Feita de um Sonho

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Não conseguia me lembrar o porquê de estar no meio daquela multidão. Tinha a estranha sensação de que não deveria ir para onde todos estavam indo, mas a multidão me empurrava. De alguma forma, eu tinha a vaga consciência de estar sonhando, o que explicava a iluminação pálida e os rostos indefinidos. A sensação de dejá-vu trazia consigo um pressentimento ruim. Como se eu fosse morrer no final do sonho.

Dizem que ninguém sonha com a própria morte. Mas também que nunca sabemos quando estamos sonhando.

A lucidez parecia me golpear, rindo de mim. Eu podia senti-la diante de mim, oferecendo a resposta do enigma, mas ela habitava uma parte de minha mente que, naquele momento, estava completamente inacessível.

Estávamos perto agora. A aglomeração tinha empacado em algum lugar à frente, que eu não conseguia enxergar. O instinto de recuar era ainda mais forte, mas não havia como enfrentar os milhares — talvez milhões — de corpos ao redor.

A tensão aumentou. Meu coração parecia bater apenas três vezes por minuto. A curiosidade vencia o medo, afinal, e ao invés de lutar contra a multidão, eu avançava lentamente com ela.

Ouvi meu nome. Vinha de algum lugar distante, indeterminado. Só então notei como a multidão estava silenciosa. A única coisa que eu ouvia era a voz me chamando.

Senti-me como se estivesse me afogando no próprio ar.

—Roberta! Roberta!

Sentei-me assustada. Meu corpo estava encharcado de suor. Pingava água de meu rosto. Água demais.

—Roberta? —repetia minha irmã. Localizei um copo vazio em suas mãos, e entendi porque estava tão molhada.

—Estou bem, Suzana. Foi o mesmo sonho… de novo. Da próxima vez me molhe menos, certo? – reclamei, tentando mudar de assunto.

—Você estava… — Ela interrompeu a frase, parecendo não saber como continuar. Estava assustada. Eu também tremia. Mas precisava acalmá-la.

—Não se preocupe, Suzana. É só um sonho — assegurei, abraçando-a. Ela parecia uma criança em meus braços, embora já tivesse quase dezesseis anos. Seu corpo magro e pequeno se encaixava no meu perfeitamente. — Só um sonho.

—Você tem esse pesadelo há meses — ela murmurou — Desde que… Nos mudamos para cá.

Desde que a mamãe morreu, ela queria dizer. Eu sabia.

Eu não conhecia meu pai. Suzana tinha sido adotada ainda bebê quando eu estava com quatro anos. Vivemos toda a vida somente com nossa mãe. Ela era uma mulher misteriosa, cheia de segredos, que nunca quis nos dizer muito nem sobre meu pai nem sobre os pais biológicos de Suzana, mas gentil e incansavelmente dedicada a nós. Estava morta há três meses. Acidente de moto. Quando Suzana e eu percebemos que ela estava demorando demais para chegar do trabalho, passamos horas ligando no celular dela, sem resultado. Já era tarde da noite quando a polícia bateu na nossa porta.

Eu tinha acabado de completar dezenove anos e estava ganhando uma mixaria trabalhando de atendente em uma livraria. Suzana, com quinze, nem trabalhava ainda. O apartamento era alugado e não podíamos mantê-lo. Tirei a maior parte do dinheiro que tinha na poupança e aluguei este outro, bem menor, mais barato e em um bairro mais afastado. Suzana tinha arrumado um bico aos finais de semana em festas infantis. Mas estava difícil, muito difícil, nos adaptarmos à nova situação.

Eu não sabia exatamente o que o pesadelo significava. Tive-o pela primeira vez no dia seguinte à morte de minha mãe. Mas, que eu me lembre, nas primeiras vezes tinha sido só a parte da multidão sufocante. Depois, não sei exatamente quando, começou aquela sensação estranha de que deveria ir a algum lugar, de que tinha alguém ou algo me esperando no destino para onde a multidão se dirigia. Eu tinha medo de encontrá-lo, o que quer que fosse. Um medo alucinante. Mas havia uma parte de mim que queria ir, queria desvendar o mistério. Essa parte parecia estar ficando mais forte ultimamente.

—Você está bem, Roberta?

Forcei um sorriso.

—É claro, Su. Que horas são? Já estou atrasada?

—Seis da manhã. Tenta dormir mais um pouco.

Ah, não, muito obrigada. Eu não estava querendo dormir nem um pouquinho mais do que o necessário ultimamente. É claro que não disse isso.

—Melhor me levantar já. Tenho a entrevista na Jake’s, esqueceu?

—Não é às dez?

