Invasão

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Eu moro na Rua da Alegria 133, 13º andar, apartamento 1313. Bem, apartamento é mais forma de falar, de exibir aos outros que moram de verdade que o meu covil não é tão covil assim. Pois é, o meu apartamento (bem mais um apertamento, como se verá depois) é um modesto quarto-sala-cozinha-banheiro de modestas dimensões, com quatro modestas janelas que nunca me revelam o sol. Lugar este que, fosse eu um pouco mais provido de banha e peso, certamente teria que andar de perfil para evitar um entalamento, digamos, acidental. Curioso ainda é o fato do já referido e descrito meu apartamento situar-se na já referida e nomeada Rua da Alegria, rua essa que alegria nenhuma me deu na vida, exceto talvez pelo fato de abrigar aqui e ali uma ou outra moça mais bonita, um ou outro par de pernas mais avantajado, dois ou três pares de seios mais durinhos. Mas é só isso e não é bem disso que eu quero falar.

O que quero relatar aqui neste relato foi o ocorrido que ocorreu no dia 13 do mês passado, dezembro, mês 12º do ano, quase 13º — não fossem as limitações do calendário. Pois é: cá estava eu em meu apartamento, 13 horas da tarde de um belo sábado, cervejinha gelada na mão, diante de um VT do meu glorioso time que a TV exibia. Até aí nada de anormal, qualquer solteiro sem namorada pra namorar ou ralar no tanque estaria fazendo a mesma coisa, cervejando e tevendo naquela tarde de sábado, claro que sim. Mas eis então que me tocam a campainha. Nada de anormal, repito, tocarem a campainha. As tardes de sábado, aqui e no Japão, são repletas de Testemunhas de Jeová, pilantras de toda espécie, vendedores de tranqueiras e et cetera. Fui atender até um pouco satisfeito: quem quer que fosse seria uma quebra na minha rotina, poderia ser uma deusa, a Bruna Lombardi, quem sabe, e dois ou três passos depois eu já estava com a mão na maçaneta. Mas o espírito da prudência baixou em mim como uma flecha e me vi obrigado a colocar o olho esquerdo no olho único do olho-mágico. Poderia, dizia-me o espírito, ser um ladrão. E então?

E então que olhei e olhei e nada enxerguei. Não havia ninguém do lado de fora. Alucinação auditiva? Por via das dúvidas, abri a porta e me deparei com uma anã. Uma anã! Saudei-a com entusiasmo e consideração e a convidei para entrar. Ela foi direto para a cozinha, cheirou a minha comida, abriu a geladeira e dela sacou uma enorme coxa de galinha. Sem uma palavra, ela voltou para a sala, ocupou a minha poltrona predileta e passou a mão já engordurada na minha cerveja. Eu fiquei, como se dizia nos bons tempos, estupefato. E estupefatamente foi que ouvi a campainha soar outra vez. Mais uma anã, pensei, já a meio caminho da porta. Ledo engano… Dei de cara com um senhor muito distinto, terno, gravata e pasta na mão cuidada em manicure. Barba grisalha e bem aparada, um senhor executivo que, percebi, assim como a anã, estava prestes a executar o meu sábado. Esse aí, homem acostumado a tomar decisões, decidiu entrar em meu apartamento sem a minha, como direi, aquiescência, e tão logo pôs os sapatos italianos em meu tapete dirigiu-se até o telefone mais próximo, que por ironia do destino era o meu.

Eu fiquei ali, a porta aberta, os olhos incrédulos pousados nos dois. A anã, chupando o osso da coxa da minha galinha, ocupando a minha poltrona e bebendo a minha cerveja, torcia ainda para o adversário, xingava o meu time e se contorcia de prazer a cada ataque mais perigoso do seu. O senhor executivo, executor de primeira, como se estivesse em seu próprio escritório, pedia à telefonista ligações para Londres, Xangai, Noviorque, Coxabamba, o raiquiusparta do inferno. Despreocupado com a conta no fim do mês, gastava com a língua enrolada em idiomas gringos intermináveis minutos, meias-horas inteiras, e expedia ordens, gritava dólares, mastigava euros, tudo isso com os sapatos brilhantes de verniz já em cima da minha mesinha de centro. E eu ali, impotente, a porta ainda aberta como se tivesse sido arrombada pelas forças do imprevisível.

Na TV, o VT exibia a derrota do meu time, atropelado inapelavelmente pelo trem adversário — e a anã ria, ria, ria, os dentes repletos de fragmentos de carne de galinha. O que mais, meu Deus, poderia acontecer naquela tarde, naquele sábado tão 13? Antes não tivesse feito a pergunta: um sujeito mal-ajambrado, jeito de lobisomem com seus cabelos fartos e roupas parcas, vendo aberta a porta do apartamento, entrou. Também ele foi direto à geladeira, e de lá sequestrou outra cerveja. Com ela na mão ficou circulando pela sala, os olhos volta e meia procurando algo no céu — a lua, talvez?

