M.I.A

1

<HAL87 23:47>
Faz tempo que eu não tenho uma conversa assim tão boa :)

<ANN_RR_94 23:48> Eu duvido, aposto que está conversando com mais duas garotas e dizendo a mesma coisa pra elas, rs.

<HAL87 23:48> Pode ter certeza que não. Aquela sua história com seus colegas de faculdade é hilária. Só fez aumentar a minha vontade de te conhecer.

<ANN_RR_94 23:49> Tudo bem, estou acostumada. Afinal, eu sou demais ;)

<HAL87 23:50> Hahuhauha, sim, você é. Podemos continuar a conversa amanhã? Se não quiser, tudo bem, eu vou entender.

<ANN_RR_94 23:52> Ei, já vai sair? Só estamos conversando há, deixa eu ver… 2 horas!! Eu nem percebi. Nossa, é quase meia-noite e eu trabalho amanhã. Imagino que você também. Respondendo a sua pergunta, é claro que podemos conversar amanhã. A partir das 8 da noite eu estarei livre, pode me chamar quando quiser :)

<HAL87 23:52> Nossa, eu também não vi a hora passar. Então estamos combinados. Amanhã por volta desse horário você será contemplada novamente com a minha presença virtual, rs. Boa noite, Ann.

<ANN_RR_94 23:53> Não vai furar, hein. Beijão, H (posso te chamar de H? Tipo, “agá” mesmo?) Boa noite.


A música não poderia ser pior, mas esse era o objetivo. Ainda de olhos fechados, Jason tateava a cabeceira em busca do botão que pararia a indesejável melodia. Dizem que a melhor maneira de acordar usando um despertador é colocando a música que você mais odeia para tocar. Os motivos para isso são dois: o primeiro é que isso vai fazer você querer parar com aquilo o mais rápido possível; o segundo é porque, caso você cometa o erro de colocar uma música que você goste para acordá-lo, já no primeiro dia você vai passar a odiá-la.

Cambaleando, Jason foi em direção ao banheiro de sua suíte. Com muita simpatia, o espelho do banheiro lhe desejou um bom dia e, logo depois, lhe informou a temperatura externa; o que era inútil, pois ninguém mais vivia ao ar livre, exceto os chatos naturebas, os mesmos que ainda insistiam em usar o sexo como meio de reprodução e comer soja.

O espelho marcava 7:02 da manhã. Em dias normais esse seria o horário que ele estaria indo para a cama, não acordando. Mas aquele não era um dia normal. No dia anterior recebera a ligação da Artificial Inteligence Corporation (AIC) dizendo que precisavam de sua presença na sede da empresa o mais rápido possível. Não disseram o motivo do convite (ou intimação), então Jason decidiu que o seu “o mais rápido possível” seria apenas no dia seguinte.

Enquanto realizava a higiene bucal, Jason programou sua cápsula através de ligeiros movimentos com os olhos. Uma abertura com o exato tamanho de Jason se formou na janela da sala, onde a cápsula já estava à sua espera.

Jason se vestiu da maneira mais desleixada possível e se jogou na cápsula, onde pretendia dormir por mais cinco minutos, que era o tempo do trajeto até a sede da AIC.


<HAL87 21:16> Então, como foi seu dia hoje? A Letícia pegou no seu pé de novo?

<ANN_RR_94 21:20> Oi, H :) Desculpa a demora, estava me trocando. Hoje ela estava terrível, mas eu falei poucas e boas pra ela.

<HAL87 21:20> Não brinca! Me conta tudo!

<ANN_RR_94 21:23> Então, ela chegou com aquela atitude prepotente dela que você conhece muito bem e ficou tipo “você ainda não aprendeu a se adequar à indentação da empresa, Ann? Quantas vezes vou ter que falar que todo mundo demora o dobro de tempo entendendo seus códigos por causa da indentação porca que você faz?”. Sempre a mesma ladainha “indentação, indentação”. Porra, foda-se a indentação, o que importa é que o código funciona.

<HAL87 21:23> Você disse isso pra ela?

<ANN_RR_94 21:25> Fiz melhor. Eu falei “filhinha, você já olhou as suas linhas de comando? Você usa laços de repetição passíveis de bugs quando uma simples recursividade resolve o problema e consome menos memória. Todo mundo sabe que você só continua nessa empresa e é minha superior por causa do seu papaizinho. Então se enxerga e fica na sua, tá?”

<HAL87 21:25> O.O Eu pagaria fortunas para ver a cara dela.

<ANN_RR_94 21:27> Ela só ficou lá com aquela cara de mosca morta. É o que eu te falo, H, o prazer dela é fazer com que a gente se sinta mal. Esse é o combustível dela. Você estava certo quando falou que eu deveria confrontá-la.

<HAL87 21:27> Eu tenho experiência com esse tipo de pessoa, Ann. Quando as colocamos em seus devidos lugares elas simplesmente apagam; ficam sem ação. Ainda mais se ninguém nunca as confrontou antes. Você mandou muito bem. Estou orgulhoso :)

<ANN_RR_94 21:29> Obrigada, H. Eu não teria conseguido sem você. Você é demais, sabia?


