Entrevista: Simone Saueressig

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Simone Saueressig tem vários títulos publicados no gênero do Fantástico como “A Noite da Grande Magia Branca” (2007), “A Estrela de Iemanjá” (2009), “A Máquina Fantabulástica” (1997), e o livro de contos “Contos do Sul” (2012). Participou de antologias, como “Duplo Fantasia Heroica 3” (2012), e é autora da saga “Os Sóis da América” (2013), que conta as aventuras de Pelume pelo fantástico território de lendas chamado O Velho Norte.

Seu conto "A Caverna de Gelo" conta uma história de Pelume, seu personagem na série Os Sóis da América. Nos conte um pouco sobre esses livros.

"Os Sóis da América" é uma saga em quatro volumes, que publiquei entre 2013 e 2014, de forma independente. Pelume, o protagonista de "A Caverna de Gelo", é, também, o protagonista desta narrativa que começa "ao Sul de todas as histórias" e passa por todo um território fantástico, o Velho Norte, em busca de uma história perdida por seu povo. Neste longo recorrido, o menino encontra amigos e vive inúmeras aventuras, algumas verdadeiramente épicas, todas com cenários e criaturas lendárias do continente americano. É desse jeito que ele encontra um camahueto, vai parar no alto de um d’puis, na selva amazônica, enfrenta o Xolotl, em Tenochtitlán e se confronta com seu inimigo, o Machí, em pleno Ártico. É uma viagem por uma parte do Fantástico das Américas.

Como se deu o desenvolvimento desse mundo fantástico? Quais foram suas inspirações?

A minha inspiração primária foi “O Senhor dos Anéis”. Como muitos autores posteriores a Tolkien, me senti desafiada pela obra do autor. Contudo, depois de começar a criar a minha narrativa, a história foi se transformando e tomando contornos próprios. Houve uma boa pesquisa prévia, durante a qual eu recolhi o material de lendas, criaturas fantásticas e assombrações que povoam as páginas dessa história. Além disso, muitos dos cenários que utilizei são uma espécie de memória afetiva de lugares que nunca visitei, mas que povoaram a minha imaginação, durante a adolescência, com histórias de tesouros, monstros, lugares estranhos, e outras narrativas de arrepiar os cabelos. As lendas e criaturas americanas são fascinantes e esse é um território praticamente inexplorado, capaz de render um ramo inteiramente novo da Fantasia mundial.

A cultura e mitologia indígenas são elementos ainda pouco utilizados na ficção nacional. Na sua opinião, isso se dá pela dificuldade em obter informação a respeito ou por desinteresse? Por que o que é estrangeiro parece gerar um fascínio mais imediato nas mentes criativas do que o que é nosso?

Bom, aqui eu acho que temos duas questões bem interessantes. É fato que há pouca utilização desses elementos “locais”, digamos assim, sobretudo quando a gente compara com o que nos chega de fora. Mesmo assim, tenho visto na rede vários projetos acontecendo com bastante qualidade. Mesmo assim, são trabalhos com pouca visibilidade (fora da internet têm visibilidade quase zero) e, às vezes, com uma certa instabilidade na entrega. Muitas vezes temos pilotos excelentes, e nas entregas seguintes a qualidade da narrativa e de produção vai decaindo. Isso é muito ruim, porque termina afastando o consumidor, acostumado a entregas de altíssima qualidade narrativa e de produção, vindas de fora. É difícil você ter uma série como a irretocável “Juro que vi”, de Humberto Avelar. É desenho animado de primeira linha! Contudo, fora da TVE, pouca gente viu.

Essa dificuldade cria dois viés negativos: por um lado, temos o espectador/leitor, que está disposto a consumir esse tipo de narrativa, mas sequer sabe que ela existe. Por outro, temos o expectador/leitor que não tem nenhum interesse em Fantasia com personagens indígenas ou da cultura popular e demonstra, inclusive, preconceito contra histórias de Fantasia de registro indígena ou folclórico – essa é uma questão muito mais profunda. Em todo o caso, o curioso a respeito disso é que toda a Fantasia tem registro folclórico, toda. Dragões, elfos, anéis encantados, feiticeiros com poderes extraordinários, espadas mágicas, tesouros escondidos em grutas, guardados por criaturas terríveis ou fantasmas sanguinários, vampiros, lobisomens, bruxas, a lista é praticamente infinita e toda ela é composta por puro folclore.

As pessoas que alegam não gostar de literatura fantástica de registro folclórico brasileiro, ou indígena, simplesmente porque é “folclórica”, não têm ideia do que estão dizendo. Então por que a fantasia que vem da Europa é mais fascinante? Ela não é mais fascinante. É, apenas, mais fácil. Já foi tão esmiuçada e explorada, que podemos, inclusive, brincar com esses símbolos do imaginário, transformá-los, porque o leitor desse tipo de texto já domina esses símbolos e consegue acompanhar as imagens com facilidade. Eu não preciso explicar para ninguém o que é um unicórnio. Você lê a palavra e já tem um “unicórnio” registrado na sua memória. As descrições que serão feitas serão puramente estética, e geralmente de interesse pessoal do autor. Por exemplo, todo mundo sabe que os unicórnios são, tradicionalmente, brancos. Mas eu posso criar a história de um unicórnio azul e não precisarei dar grandes explicações. Basta com dizer “era uma vez um unicórnio azul” e você já tem uma imagem mental do que estou falando. Mas se eu quiser contar uma história sobre um camahueto, eu terei de explicar o que é um camahueto. Terei de descrevê-lo, contar sobre seus atributos, o que ele faz, o que gosta ou detesta. Sequer poderei modificar alguma característica como a sua cor, porque o grande público não sabe como é a imagem inicial. É muito mais complicado.

