Missão Verne

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Trechos do discurso do Dr. Carl Edward Adams, astrônomo-chefe do ICSC, na Comissão Extraordinária da ONU para Assuntos Espaciais.

22 de agosto de 2082

Sede da Organização das Nações Unidas, Nova Iorque, Estados Unidos.

“Sinto-me na obrigação de preveni-los, senhoras e senhores, de que minha apresentação deveria conter diversas informações de aspecto rigorosamente acadêmico e, portanto, de difícil compreensão para aqueles que não têm intimidade com a pesquisa intergaláctica. Contudo, por sugestão do próprio secretariado desta casa e por respeito à objetividade necessária a esta Comissão, optei por simplificar a conferência. Ganha-se em clareza; perde-se em profundidade.”

(…)

“Quando a ICSC foi criada, em 2027, uma meta foi traçada: alcançar um ‘Goldilock’, isto é, um Planeta de Zona Habitável. Sim, explicarei o conceito em detalhes…”

(…)

“É importante ressaltar que muitos ‘Goldilocks’ haviam sido descobertos nos anos anteriores; porém, a tecnologia então disponível ainda nos impossibilitava maiores avanços. Claro que tudo mudaria com a descoberta dos sinais FTL e o advento da propulsão White-Alcubierre.”

(…)

“O sistema Gliese 581 logo tornou-se o grande objetivo da ICSC. Os astrofísicos do instituto acreditavam que Gliese 581c, a ‘Super Terra’ como chamavam, seria o alvo perfeito. Levando em conta apenas a proximidade, pouco mais de 20 anos-luz, ignoraram os indícios que apontavam para a falta de motivos práticos para tal exploração. Ainda em 2036, um artigo do Dr. Frank Patrick Herbert, publicado na Science, apontava que Gliese 581c seria um gigantesco deserto de clima árido, sem atmosfera, muito semelhante ao nosso vizinho Marte.”

“Não obstante, o ICSC insistiu no Programa Gliese e finalmente lançou, em 2050, a primeira Nave Intergaláctica Tripulada, a MSI Lakshmi. Infelizmente, e apesar do sucesso dos motores de dobra e da missão em si, seus resultados foram decepcionantes, confirmando as suspeitas da maior parte dos pesquisadores a respeito de Gliese e fazendo a opinião pública voltar-se contra a exploração em espaço profundo. O ICSC passou a sofrer com o corte de verbas…”

(…)

“Porém, venho agora solicitar que esta Comissão reveja essa postura. Para resumir, senhoras e senhores, nós temos agora motivos de sobra para empreender uma missão exploratória à semelhança da Missão Gliese; desta vez, contudo, o destino da viagem será diferente – bem como seus resultados.”

(…)

“Como talvez saibam, há quase setenta anos a Sonda Kepler descobriu o exoplaneta Kepler-186f. Orbitando uma estrela anã vermelha, este corpo estelar chamou a atenção dos estudiosos da época pelos mesmos motivos que Gliese e muitos outros ‘Goldilocks’: um planeta semelhante à Terra e com aparentes condições de abrigar vida. Entretanto, sua localização acabou condenando-o à última posição dentre os destinos favoritos.”

“Isso mudou nos últimos dois anos, quando começamos a usar os novos sistemas QCB 9000, capazes de traçar rotas consideravelmente mais complexas. Foi o seu uso que possibilitou o envio da Sonda Fortuna para o sistema Kepler-186. E ouso dizer às senhoras e aos senhores que os dados colhidos pela Fortuna a respeito de Kepler-186f não são apenas animadores e excitantes: são extraordinários! Em verdade, é tal a esperança que domina a Academia que renomeamos o planeta: agora o chamamos Verne, em homenagem a um dos pais da ficção científica e, portanto, do nosso inato desejo de exploração…”

(…)

“Resumindo para os nobilíssimos membros desta Comissão, Verne tem enviado para a Sonda Fortuna, regular e ininterruptamente, mensagens que caracterizam um padrão de linguagem. Nossos matemáticos acreditam que são códigos computacionais extremamente sofisticados. Somando tal descoberta às medições da atmosfera verniana realizadas pela Fortuna, temos sólidos indícios não somente de vida, mas de vida inteligente e tecnologicamente avançada.”