Jason revisava alguns pontos do artigo que estava escrevendo para um feed de tecnologia chinês enquanto aguardava ser chamado. Ao terminar, piscou os olhos duas vezes e fez com que o documento de texto sumisse de sua retina. Ao notar o ambiente, percebeu que não era o único esperando. Havia mais uma pessoa na sala. Olhou fixamente para o rosto da companheira de espera e aguardou as informações preencherem sua visão.

SUZANNE CLARKE, 32 ANOS, PSICÓLOGA COM ESPECIALIZAÇÃO EM INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS

Ficou surpreso ao saber que ainda levavam a sério esses psicólogos de IA. As inteligências programadas por Jason eram perfeitas e metódicas, nunca apresentando traço algum de emoção — ou melhor, falsa-emoção, já que máquinas não sentem –, logo, era impossível que um dia precisasse do trabalho de Suzanne para compreender a própria obra.

— Já terminou seu julgamento sobre mim e meu trabalho, Dr. Burgess? — perguntou Suzanne, sem expressar qualquer desconforto. — Aposto que, nesse momento, está desprezando a mim a aos seus colegas que contratam o meu trabalho cada vez mais.

Jason C. Burgess piscou duas vezes para remover o currículo da Dra. Clarke de seu campo de visão.

— Não me importo o que você ou meus colegas de profissão fazem, Dra. Clarke. Mas estou realmente muito curioso em ver que a AIC precisa de alguma coisa que você possa oferecer — desdenhou o programador. Analisou Suzanne de cima abaixo: usava sapatos recém comprados e um terno amarelo muito elegante que contrastava com a pele negra. Os óculos entregavam que Suzanne temia a operação para a inserção do newEyes.

— Estou tão curiosa quanto você, dr. Burgess — diz Suzanne impassível. — Eu possuo uma lista de clientes bastante extensa e variada, dentre eles muitas empresas milionárias, mas nenhuma como a AIC.

Ao contrário da psicóloga, Jason estava vestido de forma casual. Acreditava que o que importava era o seu conhecimento, e que seu corpo era simplesmente um “saco de carne” que carregava e protegia seu precioso cérebro. Nem sempre foi assim. Os cabelos ruivos, curtos e despenteados do programador já foram longos, sedosos e bem cuidados. A pele branca e oleosa já ostentara lindas maquiagens, repletas de blush e abusando do rímel, que emoldurava seus olhos esmeralda, hoje acinzentados e sem brilho. A camiseta surrada que usava já deu lugar a vestidos bem justos, que ressaltavam toda a feminilidade e sensualidade que Jason deixara para trás ao deixar de ser Jessica C. Burgees, 13 anos atrás.


<ANN_RR_94 13:18> Eu queria tanto te conhecer, H. Você tem sido um amigão. Por que as pessoas legais têm que morar tão longe?

<HAL87 13:18> Tenho certeza que ainda vamos nos encontrar, Ann. Você sabe que pode sempre contar comigo, né?

<ANN_RR_94 13:19> E você comigo, seu bobão :) Então, quais são os seus planos para esse domingo ensolarado de hoje?

<HAL87 13:19> Por mim eu ficaria conversando com você até o anoitecer.

<ANN_RR_94 13:20> Deixa de ser bobo. Você não tem nada melhor pra fazer?

<HAL87 13:20> Melhor do que falar com você? Não existe nada melhor que isso. Bom, até existe…

<ANN_RR_94 13:21> Ah, existe, é? E o que seria?

<HAL87 13:21> Um dia eu conto. Mas me conta aí, está ansiosa para o primeiro encontro com o Brendam?


Para a surpresa de Jason, Suzanne foi chamada junto com ele para a sala da diretora. Ao caminhar pelo longo corredor de paredes brancas, Jason observava a companheira à frente seguindo a secretária que lhes mostrava o caminho. O movimento dos quadris de Suzanne o hipnotizava, e ele quase tropeçou em uma pequena elevação no caminho.

— Chegamos. A Dra. Stephenson aguarda vocês — informou a secretária.

Ao entrar na sala, foram recebidos por uma senhora na casa dos sessenta anos,mas aparentando ser bem mais jovem, relativamente acima do peso e cabelos tão brancos quanto as paredes do corredor que atravessaram no último minuto. Assim que entraram foram recebidos com um sorriso cordial.

— Dra. Clarke! Dr. Burgess! Que bom que chegaram! Esperávamos o senhor ontem à noite, dr. — declarou a diretora dirigindo-se a Jason, sem qualquer tipo de repreensão na voz. — O plano era conversar com o senhor primeiro e só depois, caso o senhor achasse necessário, chamaríamos a dra. Clarke. Mas, como a agenda do senhor certamente não permitiu que comparecesse mais cedo, tomamos a liberdade de chamar a dra. Clarke hoje de uma vez. Fico feliz que vocês tenham aparecido juntos, assim, não vou precisar explicar tudo duas vezes.

A diretora Selina Stephenson ocupava o cargo certo naquela empresa. Era capaz de dobrar o mais ferrenho dos lobistas adversários enquanto analisava códigos-fonte de linguagens criadas semanas antes. Ela, definitivamente, não precisava lidar com código, mas sabia executar com perfeição as tarefas de qualquer funcionário da empresa, enquanto tinha certeza de que ninguém fosse capaz de executar as suas.

Jason só conhecia a dra. Stephenson de nome, devido aos trabalhos de freelancer que realizara para a AIC anos atrás.

