com elementos da FC. De todas as abordagens possíveis para a questão do "superhumano", por que esta em específico?

Pretendo ser pai. Essa foi minha segunda motivação para escrever o conto. Os questionamentos do narrador são meus também. Quem estamos colocando no mundo? A ficção científica permite extrapolar a realidade para que possamos observá-la sob um ângulo diferente, e assim ver além da superfície, das aparências. Decidi por uma abordagem mais verossímil, porque tinha o desejo de escrever um conto de FC hard. Todas as informações científicas da história foram pesquisadas e conversei com profissionais de áreas como Biologia e Tecnologia da Informação. O que eu fiz foi pegar as informações científicas e brincar com elas.

Gostei como você detalha cenas corriqueiras da gravidez, o que dá uma sutileza ímpar ao conto. Como sou um pai recente, foi o que me prendeu à narrativa. Como foi a escolha das cenas?

Para mim, o personagem vem em primeiro lugar. Logo depois vem o plot. Bons personagens seguram até uma trama ruim. Seja um herói, um vilão, alguém extraordinário ou comum, o autor deve dar aos personagens uma identidade própria. E essa identidade é construída nos detalhes. Descrições, ações, pensamentos. O conto era bem maior. Fui cortando as cenas até chegar àquelas mais marcantes para contar o dilema do casal protagonista. Esse dilema é a ponte entre os temas do conto e o leitor. Se o leitor se importar com os personagens, então os temas terão toda a relevância. A curadoria da Trasgo, com sugestões de mais cortes e reescritas, melhorou a construção dos personagens e ajudou a ampliar o efeito dos temas.

Você acha que a humanidade saberia lidar com os Wonders?

Se Wonders realmente existissem, haveria muito debate a respeito deles. Acredito que o debate ético seria incansável. Mas, desta vez, as próprias crianças teriam voz. E provavelmente uma voz mais articulada do que a dos adultos. Para o bem ou para o mal, as ações dos Wonders teriam repercussões bem sérias. Crianças com pouca experiência de vida e com criatividades em níveis tão elevados. Isso aumentaria a esperança da sociedade? Ou aumentaria o medo? Que tipo de adultos os Wonders seriam?

Quais são suas autoras favoritas dentro da literatura especulativa, nacional e internacional? 

Procuro conhecer mestras e mestres do passado e ficar atento aos autores contemporâneos. Os nomes que mais me interessam são aqueles que subvertem a FC e valorizam a diversidade. Fora do Brasil, há os clássicos: H. G. Wells, Philip K. Dick, Frank Herbert, Ursula K. Le Guin. Há também nomes menos conhecidos do grande público, como M. John Harrison, Robert Scheckley, Octavia E. Butler, Samuel R. Delany, Nnedi Okorafor, Charlie Jane Anders, Ted Chiang, China Mieville, Jeff Vandermeer, Kameron Hurley. No Brasil, admiro os trabalhos de Cirilo S. Lemos, Cristina Lasaitis, Carlos Orsi, Gerson Lodi-Ribeiro, Luiz Bras, Fábio Fernandes, Lúcio Manfredi, Bráulio Tavares, Alliah, Lídia Zuin, Aline Valek, Santiago Santos.

Como é o seu processo criativo, de escrita, reescrita e afins?

Escrever é reescrever. Baita clichezão, mas é a pura verdade. Pelo menos, para mim. George R. R. Martin diz que há autores arquitetos, que planejam antes de escrever, e autores jardineiros, que cultivam o texto e descobrem a história durante a escrita. Eu sou do tipo arquiteto. Faço sinopse até para um conto de poucas páginas. A sinopse se transforma em cenas. Aí vem a primeira versão, sempre meio tosca, escrita o mais rápido possível. Nas versões seguintes, procuro melhorar tudo: frases, parágrafos, diálogos, construção de personagens, ambientação, ritmo. Corto, acrescento, mudo trechos de posição. Sempre pesquisando quando necessário, os mais diversos assuntos. Depois, mostro para meus leitores beta ou, às vezes, a um especialista de alguma área. Wonder, por exemplo, teve seis ou sete versões antes de ser enviado para a Trasgo.  

Em que tem trabalhado que pode adiantar aos leitores da Trasgo?

Tive a felicidade de ser selecionado para a próxima coletânea de ficção científica da editora Draco. O livro Cyberpunk contará com uma noveleta minha, chamada Caos Tranquilo, passada numa Salvador dos anos 80 alternativa e hi-tech. Ainda não tem data de lançamento, mas o trabalho de edição do texto começará em breve. Também estou escrevendo uma novela de fantasia heroica e preparando um romance que mistura cyberpunk e new weird.

Para quem gostou de "Wonder", onde pode encontrar mais trabalhos seus?

Tenho um blog (ricardoescreve.wordpress.com/). Lá dá para conhecer meus livros publicados, ler contos de graça e até baixar meu primeiro romance.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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