Estive assombrando seus sonhos

4

I’ve been ghosting, I’ve been ghosting alone
Ghost in your house, ghost in your homes

When you’re tossing, when you turn in your sleep
It’s because I’m ghosting your dreams

Ghosting – Mother Mother

 

Felipe era apenas um garoto quando descobriu que sua vida não seria como imaginava. Aos dez anos de idade, seu pais o consideravam grande demais para ainda conversar com amigos imaginários, seres que o menino chamava apenas de: Os Fantasmas.

Felipe sabia que não deveria conversar sobre esses assuntos com os pais, mas era comum que os fantasmas aparecessem no meio da noite, fazendo perguntas, pedindo ajuda ou apenas para tentar assustá-lo. Quando isso acontecia, também era comum que os pais o ouvissem murmurar sozinho na escuridão.

Tudo começou muito cedo e o garoto já nem se lembrava da primeira vez que havia conversado com os mortos. Para ele, era como tomar café da manhã. Algo comum. Tão normal ao ponto de ser chato. Exatamente igual pão com manteiga. Achava de extremo desagrado ser acordado no meio da noite por alguma alma penada gritando por ajuda para ir ao Mais-Além ou o importunando com assuntos diversos, como a bolsa de valores. Ele só queria voltar a dormir, sem contar que tinha medo de ser escaldado pelos pais que não gostavam nem um pouco daquela história toda. Agora, aos onze anos, já fazia tempo que nenhuma pessoa morta lhe acordava no meio da noite.

À medida que foi crescendo, foi aprendendo a esconder aquele dom. Sempre que visitava o psicólogo, mentia habilmente sobre os seres que via. Afinal, ninguém acreditava nele, nem nunca acreditaria. Como acreditar que fantasmas e outros seres andavam pelo mundo dos vivos como se fossem gente? Felipe sabia que era verdade e havia apenas duas pessoas nas quais podia confiar seus segredos: Sonny, um vampiro que usava a abandonada casa da piscina para passar a noite — ou melhor, o dia — e Rubia, uma garota lobisomem que conheceu ao acaso na praia e que tinha a mesma idade que ele.

Aquilo fazia parte da sua vida como a casquinha fazia parte do sorvete. Andava na rua ignorando criaturas que ele sabia não serem humanas. Durante as aulas, nem precisava mais se esforçar para ignorar fantasmas, de tanto que estava acostumado. Aos poucos ia aprendendo a lidar com eles. Ele fazia o que podia, sempre limitado pela pouca experiência e por precisar esconder o segredo de todos a sua volta.

Era apenas mais uma noite quando acordou de repente, abriu os olhos e, pairando sobre ele, viu uma mulher. Ela era diferente das outras. Era esbranquiçada, quase transparente. Os traços do seu rosto eram disformes, como se pudesse se desfazer em fumaça a qualquer instante. Os cabelos e a roupa voavam em volta fazendo-a parecer mergulhada em água. Quando falou, sua voz veio tomada por amargura e abafada como se falasse do fundo de uma caverna.

— Por favor… — ela murmurou. Os lábios mal se moviam. — Por favor.

Felipe se ergueu da cama, afastando os cabelos loiros escuros rebeldes do rosto e se espreguiçando.

— Não faça um escândalo, não posso acordar meus pais — disse ele.

A mulher assentiu com a cabeça e se sentou, sem tirar os grandes olhos de cima dele. As roupas estavam rasgadas, o cabelo sujo de gravetos e folhas. O rosto com barro e hematomas. Felipe era apenas uma criança, mas sabia o que aqueles sinais indicavam. Não era tão ingênuo ao ponto de não reconhecer o fantasma de alguém assassinado quando via um.

— O que aconteceu com você? — Ele perguntou.

E então a primeira novidade em muito tempo aconteceu: a mulher agarrou o próprio pescoço, começou a flutuar no meio do quarto, debatendo as pernas com uma imitação de puro pavor e espanto. Parecia que estava se afogando. Ela fez aquilo por dois minutos e parou. E logo em seguida, recomeçou a encenar o afogamento.

Felipe esfregou os olhos de sono, sem se sentir muito impressionado com a cena. Apenas achou curioso, já que nunca tinha visto um fantasma fazer aquilo. Eles gritavam, choravam e dançavam, mas aquilo era novo. Sem saber o que fazer, decidiu perguntar a Sonny, o vampiro que morava na casa da piscina. Abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, pegou uma lanterna e iluminou seu caminho para descer as escadas da grande casa em que morava com os pais. Será que havia se enganado e a mulher apenas se afogou? Quem sabe ela apenas havia caído de algum barranco e por isso estava ferida.