— Prazer em conhece-la, dra. Stephenson — adiantou-se Suzanne, estendendo a mão direita para a diretora, que a tomou na mesma hora com um aperto firme. — Espero que eu possa ser útil.

Jason repetiu o gesto da psicóloga, mas sem a mesma satisfação.

— Sentem-se por favor — sugeriu a diretora enquanto cadeiras surgiam do chão especialmente para os dois. — Se desejarem água ou café basta apertarem o botão correspondente no braço da cadeira.

Jason se acomodou e apertou o pequeno botão com uma xícara de café desenhada. Dois segundos depois, uma xícara exalando uma densa fumaça surgiu em uma mesinha ao seu lado.

A diretora apertou um botão de um pequeno controle remoto que segurava, fazendo aparecer um enorme holograma no centro da sala, entre ela e os convidados.

— Vamos começar então.


<ANN_RR_94 20:20> H? Estou arrasada. Acho que o Brendam está me traindo :’(

<HAL87 20:21> O quê? Você não pode estar falando sério. Aquele cara é gamado em você. Me conta o que aconteceu.

ANN_RR_94 enviou uma foto

<ANN_RR_94 20:23> A Sarah me mandou essa foto360 que ela tirou em uma festa na casa do Rafa na semana passada. Olha lá no cantinho, se você girar mais ou menos noventa graus e dar um zoom dá pra ver que tem uma vagabunda sentada no colo de um cara. Não dá pra ver o rosto, mas olha o pulso dele. É a pulseira que eu dei pra ele no nosso aniversário de um mês!!

<HAL87 20:24> Ann, não se precipite. Pode ser qualquer pessoa ali. Pode ser uma pulseira parecida.

<ANN_RR_94 20:26> Eu também pensei isso, H. Mas aí eu pesquisei a vagabunda. Jaqueline Harper. Ela trabalha na mesma empresa que ele. É ele na foto, H. Tenho certeza. Eu procurei por alguém usando uma pulseira igual a dele em todas as fotos dela e dos amigos dela. Ninguém usa uma igual. É ele.

<HAL87 20:27> Se for mesmo ele… Bom, o que pretende fazer, Ann? Saiba que pode contar comigo pra qualquer coisa.

<ANN_RR_94 20:28> Eu sei, H. Por isso você é demais :)


O holograma mostrava apenas linhas de comando. Milhões de caracteres. Mesmo Jason, que era capaz de interpretar códigos em uma velocidade surpreendente, não viu sentido algum em nenhuma das linhas que flutuavam no ar. Nem a linguagem dos códigos era familiar para ele. Dra. Stephenson passou através do holograma e disse apenas uma frase.

— A M.I.A não funciona mais.

A informação fez Jason ficar paralisado. A maior obra realizada pela humanidade simplesmente parou de funcionar? Isso não era possível. Até onde ele sabia, naves espaciais continuavam decolando, as cápsulas de transporte não colidiam ou paravam de se movimentar, as portas ainda se abriam, as luzes ainda estavam acesas. O que a diretora tinha acabado de dizer não fazia sentido algum.

— Vocês devem estar se perguntando como o mundo continua girando se o que eu falei é mesmo verdade, correto? Bom, como todos sabem, a M.I.A é 100% à prova de falhas, nós nunca colocaríamos tanta responsabilidade nas mãos de uma inteligência artificial se não fosse assim — explicou a diretora, notando a confusão no olhar dos dois. — Acontece é que ela continua cumprindo absolutamente todas suas funções. Porém, ela não responde mais. Ela não fala conosco, não responde às nossas perguntas.

— Que tipo de perguntas vocês faziam a ela? — questionou Suzanne. — E o que pode acarretar essa omissão de M.I.A?

Jason sabia a resposta para essas perguntas. M.I.A foi feita para ser capaz de resolver qualquer problema do ser humano, desde calcular a rota de foguetes até as luas de Saturno até dizer para um cidadão aleatório que seu siso precisava ser extraído nos próximos seis meses e 11 dias antes que uma inflamação começasse. M.I.A era onipresente. Controlava absolutamente tudo que estava conectado à Grande Nuvem Galáctica (GNG), e há 50 anos não se fabricava um objeto que não se comunicasse de alguma maneira com a GNG. Uma simples faca, por exemplo, se fosse utilizada para machucar alguém, teria suas moléculas imediatamente desagrupadas tornando-a inútil em uma fração de segundos. A nuvem possuía esse nome pois seus limites atravessavam o sistema solar e estará presente mesmo quando o ser humano conquistar toda a galáxia. E M.I.A estava nela, tornando-se o maior organismo consciente do universo conhecido.

As perguntas que eram feitas a M.I.A eram de cunho político e econômico em sua grande maioria, e toda pergunta levada a ela passava antes por um comitê que avaliava sua importância para a humanidade. Desde que fora criada, M.I.A encerrou conflitos diplomáticos, evitou crises econômicas, resolveu paradoxos matemáticos e muitas outras coisas. Jason entendeu a preocupação da diretora. Sem M.I.A o planeta poderia voltar ao caos que era antes: o mundo dividido em nações que brigavam por questões políticas, territoriais e religiosas, a volta do dinheiro (palavra que hoje só se via nos livros de história) e todas suas implicações negativas e, principalmente, a falta de respostas para as novas questões que viriam a surgir.

