Hamlet: Weird Pop

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Não era costume que ficasse ali até tarde, mas era um dia melancólico e ela gostaria de ficar sozinha por algum tempo. O palco estava vazio, assim como as cadeiras e os corredores. Havia uma mistura de calma e nervosismo naquele momento, como se cada centímetro de espaço lhe afirmasse que as coisas poderiam desmoronar a qualquer segundo. As coisas desmoronam, o centro não consegue aguentar, os versos de Yeats bateram em sua cabeça, um pequeno aviso acerca da fragilidade dos planos. Era a primeira vez em que montava uma peça de Shakespeare e a diretora mais jovem — 21 anos — a comandar uma apresentação no Queen’s Opera Theatre.

O teatro era enorme, com capacidade para quatrocentas pessoas, o espaço cultural mais importante da cidade que abrigava uma das companhias de teatro mais famosas do país, responsável por uma montagem de “Arcadia” que recebeu elogios do próprio Tom Stoppard. Também era o lugar em que o pai dela ficara famoso por dirigir Hedda Gabler. Seu pai, que gastou mais tempo ao lado de pessoas fictícias do que com a família. Paizinho, eu tive de matar-te, Morreste antes que eu tivesse tempo. Ali estava a chance de matá-lo no único campo onde ainda poderia fazê-lo, no único pedaço onde faria diferença para o velho.

Viola respirou fundo e deixou que seu olhar fosse de um lado para o outro, a decoração com suas flores multicoloridas e as ornamentações que transformariam aquele espaço na sua versão hipster e anacrônica da Dinamarca. Tinha como objetivo fazer com que adolescentes e jovens da sua idade se interessassem pelo trabalho do bardo, não da forma pesada e cheia de pompa e circunstância da adaptação de Kenneth Branagh ou da gravidade com que Olivier entregava os seus monólogos. Não. Seu Hamlet seria diferente, um reflexo da sua geração desiludida e melancólica. Um Hamlet de flanela e All Star que hesita antes de respirar. Não havia nenhuma outra história que capturasse o século XXI daquela forma, pensou, todas as dúvidas, falta de perspectiva e a incapacidade de tomar uma ação decisiva na hora certa. Um mundo sem a força de Fortinbrás ou a sabedoria de Horácio.

— Viola Wright?

O som de seu nome roubou o devaneio e ela se virou para observar o visitante, uma ação da qual se arrependeu no próximo segundo. Havia ali uma criaturinha de baixa estatura e orelhas pontudas, seu nariz era pequeno e um pequeno par de chifres despontava na cabeça, os pés descalços estavam sujos de lama. Poderia ser facilmente confundido com uma criança não fossem as suas características particulares e a roupa feita de folhas verdes com um suspensório vermelho.

— Quem é você? — Disse ela controlando a vontade de perguntar o quê. Ponderou se estava começando a enlouquecer por causa de todo o stress. Seu visitante fez uma mesura antes de responder:

— Meu nome é Puck, represento a Oberon & Titânia Advocacia Sobrenatural e eu estou aqui a serviço do Sr. William Shakespeare. Ele gostaria que a senhorita cessasse e desistisse do uso de sua peça sem a devida autorização.

A criatura enfiou a mão dentro de sua roupa e tirou um pergaminho enrolado que entregou à Viola, que o tomou em mãos ainda sem saber se fugiria dali pela situação em si ou pela natureza do pedido. Uma parte do seu cérebro não conseguia afastar o pensamento de que aquilo era o início de um caso de esquizofrenia, havia, inclusive, um caso desses na família, um primo distante. O que seria de uma ironia tremenda, passar por um surto alucinatório justamente quando trabalhava numa peça acerca de um príncipe que se finge de louco. Viola abriu o pergaminho e leu as linhas com cuidado.