Droga. Ela lembrava.

—É. E você esqueceu que eu preciso de três horas para ir a qualquer lugar?

—Engraçado, desde quando? Você costumava acordar meia hora antes de ir para a livraria.

—Isso era antes. Agora eu acordo cedo e marco entrevistas de emprego em lugares que pagam melhor.

—Você odeia a Jake’s. Diz que é uma revista de moda babaca.

—É uma revista de moda babaca. Mas eu fiz um curso de fotografia ano passado e sou útil pra eles, e a grana deles é útil pra mim. Então não enche. — Acrescentei, quando ela abriu a boca para revidar — Você não vai pra escola, não?

—Eu podia fazer isso daqui uma hora. Ou mais… Mas você não vai me deixar dormir mesmo.

Fui para o chuveiro primeiro, enquanto Suzana continuava resmungando alguma coisa em tom de provocação.

Esses pesadelos estavam me incomodando. E eu não conseguia parar de pensar neles. Talvez estivesse enlouquecendo. Se eu tivesse grana pra isso, poderia até pensar em engolir o orgulho e ir falar com um psicólogo. Mas como não tinha, a decisão de não ir ficava muito mais fácil.

Quem sabe os pesadelos parassem quando eu… Descobrisse o que quer que havia a descobrir. Quando finalmente chegasse ao final do sonho e descobrisse o que estava me esperando.

Essa ideia era assustadora, e afugentei-a pensando nas respostas que daria à entrevistadora mais tarde. Era um tipo de estresse bem mais confortável.

—Vai ficar aí pra sempre, Roberta?

—Achei que não estivesse com pressa.

—Não estava com pressa de levantar – corrigiu ela. — Agora que já fiz isso…

—Tá bem, tá bem! — Exclamei, enrolando o corpo na toalha para abrir a porta. — Você é muito chata, sabia? — Falei, em tom brincalhão, dando um tapa de leve em seu braço.

—Vou me lembrar disso antes de fazer café pra você de novo. — Retrucou ela, devolvendo o tapa com um pouco mais de força.

Ergui as sobrancelhas com surpresa exagerada.

—Obrigada. Talvez você esteja legal hoje.

Abracei-a para desfazer o olhar de irritação em seu rosto. Não sem esforço, ergui-a alguns centímetros acima do chão.

—Me larga, Roberta! – Ela protestou imediatamente.

Soltei-a, e arrumei a tolha que estava caindo.

—Vá se vestir!

—Obrigada pelo café! Não queimou o pão, não, né?

—Argh! – Grunhiu, batendo a porta do banheiro.

As torradas estavam realmente boas. Molhei-as no café forte pingado com leite, e ainda estava comendo quando Suzana saiu do banheiro.

Lavei a louça enquanto ela se arrumava.

—Boa sorte na entrevista, maninha! Vou indo.

—Obrigada. Vou precisar mesmo. Boa sorte com a cola de química.

—Quem disse que eu colo?

Eu ri, dando uma piscadela cúmplice.

—Deve ser um mal de família.

—Até mais tarde, sua trapaceira. — Disse Suzana, balançando a cabeça com ar de desdém.

—Até mais. Da próxima vez que me vir, estarei trabalhando na revista Jake’s.

—Até parece que vão te dar uma resposta hoje. — Gritou ela da porta.

—Quem pode dizer não pra mim? — Gritei em resposta.

Ah! Era tão fácil viver às vezes. Não fossem os sonhos, talvez eu já estivesse até me adaptando bem.


—Cadela metida de uma figa! Acredita que ela olhou feio pro meu jeans?

—Roberta! Você foi de jeans? — Fiz uma careta com o tom chocado de Suzana, e agradeci por estar falando ao celular e não precisar ver seu rosto.

—É claro! Eu só tenho uma calça social, que, aliás, nunca usei. Não seria eu se eu fosse com ela.

—Trabalhar na Jake’s já não é muito você. Devia incorporar o personagem direito.

—Ah, por favor, Suzana. Já estou irritada o suficiente. Não vem me cobrar nada.

—Não to cobrando. Sei que você gosta da livraria, e acho que devia ficar lá; a gente se vira com a grana. Mas já que foi fazer uma entrevista na Jake’s, podia…

—Tá, já entendi. — Cortei.

—Vou à casa da Julia fazer um trabalho. Chego em casa no final da tarde. Tá indo pra lá?

—Não. Vou andar um pouco pra esfriar a cabeça, aproveitar a folga. E só pra você saber, não acredito nessa história de trabalho.