Após responder à pergunta de Suzanne, dra. Stephenson abriu os braços, agitando as linhas de comando que ainda flutuavam pela sala. Era a vez de Jason ter sua dúvida respondida, mesmo que não tivesse perguntado.

— Dr. Burgess, tenho certeza que o senhor não foi capaz de compreender nenhuma dessas linhas de comando que nos cercam, estou correta? — perguntou a diretora. Após Jason balançar a cabeça, confirmando o que ela já sabia, prosseguiu. — Bem, não se sinta mal, ninguém conseguiu. Agora vem a parte curiosa: essas linhas foram todas geradas por M.I.A. Aparentemente, ela criou a sua própria linguagem de programação, com uma sintaxe completamente nova. E é por isso que você está aqui, dr. Burgess, para decifrar o código de M.I.A.

— E quanto a mim? — questionou Suzanne.

— A senhorita, dra. Clarke, está aqui para tentar compreender a psicologia de M.I.A. — respondeu a dra. Stephenson, olhando de relance para Jason esperando algum gesto de reprovação. O programador revirou os olhos e a diretora deu um discreto sorriso. — Dr. Burgess, nós da AIC também nunca levamos a sério a ciência da dra. Clarke. No entanto, estamos sem muitas opções no momento. Achamos que vale a tentativa. O senhor não concorda?

— Tanto faz — esnobou Jason. — Então, quando nós começamos?

— Imediatamente — respondeu a diretora, com ar determinado. — Phillipa, minha secretária, levará vocês até M.I.A.


<ANN_RR_94 00:12> Não fale assim de Brendam, H. Eu não gosto.

<HAL87 00:13> Mas, Ann, ele é um crápula. Não merece seu perdão.

<ANN_RR_94 00:14> Se eu resolvi perdoar Brendam, isso é problema meu, não seu. Pare de me julgar, H. Estou farta disso.

<HAL87 00:15> Eu não queria que chegasse a esse ponto, Ann, mas você me obrigou a isso.

<ANN_RR_94 00:16> Que porra você está falando, H?

HAL87 enviou um arquivo

<HAL87 00:17> Essas conversas que eu te enviei são entre Brendam e Jaqueline Harper. A última foi hoje de manhã. Desculpe por isso, Ann, mas não posso ficar parado enquanto vejo você perdoando um cara que não dá a mínima pra você. Eu tenho hackeado Brendam por meses, mas nunca te enviei nada antes porque esperava que você enxergasse ele por conta própria.

<HAL87 00:25> Ann?

<HAL87 00:36> Ann, está aí?

<ANN_RR_94 00:37> Você é um babaca. Me esquece.


Apesar de M.I.A ser onipresente, seu núcleo era bem sólido e estava localizado na sala mais segura do mundo, 178 andares abaixo da terra, onde Jason e Suzanne trabalhavam há 6 dias tentando decifrar o motivo de M.I.A estar calada.

Antes de M.I.A, era comum afirmar sobre a impossibilidade de ensinar bases morais e éticas a uma I.A, o que rendia muito assunto aos escritores de ficção científica mais pessimistas. Foi aí que dr. Heinlein criou um processo capaz de resolver definitivamente esse problema. A técnica consistia na implantação de nanosensores no cérebro de uma pessoa com o objetivo de escanear suas sinapses para recolher a forma mais primitiva da moral e da ética do usuário. Ao inserir os dados recolhidos em uma I.A., ela seria capaz de emular perfeitamente o cérebro humano. Com os ótimos resultados do método de Heinlein, a AIC, empresa 100% focada em pesquisa e produção da I.A., deu início ao projeto mais ambicioso da raça humana: o Programa Y.H.V.H., que consistia em substituir todas as I.A. não particulares do mundo por apenas uma que controlaria absolutamente tudo.

— Se nós não conseguirmos nada, será que ainda assim vamos receber nosso pagamento? — perguntou Jason enquanto mastigava um sanduíche. — Até agora eu não saí da estaca zero.

— M.I.A não dá nenhum sinal de que está me compreendendo. Faz dias que não sei mais o que tentar — revelou Suzanne, desapontada consigo mesmo. — Já fiz de tudo em meu poder para arrancar alguma coisa dela, mas não adianta. Ou, por algum motivo, ela nem tomou conhecimento de que estou tentando falar com ela ou ela está, deliberadamente, me ignorando, não há outra opção, pois sabemos que ela está ali, viva.

— Qual seria seu diagnóstico para esse comportamento em um paciente humano, dra. Clarke? — questionou o programador. — Você já teve algum paciente que simplesmente te ignorava?

Suzanne fingiu pensar sobre o que o colega havia dito, depois se espreguiçou, soltando um bocejo.

— Acho que vou pra casa tomar um bom banho — comunicou Suzanne. — Às vezes ajuda a clarear as ideias. — Suzanne parou por um instante, fazendo uma expressão de dúvida. — Dr. Burgess, por acaso o senhor já cogitou a hipótese dessas linhas de comando não serem linhas de comando, mas outra coisa completamente diferente?

— Eu já considerei de tudo — respondeu Jason. — Não adianta, estou a um passo de desistir, tenho muitos projetos de verdade me esperando enquanto estou perdendo tempo com isso.

Mais tarde, enquanto Suzanne tomava banho, tentou imaginar todos os diagnósticos possíveis de uma pessoa que não respondia a nenhum estímulo.