Ponderando sobre isso, abriu silenciosamente a porta da sala de visitas que levava até a piscina nos fundos. Apagou a lanterna, já que o quintal estava iluminado por uma enorme lua cheia. Imaginou a amiga Rubia, que naquela hora deveria estar com a família, trancada na garagem, todos transformados em lobos gigantes. Imaginou também como o mundo mudaria caso aquilo fosse descoberto.

Andou rente à piscina coberta por uma lona e foi até a pequena casinha que ficava entre os dois muros do lado direito da casa. Não passava de um quarto com frigobar e banheiro, mas para Sonny era o lugar perfeito. Os pais de Felipe nunca tiveram o hábito de usar a casinha para nada, usando o local apenas como depósito. Depois que o vampiro os hipnotizara para ignorar a existência da casa de forma definitiva, havia se tornado o lar ideal para ele.

Felipe não se importava. Não era muito apegado aos pais e os via como pagadores de contas que ele precisava apenas evitar o suficiente para não ser chamado de louco nem filho do demônio. Estava sempre ouvindo as pregações dos pais sobre como ele agia de maneira estranha, sobre como os “amigos imaginários” podiam ser seres demoníacos e outros absurdos. Sonny os achava uma piada e era ele o único que estava lá para apoiar Felipe quando algo ruim acontecia.

Sem cerimônias, entrou no quarto escuro e acendeu a luz. Sonny estava deitado na cama, apoiado na cabeceira com um notebook sobre o colo. A luz do monitor iluminando seu rosto jovem, que portava grandes óculos de aro preto. O cabelo negro e liso raspado na lateral direita.

Assim que o viu, Sonny abriu um sorriso, deixando à mostra um par de caninos afiados dos quais Felipe não tinha medo algum. Ainda mais considerando o fato de que Sonny vestia um pijama de bolinhas azuis e pantufas de coelho.

— E aí, garoto — disse o vampiro, colocando o computador de lado e cruzando as pernas.

— Achei que você fosse estar na rua ou coisa assim.

Sonny balançou a cabeça e Felipe sentou na cama, olhando em volta. O quarto estava uma bagunça, com roupas espalhadas por tudo, controles e fios de video-games e CDs. Num canto afastado, o estimado contrabaixo de Sonny. Felipe acreditava que se seus pais entrassem ali, se surpreenderiam mais com a bagunça do que com o fato de que um vampiro dormia lá há cinco anos. E a bagunça só não era pior porque ele se alimentava de sangue, se não, o local estaria atulhado de louças sujas e restos de comida estragada.

— Estou com tédio demais para sair de casa — respondeu Sonny. — O que você precisa? São duas horas da madrugada.

Felipe pensou um pouco no assunto e lhe contou sobre a fantasma que estava em seu quarto, encenando um afogamento. E assim que terminou de contar a história, a mulher apareceu ali, bem na frente de Felipe, repetindo as mesmas palavras de antes: Por favor… por favor. Sua voz penetrando a mente do menino como uma agulha.

Sonny deu um olhar digno de pena à mulher quando ela agarrou a garganta, se afogando novamente.

— O que ela esta fazendo? — Perguntou o garoto. — E porque ela tem essa aparência de fantasma de filme clichê?

O vampiro deu uma pequena risada antes de voltar seu semblante sério para a mulher.

— Ela está repetindo as últimas coisas que fez em vida, e parece apagada desse jeito porque nenhum ceifador separou sua alma de seu corpo. Ela ainda está presa ao corpo dela, sofrendo de novo e de novo. Provavelmente consegue até mesmo sentir o próprio corpo apodrecer. É uma coisa horrível — completou.

O garoto olhou para a mulher e a chamou com a mão, desejando poder fazer alguma coisa para ajudá-la. Já havia visto muitos fantasmas sofrendo pela morte, mas nunca havia imaginado que podia existir algo tão horrível quanto viver a própria morte pela eternidade.

Felipe estava aprendendo bastante com Sonny. O vampiro o ensinara boa parte do que conhecia e ele já se encontrara com bruxas, zumbis e ceifadores, que sempre lhe ensinavam algo novo para que um dia pudesse se tornar um médium e ajudar os mortos a chegar ao Mais-Além. Ixtab era sua ceifadora preferida. Ela ceifava suicidas dentro da cidade e por isso tinha muito tempo livre. Felipe sabia que os ceifadores sempre encostavam na vítima logo antes da morte para que a alma fosse cortada do corpo com antecedência e não sentissem dor nem sofressem, facilitando o momento de ir ao Mais-Além. Nunca tinha nem ouvido falar de algo parecido com aquela mulher a sua frente.

