Entrevista: Thiago Loriggio

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Thiago Loriggio nasceu em Florianópolis, e mora lá desde então. Passou uma parte razoável dos seus 25 anos lendo, escrevendo e bolando histórias (mesmo antes de entender que era isso que estava fazendo). Está a um TCC de distância de ser Engenheiro Mecânico, e seus cadernos de faculdade se dividem entre cálculos matemáticos e narrativas longas. Tem interesses demais para uma pessoa só, entra em frenesis de empolgação quando encontra uma boa ideia, e acredita cegamente que a ficção de gênero nacional tem um imenso potencial não explorado. Este é o seu primeiro conto publicado.

"O meteoro de Rojanski" é um conto interessante porque a história evolui de acordo com as personagens. Como foi escrever o conto e criar estas personagens?

Eu gosto bastante de escrever sem planejamento. Colocar os personagens numa situação incomum e ficar assistindo (narrando) as ações deles para tentar resolver o problema. É muitíssimo divertido escrever assim, deixa a história surpreendente até pro autor. O texto precisa de uma reescrita pesada depois dos primeiros rascunhos, um retrabalho árduo para tornar aquela divagação em forma de narrativa uma história, mas é um preço pequeno a se pagar.

O Meteoro de Rojanski (que só ganhou esse nome depois que eu descobri que um cientista da vida real — Vladimir Rojansky — já tinha estudado um dos conceitos que eu coloquei na história) começou muito assim: eu tinha uma ideia bem vaga dos personagens e de onde eles estavam, e sabia como queria que a história começasse, mas nem tinha ideia de como ia acabar. Partindo da primeira cena (que, até alguns meses atrás, estava na minha pasta “primeiras cenas de história que não continuaram”), eu fui fazendo uma série de perguntas, do tipo “como e por que esse lugar onde eles estão existe”, “por que esse personagem é assim”, muitas enquanto escrevia.

Lendo o conto agora acho isso curioso porque me parece que o texto segue uma estrutura parecida com o formato daqueles contos de ficção científica do tipo “e se”, no caso “e se a humanidade descobrisse o meteoro de rojanski”, mas começando nas últimas consequências disso, não nas primeiras. O que não é o caso, eu não parti da humanidade, parti de um cara sozinho lendo um livro em algum lugar do espaço quando uma luzinha irritante tira a concentração dele.

Foi uma escrita desafiadora, eu tenho pouca experiência com o formato (principalmente o tamanho, os meus projetos usualmente são ou muito menores ou muito maiores), e quis fazer muitas coisas. Mas gostei bastante, já tenho mais ideias pra escrever contos no formato.

Como você diria que a presença do meteoro resolve o conflito das personagens?

Dá pra enxergar o meteoro como aquele problema que você não pode ignorar, a situação estressante muitas vezes necessária para o crescimento. No caso é uma situação bem extrema, uma escolha mais difícil, mas olhando dessa forma todo mundo já teve um meteoro na vida.

A situação das personagens estava insustentável; o meteoro foi o empurrão que faltava para eles aceitarem o que realmente estava acontecendo.

De onde surgiu a ideia para o conto? E de onde suas ideias costumam surgir?

Eu tinha essa ideia de uma nave disfarçada de meteoro, coberta de pedra por todos os lados; é o tipo de coisa que fico imaginando antes de dormir, como seria estar não na minha cama, mas em algum outro lugar. Partindo disso eu juntei vários conceitos que estavam matutando na minha cabeça há um tempo, muitos surgidos enquanto lia outras obras de ficção científica. Eu lia as histórias e pensava “mas e se essa tecnologia aqui existisse?”

Esse tipo de coisa acontece comigo o tempo todo; eu tenho muita ideia pra história. Quem me conhece já deve ter me ouvido divagar fortemente no meio de uma conversa, e soltar um “nossa, isso aí daria uma história”. Tem semanas que aparecem três, quatro, que me fazem parar tudo que eu estou fazendo e escrever um pouco no celular, ou puxar o gravador e gravar uma explicação. O que falta é tempo, preciso priorizar as coisas.

Mais objetivamente, se me perguntarem de onde exatamente essas ideias surgem, eu não tenho uma resposta muito boa. Acho que eu gosto muito de ficar divagando.

A história parece flertar com diversos subgêneros dentro da ficção científica. Quais autores mais te influenciam? Tem alguma dica de leitura para os leitores da Trasgo?

A questão dos subgêneros é interessante porque eu mesmo não tinha a menor pretensão de nada enquanto escrevia. Eu sabia que ia ser ficção científica, por causa de toda a parte técnica da ciência que eu queria desenvolver, mas se fossem me perguntar, lá nos primeiros rascunhos, qual seria o subgênero, eu nem teria pensado nisso.
Eu vejo bastante influência no meu trabalho do Isaac Asimov, o primeiro autor de ficção científica que li, e um pouco do Stephen King também, toda a história de escrever sem planejamento. Mas autor um que me influenciou muito em termos de contos foi o Richard Matheson. Eu lembro de um conto dele — Talentos Enterrados — onde ele simplesmente não narra o acontecimento mais importante da história, mas o leitor entende mesmo assim, tem só que prestar atenção. Isso me marcou muito, achei genial, e de muitas formas moldou a minha ideia de uma boa narrativa. Recomendo bastante o trabalho dele.

Para os que gostaram da sua história, onde podemos acompanhar seu trabalho?

Eu tenho um site, Ou Coisa Parecida (oucoisaparecida.com.br), onde coloquei umas histórias mais antigas, e falo sobre os novos projetos. De lá você me encontra em todos os outros lugares.

Tem algo mais que queira compartilhar com os leitores da Trasgo? Aproveite esse espaço para nos dizer no que anda trabalhando.

Além do Ou Coisa Parecida, eu sou co-fundador do Ficcionados (ficcionados.com.br), um site onde escrevemos sobre escrever, tanto coisas mais técnicas de forma e estilo quanto sobre publicação, planejamento, e outros aspectos da vida de quem quer viver da escrita.

Em relação a outros projetos de escrita, eu tenho vários… Mas um em especial que tá quase pronto pra ser mostrado por aí é o Princípios do Nada, um romance de fantasia urbano sobre um grupo muito velho de amigos com muitos assuntos não resolvidos. E, apesar de eu não usar nenhuma palavra relacionada no livro inteiro (nem ela própria), tem magia. Começa simples e vai escalando até um nível meio absurdo, foi muitíssimo divertido escrever esse. Eu pretendo começar a colocar ele no Wattpad em breve, pouco a pouco.

Enrico Tuosto
Enrico Tuosto
Enrico Tuosto é escritor, revisor da Trasgo e rockstar fracassado. Também cuida das redes sociais e da newsletter da revista, mas o que ele gosta mesmo de fazer é jogar RPG. enricotuosto.tumblr.com/writing

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