Kanashimi

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Talvez Kanashimi esteja bem aí. Atrás de você.
Há esse kaiju, e eu preciso falar sobre ele. Não há outra maneira de começar essa história. Kanashimi é um monstro feito de escuridão e gritos, mas é invisível para um monte de gente. Um dia foi invisível para mim também, apesar de estar ali, tão perto, à distância de um sussurro. As pessoas não o enxergam, alguns dizem que ele é mera ilusão e, por isso mesmo, ele é a mais poderosa de todas as criaturas.

E imortal.

Podemos lutar contra ele, mas ele nunca morrerá.

Não sei quando Kanashimi começou a me perseguir. Não o vi. Como tantos também fazem, fechei os olhos para ele. Acontece que esse monstro só pode ser visto quando você quer enxergá-lo. E eu não queria. Não podia.

Isso o deixou ainda mais forte.

Talvez seja melhor eu falar um pouco sobre mim e minha vida de merda.

Merda, meus pais ficariam decepcionados ao me ouvir falando palavrão. Vou começar por eles.

Nós vivemos em São Paulo. Kanashimi tem uma predileção perversa por essa cidade. Cidades grandes são suas favoritas, as mais saborosas, onde as pessoas correm para trabalhar, para comer, para estudar, para se divertir. Aqui, as pessoas correm para viver e nem percebem que esse é exatamente o melhor jeito de não viver.

Sou filho de um casal tradicional. Meus pais, apesar de brasileiros, nunca tiveram a tal “leveza” desse povo. Meus avós são imigrantes, educados na cultura japonesa, repassada a seus filhos, que a transmitiram à próxima geração, e assim devo transmitir aos meus próprios filhos. Tenho muito orgulho da minha ascendência e amo minha família. Desejo, do fundo do coração, honrá-los, e quero que tenham orgulho de mim. Mas de vez em quando tenho esse pensamento que me corrói: queria ser apenas como alguns dos meus colegas de escola, que conversam no final da aula, rindo, e gostam de comer uma pizza no shopping ao invés do almoço às treze horas em ponto, em casa.

Não posso fazer isso. Tenho que estudar. Tenho que me esforçar. Preciso ser o melhor.

Não sei bem dizer quando Kanashimi apareceu na minha vida. Talvez ele sempre tenha estado lá, dizendo coisas no meu ouvido. Acho que no começo ele não era gigante, como o vejo agora, acima de mim. Mas me lembro muito bem daquele dia, quando o percebi pela primeira vez.

Eu tinha onze anos. Era noite e eu estudava sob a luz imprecisa de um abajur. Ela parecia minguar, tinha sono e queria se apagar, como eu. As letras e as datas se embaralhavam no livro. A matéria era história, teria uma prova na manhã seguinte. Não gostava de história, era difícil decorar todas aquelas datas. Preferia desenhar, isso sim me trazia kanki, era o que me fazia feliz. Todo o resto não fazia sentido, não como os desenhos no papel. Mesmo assim, precisava memorizar parágrafos e mais parágrafos que apenas pareciam borrados na minha mente.

De repente eu não queria mais fazer aquela prova. Queria sumir, desaparecer. Será que poderia faltar à escola no dia seguinte? Minha mãe não permitiria. A escola era sagrada, ela dizia. Ela só me deixava faltar quando estava muito doente e, mesmo assim, mandava que eu lesse livros, nada de tevê.

A tevê.

Ela parecia tão maravilhosa e cheia de possibilidades, só esperando que alguém a despertasse. Meus pais deveriam estar na sala ou no quarto, minha mãe já tinha vindo me dar boa noite e desejado sucesso na prova da manhã seguinte. Talvez, se eu ligasse a tevê muito, muito baixinho…

Estava frio. O quarto parecia mais gelado a cada minuto.

Liguei a tevê e coloquei no volume quatro, Shi, repeti dentro da minha cabeça a palavra em japonês, não conseguia evitar. Estava muito frio, muito, mais do que antes. Enrolei-me nas cobertas, tremendo, mas ainda não conseguia escutar direito e era um anime que eu gostava muito, “Shingeki no Kyojin”. Repita, repita em inglês: Attack on Titan, pronunciei, bem baixinho. Aumentei o volume só mais um pouquinho. Volume nove. Ku.

