Entrevista: Vilson Gonçalves

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V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, “A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura”, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes “Guerreiras do Sol e da Lua”, em 2015, e “O Rei Amaldiçoado”, em 2016.

O que me chamou a atenção de imediato em “Pindá” foi a inversão de papéis tradicionais de gênero. Qual foi a inspiração para esse conto?

Imaginei a sociedade matriarcal de Pindá a partir da fusão de duas narrativas tradicionais. A primeira é o relato dos espanhóis sobre as mulheres guerreiras encontradas no Amazonas (e a razão pela qual o rio recebeu este nome), um relato que coincide com a narrativa folclórica das icamiabas, utilizada por Mario de Andrade em Macunaíma.

A segunda é um mito muito comum entre as tribos aruaques, e que no Alto Xingu foi incorporado por tribos de outras famílias linguísticas. O mito trata de um momento anterior da história destes povos, quando os papeis de gênero eram invertidos, algo que só mudou quando os homens roubaram as flautas sagradas (chamadas jacuí no Xingu) e as tocaram, mudando artificialmente a ordem das coisas. Por isso mulheres são proibidas de ver as flautas ou de entrar na casa onde elas são guardadas, no centro da aldeia.

Há um contraste interessante entre as três mulheres principais da história: Pindá, Akang e Itzel, cada uma com motivação particular. Com foi escrevê-las?

Colocar carne no esqueleto nunca é fácil para mim (risos). Tentei pensar cada personagem a partir do seu background e imprimir algumas idiossincrasias, tanto quanto foi possível no espaço do conto.

Pindá e Akang são abayukás, criadas para a guerra. Elas cresceram em uma sociedade na qual exige-se que mulheres sejam fortes e aceitem que a violência é parte da vida e nada de valor pode ser obtido sem ela. Akang já é uma guerreira idosa e respeitada, que venceu muitos inimigos. Ela é altiva, impaciente, e exige de suas “filhas” toda a coragem e perícia que crê que ela mesma possui.

Pindá ainda é jovem, precisa ganhar sua fama através das armas. Ela sabe que tem potencial para ser uma grande guerreira, e por isso é ambiciosa, otimista e não pensa muito antes de se lançar ao perigo. O que a motiva é o que motivou guerreiros ao longo da história: reconhecimento da tribo, desejo de se provar, luxúria e uma certa submissão à tradição.

Itzel, por sua vez, é uma mulher do povo tuylum, um povo antigo, recluso e patriarcal. Apesar de ser uma pessoa de visão, que deseja governar sua cidade, ela sabe que sua cultura vê as mulheres com desconfiança, por considerá-las traiçoeiras e inclinadas à prática da magia, e que uma mulher só pode chegar ao poder através de artimanhas. Gosto de pensar que ela é uma governante capaz, mas, dadas as condições, precisa agir de forma cruel e dissimulada para atingir objetivos – como muitos governantes reais fazem.

O conto pertence ao universo de “A Canção de Quatrocantos”, cujo livro “O Homem Azul de Azul e Púrpura” foi lançado pela editora Buriti. Pode contar mais sobre esse universo e o livro?

Quatrocantos é um continente ficcional baseado na América anterior ao contato com os europeus, especialmente as Américas Central e do Sul. Assimilei também vários elementos de outras proveniências, especialmente no que se refere a temas do folclore brasileiro que já carregam alguma influência cristã, ibérica ou africana.

“A Canção de Quatrocantos – O Homem de Azul e Púrpura”, narra a primeira parte da jornada de um homem chamado Wayra através de Quatrocantos. Foi a maneira que encontrei de apresentar meu universo.

Espero concluir a saga ao longo dos próximos dois ou três anos, talvez mais. O primeiro livro revela minha inexperiência (risos): é muito descritivo e passou para a versão final repleto de erros, então quero ser mais cuidadoso com as continuações.

Como foi o trabalho de pesquisa para a criação desse universo?

Tudo começou nos tempos de faculdade, quando me apaixonei por crônicas quinhentistas e arte pré-colombiana. Pouco a pouco isso me levou a ler tudo que conseguia encontrar sobre antropologia, cultura material e práticas religiosas dos povos da América Antiga. Paralelamente, em parte por causa de discussões com colegas, comecei a me perguntar porque ninguém havia pensado em criar um universo fantástico com esses elementos e por que era tão raro que elementos oriundos do folclore indígena brasileiro recebessem um tratamento mais sério. Decidi então encarar o esforço e transformar esses questionamentos em uma proposta.

A partir daí, assisti uma pilha de documentários e li tudo que pude sobre incas, astecas, tupinambás, marajoaras, anasazi e tantos outros povos americanos. Queria que este mundo tivesse textura, dos vestuários, aos costumes, ritos e alimentação. Este é um trabalho ainda em progresso e algo novo aparece a cada dia.

Como é o seu processo criativo em geral?

Depende. Geralmente o gatilho é um tema, que me leva a ter vontade de contar uma história em particular. A partir daí penso o contexto e vou colocando carne no esqueleto. A primeira versão de Pindá, que partiu de uma proposta bem clara (pois eu tinha essa vontade de escrever minha versão da narrativa clássica de espada e feitiçaria, com um ponto de vista feminino e com minhas influências), foi moldado em cerca de três dias. Outras narrativas, que não surgem tão organicamente na minha cabeça, demandam uma pá de tempo a mais, muitos copos de achocolatado e muitas paradas para o pão com mortadela.

E quanto às inspirações, autores e obras favoritos?

Três autores me inspiraram a escrever: Eiji Yoshikawa (Musashi), T. H. White (O único e eterno rei) e, por clichê que seja, J. R. R. Tolkien. Se encarei a tarefa de criar e descrever um mundo para alguém, foi por influência destes autores. Musashi, em particular, ainda é minha obra literária preferida e o parâmetro que eu uso para julgar qualquer romance extenso, independente do gênero.

Fora esses, aprecio muito o trabalho de Marilyn Hume (em especial a trilogia Merlin), Eoin Colfer (da série Artemis Fowl), J. K. Rowling. De Bernard Cornwell, sempre retorno à série Crônicas Saxônicas.

O que mais tem publicado, ou para sair em breve?

Além de “O Homem de Azul e Púrpura”, tenho dois ebooks disponíveis na Amazon: “O Rei Amaldiçoado” e “Guerreiras do Sol e da Lua”. Ambos se passam em Quatrocantos. Fora esses, escrevi com meu amigo, Fabio Clavisso Fernandes, um paródia de poema épico chamada “A Saga de Thorvald”, também disponível na Amazon.

Para o futuro próximo, planejo uma novela intitulada “Manákotui – A Casa das Vozes”, que tratará de um aspecto de meu universo sobre o qual não escrevi muito ainda: os gururetúk, um povo mágico, inspirado, entre outras coisas, por mitos como o Curupira e o Yacy Yateré.

Para quem gostou do seu trabalho, qual o caminho para saber mais?

Convido a visitar a página de Quatrocantos no Facebook, onde posto ilustrações e informações sobre o universo e publicações (fb.com/acancaodequatrocantos). Estou sempre disposto a trocar ideias e oferecer informações.

Editor
Editor
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.

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