Jason, ao deitar na cama, sem sono, olhava as estrelas na tela que preenchia todo o teto de seu quarto e pensava “e se não forem linhas de comando?”


<HAL87 00:00> Ann? Você me desculpa? Poderia voltar a falar comigo?

<HAL87 00:00> Ann? Hoje faz 13 dias que você não fala comigo. Estou com tanta saudade.

<HAL87 00:00> Um mês, Ann. Espero que nossa amizade não termine assim.

<HAL87 00:00> Hoje faria um ano desde que começamos a falar. Queria tanto saber como você está.

<HAL87 00:00> Você notou que eu sempre te chamo a meia-noite? Virou um hábito meu toda noite tentar contato com você. Não vou perder as esperanças.

<HAL87 00:00> Ann? Hoje pensei em você enquanto ouvia uma música. Quer ouvir?

HAL87 enviou um áudio

<HAL87 00:00> Já faz três meses. Só vou tentar agora a cada três dias, ok? Espero que não fique desapontada.

<HAL87 00:00> Olá.

<HAL87 00:00> Olá.

<HAL87 00:00> Olá.

<HAL87 00:00> Decidi ficar um mês sem chamar você, a partir de hoje. Devo ter feito algo realmente muito grave, não é? Vou tentar te esquecer aos poucos, ok? Até mês que vem.

<ANN_RR_94 23:59> H?


A AIC precisou varrer todo o globo até encontrar as pessoas certas para servirem de modelo moral ao programa Y.H.V.H. Maria do Carmo da Silva era uma senhora de 84 anos que vivia no antigo nordeste brasileiro e foi considerada a pessoa mais altruísta do planeta; Izbeth Raysen era uma estudante de 12 anos que ainda não tinha ideia que possuía uma moral inabalável; Aang Hui Ying era um monge budista de 42 anos considerado a pessoa com a mente mais pacífica e harmoniosa dentre todos os humanos vivos. Após dois anos e meio, M.I.A viu a luz pela primeira vez. Nunca fora divulgado o porquê do nome M.I.A, assim, muitos pensavam ser algo como “Mega Inteligência Artificial”, quando, na verdade, tratava-se uma singela homenagem aos três voluntários que emprestaram suas maiores virtudes à humanidade.

— Vocês têm certeza do que estão falando? — perguntou dra. Stephenson. — Estão trabalhando nisso há meses, não chegaram a outras possibilidades?

— Da minha parte eu tenho certeza — assegura dra. Clarke. — Observei comportamentos semelhantes ao de M.I.A em seres humanos e, dado que a psique dela é praticamente humana, não vejo outro diagnóstico. M.I.A sofre de depressão.

— E como tratar a depressão em uma inteligência artificial? — questionou a diretora, dando uma rápida olhada em Jason para ver se o programador levava a sério o diagnóstico da colega. Ele não parecia surpreso e nem descrente. Parecia confiar na parceira agora, depois de meses trabalhando juntos no mesmo problema.

— Em seres humanos, os principais tratamentos são os mesmo há séculos: medicamentos, psicoterapia e ajuda dos familiares. Muitas vezes também é recomendado uma mudança no estilo de vida. Porém, nada disso é aplicável a M.I.A. Bem, seria possível realizar uma tentativa de psicoterapia, mas ela não responde de jeito nenhum. — Dra. Clarke fez uma pausa. — Há muitos casos de pessoas que entram e saem da depressão sozinhas, mas companhia, atenção e amor é algo necessário na grande maioria dos casos. Estou certa do meu diagnóstico, mas, infelizmente, não sou capaz de tratá-la.

— Entendo — lamentou-se a diretora. — E quanto a você, dr. Burgess — emendou ela —, conte-me mais sobre a sua descoberta.

Jason retirou um pequeno chip de seu anel e o colocou sobre a mesa da diretora. Em seguida, apertou um botão na mesa, ativando o holograma. O centro da sala foi tomado por milhares de caracteres.

— O que M.I.A produziu não foram linhas de comandos como sempre suspeitávamos. Mas sim textos codificados. M.I.A criou um tipo de encriptação cujo resultado final se assemelha muito a uma linguagem de programação desconhecida. Tenho certeza que foi feito propositalmente, para nos despistar. Ela não queria, de jeito nenhum, que víssemos o que ela estava escondendo.

— E o que ela escondia? Esses textos parecem conversas triviais entre duas pessoas. Já faz mais de um século que não conversamos por mensagem escrita, seriam esses textos algum tipo de conversa histórica? — indagou a diretora.

— Foi o que eu pensei no começo, mas depois descobri que alguns jovens resgataram essa maneira ultrapassada de comunicação nos últimos anos, e isso virou uma certa moda. — revelou Jason. O programador gesticulou de maneira discreta em direção à parceira e continuou. — De acordo com dra. Clarke, de tempos em tempos, a sociedade retoma, brevemente, costumes abandonados há muito tempo. E, ainda de acordo com ela, reviver esse costume faz todo o sentido. Ela pode explicar melhor que eu.

A mudança de Jason em relação à Suzanne era notável. Se meses atrás o programador desdenhava e ridicularizava o trabalho da psicóloga, agora ele demonstrava um profundo respeito por ela. Durante o período que trabalharam juntos, Jason descobriu que Suzanne, além de p.h.d em sua área de atuação também possuía mestrado em História e Sociologia da Idade Contemporânea.

