Envelope a Écadro

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O processo era doloroso. Todas as vezes. Primeiro uma dor etérea, talvez na alma, e depois, conforme o corpo se formava entre partículas e moléculas, a dor passava aos ossos, músculos e pele. E a cabeça, no final… A dor lancinante.

“Só alguns segundos mais”, pensava com seu corpo encolhido no chão, acabando de se formar.

O zumbido da reintegração cessou e com ele a dor também. Esticou o membro superior e olhou a extremidade com cinco pontas. “Humano… ah não, humano de novo…”

Apoiou o joelho e as mãos no chão e, sentindo força e vigor, ergueu-se e ficou de pé. Bateu uma mão na outra para sacudir as sujeiras do assoalho do pequeno recinto mal iluminado. Fez o mesmo com os joelhos, dando tapas nas rótulas.

“Macho”, constatou. “Briga de novo, provavelmente.”

Examinou o ambiente e encontrou logo as roupas. Já cumprira missões em vários lugares, e particularmente na Terra, tinha facilidade de reconhecer a época apenas pelas vestimentas. Havia três mudas impecáveis sobre um leito de colchão torto e rasgado, e dois pares de calçados e meias ao chão.

— Século XXI — disse, após um suspiro. — Bem, melhor do que a outra vez… Fêmea no século XVII foi triste, triste de cumprir. Não queria ter que me submeter àquilo de novo.

Escolheu uma camisa e calça qualquer. Serviram-lhe perfeitamente, pois sempre vinham sob medida quando roupas eram necessárias. Numa pequena pasta, alguns acessórios. Desta vez uma chave, caderno e caneta, um telefone celular e artigos de higiene, algo “essencial para a espécie” — pensou. Numa carteira de couro, precauções para eventualidades: um bom maço de papel moeda e alguns documentos. Ele pegou a identidade e observou sua foto. “Lembro desse rosto. De novo?”. Procurou pelo banheiro, onde esperava encontrar um espelho.

Observou sua face, deu uns tapas na bochecha e sorriu seus dentes brancos. Alisou a camisa na altura do peito.

— Melhor com esta camisa do que com tiras de couro… — e fechando os olhos com certo alívio deu um sorriso de tranquilidade. — Provavelmente, desta vez, nada de socos ou chicotadas.

Uma vez reintegrado no planeta da missão, poderia desfazer-se e reintegrar-se de forma menos dolorida, sem precisar estar nu. Era necessária muita experiência para conseguir fazer isso com vestimentas e acessórios conectados a seu corpo. Para ele, algo simples.

— Espero que desta vez seja rápido — conversava consigo mesmo, ouvindo sua voz ecoar nas paredes da pequena quitinete. Dirigiu-se à janela para espiar um pouco o tempo lá fora. Não pôde deixar de lembrar de Luiza – sempre acontecia quando voltava à Terra. Lembrou-se também de Fidalgo, o labrador que o acompanhou em uma das missões e que morreu para defendê-lo. Fora a primeira vez que chorara.

Detestava passar muitos dias na Terra. Havia o risco de se envolver e isso doía mais do que qualquer reintegração de chegada. Tornava as missões mais difíceis. Missão boa era missão rápida. O que teria que fazer desta vez?


Sentiu nas narinas o cheiro da umidade do ar. Era uma casa numa ruela estreita. Mais adiante via-se uma rua maior que parecia ter bastante trânsito. Saiu do peitoril e sentou-se na cama para procurar o envelope na pasta. Essa era sempre a maneira mais segura de se receber a missão: o envelope com a mensagem escrita em letras de uma língua que só eles entenderiam, sem necessidade de transmissão, sem risco de interceptação.

Usou o localizador do celular para saber a posição relativa do endereço em relação ao seu local atual. Analisou tudo com cuidado. Depois fez um telefonema. Ninguém atendeu. Teria que esperar.

Pensou em dar uma volta pelas redondezas para ver as coisas. Não chamaria muita atenção, e não circundaria as proximidades de seu destino, ainda. Assim, não haveria riscos.

A chuva parara. Calçou os sapatos. Dar o laço era sempre uma dificuldade, mas conseguiu. Trancou a casa com a chave e seguiu em direção à rua principal. Gostava de ver os modelos de carros. Sempre achou engraçado como eles mudavam tanto de uma década para outra. Nunca entendera por que os humanos achavam que um novo modelo diferente a cada ano era melhor que o anterior. Seriam tão inocentes assim? A raiz desse mal fazia as coisas sempre difíceis na Terra. Sempre precisando de intervenção das missões. Por causa dessas tolices, ele sofria tanto.