Desliguei o telefone e comecei a avaliar minhas opções de distração. Eu estava me tornando muito antissocial. Fazer o que, quando de repente se tem que sustentar uma casa e a irmã menor?

Deixei escapar um sorriso quando percebi para onde estava indo: o cinema. Uma de minhas poucas diversões. Conferi os bolsos. É, podia pagar uma entrada.

Olhei os cartazes na entrada.

—Qual filme vai querer, moça? – Perguntou-me uma funcionária.

– Hum… Estradas cruzadas… É de suspense?

—Um pouco puxado pro terror. É mais um thriller psicológico. A sessão começa em sete minutos.

—Ok. Uma inteira, por favor. — Pedi, estendendo-lhe o valor do ingresso.

—Bom filme.

Acomodei-me em uma das cadeiras mais ao fundo, de onde a visão era melhor. A sala estava quase vazia. A tela já mostrava aqueles vídeos chatos sobre desligar celulares e verificar a localização dos extintores de incêndio. Ao me aconchegar naquela confortável poltrona no escuro, percebi que estava extremamente cansada. Tomara que o filme seja bom, pensei.

O filme começou mostrando uma estrada deserta, onde um homem velho caminhava tropegamente. Rugidos de uma fera o seguiam, e ficavam cada vez mais altos. O velho se jogou no chão quando um monstro enorme de pelos negros saltou para ele.

Então houve um disparo. Vários metros à frente, um rapaz segurava uma arma. O monstro rosnou quando a bala o atingiu no braço, mas não estava seriamente ferido. Abandonou o velho por hora, e correu para o mais jovem.

E a estrada já tinha se transformado, de modo súbito e imperceptível, em um grande espaço aberto. Havia tantas, tantas pessoas que eu não conseguia olhar em volta. Elas me apertavam e me empurravam para frente, e eu tentava me desvencilhar do aglomerado, até tomar consciência de que estava sonhando. Meu sonho. Meu pesadelo.

De algum modo, eu sabia que a voz de Suzana dessa vez não me traria de volta quando eu chegasse ao clímax. E então, sem chegar a tomar conscientemente a resolução, mas percebendo-a, eu decidi que estava na hora de pôr um fim àquilo. Eu não ia fugir. Eu ia descobrir o que me esperava.

Por isso não estava mais indo na direção contrária, nem mesmo apenas seguindo o fluxo. Eu estava empurrando as pessoas para ir mais rápido, desvencilhando-me não para fugir, mas para avançar. Eu queria chegar ao destino. Sabia que havia um, que o sentido daquele pesadelo não era apenas a caminhada sufocante. O verdadeiro terror estava mais à frente, em algum lugar muito próximo.

Avancei. Passo a passo, muito mais lentamente do que desejava. Agora eu queria correr. Apressei o ritmo, e, de alguma forma, as pessoas ao redor pareciam menos nítidas. Mais fáceis de ignorar.

O pior não era a permanência daquela sensação de morte próxima. Era ansiedade para caminhar de encontro a ela. Alguma coisa estava muito errada. Ainda mais errada do que de costume.

Eu tinha de estar chegando. Tinha andado tempo demais. Mas de que cada passo me aproximava? Talvez…

—Ai!

O chão tinha escapado, tudo tinha desaparecido. Eu estava caindo, caindo, caindo… Por um momento pensei que o sonho tivesse mudado, ou que eu estivesse acordando, então entendi que a multidão ainda estava acima de mim, que eram seus passos o barulho ritmado que vinha de todos os lados… Eu tinha caído num buraco, mas não via buraco algum, luz alguma, só a queda sem fim. O próprio ar me espremia por todos os lados, sufocando-me.

A aterrissagem foi tão súbita quanto a queda. Sem impacto, sem som. Em um instante eu estava caindo, e no outro meus pés estavam pousados em um solo duro. Eu não podia enxergar direito, mas sabia que havia alguém ali.

—Não precisa ter medo.

O que me congelou no lugar não foi o tom, que era gentil. Não foram as palavras. Foi a voz. A voz que pôs lágrimas nos meus olhos.

—Mãe — murmurei.

É apenas um sonho, lembre-se, disse para mim mesma. Mas aquele sonho era tão real…

—Roberta… — Seus braços envolvendo o meu corpo pareciam bastante sólidos, bastante firmes. Não eram a névoa de um fantasma.

Eu precisava fazer esforço para me lembrar de que não era real.

—Roberta… Isso existe! Este lugar onde estamos é real. Em algum plano diferente, em outra dimensão… Mas é real!

