Entrevista: Santiago Santos

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SantiagoSantiago Santos é escritor, tereréficionado, tradutor e jornalista. Atualmente reside em Cuiabá. Publica drops literários no flashfiction.com.br

“Emet” é um texto surpreendente. Enquanto Bo segue sua jornada misteriosa, os cenários mudam com rapidez e aprendemos a gostar do guia inusitado, Josias. Qual foi a origem, a fagulha inicial deste conto?

Emet foi originalmente escrito para uma coletânea que nunca viu a luz do dia. A linha-guia da coletânea era um conto do Lovecraft chamado “A Cidade Sem Nome”, em que o protagonista encontra os resquícios de uma cidade antiga no deserto. As histórias deveriam tratar de civilizações esquecidas, cidades exóticas ou paragens alienígenas, em que esse sentimento de descoberta fosse um norte. Como eu sabia que Lovecraft inspiraria muitos contos de terror e como a pegada de descobrir novos mundos é muito comum na ficção científica, resolvi apostar na fantasia, perigando pro weird. Eu sabia o que era este lugar bizarro por onde Josias guia Bo desde o início, mas não sabia direito as motivações do personagem e descobri a conclusão lá pro meio do conto.

Neste ponto fui auxiliado pela pressa; deixei para escrever o conto tarde e acabei tendo que fazê-lo num único dia. Em retrospecto penso que foi bom não ter publicado daquela forma inicial; de lá para cá ele passou por várias revisões e melhorou consideravelmente. Um texto sempre tem que ficar na gaveta, esfriando por algum tempo. Mas no Emet foi o cenário que impulsionou a trama, sem dúvida. Mesmo tendo tempo de sobra, este processo instintivo de discovery writing, que costuma contrapor o estilo plot-oriented, me parece funcionar muito bem para contos e minicontos.

Se “Emet” já não valesse pela incrível jornada, no final adquire uma dimensão muito mais profunda. O final surgiu em que momento da criação do conto? A propósito, adorei a frase “Você testemunhou o tanto de vida que ainda se agita em suas entranhas…”

Essa frase é bem característica do Josias, e parece conter o conto todo. As falas de Josias são as partes do texto que mais me agradam. Quanto à conclusão, ela surgiu organicamente em algum ponto da escrita. Acho que quando resolvi que a jornada seria vertical ao invés de horizontal a conclusão começou a ganhar forma. Aquele início com as repetições logo me deram uma ideia de circularidade, fazendo o gancho início/fim, mas não sabia como chegaria nele. Além disso, pensei que a jornada bizarra por si era muito pouco para justificar a história, e resolvi ampliar os sentidos e criar um tema paralelo, que guiaria a trama nos bastidores.

Há algumas experiências ousadas em Emet, como a fala arrastada de Josias, que poderia tornar o conto cansativo, ou a “tecnologia orgânica” apresentada. Quais foram as inspirações para estes elementos?

A inspiração mais óbvia é a fase do mestre Alan Moore no Monstro do Pântano. Josias é nada mais que uma homenagem ao personagem, com seu jeito arrastado e contido de falar, incluindo as reticências, que são experimentações transplantadas direto do gibi. Creio que Josias seja mais enigmático e recorra exaustivamente a simbolismos devido à sua delicada posição na história. Quanto à tecnologia, procurei usar apenas itens orgânicos ou de pedra, ou não caberiam neste cenário específico, pois não quis sugerir nada que pudesse ser criado fora daquele ecossistema. Ainda que existam réplicas óbvias, como o calóptero, tudo foi adaptado.

Você tem uma velocidade de produção invejável e publicou no ano passado 77 pequenos contos em seu site. Como é a sua rotina e como você dá conto disso tudo?

Esses 77 minicontos foram publicados ao longo de 2015 no Flash Fiction, site de drops literários que mantenho desde 2013. O número é alto mas eles são bem pequenos, variando entre 400-600 palavras, com poucas exceções. No começo me dedicava mais a eles, com produção diária, mas tive que encaixar a produção numa agenda com outros interesses e atualmente chegaram ao ritmo de um por semana. Estou num período transitório, estudando tradução, mas meu trabalho atual ainda me permite separar cerca de meio-período para me dedicar à literatura. Nessas 4 horas produzo bastante, sempre que possível também nos finais de semana. A produção se divide entre contos diversos, traduções, um romance pausado há mais de um ano, um livro de contos ambientado nos séculos da civilização inca, que forçou a pausa no romance e será lançado em 2016 através de um edital de cultura, e os drops do Flash Fiction.