Era fim de tarde e começava a chuviscar de novo, e então decidiu ficar embaixo de uma marquise observando o movimento. Cruzou os braços musculosos. Tinha um porte alto e forte. Era inevitável: várias mulheres sob seus guarda-chuvas o olhavam. Algumas o cumprimentaram com sorrisos. Alguns sorrisos eram mais que cumprimentos.

Decidiu entrar em uma das lojas e passar um tempo apreciando os objetos engraçados.

— Procura algo em especial, senhor? — Disse uma vendedora.

“Procuro”, pensou, mas respondeu: — Não. Só estou olhando, obrigado.

Vasculhou mais algumas coisas com curiosidade. Agora que a chuva cessara, decidiu sair da loja. Tentou telefonar de novo. Ninguém atendeu. Não podia se antecipar, isso colocava a missão em risco. Começou a andar pelas calçadas, chegou a uma praça e aproximou-se de um lago com um belíssimo chafariz. Soube apreciar e ficou muito tempo observando-o, até que o chafariz foi desligado, quando anoitecera. Sentou-se um pouco sob a luz de um poste na praça e e vasculhou notícias num jornal que estava molhado no banco. As notícias da Terra eram tão fúteis e banais – pensou – “Eles ainda têm muito a aprender sobre o que realmente é importante”.

Levantou-se e dirigiu-se à outra extremidade da praça, em frente a uma pequena rodoviária. Telefone ao ouvido, desta vez com dois toques alguém atendeu do outro lado.

Ele demorou um segundo para desligar.

— Pronto. Chegaram em casa — disse para si enquanto guardava o aparelho. Sentia um pouco de aflição por ter ouvido ao fundo o choro de um bebê.

Detestava sentir aperto no coração. Era difícil lidar com essa forma humana.

Treze minutos de caminhada até onde eles moravam.
Preferia quando o trabalho era implante de memórias ou ideias. Achava mais fácil. Mas a ordem contida no envelope era clara. Às vezes o trabalho era sujo.

Ao chegar na rua entrou num bar qualquer e foi ao banheiro. Esgueirou-se rapidamente em forma de fumaça, sem que ninguém o visse. Tinha pressa. Desceu pelo ralo quebrado, amarelado e sujo. Facilmente encontrou um caminho no labirinto das tubulações.

Encontrou alguns ratos pelo trajeto, mas eles não o atrapalharam. Percorreu a uma velocidade incrível aqueles encanamentos e chegou à tubulação de um dos banheiros da casa. Antes de sair pelo ralo certificou-se de não haver ninguém.
Saiu e reintegrou-se. A roupa estava impecável. Somente as partículas que o acompanharam no momento da desintegração vieram com ele: algumas pequenas pedrinhas do chão grudadas na sola do sapato. Nada do esgoto.

Olhou-se no espelho. Achou seu aspecto ótimo para os padrões humanos.

E agora, Beatriz.

Saiu do banheiro e no corredor ouviu vozes vindas da sala. Assistiam televisão. Havia um homem adormecido no sofá e um menino que não o viu, pois olhava atentamente para a TV. Voltou-se silenciosamente e chegou até um dos quartos. Estava vazio e tinha uma cama de casal. Seguiu pelo corredor e mais adiante encontrou uma outra porta entreaberta. Perto da parede contígua à porta havia um berço rosa com um bebê adormecido. Do outro lado do quarto, perto da janela, uma mulher estava sentada na cama e cantarolava para uma pequena menina. A mulher parecia não ter percebido a sua entrada. Mas a menina o viu.

Eles se fitaram por alguns segundos.

— Qual de vocês é Beatriz? — Perguntou num sussurro suave e quase carinhoso.

A mulher se virou e antes que tivesse tempo de assustar-se com a presença estranha sucumbiu a um estado de letargia e ficou com o olhar perdido.

— Qual é Beatriz? — Insistiu ele.

— Eu sou Beatriz — disse a pequena. — Qual é o seu nome?

— Meu nome? — Disse ele, aproximando-se das duas. Ao chegar perto da cama, ficou de cócoras diante da menina. — Você é tão pequenina. Uma criancinha.

Ela apenas o fitou esperando que falasse mais alguma coisa. Seus olhos cintilavam.

Ele estava com os cotovelos apoiados em seus joelhos e olhou tristemente para o chão. Por alguns segundos, a trama do carpete rosa mesclado foi um divertimento matemático que, no momento, servia como fuga. “Eu detesto fazer isso. Detesto fazer isso”, repetia num dos vícios da manifestação emocional que o corpo humano frágil lhe impunha quando se deparava com emoções. Precisava controlar-se e executar as ordens.

Então, fechou os olhos com força e se levantou. Pegou nos braços a mãe da menina, depositando cuidadosamente o seu corpo adormecido num monte de almofadas na outra extremidade do quarto, perto do berço. Olhou novamente para a pequena, esperando que ela estivesse um pouco assustada.