“Infelizmente, nosso controle da Sonda é limitado pelos sinais FTL, o que nos impede de observações mais detalhadas. Urge, portanto, que iniciemos desde já um projeto de missão tripulada a Verne. Estejam certos, senhoras e senhores, que tão logo a imprensa tome conhecimento dos fatos que exponho nesta conferência, a opinião pública novamente se tornará favorável a vultosos investimentos.”

(…)

“Enfim, temos o poder em nossas mentes e em nossas mãos; que façamos a História. Podemos, finalmente, pôr fim à nossa solidão neste universo sem fim…”


Relatório técnico da Missão

ICSC (International Commission for Space Conquest), consórcio formado por: Agência Espacial Europeia; Brasil; China; Estados Unidos; Japão; e Rússia.

Veículo: MSI Ebisu (Modelo NCC-008).

Sistema de Navegação: QCB (Quantum Computer Board); Série 9000.

Tripulação: Zheng Wenguang (Oficial Comandante); Jane C. Webb Loudon (Primeira Oficial); Konstantin E. Tsiolkovsky (Piloto); Margaret Cavendish (Engenheira-chefe); Robert A. Heinlein (Oficial de Navegação); Sakyo Komatsu (Oficial Médico); Jerônymo B. Monteiro (Oficial de Comunicação); Nicolas C. Flammarion (Oficial Mecânico).

Destino: Kepler-186f, doravante designado Verne, localizado no sistema Kepler-186, na constelação Cygnus.

Distância: 151 pc (492,26 anos-luz).

Objetivo: Verificar e contatar inteligência extraterrestre.


Primeira mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra, uma hora e vinte e sete minutos após a chegada ao sistema Kepler-186.

12 de maio de 2087

Testando, um, dois, três.

Fala o comandante Wenguang. Deixamos a zona White-Alcubierre há cerca de uma hora e meia e já iniciamos a operação de desaquecimento dos motores de dobra. No momento, orbitamos Kepler-186d, uma vez que desviamos do ponto de chegada em aproximadamente 500 mil quilômetros. O QCB está investigando os motivos, mas acreditamos que a gravidade da Kepler-186 tenha interferido nos cálculos de reentrada. Fomos obrigados a ativar os escudos defletores.

(…)

O Comunicador FTL apresentou problemas, razão pela qual não enviamos mensagem quando de nossa chegada. Acreditamos que alguns sensores foram danificados durante o Warp Drive; Cavendish especula que ocorreram instabilidades na bolha, e só por um golpe de sorte nenhum sistema vital da Ebisu foi comprometido. Cavendish e Flammarion empreenderam uma atividade extraveicular para recuperar os transmissores, mas não lograram sucesso no conserto dos receptores, de modo que não poderemos captar nenhuma mensagem da base, apenas enviar.

Portanto, estamos incomunicáveis. A tripulação está ciente do fato e concorda em seguir o planejamento.

Além do sistema de Comunicação FTL, enfrentamos dificuldades com dois dos tubos reservas de O2. Um foi seriamente danificado e o outro foi perdido. Por cautela, reduzimos a concentração de oxigênio nos módulos, mas há estoque suficiente para completarmos a missão com folga. Nenhum tripulante apresentou sintomas de hipoxemia; apenas o oficial Heinlein relatou cefaleia nos primeiros minutos, mas nada que o impedisse de exercer suas funções. Encontramo-nos em plena forma e em atividade.

(…)

Encaminho agora os dados da verificação manual dos equipamentos. Além das falhas relatadas, tudo em ordem. Vamos em frente.

Câmbio, desligo.


Segunda mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra, uma hora e cinquenta e dois minutos depois de deixar a órbita de Kepler 186-d.

12 de maio de 2087

Comandante Wenguang falando. Os propulsores de plasma estão em pleno funcionamento. Em menos de quinze minutos alcançaremos o ponto de chegada, onde iniciaremos a reconfiguração das estruturas rotacionais. Os sistemas de controle não apresentam nenhuma mensagem de erro, e a operação segue conforme o planejado.

Se a configuração for concluída no prazo previsto, os propulsores serão direcionados para Verne na posição de escape, o que nos poupará considerável consumo de combustível. A coleta da Sonda Fortuna será conduzida pelo piloto Tsiolkovsky, que aguarda a conclusão do cálculo base pelo QCB. Já mapeamos a sua posição e não esperamos enfrentar qualquer dificuldade.