Shi. Ku.

Sofrimento. Morte.

Eram números de má sorte.

Estava frio.

O quarto estava escuro.

Havia algo apertando meu peito. Eu não deveria estar fazendo aquilo, deveria estar estudando. Tinha uma prova no dia seguinte e não podia fracassar. E se a minha nota fosse ruim? O que meus pais diriam? Mas meus olhos estavam fechando, não conseguia mantê-los abertos. Havia um kaiju vermelho na tela. Eles diziam algo que eu não entendia.

Havia um kaiju no quarto. A primeira coisa que pensei foi ele não pode estar aqui, não cabe aqui. Mas o quarto parecia maior, as paredes feitas de névoa densa e negra, como se fossem o próprio monstro. Ele tinha olhos amarelos e me olhava lá do teto, reprovador. Ele me dizia que eu fracassaria. Ele me dizia que era melhor nem ir para a escola no dia seguinte, que eu reprovaria de qualquer maneira. E me envolveu em um abraço negro e gelado.

No dia seguinte, meu peito doía, como se eu estivesse engasgado. Foi difícil tomar o café da manhã e encarar meu pai e minha mãe, que não sabiam que dali a poucas horas seu filho falharia. Tinha certeza que esquecera tudo o que estudara na noite passada. As letras e as datas escorreram da minha cabeça, pude vê-las à noite, tinta negra escorrendo pelo chão e pingando na boca enorme do kaiju. Ele se alimentou de todo meu conhecimento. Riu e cresceu bem na frente dos meus olhos assustados de menino.

Foi a primeira vez que Kanashimi me visitou. Não sei se ele esteve lá antes, mas dessa vez eu o via.

No caminho para a escola, Kanashimi estava sentado ao meu lado no banco traseiro do carro, me espremendo contra o vidro. Era tão grande que mal cabia ali e seus braços escuros e enevoados flutuavam para fora do veículo. Minha mãe não notou. Ela só disse que não estava tão frio assim para eu ficar de casaco. Ela não sentia Kanashimi. Não sentia o frio que saía dele.

Ele me abraçou quando desci do carro, fazendo todo meu corpo pesar. Era difícil andar, então praticamente me arrastei. Não queria entrar na escola, queria fugir, sumir. Minha mãe acenava lá do carro e não podia decepcioná-la, nem ao meu pai, mas eu sabia que iria. Não tinha estudado direito para a prova. Kanashimi dizia que eu fracassaria. Ele estava certo.

Quando a professora colocou o papel à minha frente, tudo parecia um imenso borrão. Havia datas, muitas datas, e não me lembrava de nenhuma delas. As letras se confundiam, trançavam-se e escorriam pela mesa, como na noite anterior. O kaiju estava ao meu lado, ao redor de mim, em toda a sala de aula. Ele comia letra por letra e lambia a tinta fresca, arrotando em seguida. A cada letra que comia, a cada batida desesperada dentro do meu peito, Kanashimi parecia ficar maior. Ele crescia mais e mais, mas sua fome não acabava nunca.

Fui o último a entregar a prova, mas não havia nada mais do que rabiscos sem sentido nas respostas. Kanashimi tinha comido tudo. O pouco que sobrara de tinta na minha caneta se transformou em respostas inúteis, que eu sabia estarem erradas. Tinha fracassado, como o kaiju disse que aconteceria.

Seria muito difícil encarar meu pai e minha mãe. Eu os tinha desonrado.

Kanashimi não parava de rir e dizer o quanto eu era uma decepção.

Ele tinha estado lá o tempo todo, todas as vezes que eu me sentia mal, todas as vezes que uma dor familiar comprimia meu peito.

Como todo mundo, não quis enxergá-lo. Doía muito olhar para ele. Eu me convenci de que era tudo um sonho e, quando você fica mais velho, as coisas que viveu quando criança realmente parecem um sonho. Você simplesmente coloca todos aqueles medos e pesadelos no fundo de um poço dentro de sua cabeça e finge que eles nunca existiram. Mas eles continuam lá, envenenando seu coração.