— Por que não ceifaram ela antes de morrer? — Ele perguntou.

Sonny balançou a cabeça.

— Ela deve ter morrido em um acidente, onde a pessoa não estava agendada para morrer, ou foi assassinada e o corpo dela está muito bem escondido.

— Assassinada? Mas ela está se afogando.

— Existem várias formas de se matar uma pessoa, Felipe. Jogue um pouco de The Sims e vai aprender isso bem rápido.

Felipe lhe lançou um olhar de desdém. Sonny apenas sorriu.

— O que nos resta agora — disse o vampiro — é descobrir quem deveria ceifar essa mulher.

Sonny pegou o celular de cima do balcão e discou um número.

— Boa noite, Otto — ele disse. — Uma desgarrada achou o Felipe. Ta aqui em casa encenando a própria morte.

Felipe ficou aguardando a resposta. Pouco tempo depois, Sonny desligou o telefone.

— Tente descobrir o nome dela.

Felipe assentiu.

— Moça… moça, boa noite.

A mulher parou de murmurar “por favor” e o fitou nos olhos. Nunca tinha visto olhos tão tristes em toda vida.

— Qual é o seu nome?

— Meu nome? — A voz não era mais que um sussurro. — Eu tenho um nome?

— Tem sim.

Ela começou a pensar e por alguns instantes e o pesar parecia ter sido removido da face dela.

— É Juliana — ela disse — Juliana Rodrigues.

Sonny digitou o nome no celular e o enviou por mensagem. Levou apenas um minuto para que uma ave negra pousasse na pequena janela do quarto. O corvo bateu as asas algumas vezes, voando para dentro do aposento e se transformando em um homem de calças rasgadas e coturno surrado. O cabelo pintado de verde e uma tatuagem horrorosa no braço desnudo. O tronco coberto apenas por um colete jeans repleto de bottons.

Sonny suspirou.

— Tinha que ser você mesmo, Heitor.

— Cala a boca, Sonny — respondeu o ceifador, e, ignorando a presença de Felipe andou até a fantasma que olhava em volta assustada. — Finalmente encontrei você. Estou te procurando há três meses.

Caso ela tenha entendido, não esboçou nada no rosto para demonstrar isso. Apenas voltou a dizer “por favor” e se afogar novamente.

— Deixa o garoto falar com ela — disse Sonny. — Ele tem mais jeito pra isso do que você.

O ceifador olhou em volta, só agora reparando em Felipe.

— Quem é o moleque?

— Médium em treinamento — respondeu Sonny — com dez vezes mais tato que você para lidar com uma pessoa morta presa ao corpo. O que diabos aconteceu de qualquer forma?

Heitor balançou a cabeça.

— Não era pra ela ter morrido.. Outra garota seria morta naquela noite, mas ela se envolveu em um acidente de carro não planejado. Aí o assassino pegou essa aqui no lugar. Nunca mais encontramos ela, muito menos o homem que a matou.

— Vocês são uns inúteis.

— Pelos menos alguém trabalha no mundo espiritual, Sonny, ao contrário de você que fica jogando video-game e fingindo que tem uma vida.

— Pra mim isso não passa de inveja por não poder vadiar — disse o vampiro. — Mas já que você faz tanta questão, vamos achar o corpo da sua alma penada e o filho da mãe que a matou.

Felipe ficou encarregado de descobrir onde o corpo da mulher havia sido deixado. O problema era que ela não falava nada com nada, e sempre que o garoto tentava reconstruir seus últimos passos, ela se desesperava e voltava a se afogar. Até que teve uma ideia.

— Juliana — ele a chamou. A mulher voltou o olhar para ele, concentrada. — Você consegue ouvir alguma coisa?

— Ouço você falando — respondeu.

— Não aqui. Onde você foi morta . Consegue ouvir algo?

Ela fechou os olhos, colocando as mãos no ouvido em forma de concha. Então meneou a cabeça.

— Ouço o mar quebrando na praia.

Sonny e Heitor, até então entretidos em fazer caras feias um para o outro, se aproximaram, interessados.

— O que mais? — Perguntou Felipe.

— Hum… Ouço música. Música bem distante. Eu gostava de vir aqui.

— Aqui onde?

— Oras, aqui onde estamos. Na praia, onde fazem os luais.

Os três se entreolharam.

— Ela está na Praia Brava — disse Sonny.

Heitor imediatamente se transformou em um corvo, mas antes que pudesse sair pela janela, Sonny agarrou sua cauda, lhe arrancando um punhado de penas e um grito.