Nessas alturas já eram três os estranhos em meu pedaço, e isso era muito estranho. De onde vinham as minhas angustiantes questões? Envolvido por essas e outras, só percebi a entrada da quarta pessoa com o rabo-do-olho, se é que se pode falar assim, e não pude nem sequer fixá-la na memória: uma quinta já entrava também, atrás dela a sexta, a sétima de mãos dadas com a oitava, a nona um bebê que engatinhava no meu tapete, a décima era um senhor judeu, atrás dele um padre católico, grudado em sua batina um coroinha de olhar estúpido, todos eles ocupando a minha sala, saqueando minha geladeira, derrubando cadeiras, mexendo em meus discos, remexendo meus livros, entupindo o banheiro, os mais afoitos e taradinhos encharcando minha cama com seus sucos libidinosos.

Sim, é claro que sim, é claro que pensei em mandá-los todos à merda, resgatar do caos o meu sábado, recompor a minha tarde, voltar ao meu sossego solitário. É claro que sim, mas a minha voz não saía. Esse, aliás, era um fato curioso: ninguém falava absolutamente nada, exceto o executivo que se tomara de amores pelo meu telefone. Fora ele, a massa, a turba que ocupava o meu apartamento era um grupo mudo, sem voz, um bando de degenerados que havia escolhido a mim como vítima. Nada a fazer, pensei então, senão esperar que se acalmassem, que percebessem o engano e se mandassem. Doce ilusão…

Um porco, pasmem! Isso mesmo, um porco cruzou a minha porta. Atrás dele, devidamente acompanhada por seus 18 leitões, a ilustríssima senhora sua porca. 13º andar, pensei, paisagem urbana, de onde vinham aqueles bichos todos? Certamente do mesmo lugar de onde vinham as galinhas, galos e pintos, que ciscavam e cagavam no espaço agora pouco disponível do meu tapete. Só me falta agora uma vaca!, pensei outra vez, e a dita cuja se materializou bem ali na minha frente. Nesse instante não me contive mais e chorei.

E chorei mais, e ainda mais quando o bando de ciganos com suas roupas coloridas passou por mim. Que porra era aquela que tava acontecendo?! Não havia explicação, talvez só a ficção pudesse imaginar algo parecido, contasse isso para alguém e eu seria chamado de louco, xarope, logo providenciariam uma ambulância, dentro dela dois enfermeiros pardos, nas mãos deles uma camisa de força e dentro dela este pobre coitado que vos fala. E tudo por causa da maldita anã! Olhei pra cara da sujeita e uma profunda sensação de arrependimento me assaltou: se eu tivesse acreditado no meu olho, no olho-mágico que nada me mostrava, ela não teria entrado, atrás dela não entraria o executivo, atrás dele não entraria o inferno. Fosse eu um pouco mais experiente no trato com as pessoas e nada disso teria acontecido. Meu sábado seria tranquilo e lento como todos os outros, a noite seria morna e gostosa, o sono, reparador. Naquela hora, porém, não havia sono, ou sonho, mas pesadelo. Incontáveis cabeças silenciosas pululavam na minha sala, no banheiro, no quarto, na cozinha, sobre as mesas, sob as mesas, cocô de vaca e de galinha emprestando um ar empesteado de fazenda aos meus tapetes, porcos fuçando no lixo, leitões mamando, o caos implantado na minha paz sagrada. Fazia-me falta um revólver, uma metralhadora, uma bazuca, talvez. Colocaria aquela gente toda pra correr, comeria os porcos, ordenharia a vaca, estrangularia as galinhas. De posse de uma arma qualquer, um estilingue que fosse, eu retomaria a minha autoridade, mostraria àqueles malucos quem é que mandava, poria ordem na casa. Nada disso, porém, seria possível… No meu apartamento até as facas eram cegas, nenhum porrete havia, e eu, desde sempre, acreditava que as melhores armas de um homem eram o seu caráter, as suas virtudes, o seu comportamento ilibado. Acreditava ainda na força das palavras, que, por ironia, exatamente naquela hora de desespero me faltavam.