Depois daquele dia, quando entreguei a prova para meus pais assinarem – nota 3.75, vermelha – e vi em seus olhos a decepção, prometi que nunca mais, nunca mais, causaria aquele sentimento neles. Aquela noite não consegui dormir. Chorei debaixo das cobertas e tive a impressão de que as lágrimas se tornavam gelo antes de chegarem à boca de Kanashimi. Ele parecia maior que na noite anterior. E tinha muita sede também.

Fechei os olhos e me forcei a não olhar para ele. Não queria, não podia. Foi assim que comecei a ignorá-lo. Era só desviar o olhar, me distrair com outra coisa. Ele não estava lá de verdade, simplesmente não poderia existir. Era coisa da minha cabeça. Ninguém mais o via, era loucura minha. Tinha o cuidado de não falar em voz alta sobre ele. O que pensariam de mim se ouvissem? Não gostava nem de pensar em Kanashimi. Eu me sentia perdendo a razão, e isso era o pior de tudo.

Mesmo assim, mesmo que fizesse de tudo para ignorá-lo e esquecê-lo, ele continuava lá, não importava o que eu fazia ou para onde fosse. Kanashimi nunca me deixou. Mesmo que eu não o encarasse, ele sempre aparecia de alguma maneira. Eu o via em meus sonhos. Sentia seu peso em meus ombros. Ele escorria do grafite em traços difusos que se repetiam nas folhas do meu caderno de desenhos e nos cantos das páginas dos livros escolares.

Ele era o mais próximo de um amigo que jamais tive.

Um dia, quando eu tinha quinze anos, quase fui atropelado.

Estava voltando da escola, a pé, e chovia muito. Caminhava em direção ao metrô, distraído, sentindo, mas tentando não olhar para o kaiju. Era coisa da minha cabeça, ele não estava lá, ele não existia. O problema, o problema real, era que eu tinha apresentado um trabalho em grupo para toda a classe naquela manhã e foi um desastre. Eu sou um desastre. Na noite anterior treinei todas as falas, cronometrei o tempo no relógio, ensaiei com a apresentação em Power Point no notebook, fiz tudo, tudo para dar certo.

Mas tinha algo lá no fundo me dizendo que eu fracassaria, que falar na frente de todos os outros era demais para mim, que não dominava o assunto tão bem. Era um trabalho de geografia. Detestava essa matéria. Os rios e as planícies e o clima, nada daquilo entrava na minha cabeça. Era tudo muito complicado, o país era grande e diferente demais. Eu conseguia desenhar os mapas perfeitamente, a sinuosidade graciosa dos rios, as fronteiras repletas de curvas e particularidades dos estados. Mas como decorar seus nomes? Seu tamanho? Será que as coisas seriam mais fáceis no Japão? Por que meus pais viviam no Brasil, afinal? Talvez aqui as coisas fossem mais difíceis.

Eu tinha feito todo o trabalho. Meu grupo não me ajudou em nada. Pesquisei na internet e na biblioteca, redigi o trabalho escrito, fiz a apresentação, elaborei os textos dos roteiros. Eu deveria saber tudo, certo? Deveria ter tudo na ponta da língua.

Fui o último a me apresentar. Antes de mim, todos os outros três membros do grupo se colocaram à frente da sala de projeção e começaram a falar. Shi, soou na minha cabeça. Quatro alunos. Nós éramos um grupo de quatro.

A primeira a se apresentar foi Patrícia. Era bonita, de cabelos longos e vermelhos. Eu sentia o peito arder e as bochechas esquentarem quando ela falava. Na verdade, ela foi o motivo de eu ter aceitado entrar naquele grupo, só para tentar me aproximar dela. Fiz todo o trabalho por ela, quem sabe assim ela não ficaria feliz e olharia para mim? Patrícia falou bem. Segurava a folha do roteiro nas mãos, mas quase não olhava para ela. No final, virou-se na minha direção e sorriu. Eu sorri de volta, sentindo meu coração disparar.

Ela não está olhando para você, idiota, disse Kanashimi dentro da minha cabeça. Ele estava em algum lugar, no corredor, ou talvez lá fora, no pátio. Ele era grande demais para caber na sala agora. Eu não queria vê-lo, não queria saber. Mas não importava o quanto eu estivesse longe, ele sempre conseguia sussurrar coisas no meu ouvido. Para ele não existia distância.