Livra-te, meu caro amigo, por amor de Jesus, De remexer na poeira encerrada aqui, Bendito seja o que evitar estas pedras, E maldito o que incomodar os meus ossos

Ela reconheceu as linhas imediatamente, era a maldição que estava gravada sobre o túmulo de William Shakespeare em Stratford-upon-Avon que impedia até mesmo reformas na lápide. Era uma maldição muito famosa entre os adeptos da bardolatria e fazia com que milhares de pessoas peregrinassem até a Igreja da Santíssima Trindade para ver de perto o túmulo e a mencionada ameaça.

A jovem olhou de volta para Puck e deu a única resposta em que conseguia pensar:

— Eu não entendo. Isso se refere aos ossos de Shakespeare, o que isso tem a ver com a minha peça?

O duende coçou a cabeça e disse:

— Shakespeare. O homem adora escrever bonito, o que é um problema, legalmente falando, abre precedentes para um monte de coisas, mas o fato é: Ossos, nesse caso, se referem ao trabalho artístico e intelectual do mencionado. Assim sendo, ele decide usar dos seus direitos de defunto autor e autor defunto para impedir a estreia de Hamlet: Weird Pop.

Aí já era demais! Aquela apresentação era sua oportunidade de mostrar aos críticos e ao público que não era um caso de One Hit Wonder e que o seu sucesso precoce era fruto de seu próprio trabalho e apuro. Gostaria de mostrar que era tão boa quanto o seu pai e a melhor diretora a surgir em anos, nem mesmo William Shakespeare ficaria no seu caminho. Viola rasgou o pergaminho em mil pedaços e atirou-os contra o rosto de Puck. Mesmo que estivesse no meio de um episódio psicótico, Viola era o tipo de pessoa que brigaria contra a alucinação até que a mesma admitisse estar errada. Esfregou as palmas das mãos uma na outra, como fazia quando ficava nervosa, e retorquiu:

— Ele não pode fazer isso, ele está morto há quatrocentos anos… Se isso não é domínio público, eu não sei o que é. Com que base vocês estão fechando a minha apresentação?

Puck levantou os ombros.

— Novas leis no meio editorial do Além — foi sua resposta. — O período de copyright passa a ser de oitocentos anos a partir de agora. Eu sei que é uma coisa difícil de aceitar, mas você deveria se considerar feliz de o Sr. Shakespeare não levar o caso até a corte. Jane Austen conseguiu uma execução por raio contra o homem que cometeu “Orgulho, Preconceito & Vampiros Adolescentes”.

Viola sentou-se num dos assentos e colocou as mãos na cabeça:

— Eu não posso simplesmente cancelar a apresentação, está tudo preparado. A cidade inteira vai estar aqui, todo o jet-set e as pessoas importantes. Por que Shakespeare não gostaria que eu montasse a peça? Ele não deveria estar feliz de uma nova geração gostar do trabalho dele?

Puck virou as costas e observou o palco. Ele parecia calmo e pouco indicava o Puck que ela ouvia nas histórias, o duende travesso e sorridente. Estava diante de uma criatura que mais lembrava um burocrático Bartleby, sério e de fala mansa.

— O Sr. Shakespeare alega que as intervenções não eram do seu agrado. Ele não gostou do fato de Hamlet usar uma camisa do Simple Plan durante a peça e não endossa a utilização de uma trilha sonora do Tokio Hotel durante o solilóquio mais famoso.

Viola levantou-se num salto, determinada até a última fibra a lutar pela chance de montar a sua versão de Hamlet. Seu instinto e sua tenacidade haviam lhe carregado até ali, só precisava manter aquelas qualidades por mais algum tempo, até que tudo houvesse passado. Hamlet seria apresentado ao povo da cidade, mesmo que algum juiz sobrenatural sancionasse um raio sobre a sua cabeça.

— Eu preciso conversar com a MINHA geração, Puck! Pense da seguinte forma, milhares de jovens odeiam o Sr. Shakespeare porque professores e críticos colocam o cara lá em cima nas nuvens. Sabe o que vai acontecer se vocês me impedirem de montar Hamlet nesse palco? Vocês estarão destruindo um sonho, o meu e de todos os atores que se dedicaram durante horas para isso, mas acima de tudo, estarão jogando uma pá de terra na literatura. Harold Bloom e os acadêmicos irão morrer um dia, novas pessoas precisam ser atraídas, Puck.

