Isaac

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Caminhando pelas sombras, ele fugiu para o deserto. Não pelo odor da carne podre dos seres humanos, nem pelos vermes que infestaram as ruas de sua cidade. Ele não sentia cheiro, tampouco nojo de seres rastejantes, mas apreciava uma boa e inteligente conversa, algo que não gozava desde a quase extinção dos seres humanos.

Muitos sucumbiram pelo calor excessivo, outros pela falta de água e alimentos. Somente os mais fortes resistiram. Mas foram poucos. Ele vivia sozinho, diferente deles, que andam em bandos como cães em busca de um pedaço de carne ou osso para roer. Ele apenas os observava, até o momento certo para agir…


2034. NOROESTE DA REGIÃO NORDESTE DO BRASIL

Eles esqueceram de seus antigos deuses. Passaram a reverenciar a estátua profana de um homem com cabeça de bode em posição de xamã. Este se tornou o novo deus dos homens que sobreviveram à catástrofe global.

Mas ele é diferente. Não reverencia deuses. Não segue líderes. Tem seus próprios planos e não foi consumido pela fome, doença ou solidão. Hoje o seu passatempo é observar a escassez do homem — não que ele goste disso. A fraqueza daqueles que um dia foram ricos em bens materiais, mas que hoje sucumbiram às necessidades mais simples.

Seu nome é Isaac. Diferente dos seres humanos que restaram, ele tem inteligência e força suficiente para carregar um rifle, um 38 carregado na cintura e uma pesada mochila cheia de munições e equipamentos, algo raro, pois as armas usadas hoje são rústicas, como machados e lanças.

Paciente, apenas observava os passos nus dos homens, que à noite reverenciavam o deus bode. Os velhos e doentes eram sacrificados em nome do novo deus, mas apenas o sangue era ofertado, pois dividiam a carne humana entre os membros do grupo.

A ciência fora esquecida, assim como a tecnologia e qualquer outro sinal de racionalidade. Era como se o mundo retrocedesse milênios.

Isaac sabia poder tirar proveito disso, mas precisava observar mais antes de iniciar seus planos miraculosos.

E do alto da colina, ele aguardou a noite cobrir o descampado. Deram início ao ritual macabro. Uma grande fogueira fora acesa no centro, e a imagem do deus profano deixada em destaque em cima de uma pedra, para que todos vissem a feição inumana daquele ser diabólico. Outros grupos chegaram. Cerca de oitocentas pessoas em total delírio. Uma criança, uma menina de aproximadamente cinco anos de idade, fora empurrada com violência para perto da fogueira que ardia em chamas. Seu semblante estava luminoso pelas lágrimas, como se já soubesse qual seria o seu destino. Homens e mulheres gargalhavam, enquanto outros escancaravam seus dentes apodrecidos.

O líder do grupo principal, o guardião da estátua demoníaca e o mais forte e feroz dos homens, agarrou a criança e rasgou com fúria os trapos que cobriam sua genitália. O grupo entrou em alvoroço. Uma mulher tentou antecipar o que fariam em instantes, puxando o braço da menina, tentando arrancar um naco de carne com seus dentes pontiagudos. O líder a chutou com violência. Ele seria o primeiro a degustar daquela carne macia e nada, nem ninguém, deveria desacatá-lo.

A imagem do deus bode, mesmo imóvel, parecia observar a selvageria daqueles homens que, por instantes, se calaram quando o líder levantou o braço o mais alto que pode. Depois agarrou a menina pelos cabelos e a ergueu perante a imagem. Tirou uma machadinha da cintura e emitiu sons tão terríveis que fez até o mais frio daqueles homens estremecer.

A menina seria decapitada e o seu sangue derramado sobre a imagem do deus profano. E depois do líder se deleitar com a carne crua da garota, os seus restos seriam consumidos pelos outros selvagens.

Isaac sabia que não era o momento certo para agir.

Mas ele odiava seguir regras, mesmo se fossem as suas próprias.

Ele posicionou seu rifle de precisão. Mirou certeiramente na cabeça do líder e tentou contar até cinco:

1, 2…

BANG

Ele semicerrou os olhos e continuou na mesma posição ao ver a cabeça do líder explodindo e seu corpo tombando, a criança viva e intacta.

E para garantir a segurança da garota, alvejou mais dois selvagens, pois tinha a plena certeza que os carniceiros a esqueceriam e brigariam pela carne dos mortos.

Deu as costas satisfeito, mesmo sabendo que praticamente nada mudaria. Mas salvou uma vida inocente e isso já era o bastante.

Pelo menos por enquanto…


O ESCONDERIJO DA SANIDADE

Era manhã. Abriu os olhos após algumas horas naquela mesma posição. Já de pé, foi verificar o seu rebanho de cabras, um dos poucos animais que restaram no mundo, pois os caprinos são resistentes e se adaptam com facilidade a condições extremas. Isaac possuía mais de duzentas cabeças. Na realidade duzentas e vinte e três. Os selvagens jamais descobririam o seu esconderijo no meio da caatinga cercada por imensas pedras e armadilhas.