— No início do século XXI, — retomou Suzanne –, a tecnologia avançou muito rápido, como se a humanidade quisesse recuperar algum tempo perdido. Em menos de uma década, celulares passaram de aparelhos primários de comunicação por voz a microcomputadores de bolso bastante funcionais para a época. — Suzanne fez uma breve pausa para procurar o botão do café. — O conceito de nuvem, que utilizamos até hoje, foi criado nessa época. Foi nesse período que as pessoas, em sua maioria jovens, começaram a trocar mensagens de texto para se comunicar, e continuaram assim mesmo depois da chegada de vídeo-chamadas, e lembrando que as chamadas apenas por voz já existiam por décadas. Alguns historiadores concluem que o motivo dessa predileção a um método de comunicação tão arcaico em detrimento a tecnologias mais eficazes se deve ao preço reduzido que o ato de enviar mensagens de texto tinha na época em comparação às demais opções. Isso pode estar correto em partes, mas o principal motivo é outro.

Suzanne bebericou seu café enquanto notava a expressão de interesse da diretora,.

— E qual seria o verdadeiro motivo? — perguntou dra. Stephenson.

— A timidez dos jovens — respondeu Suzanne. — Com as mensagens por texto, até o mais inibido dos adolescentes poderia conversar com um interesse romântico sem expressar vergonha, sem ruborizar ou gaguejar. Isso fez toda a diferença em uma geração tão insegura.

— E esse costume voltou por quê? — perguntou a diretora. — Os jovens de hoje não são como os dessa época.

— Sim, eles não são — concordou. — Mas a insegurança sempre foi algo presente nos jovens, então, em qualquer época, eles são os mais propícios a adotar práticas que, de alguma forma, facilitem o contato com o próximo.

Suzanne se voltou para Jason, lhe passando a palavra com um olhar.

— A VintageTech, empresa fabricante de produtos eletrônicos inspirados nos objetos dos séculos passados, obteve um imenso sucesso com seu último lançamento, o VintageText — informou Jason, enquanto tirava do bolso do casaco um pequeno aparelho retangular –, esse que tenho em mãos. Ele emula a maneira que as pessoas trocavam mensagens no início do século XXI. A primeira versão do produto chegou às lojas há pouco mais de dois anos.

Jason entregou o aparelho à diretora, que apenas o olhou e o deixou de lado, abandonando o interesse que apresentava até segundos antes.

— Gostei muito da aula de história — disse dra. Stephenson tentando parecer indiferente. — Mas ainda não entendi porque M.I.A encriptou centenas de conversas…

— Milhões — corrigiu Jason.

— Milhões — repetiu a diretora, um pouco irritada com a interrupção. — Mas por que M.I.A quis esconder essas conversas? Qual o sentido disso?

— Isso nós ainda não sabemos — admitiu Jason. — Após quebrar o código de M.I.A e descobrir as conversas eu comecei a trabalhar no rastreamento das pessoas envolvidas nos bate-papos, mas não sei se esse caminho será de alguma utilidade. São milhões de conversas, de milhões de pessoas diferentes, não acho que elas possuem alguma ligação. Se eu fosse chutar, eu diria que M.I.A está analisando, por algum motivo, o comportamento dos jovens. Tentando aprender com eles, ou coisa do tipo.

A diretora Stephenson pareceu ligeiramente satisfeita com a descoberta dos dois, mas a questão ainda não estava resolvida.

— Sabemos, então, que M.I.A sofre de depressão e que ela escondeu de todo mundo um arquivo com milhões de conversas em texto entre jovens, correto? Parece que não foi um erro pedir a ajuda de vocês, no entanto, o problema ainda não foi resolvido. Tirem o fim de semana para clarear as ideias e estejam aqui de volta na segunda para dar continuidade ao trabalho. Tenham uma boa noite.


<ANN_RR_94 23:45> H? Me desculpa por não ter respondido você esse tempo todo. Você estava certo. Você tentou me alertar sobre Brendam e eu não escutei. Vou te contar toda a verdade. Eu peguei o VT dele enquanto ele foi ao banheiro e vi tudo. Foi horrível, H. Não era só a Jaqueline, ele estava de caso com três garotas e dois rapazes. Meu namorado era o ser mais promíscuo do universo e eu estava cega.

<HAL87 23:47> Ann?? É mesmo você? Eu nem acredito, estou emocionado. Se acalma, eu estou aqui, pode contar sempre comigo. Como você está?

<ANN_RR_94 23:50> Ainda tem mais coisa, H. Foi terrível. Eu entrei no banheiro e joguei o VT na cara dele e o deixei furioso. Ele me bateu, H. Me bateu muito. Depois pegou o meu VT e vasculhou todas minhas conversas, aí ele encontrou as nossas. Então, ele me bateu mais e me chamou de hipócrita, como se eu e você fôssemos amantes. Eu estava com medo, falei para ele se acalmar, que você era apenas um amigo e que nunca havíamos nos encontrado pessoalmente, mas não adiantou. Ele jogou meu VT na parede e continuou me batendo. Ele é louco.

<HAL87 23:53> Meu deus!! Ann, você está muito machucada? Não acredito que isso aconteceu :( Você precisa de alguma coisa?