— O que você pensa que está fazendo? — Grasnou o corvo.

— Você espera encontrá-la sozinho? Se fosse fácil de achar, o corpo já teria sido encontrado. Felipe, coloca um calçado bem rápido e me encontre lá fora.

— Você não espera levar um moleque de dez anos com a gente.

— Onze e meio — corrigiu Felipe.

— Espero e vou, ele precisa aprender — Sonny emendou.

Felipe correu de volta para seu quarto, tentando subir as escadas o mais silenciosamente que podia. Colocou um tênis, um casaco e disparou para fora de casa.

Sonny, ainda em seu pijama de bolinhas, e um mal humorado Heitor o esperavam dentro do carro do vampiro. Dirigiram por vários minutos até chegarem na Praia Brava, estacionando o carro próximo ao bar onde aconteciam os luais. O lugar estava cheio e a música alta poderia ser ouvida pela vizinhança.

O mar quebrava na praia fazendo um estrondo e levando maresia até eles. Um pequeno grupo de pessoas se aventurava nas ondas e suas risadas chegavam até ali quando eram derrubados pela força da água.

— Tem que ser bem perto daqui — disse Heitor. — Ou ela não poderia ouvir o mar também.

Foram andando pela beira mar e adentraram a vizinhança. A fantasma os seguia, parecendo alheia ao que estava acontecendo. Até que entraram em uma rua escura e ela começou a chorar. Caiu de joelhos e voltou a apertar o pescoço e se afogar, como se reconhecesse o lugar em que estavam. Sonny começou a farejar o ar em volta com seu olfato aguçado. Foi andando até se aproximar de uma casa de veraneio. Uma daquelas casas grandes e vazias, cujos donos usavam apenas uma vez no ano para o natal ou férias.

Ele fez um esgar de nojo e prendeu o nariz.

— É aqui. Tem algo podre aí dentro, e é bem grande.

Heitor olhou em volta e deu um salto no ar, virando um pequeno besouro preto, que voou até o segundo andar da casa e entrou por um buraco em um dos vidros. Uma vez lá dentro, voltou à sua forma humana e em poucos segundos abriu a porta de entrada. Sonny colocou Felipe sobre os ombros e pulou o muro da casa com agilidade, entrando na casa com o nariz tampado.

Felipe inspirou fundo, mas não sentiu cheiro algum. O vampiro, reparando no gesto do garoto, o colocou de volta no chão e apontou o final do corredor, onde havia uma porta de madeira puída.

A casa não possuía nenhum móvel. Poeira fina e areia cobriam o chão e as bancadas. Heitor andou lentamente pelo corredor, Felipe vinha atrás roendo as unhas de medoJá havia feito amizade com vampiros e lobisomens, visto zumbis, fantasmas e até mesmo um boto cor-de-rosa, mas nunca tinha visto um defunto.

Sonny riu da expressão do garoto, arrancou um pedaço da cortina da sala e enrolou em volta do rosto de Felipe, lhe cobrindo o nariz.

— Tente não respirar muito lá dentro.

— Eu preciso mesmo fazer isso?

— Só se você quiser. Mas um dia você vai lidar com coisas piores do que corpos sem vida, e espero que esteja preparado para isso quando acontecer. Não é nada demais. É só o resto que fica para trás.

Felipe assentiu. Heitor abriu a porta e foi então que pode sentir o cheiro. Era horrível. O odor invadiu suas narinas, lhe dando uma imediata ânsia de vômito. Se afastou o máximo que pode, optando por observar a cena de longe.

A porta dava para um banheiro espaçoso. Só conseguia ver a água imunda que havia escorrido da banheira, completamente suja de manchas secas e escurecidas de sangue. Ao lado dela, um homem morto estava sentado sobre o vaso. Os braços encharcados de sangue coagulado, com uma poça ressequida em volta de seus pés.

Juliana, a fantasma da garota morta, estava do lado de Felipe. Tapando a boca, igual a ele. Olhava para a cena com horror, começando a chorar. Lá dentro do banheiro, Heitor enfiou a mão na banheira. Assim que o fez, Juliana soltou um suspiro aliviado. Sua cor mudou, ficando mais vívida e menos transparente.

Felipe observou sua mudança com alívio, sabendo que a garota estava finalmente livre e que não precisaria mais sofrerOs hematomas desapareceram, o cabelo ficou novamente liso e as olheiras clarearam.