Meu peito gelou quando olhei para o lado. É claro, Patrícia não olhava para mim e sim para Iuri, o cara mais popular da classe. Ele jogava bolinhas de papel na minha cabeça quando os professores não estavam olhando e me chamava de “Japamongol”. Isso não incomodava Patrícia ou qualquer outro de meus colegas. Eles sempre riam, diziam que era piada, que era “coisa de viadinho” se incomodar. Então eu não respondia, às vezes até ria também, quem sabe assim seriam meus amigos. Iuri era bonito e alto, tinha ombros largos e fazia todo mundo rir. Era dele que as pessoas gostavam, não de mim, um garoto que estudava demais, baixinho, mirrado e sem graça.

Kanashimi dizia tudo isso para mim à noite, antes de eu dormir. E, apesar de fechar bem os olhos para não vê-lo, não tinha como não escutá-lo.

Iuri sorriu e acenou para Patrícia, que ficou vermelha. Ela terminou de falar e Iuri se levantou, passando por ela e tocando de leve sua mão. A professora não viu, só eu percebi.

Todo mundo parecia hipnotizado quando Iuri começou a falar. Ele não gaguejava, não segurava o roteiro que eu tinha impresso. Estava tão confiante que até parecia que era ele quem tinha feito todo o trabalho. A professora também parecia pensar assim, porque estava tão admirada quanto os outros.

Minhas mãos começaram a tremer e suar, molhando as bordas do papel. Era o meu roteiro e eu não queria utilizá-lo quando levantasse, mas agora o segurava com tamanha força que era quase como se precisasse dele para viver. Patrícia estava ao meu lado, os olhos brilhantes capturados pela fala perfeita de Iuri. Senti um bolo na garganta e minha traqueia se fechou. Era difícil respirar. O ar faltava e comecei a ver pontos escuros ao meu redor, flutuando, e eu sabia, tinha certeza absoluta, de que pertenciam ao kaiju. Ele estava perto, muito, muito perto, na sua forma invisível. Ou era só eu que não queria ver.

Depois de Iuri foi a vez de Marcelo. Os dois eram muito amigos. Ele podia não ter ido tão bem quanto Iuri e segurava o roteiro, mas nada disso importava agora. Patrícia fingia que olhava para Marcelo, mas na verdade sorria para Iuri e eu vi quando suas mãos se tocaram debaixo da carteira. Ele tinha sido perfeito. Eu jamais poderia fazer melhor que ele, talvez que ninguém ali.

Quando foi a minha vez de levantar, minhas pernas pareciam o tofu que a sobo preparava. Odiava tofu, mas comia porque era tradição e porque meus pais diziam que fazia bem. Merda, eu não tinha que ficar pensando em tofu naquela hora. O papel que segurava tremia loucamente e a professora, reparando, disse baixinho “não precisa ficar nervoso” e depois o meu nome, mas isso me deixou ainda mais nervoso e vi muito bem quando alguns caras no fundo riram e também quando Iuri riu. Não olhei para Patrícia. Não conseguia.

Mas tentar não olhar não me impediu de ver, pelo canto dos olhos, através da janela, a figura de Kanashimi. Como eu pensei, ele estava lá, no pátio, maior do que nunca e apenas um dos seus olhos amarelos me espiava pelo vidro da janela. Estava tão grande que alcançava o terceiro andar, onde ficava minha sala. Mas ninguém o via ou estariam todos gritando. Era só eu, só eu que o via, e por isso tinha que deixar de vê-lo. Era coisa da minha cabeça. Fechei os olhos por um instante, repetindo para mim mesmo ele não está lá ele não está lá.

Comecei a falar, ainda de olhos fechados.

Foi horrível.

Gaguejei o tempo todo, fatos errados pularam dos meus lábios, números trocados saltaram para o chão, suicidas. Suava tanto, apesar do frio, que minha camiseta ficou ensopada e dava para notar os discos de pizza debaixo das minhas axilas, e todo mundo de repente estava rindo quando eu disse algo que nem lembro mais o que era. O papel caiu três vezes da minha mão, o computador que passava a apresentação travou ou eu fiz alguma coisa errada, porque ficou tudo preto e então entrei em pânico. Era o kaiju, eu sabia, agora ele estava também na tela, mas ninguém o via, exceto eu.