Por fim, temos um detalhe muito importante: um livro que nos chega de outro país, chega com uma produção muito mais interessante que o que um livro produzido 100% no Brasil. Além disso, uma obra estrangeira já chega com algumas coisas subentendidas: se chegou à livraria de outro país, passando por uma tradução, é porque já tem um público considerável em seu país de origem – já agradou muita gente. Portanto, o texto é “bom”, tem qualidade, equilíbrio narrativo. Mas, também, quando vislumbramos as equipes de produção de um livro, a gente percebe que o autor não faz nada sozinho. É só abrir na página de agradecimentos de qualquer obra, de qualquer autor, sobretudo os de sucesso, como Gaiman ou Stephen King. A família, o agente literário, o amigo, o vizinho, o editor, o preparador do texto, o sujeito que faz a divulgação, todo mundo lê e todo mundo dá sugestões, questiona, obriga o autor a escrever, reescrever e escrever de novo. Isso eleva a qualidade do trabalho final. Por isso você abre um livro de um autor estrangeiro com dez vezes mais confiança do que ao abrir um livro de autor nacional. Você não pensa em nada disso que estamos falando, mas fica subentendido. Aliás, desde esse ponto de vista, a Trasgo está de parabéns. Nossos textos passam por leituras prévias, discussões e sugestões, até chegar ao público. Isso acrescenta qualidade.

Como surgiu a ideia de falar sobre o encontro de Pelume com a criatura de gelo que o conto apresenta?

Faz alguns meses, estava conversando com um amigo a respeito de escrever prólogos. Daí surgiu a ideia de escrever uma história anterior às aventuras narradas em “Os Sóis da América”, que tentasse responder a uma pergunta que muitos leitores da saga me fizeram: afinal, como é que o Nalladigua, o galho que o Pelume leva para todas partes, e cuja origem é mais do centro da América do Sul, veio parar na mão de um garoto que vive ao sul de todo o mundo? Foi aí que eu comecei a imaginar o conto. Fiz uma pesquisa, buscando criaturas mágicas da Patagônia. Infelizmente, não tenho como viajar para o extremo sul do continente, então tive de me contentar com as informações da internet – e elas sempre são irritantemente incompletas. Eu sabia que tinha de haver alguma criatura ligada aos glaciares mas não estava encontrando nada. Já estava desistindo e me voltando para os deuses da mitologia selk’nam, quando tropecei em Mwono. Em todo o caso, eu tinha certeza de que havia uma criatura ligada às geleiras. Assim como tenho certeza de que há, provavelmente, muitas outras as que eu não tive acesso.

Quais foram os autores e obras mais importantes em sua formação como leitora e escritora?

No quesito da Fantasia, Tolkien está sempre em primeiro lugar, com “O Senhor dos Anéis”. Porém eu seria uma ingrata se não citasse C.S.Lewis e “As Crônicas de Nárnia”, que fez de mim uma leitora. Li muito Edgar Allan Poe e Stephen King. Como estamos falando de formação, preciso ainda citar o gaúcho Simões Lopes Neto, que comecei a ler com fonte de pesquisa e terminei gostando imensamente como leitora.

Está trabalhando em alguma obra atualmente que possa dividir com os leitores da Trasgo?

Estou trabalhando em um romance de Fantasia que não tem esse registro folclórico local. Também é uma tentativa de criar um texto para leitores mais adultos, o que tem sido o meu grande desafio ao longo dos anos. Ainda não tenho um título para ele. Também tenho uns quantos originais aguardando a sua oportunidade, como “O Último Continente”, uma ficção-científica que continua as aventuras de Shiaka e Maria do Céu, os protagonistas de “Padrão 20”, publicado pela BesouroBox. Vamos ver o que acontece em 2017.

Quais os meios para os leitores da Trasgo acompanharem seu trabalho?

Serão todos muito bem-vindos na minha página institucional www.porteiradafantasia.com, onde mantenho uma livraria virtual. “Os Sóis da América” está lá, à venda, e se alguém se interessar pela obra, é importante ressaltar que ela só é vendida pela Internet. A partir de maio, haverá uma edição disponível no www.clubedeautores.com.br, que reunirá os dois primeiros volumes da história em um só, barateando o seu custo. Tem o blogue das aventuras de Pelume, www.ossoisdaamerica.wordpress.com, onde os leitores podem descobrir mais coisas sobre os personagens e os cenários das aventuras do Menino das Histórias, e o www.porteiradafantasia.wordpress.com, onde posto crônicas, de vez em quando. Estou no Twitter, no @simoneslivros, e no Facebook, no @soisdaamerica. Chega lá, é bem fácil me encontrar!

Lucas Ferraz
Lucas Ferraz
Lucas Ferraz é um Consutor de TI que se meteu a escrever e não parou mais. Participa dos podcasts CabulosoCast e Papo Lendário, sobre literatura e mitologia respectivamente. Escreve crônicas e edita os contos do Leitor Cabuloso e participa da Trasgo como revisor lucasferraz.com | @ferraz_lucas

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