E quanto ao processo criativo? Ideias surgem de todos os lugares, imagino, mas você tem disciplina para anotá-las, momentos em que se sente mais inspirado ou algo assim?

De todos os lugares, com certeza! Já perdi as contas de quantos contos legais nasceram de coisas aleatórias. Um exemplo recente é o de um flash fiction que escrevi num parque de Cuiabá. Levei uma cadeira de praia e o laptop e sentei embaixo de uma árvore enorme, com raízes grossas. A árvore virou o mote principal do drop “Da imensidão da terra”.

Anoto muito pouco. Já anotei bastante e quase nunca uso essas ideias pros drops. Depois de dias, semanas ou meses, checo as anotações e já não fazem sentido, não evocam nada de autêntico e descarto tudo. Caso virem algo, acabam bem diferentes da intenção inicial. Se uma imagem me arrebata, como a da árvore, faço um esforço pra mantê-la viva até o momento de sentar pra escrever. Mas minha memória é uma bosta e não raro tenho que bolar algo na hora.

Já nos contos e nos romances, bons conceitos, plot twists e sacadas bacanas de background dos personagens ou dos cenários eu anoto, pois são necessários pra manter estruturas mais complexas de pé. Mas costumo separar períodos pra brainstorms comigo mesmo na frente do PC, ou então ter boas ideias enquanto escrevo. Então raramente escrevo algo quando não estou no horário de trabalho.

A primeira vez que ouvi seu nome foi em um elogio de Luiz Brás, no podcast Ghost Writer. Como é escrever minicontos e como é publicá-los em canais diversos como o Papo de Homem, Antessala das Letras e outros veículos?

O Luiz, que já publicou na Trasgo também, é um dos nossos escritores contemporâneos mais múltiplos e ousados. Os livros dele têm sido publicados por casas editoriais pequenas, como o Distrito Federal e o Sozinho no Deserto Extremo, e são fenomenais, vale a pena conhecer. É uma honra ser amigo do cara e roubar dele dicas de ouro do mundo da ficção especulativa. O Ghost Writer também é um dos meus casts literários preferidos e acabei me tornando amigo da equipe. As colaborações, somando às que você citou as da revista pulp Lama, a de um jornal semanal aqui da minha cidade, Cuiabá, e outras, são resultado ou da indicação de amigos e conhecidos que você acaba fazendo no meio literário e que estão sempre envolvidos em projetos variados, ou da cara de pau de abordar o editor ou responsável pelo projeto e mostrar teu trabalho, propor a parceria. Eu, por exemplo, depois de conhecer o trabalho da Trasgo, resolvi enviar um conto e deu no que deu…

Além dos drops curtos, você também trabalha com textos mais longos? Existe algo que esteja planejando ou para lançar que pode nos adiantar?

Sim! De obras realmente concretas, lançarei em algum momento de 2016 o livro de contos Tawantinsuyu, que narra a jornada de um escritor pela Bolívia e pelo Peru acompanhado de um guia do início da civilização incaica, enviado pela deusa da linguagem para relatar histórias esquecidas da sua história, sempre com extrapolações fantásticas. É um livro curto, com 20 minicontos, mas um pequeno monstro da definição: é ficção histórica, fantasia, relato de viagem, autoficção.

Fora isso há um conto meu que será publicado na próxima edição da revista Somnium (número 112), do Clube de Leitores de Ficção Científica, que se chama “Da astúcia dos amigos improváveis”. Há outros projetos em andamento mas nada com datas definidas ou ainda concluídos. Claro que fora isso a produção continua a pleno vapor no Flash Fiction, com drops novos toda semana.

Para quem gostou do seu trabalho, quais são os canais para conhecer mais?

O site do Flash Fiction é o flashfiction.com.br, onde toda quarta-feira sai drop novo. Lá tem os links para a página do Facebook e Twitter. Também é possível assinar a newsletter pra receber os drops e outras notícias direto no e-mail. Costumo agregar notícias de outras produções nesses canais, então quando tiver mais notícias do livro e de outros contos divulgarei por lá. Fora isso, é bem fácil me achar no Facebook.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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