—Estou sonhando, mãe… Estou sonhando e você está… Está…

—Estou morta. — Ela completou minha frase prontamente — É verdade. Mas não completamente. Consegui vir pra cá… a tempo. Antes que minha alma partisse. Eu só tive que tomar cuidado para não acordar, não enquanto ainda podia. Agora não posso mais.

Desvencilhei-me de seu abraço, assustada. Era uma ilusão. Eu estava dormindo. Mas minha mãe estava diante de mim, seu corpo parecia tão sólido e real…

—Não acorde agora, filha! Por favor. Fique aqui. Tenho algo a lhe contar.

—Estou ouvindo. — Disse, sentindo a voz vacilar. Eu queria acreditar. Era esse o problema.

—Abra bem os olhos, Roberta. Você sequer está me vendo. Olhe em volta.

Relutantemente, fiz o que ela disse. Embora estivesse escuro, eu podia ver. Estávamos em um átrio grande, vazio. Não parecia exatamente uma caverna, mas uma construção humana. Olhei para o teto distante com atenção. Não havia buraco algum por onde eu pudesse ter caído.

—Como vim parar aqui?

—Isso é um sonho, Roberta. Tudo pode acontecer. Está na sua mente. É… um plano diferente. Não importa quantas pessoas mais estejam aqui, você pode fazer o que quiser. Você consegue subir lá em cima de novo, se quiser com força o bastante.

—Eu não quis vir pra cá.

—Foi inconsciente, Roberta. Você só estava pensando… em mim. E eu ajudei-a a chegar aqui. Ajudei-a a sonhar no mesmo plano que eu sonho. Roberta, filha, acredite!

—Como? Isso é um sonho… quando eu acordar terá acabado. Será mentira.

—Não! Não é uma mentira… é uma realidade diferente.

—Quem eram aquelas pessoas? – perguntei.

—Que pessoas, Roberta?

—As que eu sempre vi antes de chegar aqui. Milhares delas caminhando na mesma direção. Parecia que todas elas iam ao mesmo lugar. A um lugar para onde eu não queria ir.

—É o seu sonho, Roberta. Vai ser tão confuso quanto estiverem seus pensamentos. Se seus pensamentos são de medo, eles podem formar uma multidão para te conter. A mente é muito poderosa, filha, é difícil explicar como ela funciona.

Eu estava tremendo. Queria acordar, quase tanto quanto queria acreditar.

—Apenas acredite. — Pediu minha mãe, com as mãos nos meus ombros.

“Você está morta! Eu vi o seu corpo!” Eu queria gritar. Por um breve segundo vislumbrei uma motocicleta retorcida e um corpo ensanguentado caído ao seu lado, mas afastei o pensamento e a imagem desapareceu.

—Roberta… Eu aprendi a controlar meus sonhos. Aprendi a vir para esse lugar. Conheci pessoas, fiz coisas… Descobri que os dois mundos não são desvencilhados. Você é a prova disso. Por isso chamei apenas você, e não Suzana. É muito mais fácil para você. Você é parte deste mundo, ainda mais do que eu. Você pertence a ele.

—Não! Não. — Balbuciei, sacudindo a cabeça em negação. — Por quê?

Ergui os olhos para enfrentar o rosto da mulher à minha frente, que era minha mãe, que estava morta, que estava ali. Seus olhos estavam assustados também, mas não de surpresa como os meus. Tinham medo do que ela ia me dizer.

—Suzana é adotada, Roberta. Você não. Você é minha filha, sabe disso. Só que… Seu pai…

—Por que está me falando disso agora? Quem ele é?

—Roberta… Vou apresentá-lo a você. Se quiser.

Não gostei de seu tom. Não gostei do modo como ela me olhava. Então entendi, embora não pudesse acreditar na teoria que se formava em minha mente.

—Aqui? Ele está aqui? Eu fui concebida… em um sonho?! Não! Está brincando. Isso não é real!

—Eu não acreditei quando percebi que estava grávida, Roberta, não acreditei. Fui ao médico, fiz todos os testes. Você era saudável. Normal.

Ela estava chorando, e percebi então que meus olhos estavam úmidos. Não sabia se queria gritar ou abraçá-la.

—Eu… Vou acordar, não vou?

—Vai, é claro que sim. Nem sei se conseguiria ficar aqui caso quisesse. E a Suzana… Ela precisa de você, Roberta. Mas você pode aprender a controlar seus sonhos. Pode controlar este sonho.

—Como?

—Vai descobrir sozinha. — Um leve sorriso esboçou-se em seu rosto.

Eu não sabia se acreditava. Talvez estivesse enlouquecendo.

—Venha comigo. Venha ver seu pai.

Balancei a cabeça negativamente.

—Não to pronta. Não to pronta. Eu… Não acredito.