O visitante ouviu cada uma das palavras com atenção e não interrompeu nenhuma vez, simplesmente encarou, até que disse num tom distante:

— Sabe, Srta Wright, houve um tempo em que o Povo Bom se divertia. Em que essas peças eram encenadas nos nossos salões e o mundo das fadas ficava logo após a colina. Há muito tempo, na verdade. Dias em que essas peças serviam para divertir os ombros cansados.

— Então me ajude a trazer isso de volta, pelo menos por uma noite, apenas desta vez, deixe eu que divirta pessoas, Puck.

— Eu não poderia fazer isso, Srta. Wright. O Sr. Shakespeare é um dos clientes mais valiosos da nossa firma.

Viola jogou-se outra vez na cadeira com um suspiro, incapaz de aceitar o fato de que todo o seu trabalho estava indo por água abaixo por causa de uma pessoa morta há quatrocentos anos. Todo o seu esforço e as centenas de ensaios com os atores e a equipe de produção. Mal podia imaginar como explicaria aquilo aos seus companheiros. Eu lamento, mas precisamos cancelar a peça porque o próprio Shakespeare não está de acordo com o nosso trabalho e ameaçou nos processar na corte de Zeus. Ainda estava perdida nos seus delírios de fúria quando o duende tocou a sua mão direita e falou:

— Lamento que eu não tenha encontrado a senhorita antes da exibição da peça. Você não teria como saber que estava processada sem ter recebido a intimação, não é mesmo? — Puck estalou os dedos e a folha que Viola rasgara se restaurou imediatamente e voou para a mão do mensageiro. — Acho que voltarei daqui a alguns anos para efetuar uma nova tentativa de cessar e desistir, tudo fica extremamente lento quando essas coisas caem por acaso na pilha de processos.

A garota não soube o que responder, sua boca formou uma vogal muda e o seu rosto corou imediatamente. Puck sorriu, guardou o pergaminho de volta em sua roupa e começou a caminhar em direção à saída, seus passos leves e ligeiros. Viola tentou formular alguma forma de agradecimento, mas o que saiu dali foi uma pergunta:

— Por quê?

Puck deteve-se por um momento e sem virar-se, respondeu:

— Porque eu vou adorar ver o rosto do Sr. Shakespeare quando Welcome to My Life tocar durante o Ser ou Não Ser.

O duende sumiu pela porta em poucos segundos e tudo voltou ao silêncio de antes. Viola sorriu, então ainda havia um pouco do velho Puck ali. O Puck de William Shakespeare e o Puck de Kipling estavam escondidos sob uma camada de seriedade, mas bastaria uma brecha para que o bom Robin Goodfellow mostrasse os dentes, ainda que de forma mais sutil. Talvez fosse assim com as pessoas também, pensou, mesmo que o tempo passasse e elas envelhecessem, havia um pouco das antigas sombras se arrastando em algum lugar. Talvez William Shakespeare tivesse começado a se levar à sério demais depois de morto, mas em algum lugar nas entrelinhas de suas peças, estava o homem de Stratford-upon-Avon que escrevera peças para divertir as pessoas comuns.

Foi com tudo isso em mente que Viola Wright olhou para o falso castelo de Elsinore no palco e chorou até que os soluços lhe incomodassem a respiração.

Jim Anotsu
Jim Anotsu
Jim Anotsu não gosta de chocolate amargo. Costuma escrever coisas que inventa e essas coisas são publicadas em papel. É o autor acusado de cometer "Annabel & Sarah" e "A Morte é Legal", assim como alguns contos em coletâneas. Seu próximo livro será publicado pela Editora Gutenberg em algum momento do universo. Ele tem uma gata chamada January e uma noiva.

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Um comentário

  1. Adriana "Strix" / 26 de março de 2014 at 00:59 / Responder

    Waaaaaaaait, estou inaugurando isso aqui?

    Não é justo, Puck, agora EU quero ver a cara do Shakespeare. xD

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