Já tinha visto espíritos indo ao Mais-Além várias vezes, mas sempre achava incrível. A carona sempre vinha em algum veículo que tinha algum significado para a pessoa morta. Quando acontecia, parava para assistir e aproveitar aqueles poucos momentos de paz que a cena proporcionava. Nestas ocasiões sempre se pegava imaginando qual seria a sua própria carona ao Mais-Além quando morresse. Talvez um fusca, ou pedalinho, ou quem sabe uma bicicleta.

A carona de Juliana era uma série de carrinhos de montanha-russa. Estava parado do outro lado da porta, com o trilho acendendo aos céus em frente. Logo no primeiro assento, um homem de cartola rosa e gravata borboleta sorria para ela.

A garota abriu um sorriso enorme e suas roupas ficaram limpas de repente. O restante das marcas e sujeira desapareceram, mostrando uma pessoa completamente diferente daquela que havia conhecido horas atrásO corpo na banheira não importava mais, e ela se ergueu do chão de cabeça erguida, sentando-se ao lado do condutor. Antes de partirem para aquele lugar que ninguém sabia ao certo o que era, ela se virou para Felipe.

— Obrigada.

E partiu. A montanha-russa disparou pelo céu e pelo além, até desaparecer de vista. Eram momentos como aquele que lhe convenciam de que tudo valia a pena. Que não havia importância na forma como era tratado pelos pais ou colegas de escola: um anormal. Pois sabia que se dedicando de verdade àquilo, poderia ajudar pessoas como Juliana. Percebia agora que Sonny não o levara ali para ver morte e corpos, e sim para que se habituasse à rotina de um médium e visse como podia ser importante. Se encheu de otimismo e chegou a esquecer tudo o que tinha acontecido até ali. Foi para fora da casa e entrou no carro de Sonny, esperando ele e Heitor voltarem.

Enquanto esperava, lembrou-se da súplica que Juliana ficava repetindo. “Por favor”. Era horrível pensar que aquelas foram as últimas palavras que ela havia dito e as circunstâncias em que o tinha feito.

Contou isso para Sonny mais tarde naquela noite ao que ele lhe respondeu que não. Aquelas não haviam sido as últimas palavras dela. “Obrigada”. Essa sim havia sido sua última palavra. Não sabia se ele estava apenas sendo bonzinho ou se tinha razão. Era engraçado pensar em como os seres que conhecia podiam ser mais inofensivos que muitos humanos. De qualquer maneira, acreditou em Sonny.

E acreditou que tinha feito algo bom.

Mary C. Muller
Mary C. Muller
Mary é uma garota estranha que gosta de coisas esquisitas e nunca tentou comer aipo. Gosta de gatos e costuma entender a gramática felina com mais facilidade do que o esperado. Autora de um livro infantil chamado “Eu queria ser um dinossauro”, também já ilustrou o trabalho de outros autores. Seus contos “102A” e “O que os gatos dizem” serão publicados em breve em coletâneas. É designer gráfica especializada em projetos editoriais e mora em Belo Horizonte com seu marido e uma gata caolha que ouve hip hop.

Gostou desse conteúdo? Seja nosso padrinho ou madrinha e nos ajude a trazer mais autores e autoras na Trasgo! Com a partir de um real por mês você colabora com a revista e tem acesso a cursos, promoções e mais!

padrim-site Clique no banner ou acesse padrim.com.br/trasgo

4 comentários

  1. Marc / 16 de novembro de 2014 at 14:27 / Responder

    Boa tarde sou de Brasília-DF

    Me interesso muito por cosias estranhas, discos voadores, fantasmas…etc.

    Esse conto: ESTIVE ASSOMBRANDO SEUS SONHOS é real ou uma história fictícia ? Achei muito interessante.

    Obrigado.

  2. Gabi / 29 de agosto de 2015 at 22:24 / Responder

    Amei esse conto que vem do universo de Desmortos! Conhecer Felipe como uma criança foi incrível! Sem dizer que esse conto traz outras coisa que o livro Desmortos não traz. Simplesmente perfeito!

    • Mary / 30 de agosto de 2015 at 12:41 / Responder

      Oi Gabi!! Eu tenho mais alguns planos de contos da infância dos outros personagens tbm =)

      Que bom que gostou desse! Abraços!!!

  3. Kethlen / 25 de outubro de 2015 at 02:35 / Responder

    Mary,
    Gostei muito do conto, sou uma leitora nova no universo de Desmortos e das suas obras que eu já li até agora essa é uma das melhores. Você já pensou em escrever sobre outros personagens como a Ruby ? eu adoraria ler.
    Um Abraço.

Comente

Antes de enviar um comentário, por favor leia os Termos de Uso.