Tudo isso e mais um pouco eu pensava quando percebi que as paredes começavam a estalar. Olhei mais atentamente para a sala e vi que a coisa estava feia: as pessoas, os animais, todos eles se comprimiam, desaparecido entre a multidão estava o bebê, a meus pés o cadáver de um leitão pisoteado. Cantos e corredores tomados, quatro cinco seis pendurados no meu lustre — ah!, aquela coisa não ia acabar bem. Sem dúvida, muito mais gente do que eu supunha ocupava o apartamento. Centenas se apertavam contra as paredes, destruíam cadeiras, arrebentavam mesas e poltronas. Eu mesmo, sem perceber, estava pressionado de encontro à porta, escancarada ainda ao mundo como uma porteira destrambelhada. E nenhum vizinho, nenhum amigo, ninguém havia percebido coisa alguma. Naquele prédio, houvesse o menor ruído, um barulho insignificante qualquer, e o síndico já estaria na minha orelha, as velhas beatas me crucificando, o diabo. Mas não havia som, o executivo já sem voz, de vez em quando apenas um grunhido ou cacarejo discreto, a vaca envolvida no mais completo mutismo. Era o fim, eu pensava, o fim.

O lance mais dramático, contudo, só veio a acontecer no início da noite: uma bela jovem, gostosa que só vendo, peitos e bunda do meu número, pressionada e bolinada por diversas mãos e patas, foi sendo lentamente empurrada de encontro à janela. Ela não se opunha, não reagia, correspondia apenas, safada e sorridente, aos beijos e às apalpadelas recebidas aqui e ali. Sua expressão era de franco prazer, certamente já estava alagada de puro gozo, molhadinha de encharcar um lenço, quando, surgido sabe-se lá de onde, um sujeito mais afoito a colocou de pernas abertas sobre o parapeito da janela. Ali mesmo ela o beijou, ele beijou ela, ali mesmo eles se abraçaram, se apertaram, se esfregaram como se não houvesse por ali uma numerosa plateia. A tudo isso eu assistia, imóvel, suando por causa do calor humano que me era imposto à força. E os dois lá na esfregação, ele já com a coisa toda pra fora, ela de peitos nus sobre o parapeito, as pernas abertas no limite, a gosma quente lhe escorrendo pelas partes. E na hora do bem-bom, do vem-cá-que-eu-gosto, do me-aperta-com-força, do me-arrebenta-que-eu-quero, como era de se esperar, a turba ensandecida ensandeceu de vez: um empurra-empurra estourou em todos os cantos, as paredes estalaram ainda mais, uma violência generalizada causada pelo desejo reprimido e comprimido aflorou das profundas e o casal de pombinhos safados foi empurrado janela abaixo, ele por dentro dela, ela com ele por dentro num voo de 13 andares.

Sem um pio, mas com as caras demonstrando a compreensão da tragédia, a multidão começou a sair do meu apartamento. Os invasores mal passavam pela porta, chocavam-se a todo instante, pisoteavam os menores e os mais fracos. Também a porca partiu com seus leitões, que agora eram apenas 16. Dois foram sacrificados na bagunça, um deles, inclusive, jazia ainda a meus pés. As galinhas, galos e pintos sumiram todos, assim como o porco, inexplicavelmente. O executivo, por sua vez, partiu levando consigo o meu telefone, o terno antes elegante todo estropiado, os sapatos de verniz em pandarecos. E assim se foram todos, para o meu merecido descanso.

Todos não, perdão, minto. A vaca permaneceu ruminando num canto da minha sala devastada. E, com a boquinha enfiada em uma de suas tetas, o bebê, que mamava como se nada tivesse acontecido.

Exausto, quebradão da silva, tentando ainda organizar na cabeça aquele fatídico episódio da Rua da Alegria, decidi relaxar na minha poltrona predileta, que por milagre resistira ao caos. Joguei-me sobre ela e um gemido agudo me fez levantar no mesmo instante. Era a maldita anã! Eu fiquei ali, na sua frente, olhando, olhando, a raiva se misturando com outros sentimentos. Vontade de esganá-la eu tive, de quebrar-Ihe a cara, os ossos, mas tudo o que fiz, para minha própria surpresa, foi perguntar, calmo como um santo:

— Por que fizeram isso? Que é que vocês queriam?

A anã, maldita anã, sorriu, os fiapos de carne de galinha ainda presos em seus dentes.

— Responde, por favor — implorei.

— O que eles queriam — falou ela — sei lá, não sei não. Mas eu quero outra cerveja.

Claudio Parreira
Claudio Parreira
Claudio Parreira é escritor e jornalista. Foi colaborador da Revista Bundas, Caros Amigos, Agência Carta Maior, entre outras. Tem contos nas coletâneas "Contos de Algibeira", "Fiat Voluntas Tua", "Dimensões.br", "Portal 2001", "A Fantástica Literatura Queer", entre outros. É ganhador do 1º Concurso de Contos da Revista Piauí, em 2007 e autor, pela Editora Draco, do romance “Gabriel”.

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