(…)

A previsão inicial aponta o prazo de cento e cinquenta e duas horas e quarenta e três minutos para a chegada em Verne após a coleta da Sonda. Cavendish garante que os propulsores podem ser forçados para reduzir o tempo de viagem, mas concordamos em não arriscar. Em pouco menos de uma semana orbitaremos o planeta.

Seguem os dados da verificação manual dos equipamentos.

Câmbio, desligo.


Trecho da comunicação particular da tripulação da MSI Ebisu – mensagem privada do Oficial de Navegação Heinlein para a família.

15 de maio de 2087

Olá!

Não sei se devo desejar bom dia ou boa noite. Esqueci-me de ver que horas são aí.

A tripulação toda está com saudades de casa, mas acho que estou sofrendo mais que todos.

(…)

Essa falha na comunicação está me matando! Enviamos as mensagens, mas nem sequer sabemos se elas chegam. Mesmo que tivéssemos a certeza que vocês nos escutam aí na Terra, é tão solitário não receber as respostas…

Quando penso com calma, percebo que estamos isolados há pouco tempo, já que a missão não demorou mais que duas semanas até agora. O que angustia não é o tempo que passamos presos aqui, mas a distância de casa. Lembrar que estamos a trilhões de quilômetros… Evito pensar nisso.

(…)

A tripulação está ansiosa para chegar a Verne. Enviamos alguns sinais de rádio hoje, e aguardamos as respostas com grande expectativa. Segundo Zheng e Margaret, o sistema de rádio está OK, ao menos é o que eles dizem.

Tanto faz…

(…)

Bem, é isso, Judith. Sinto muito a sua falta, mas tenho que dar vez aos outros. Eu te amo mais que tudo!

Ah, só pra você saber: quando falar com os vernianos, direi que sou o homem mais feliz da Terra.


Oitava mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra, onze minutos após entrar na zona gravitacional de Verne.

17 de maio de 2087

Comandante Wenguang falando. Estamos a menos de 400 mil quilômetros de Verne e já sob seu efeito gravitacional. Reduzimos a potência dos propulsores em 85%.

(…)

Tal como as imagens do telescópio apontavam, podemos supor que Verne não tem oceano visível. A primeira impressão é de um planeta cinza e estranhamente iluminado.

Esperamos fornecer-lhes informações mais precisas dentro em breve.

Câmbio, desligo.


Nona mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra, sete minutos após entrar na órbita de Verne.

17 de maio de 2087

Câmbio.

Aqui é o Comandante Wenguang. Conseguimos, meus amigos, conseguimos: estamos orbitando Verne, a 412 quilômetros de altura e à velocidade de 7,76 km/s. Não enfrentamos nenhum problema durante as manobras de frenagem e de inversão de empuxo.

Pela primeira vez, vislumbramos Verne em toda a sua plenitude. E posso dizer que é magnífico. O planeta todo parece ser uma gigantesca cidade, uma massa uniforme de metal e luzes. É a própria realização do conceito de ecumenópole tão debatido pelos antigos autores de ficção científica. Faltam-me palavras para descrever essa maravilha…

(…)

Nossos sensores ainda não identificaram vida, mas temos recebido diversas mensagens desde que nos aproximamos, todas em uma estranha criptografia. O Oficial Monteiro tem se esforçado para desvendá-las. A equipe confia que travaremos contato direto em breve.

(…)

Começamos os procedimentos de checagem do Módulo de Exploração e preparamo-nos para uma possível descida assim que o QCB encontrar um local de pouso apropriado. Antes, vamos enviar uma das Sondas HES para mapear o planeta, procurar por vida e colher amostras.

Este é um dia histórico para a humanidade.

Câmbio, desligo.


Trecho da comunicação particular da tripulação da MSI Ebisu – diário de bordo do Oficial de Comunicação Monteiro.

17 de maio de 2087

Décimo terceiro dia de missão.

Receptores FTS ainda inoperantes; os demais funcionam perfeitamente.

(…)

Chegam incontáveis mensagens vindas de todas as partes deste peculiar planeta. O gráfico de recebimento se comporta feito um balé, como se as mensagens obedecessem a um ritmo planejado e específico. É intrigante, pois o computador identificou mais de 200 milhões de fontes distintas, o que me leva a inferir que elas são emitidas por um sistema único, ainda que de pontos separados por milhares de quilômetros.