— Vou levar você para um passeio enquanto sua mamãe fica aqui dormindo, Beatriz. Quer vir comigo? — Dizia, impondo-lhe um poder que a deixaria num estado letárgico para facilitar o trabalho.

— Eu preciso entregar algo a você. Mas tenho que saber seu nome primeiro — disse ela, com o olhar mais doce do mundo.

Ele ficou espantado. A menina não sucumbira à sua energia. Estranhou, olhando-a de cima a baixo. “Que resistência absurda, como era possível?”. De pé, diante da cama, inclinando a cabeça, sussurrou:

— Você quer saber meu… meu nome? Eu sou… Écadro.

Ela assentiu com os olhos e escorregou pela beirada da cama até encostar suavemente os pés no chão. Ainda agarrada a um pequeno travesseiro, foi até o baú num dos cantos do quarto e tirou de lá muitos brinquedos. Largou o travesseirinho ao lado daquela bagunça e retirou com dificuldade uma caixa de madeira. Retornou para sentar-se na cama, colocando a caixa na mão dele.

— Você precisa abrir, Écadro.

Ele sentou-se e apoiou a caixa em cima de suas pernas. Não havia qualquer fechadura, nem ranhura que demonstrasse por onde deveria ser aberta. Apalpou todos os lados da caixa e, um pouco confuso e envergonhado, enfim, perguntou:

— Mas… como se abre esta caixa?

Com os olhos, ela lhe disse que ele precisava querer abrir a caixa, e ele entendeu.

A parte de cima da caixa se desprendeu com um estalo. Ele pegou a tampa, colocou-a sobre a cama e olhou para o interior, onde encontrou um envelope.

— Écadro, você precisa ler. Eu não entendo essas letras ainda.

Cuidadosamente ele pegou o envelope e o abriu.

Enquanto lia, seus olhos se encheram de brilho e se arregalaram. Então ele se desintegrou e sua fumaça, em movimentos bruscos e velozes, procurou a saída daquele quarto. Ao encontrar a cortina, seu vulto saiu velozmente e a janela se fechou atrás dele.


— Senhor, ela foi eliminada — disse Écadro devolvendo o envelope, ainda confuso, enquanto os outros o levaram para a sala de verificações, onde confirmaram a execução da missão vasculhando suas memórias.


Anos se passaram e Beatriz crescia em sabedoria e poder. Todas as informações estratégicas e relevantes sobre repercussões da sua existência seriam devidamente ocultadas e distorcidas, quando necessário com contrainformações e blindagens quânticas.

O Elo não percebeu. Não puderam constatar que Beatriz crescia, nem perceber as implicações da existência dela, de suas pesquisas, suas descobertas sobre o espaço-tempo e a dimensão nodal para a humanidade.

Écadro acreditou ter cumprido a missão. Uma missão que ficou mergulhada entre tantas lembranças conflituosas e dolorosas a respeito da Terra. Lembranças convenientes e não vividas ocuparam sua mente. Acreditou que tudo estava feito. Sentia remorso e dor sobre uma eliminação que, de fato, não executara.

O Elo deixou a Terra definitivamente em paz, sem mais intervenções.


Era noite e uma leve brisa abria a cortina.

A menina acordou. Dormia sozinha naquele quarto. Achou ter visto alguém e estava com medo.

— Olá, tudo bem? — Disse uma voz feminina e tenra.

Os olhos dela se acostumaram com a escuridão e ela pôde ver a moça. Sentiu-se estranhamente segura. Ela era muito bonita e trazia um pequeno travesseiro rosa com uma estampa, oferecendo-o à menina.

— Tome, Beatriz. É para você.

Quando a menina pegou o travesseiro, abraçou-o e correu para a cama de novo. A moça chegou-se para perto da beirada e se sentou.

— Precisamos conversar. Preciso deixar uma coisa muito importante com você, para que entregue a alguém — disse-lhe com um sorriso carinhoso.

— Qual é seu nome? — Balbuciou a menina.

— Meu nome também é Beatriz, sabia?

Cristina Pezel
Cristina Pezel
Cristina Pezel é Publicitária pela UFF e pós-graduada em Gestão da Educação pela UFJF. Quando adolescente, adorava escrever e era fã de jogos Adventure da Sierra e LucasArts, bem como de filmes de aventuras épicas. Em 2013 passou a dedicar-se à escrita. Em 2014 e 2015 ganhou prêmios literários nas categorias de poesia e conto. Finalizou em 2015 um livro infanto-juvenil e outro de fantasia épica. Atualmente escreve um livro de fantasia juvenil urbana.

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