—Talvez consiga acreditar quando falar com ele. Roberta, ele está… Vivo. Você poderá encontrá-lo depois. Acordada.

—Então por que não me apresentou ele antes? Por que não se casaram no mundo real?

Ela suspirou.

—Não tenho como explicar. Simplesmente não parecia certo. Não seria a mesma coisa. E, além disso, Roberta… Eu disse que seu pai está vivo. Mas ele está quase sempre aqui. Não pode evitar.

Não perguntei. Esperei que minha mãe continuasse.

—Tiago está em coma, Roberta. Em um hospital no Paraná. Às vezes sua mente está em seu corpo, ele percebe o que há em sua volta, mas não consegue se comunicar. Não consegue acordar de verdade.

Deixei que as lágrimas escorressem livremente. Não conseguia mais contê-las. Era demais para mim.

—Filha… Ele tem os seus olhos.

Ficamos em silêncio por alguns instantes que pareciam sem fim. Corri os olhos ao redor para desviá-los dos de minha mãe. Podia ver o cômodo com mais nitidez. Ele já não parecia tão sombrio. Na verdade, estava iluminado e claro, e havia até mesmo flores espalhadas pelo chão. Rosas, meu tipo favorito.

—Está bem. Leve-me até ele. — Murmurei.

—Tiago está vindo para cá. Ali. Tiago…

Um homem extremamente magro estava de pé a cerca de dez metros de nós. Seus cabelos estavam cortados bem curtos, mas eram bonitos. Loiros. Seu olhar grudou-se ao meu com uma intensidade atordoante.

Senti um aperto no braço quando dei um passo em sua direção. Olhei para minha mãe. Ela não me tocava. Sorria encorajadoramente.

Eu estava nervosa, e a iluminação do ambiente tinha mudado de novo. Aquilo me deixava louca.

Não havia nada encostando no meu braço, mas eu sentia que ele estava sendo sacudido. Minha consciência foi escapando de mim, e eu sabia que ela estava indo para onde deveria estar. Lembrei-me vagamente de onde meu corpo estava de verdade.

—Não consigo ficar. — Murmurei para minha mãe. O ambiente estava se desvanecendo e eu não tinha forças para fazê-lo solidificar-se novamente.

—Vá. — Ela disse, abraçando-me gentilmente. — Sei que vai conseguir voltar quando quiser. Estarei sempre esperando.

Apertei seu corpo junto ao meu por um momento, senti seu calor e seu cheiro, e então eu estava sentada em uma poltrona macia, sendo sacudida por uma jovem de uniforme.

—Moça? A sessão já acabou há alguns minutos. Desculpe, precisa ir embora.

Levantei-me devagar, sentindo meu corpo. Meus pés estavam dormentes, mas eu estava completamente desperta. Parecia que os braços de minha mãe ainda envolviam meu corpo. Apenas minha imaginação.

—Estou indo.

Caroline Policarpo Veloso
Caroline Policarpo Veloso
Caroline Policarpo Veloso publicou o livro de poemas Palavras Andarilhas (Editora Penalux) no início de 2015. Gosta muito de relógios, mapas e calendários, embora relute em confiar neles. Participou de algumas coletâneas, entre elas Poderes (Darda), King Edgar Hotel, Utopia, Sonhos Lúcidos e Ponto Reverso (Andross). Já publicou na Trasgo, na edição número 3. Não é verdade que tenha um dragão imaginário de estimação.

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5 comentários

  1. Lucas Prado / 14 de junho de 2014 at 19:12 / Responder

    Carol, que conto incrível, vai ter algum tipo de sequência ? Eu me perdi nas palavras, a tempos isso não acontecia comigo. Foi uma leitura tão deliciosa. Parabéns !

    • Caroline Policarpo / 15 de junho de 2014 at 10:06 / Responder

      Oi, Lucas! Não pensei em fazer continuação, é só isso mesmo, gosto de finais mais abertos. Obrigada!!

  2. Bianca Santos / 1 de julho de 2014 at 07:23 / Responder

    Carol, amei!
    Vc escreve cada dia melhor!
    Sucesso e inspiração, saudades, beijão!

    • Caroline Policarpo / 13 de julho de 2014 at 16:23 / Responder

      Oi Bianca! Haha, obrigada! :) Saudades tbm. Bjs!!!

  3. Rogério Calsavara / 21 de janeiro de 2017 at 10:16 / Responder

    Saudações Caroline!

    Nem sei como descrever os sentimentos que o seu conto me despertou, mas posso afirmar com certeza que me tocou de uma forma que poucas vezes senti. Muito obrigado!

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