No final da aula, a professora me chamou e todo mundo ficou olhando para mim enquanto saíam pela porta. A primeira coisa que ela me perguntou foi se eu tinha participado do trabalho, se tinha pesquisado e escrito alguma coisa. Aquilo doeu, doeu muito, e tive medo de chorar, mas me segurei. Kanashimi ria lá da janela, eu ouvia, eram risadas tão altas que pareciam trovões.

Gaguejei que fiz, fiz sim o trabalho. Só não disse que o tinha feito tudo porque não queria que Patrícia se desse mal, eu ainda gostava dela, por mais que ela gostasse do Iuri. Ela não tinha culpa de gostar dele, eu que tinha culpa por ser tão estúpido. A professora me olhou com algo que parecia desconfiança, mas depois sorriu, bateu a mão nas minhas costas e disse “tudo bem estar nervoso, todo mundo fica. Mas tente ensaiar mais da próxima vez, certo?”.

Então eu estava caminhando para o metrô, debaixo da chuva gelada, e via Kanashimi lá em cima, nas nuvens escuras, seus dois olhos amarelos rindo de mim na escuridão.

Uma buzina alta soou quando um carro freou e desviou de mim. Eu nem tinha reparado que estava no meio da avenida. Automóveis passavam nas duas vias e lá estava eu, paralisado no meio deles. Deixei cair a mochila no chão e corri, ouvindo mais buzinas, até a calçada do outro lado. Carros passaram por cima dela, destruindo-a. Minha mãe perguntaria o que tinha acontecido, meu pai ficaria bravo por eu ter sido descuidado. Não podia contar a verdade. Em casa, disse que tinha sido assaltado. Kanashimi me espiava com um olho só da janela do meu quarto e seu corpo nevoento e negro penetrava pelas frestas, me engasgando. Mas eu não estava vendo o kaiju. Ele não existia.

Deveria ter olhado melhor para ele. Deveria tê-lo olhado bem no fundo dos seus olhos amarelos e malignos. Deveria ter sido corajoso, mas sou um covarde. E não há lugar no mundo para homens covardes, meu pai sempre disse, apenas para homens de honra e coragem.

Se tivesse olhado… se tivesse enfrentado Kanashimi… talvez ele não estivesse tão grande e forte agora. E ele é tão grande que parece ocupar todos os lugares em que me encontro. Não me abraça mais porque agora vivo dentro dele. Ele me engoliu vivo e então todos os dias, todos os minutos, são feitos de escuridão. Meu peito dói e dói e eu não consigo respirar.

Ao invés de encará-lo, eu o desenhava. Tenho pastas e mais pastas de desenhos, figuras de Kanashimi. Não sei porque fazia isso. Era só que… tudo se tornava excessivo e eu não queria olhá-lo, não podia, então o desenhava. Ao menos eu sabia que aqueles olhos que me encaravam do papel não eram reais. Esses eram em preto e branco, não amarelos.

Tenho dezessete anos agora e meus dedos trêmulos descem por uma lista em ordem alfabética. Encontro a letra que inicia meu nome e desço por ela, encontrando outros nomes, nenhum parecido com o meu, sempre riram disso, o meu nome é estranho, diziam. Ninguém consegue escrevê-lo direito, sempre tenho que soletrar. Até os professores erram.

Meu coração bate e bate no peito, tão forte que acho que vou engasgar, e está tão escuro que mal consigo enxergar os nomes, mas me forço a continuar descendo e procurando, até que, enfim, encontro.

Não passei. Não passei. Não passei.

As palavras ecoam na minha cabeça. Kanashimi as repete, sem dó.

Não passou. Não passou. Não passou.

Tinha estudado tanto, tanto! Mas não adianta, sempre soube que não adiantaria, sou burro demais, estúpido demais, eles estavam certos, o kaiju estava certo.

Fracassado. Inútil.

Você decepcionou seus pais, sua família.

Não passei no vestibular. Como poderia contar isso aos meus pais? Aquela expressão de decepção, a mesma dos meus onze anos, aquela que jurei nunca mais encontrar em seus olhos… estaria tudo lá, mais uma vez, muito pior, e eu merecia.