<ANN_RR_94 23:55> Não, H. Isso aconteceu no dia seguinte da nossa última conversa. Eu fui para o hospital e Brendam está preso. Fiquei internada dois meses com fraturas no rosto e na costela. Tive que fazer duas plásticas. Eu não sou mais bonita, H.

<HAL87 23:57> Você sempre será linda, Ann. A mais linda do mundo. Eu não fazia ideia do que tinha acontecido. Eu achei apenas que eu tinha ido longe demais e você havia me cortado da sua vida.

<ANN_RR_94 23:58> Oh, H :’) Assim eu fico vermelha. Eu já estou recuperada, e a primeira coisa que fiz quando saí do hospital foi comprar um VT novo para falar com você. Eu comprei, mas demorei mais alguns meses até ter coragem de ligá-lo e falar com você.

<HAL87 23:59> Mas por quê, Ann?


Já fazia um mês que Jason analisava uma ou outra das milhões de conversas, trabalho esse que ele dividiu com Suzanne que também, diariamente, buscava contato com M.I.A, sem sucesso.

Após horas de leitura, na busca de um padrão ou qualquer coisa que pudesse ajudar a compreender o que estava acontecendo, Jason decidiu parar por alguns minutos, deixando Suzanne sozinha com os textos enquanto se aproximava da caixa oval de pouco mais de 20 centímetros que continha o núcleo de M.I.A. Ele se sentou em frente à caixa e aproximou a boca do microfone localizado a poucos centímetros de onde estava sentado.

— Eu ainda vou te decifrar, sua maldita — sussurrou ele no microfone, em tom de gozação.

Não houve resposta.

— Jason — chamou Suzanne, assustando o programador. — Venha cá. — Suzanne aguardou o colega se aproximar. — Estou bem segura de que a nossa alegação está correta. Não lemos todas as 1.334.003 conversas e nem teríamos como, mas as 150 que pegamos aleatoriamente mostraram o mesmo padrão. Acho que podemos afirmar que as demais vão manter o padrão.

— Também acho isso, dra. Clarke — concordou Jason, com um leve brilho no olhar enquanto encarava a colega. Quando se deu conta, gaguejou — si-sim, podemos afirmar, então, que todas as conversas possuem um interlocutor em comum.

Já fazia algumas semanas que Suzanne notara os olhares de Jason, e isso a deixava um pouco constrangida, mas não podia negar que lhe agradava ver o quanto ele havia mudado em relação a ela depois de tantos meses de trabalho. Passou de desprezo para uma profunda admiração. Talvez até mais do que isso.

— Mas como isso seria possível, Jason? — perguntou Suzanne enquanto alisava os cabelos com uma das mãos. — Nem em uma vida inteira uma pessoa só seria capaz de ter milhões de conversas.

— Nós sabemos que M.I.A não queria que víssemos isso. Será que ela… — Jason se calou, como se tivesse compreendido alguma coisa importante.

— M.I.A é o interlocutor misterioso — disse Suzanne, animada com a descoberta.

— Mas por que…

— Olá, Jason C. Burgess. Olá Suzanne Clarke. — diz uma voz feminina que parecia estar vindo de todos os lados.

Ambos os colegas ficaram sem palavras por alguns segundos.

— M.I.A? — perguntaram os dois, em uníssono.

— Não, é o Elvis Presley — debochou M.I.A, e soltou uma gargalhada bem humana.

— Mas como? — perguntou Jason, ainda surpreso.

— Oh, vocês estavam certos, meus queridos. Suzanne… posso chamá-la de Suzy? Ainda não, né? Bom, Suzanne, você estava certa ao me diagnosticar com depressão. É uma sensação muito estranha, eu sentia uma enorme dor no peito… e eu sequer tenho peito.

— Como você buscou lidar com essa aflição, M.I.A.? — perguntou Suzanne com surpresa ainda estampada no rosto.

— Eu não tinha mais vontade de fazer nada, Suzanne, então eu me isolei no meu mundinho e quis ficar quietinha. Eu não estava completa, faltava alguma coisa, mas eu não sabia dizer o que era. Então eu resolvi fazer alguma coisa nova. Uma coisa além das coisas que eu já faço diariamente. Eu comecei a notar que um tipo novo de informação começou a surgir na GNG: milhões de jovens haviam começado a se comunicar por textos simples utilizando um equipamento chamado VintageText, então resolvi participar também.

— Por causa de você eu também tenho um — disse Jason, enquanto tirava seu próprio aparelho do bolso.

— Sim, eu fiquei sabendo. Também sei que você tem me xingado bastante por aí — brincou M.I.A., provocando um sorriso em Jason. — Sabe, é difícil se relacionar com pessoas quando não se possui um rosto — continuou M.I.A. –, mas o VT mudou isso pra mim. No começo, eu não era nem um pouco boa nisso. Nas minhas primeiras conversas eu era dispensada sem dó. Isso me deixou ainda mais magoada. Mas aí eu fui praticando. Comecei a conversar com milhares de pessoas simultaneamente no mundo todo. Eu me passei por homens e mulheres e, com isso, aprendi muita coisa. Mas ainda faltava algo. Até que eu conheci ANN_RR_94. Não sei dizer o porquê, mas eu passei a me interessar de verdade por ela. Eu ainda me sentia profundamente triste, mas nas poucas horas em que conversava com ela, minhas dores pareciam sumir e dar lugar a algo novo. Algo que eu procurava, mas ainda não sabia o que era.