O que Isaac tinha em abundância, além de alimento, era conhecimento. Ele sabia que não poderia oferecer a carne aos selvagens naquele momento. Seria preciso domesticá-los. Ensinar os bons modos e impor regras, mesmo não gostando delas.

O plano já estava traçado e só havia uma maneira de fazê-los entender o que ele realmente queria. Torná-los melhores seria um longo trabalho. Mas no final valeria a pena.

Isaac sentou-se próximo ao rebanho e retirou da mochila uma faca. Permaneceu com ela na mão durante horas, até o anoitecer.

Acendeu um lampião e fixou um pedaço de espelho numa árvore seca. Olhou-se fixamente nos olhos. Um olhar frio e sério. Levantou o braço até a altura do pescoço e encostou a faca nele. Fez um pequeno orifício. E num movimento rápido e preciso fez um corte reto de 180 graus.

Isaac não esboçou expressão e nenhum sangue foi derramado.

Atirou a faca no chão.

Olhou-se novamente no espelho, agora fixando os olhos no recente corte. Com o auxílio dos dedos das duas mãos, puxou a pele sintética que cobria o seu rosto.

Agora o que Isaac via no espelho eram circuitos num rosto humanóide.

Isaac não era humano, mas um androide robótico de primeira linha. Sua bateria interna recarregável poderia durar quase para sempre. Ele foi o único de sua espécie, um segredo de estado que sobreviveu mais do que seus próprios criadores.

Em sua memória, mantinha armazenada toda a história da humanidade. Todas as línguas. Todas as ciências e todas as noções de medicina, robótica, botânica, arquitetura, artes marciais, culinária, tudo.

Isaac era mais perfeito do que o próprio homem. E seria ele a salvação dos humanos que restaram em nosso planeta.

Ele pegou apenas a faca, escondendo as armas e a mochila cheia de munições, e caminhou lentamente, passando por labirintos e armadilhas e escalando rochas, até chegar na reunião noturna dos selvagens canibais. O deus profano estava lá, enegrecido pelo sangue derramado em anos de carnificina, apenas observando a loucura dos homens em desespero. Homens que deixaram para trás, num momento bem distante, a sanidade, cordialidade, generosidade e os bons costumes. Hoje não passam de seres viventes em busca de alimento. Homens capazes de cometer qualquer atrocidade por um pedaço de carne.

Isaac desceu a colina e aguardou, escondido, o momento certo para agir.

O novo líder guardião da imagem ordenou aos seus lacaios que trouxessem as oferendas. Hoje seriam duas anciãs sacrificadas e ofertadas ao deus bode.

Isaac era um instrumento da paz, mas estava sempre pronto para enfrentar uma guerra. E este foi o motivo para deixar as armas em seu esconderijo, pois desta vez ele usaria outros meios para atingir seu objetivo: iniciar a pacificação e educação daqueles seres humanos, para que num futuro distante tudo volte a ser como era antes, ou até melhor, pois ele saberá tratar o assunto com destreza para que os erros do passado nunca mais retornem.

Despiu-se. Com a faca em punho, fez um corte horizontal do pescoço até abaixo do umbigo. Em seguida, retirou toda a sua pele sintética e caminhou sentido à multidão de canibais que festejavam o sacrifício humano que aconteceria em poucos instantes.

Poucos passos o separavam daqueles homens.

Aquele seria o primeiro contato.

Isaac predeterminou o que aconteceria. Se tratando de selvagens canibais, o contato direto seria um grande risco, mas uma certeza ele tinha: não seria consumido.

Agora estava mais próximo. Se tivesse um coração naquele peito de metal e máquina, certamente estaria acelerado ao extremo. Os primeiros selvagens notaram sua presença e foram abrindo caminho, curiosos e boquiabertos.

Isaac caminhou até próximo a estátua do deus profano. O líder guardião ficou indeciso sobre o que fazer, até que a imagem demoníaca foi atirada pelo androide com violência na grande fogueira.

E em cima da grande pedra, local onde ficava a estátua, Isaac permaneceu imóvel para que todos ali notassem a composição do seu corpo cor de prata. Até esticar o braço para o céu e gritar:

— Eu sou o seu novo deus e a mim vocês deverão obediência.

Mesmo sem entender a língua portuguesa, uma língua já extinta, eles sabiam que a figura humanóide estava no lugar do antigo deus e todos, sem exceção, ajoelharam perante ele, agora o deus vivo.

As cerimonias macabras e toda a carnificina acabariam ali. Isaac implantaria uma nova ordem mundial e reeducaria os seres humanos. Ensinaria também o cuidado com o rebanho de caprinos, assim como multiplicá-los. E aos poucos criaria uma nova tecnologia em redes de comunicações, diferente da que foi destruída pela radiação solar.

Seriam muitas décadas ou até centenas de anos para concretizar a construção do novo mundo. Mas isso não é nada para Isaac, o novo deus dos homens na Terra.

Ademir Pascale
Ademir Pascale
Ademir Pascale é escritor e ativista cultural. Participou em mais de 40 livros, sendo um dos mais recentes "Nouvelles du Brésil", publicado na França pela editora Reflets d'ailleurs. Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs.

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