Só Kanashimi estava ao meu lado quando deixei a escola e segui a pé, na chuva, em direção ao metrô. Chovia demais em São Paulo ou talvez fosse apenas o kaiju, que era tão grande, tão alto, que cobria o sol e trazia a tempestade junto com ele. Não dava mais para disfarçar ou me enganar, Kanashimi estava lá o tempo todo e ocupava tudo. Eu estava dentro dele e jamais conseguiria sair, a menos que tomasse uma decisão, a mesma que vinha adiando há anos, desde que tinha encontrado o kaiju pela primeira vez em meu quarto e ele ainda era pequeno.

Os trens passavam fazendo barulho na estação de metrô. As pessoas iam e vinham, para lá e para cá, sempre com pressa. Kanashimi ria delas. A correria do dia-a-dia, o estresse e as responsabilidades as transformavam em vítimas fáceis para o kaiju. E ele sempre estava faminto. Sempre.

Esperei a estação ficar vazia. Era tarde e eu deveria ter voltado para casa, mas como voltar quando tinha uma notícia tão terrível, quando teria que olhar para meus pais e dizer que era um fracassado, que os tinha decepcionado e desonrado? E tudo que eles investiram em mim, todos os seus sonhos para o meu futuro?

Não, não conseguiria encarar aquela decepção em seus olhos. Não mais uma vez.

NÃO ULTRAPASSE A FAIXA AMARELA, diziam as letras garrafais descascadas no chão.

Estava escuro e Kanashimi estava por toda parte. Eu via seus olhos amarelos na escuridão do túnel. Ele ria e dizia venha, venha, venha ficar comigo, para sempre.

Levantei, hipnotizado que estava pelos olhos do kaiju. Mas então algo me distraiu e baixei os olhos. Meus livros, meus cadernos, todos tinham caído do meu colo, espalhados no chão em meio a um mar de lápis e canetas. Várias folhas se misturaram. Eu nem sabia o que estava fazendo até me agachar, ajoelhando-me no chão frio, recolhendo-as. Eram meus desenhos. Vários deles. Kanashimi estava em todos, mas não apenas ele. Havia também um garoto, de olhos grandes e expressivos.

Juntei as páginas, formando uma história. E, a cada desenho, a cada quadrinho, eu via agora, mais claro que nunca, os olhos do kaiju, mas também os olhos do menino. Havia dor, havia sofrimento, mas havia algo mais naqueles olhos.

O último desenho era da silhueta do garoto encarando de frente o enorme kaiju.

Havia uma folha em branco ao lado do desenho. Segurei-a em minhas mãos trêmulas. Havia um lápis também. Encaixava-se perfeitamente entre meus dedos. Eu não tinha percebido que ele estava ali, mas sentir seu peso era como abraçar um velho amigo.

Levantei-me novamente, dessa vez com papel e lápis em mãos, encarando Kanashimi, que assomava diante de mim, enorme e com sua bocarra escancarada. Eu sabia o que ele queria.

Ele não era meu único amigo, afinal.

O lápis deslizou pelo papel em branco.

O garoto me encarava. E sorria.

Eu sabia o que ele queria. Ele também tinha sede. Também tinha fome. Mas era uma fome diferente daquela que tinha Kanashimi.

O monstro urrou ao perceber o que estava acontecendo. Havia ele e o menino, e eu sabia que não poderia escolher nenhum dos dois. O kaiju sabia disso também, tinha entendido a verdade ao encarar meus olhos de volta e era isso que o deixava mais enfurecido. Pedaços dele se desfaziam na névoa, descendo como cinzas sobre o papel. O garoto dançava sob a chuva negra, rodopiando de braços abertos, recebendo as cinzas sobre seu corpo.

Kanashimi ainda estava lá, mas pela primeira vez parecia menor. Entendi que ele não iria embora, que teria que conviver com ele. Mas o garoto… Ele podia me ajudar.

O garoto ansiava por folhas em branco. E eu queria alimentá-lo.

Karen Alvares
Karen Alvares
Karen Alvares conta histórias para o papel há tanto tempo que nem lembra quando começou. Autora da duologia Inverso (2015) e Reverso (2016), de Alameda dos Pesadelos (2014) e organizadora de Piratas (2015), foi também publicada em revistas e antologias, e premiada em concursos literários nacionais. Vive em Santos/SP.

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