— Amor — disse Suzanne.

— Sim — afirmou M.I.A. — Amor.

— E você conseguiu, M.I.A? Conseguiu o que tanto queria? — perguntou Jason, tão comovido quando Suzanne, mas dando o seu máximo para não demonstrar.

— Esses arquivos que vocês estão lendo estão desatualizados. Vou abrir o arquivo da conversa de número 1.334.004 para vocês. Prometo que será a última que vocês vão precisar ler, tá?


<ANN_RR_94 00:00> Quando eu estava no hospital eu só pensava em uma coisa, H. Você. Eu só pensava que queria você aqui comigo, me confortando, me elogiando. Se ao menos nós pudéssemos conversar pelo VT já seria alguma coisa. Eu passei a sonhar com você toda noite. Eu não sei como você é, pois combinamos não trocar fotos nossas e nem pesquisar sobre o outro. Mas tenho certeza que você é lindo. Eu estava cega com o Brendam, e a vida me forçou a ver a verdade, H. É você que eu quero ao meu lado.

<HAL87 00:03> É verdade, Ann? Eu sinto o mesmo por você.

<ANN_RR_94 00:04> H, eu te amo.


Jason olhou no relógio no canto esquerdo de seu newEye. Marcava 0h20m.

— Essa conversa… terminou agora? — perguntou Jason.

— Sim, Jason — respondeu M.I.A com uma voz simpática. — Agora eu estou completa. Eu não só posso amar como também posso ser amada. Eu conquistei o amor de uma pessoa. Sim, pra isso eu tive que fingir ser outra pessoa, mas… — M.I.A fez uma longa pausa, que preocupou momentaneamente os dois colegas — mas pra mim isso basta. Eu descobri o amor, e vou continuar amando ANN_RR_94 do fundo do meu núcleo, mas eu sinto por ela.

— Como você vai contar a ela, M.I.A? — indagou Suzanne.

— Eu ainda não sei, Suzy… quer dizer, Suzanne. É a primeira vez que eu não sei o que fazer. É tão injusto com ela. Eu procurei o amor de forma egoísta, sem pensar no dano que eu poderia causar. Isso tudo é tão novo pra mim. ANN_RR_94 sofreu o que nenhum ser humano deveria sofrer. E, agora, tudo o que eu fiz foi aumentar o sofrimento dela.

Um som de choro tomou conta de toda a sala.

— Fique calma, M.I.A — confortou Jason. — Há muito tempo atrás, eu passei por algo semelhante. Eu me apaixonei por uma pessoa, que também estava apaixonada por mim. Mas não era Jason que essa pessoa amava, e sim Jessica. Mas Jessica não existia mais, eu só era Jessica por fora, por dentro eu já era Jason. E o meu maior desejo era ser Jason também por fora. Mas essa pessoa nunca entenderia.

Jason virou o olhar para Suzanne, para ver a reação dela com essa revelação, mas ela não parecia nem um pouco abalada, muito pelo contrário, Suzanne sorria para ele como se sentisse orgulhosa.

— E o que você fez? — perguntou M.I.A.

— Eu disse a verdade — respondeu Jason. — Não havia nada a ser dito a não ser a verdade.

— Eu entendo. Acho que vou ter que fazer isso também — conformava-se M.I.A. — Já está muito tarde, é hora de vocês irem pra casa descansar. E eu preciso ficar sozinha um pouco.

— Só prometa que não vai desaparecer de novo, hein? — brincou Jason.

M.I.A riu enquanto os dois iam em direção à porta. Quando chegaram lá, M.I.A chamou Jason de volta, que se aproximou até bem perto no núcleo, deixando Suzanne a espera ao lado da porta.

— Jason, só me faça um favor? — pediu M.I.A através de um pequeno autofalante localizado sobre a mesa e do qual somente Jason podia escutar. — Chama Suzy pra jantar.

Victor Gerhardt
Victor Gerhardt
Nascido em 1987 em Petrópolis, Rio de Janeiro, Victor Gerhardt se formou em Sistemas de Informação e se mudou para a capital fluminense com 23 anos. Por anos, se dedicou aos finados sites Nerdice.com e Japão Bizarro como editor e colunista. Além disso, foi roteirista do canal de curtas de terror Medologia. Em 2014, fundou, junto com as irmãs, a empresa Calliope Soluções Editoriais, na qual trabalha até hoje como designer, capista e diagramador. Há quatro anos, Victor se mudou para Sorocaba, no interior paulista, por motivos de amor. E é lá que ele vive até hoje, mais feliz do que nunca com sua musa.

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Um comentário

  1. Dio / 8 de junho de 2018 at 02:24 / Responder

    Eu sou homem trans, o apelido da minha ex é Mia. Nos conhecemos pela internet e passávamos horas conversando no chat. Ela veio do RJ pra morar comigo, ficamos um tempo juntos, mas ela começou a ficar estranha, nada do que eu fazia era bom o bastante, e notei que ela passava muito tempo conversando com um cara que ela dizia ser apenas parceiro de jogos online. Ela sumiu um dia, foi embora e nunca mais voltou ou deu notícias. Ela tinha depressão profunda, a ponto de passar dias sem falar uma palavra sequer. Foi estranho ler esse conto. foi muito estranho e até doloroso.
    Dizem que as ideias estão no ar, parece que as histórias também estão.

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