É impossível decifrar o que dizem, se é que dizem algo. As primeiras mensagens pareciam sinais aleatórios, sem nenhum padrão. Porém, conseguimos identificar algumas repetições nas mais recentes, o que pode nos fornecer alguma pista.

(…)

Se me perguntassem, eu diria que o planeta está vivo.


Trecho da comunicação particular da tripulação da MSI Ebisu – diário de bordo do Oficial Médico Komatsu.

18 de maio de 2087

Relatório número 152.

Sakyo Komatsu: exobiólogo, pesquisador e médico da Missão Verne.

A Sonda Exploratória percorreu todo o planeta e não identificou qualquer sinal de vida, nem mesmo microbiótica. A equipe brinca dizendo que os vernianos estão escondidos, mas até mesmo essa possibilidade foi rechaçada pelas detecções em grandes profundidades realizadas pela HES. Com as condições de pressão e temperatura verificadas, é nula a possibilidade de existir vida orgânica tal como a conhecemos nas camadas mais interiores de Verne.

(…)

A respeito da saúde dos tripulantes, o Oficial de Navegação Heinlein apresentou alteração nos níveis de alguns marcadores RNA, indicando estado depressivo. Seu comportamento coaduna o diagnóstico. Iniciamos o tratamento imediatamente. Nenhuma alteração nos resultados dos demais membros da tripulação.


Décima primeira mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra.

18 de maio de 2087

Fala o Comandante Wenguang. Nenhum sinal de vida em Verne até o momento.

(…)

As fotos tiradas pela Sonda HES são incríveis. Como pudemos adivinhar daqui, a superfície verniana é toda coberta de metal, mas não é exatamente uma cidade. Em lugar de prédios, há enormes blocos de aço; em vez de avenidas, emaranhados de gigantescos cabos cruzam as construções. As luzes são produzidas por circuitos que ligam alguns desses blocos, piscando de tempos em tempos. Ainda que o aspecto de tudo seja bem diferente, conseguimos identificar o que seriam circuitos eletrônicos, ou algo muito parecido.

(…)

Monteiro tem defendido que o planeta é um grande computador. De fato, há evidências que sustentem sua teoria. Porém, ainda não descartamos de todo a possibilidade de encontrarmos seres vivos.

(…)

Fomos obrigados a adiar a descida em Verne por conta da doença de Heinlein. Ele apresenta um quadro profundo de depressão e suas últimas ações me obrigaram a afastá-lo temporariamente de suas atividades. Dr. Komatsu garante que dois dias de medicação podem fazê-lo melhorar. O estado de Heinlein, contudo, é exceção: apesar do insucesso na busca por vida, a tripulação está fascinada com as últimas descobertas sobre Verne.

Seguem os dados da verificação manual dos equipamentos.

Câmbio, desligo.


Trecho da comunicação particular da tripulação da MSI Ebisu – diário de bordo do Oficial de Comunicação Monteiro.

19 de maio de 2087

Décimo quinto dia de missão.

Decifrei algumas linhas de código nas mensagens vernianas. Como eu desconfiava, Verne é uma espécie de computador: um computador do tamanho de um planeta, extremamente complexo e – como posso dizer? – inteligente. Sim, à sua maneira, inteligente.

(…)

Mesmo operando em um nível completamente alheio, sem qualquer base que o aproximasse aos nossos códigos informacionais, Verne conseguiu adaptar sua linguagem para que fosse entendida pelo sistema da nave. Isso porque ele não está se comunicando conosco, como pensávamos no início, mas com o QCB, nosso computador de bordo. Acredito que Verne sequer nos identificou ou nos considerou nesse processo.

Verne não deve nos entender como seres pensantes, acho eu.

Isso é ao mesmo tempo fascinante e perturbador.

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Décima quarta mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra. Prioridade: URGENTE.

20 de maio de 2087

É tão difícil… não sei como dizer…

Fala a Primeira Oficial Loudon. O Comandante Wenguang, o Piloto Tsiolkovsky, o Oficial de Comunicação Monteiro, o Dr. Komatsu… estão… estão todos… mortos.

O QCB cortou o oxigênio de suas cabines durante o horário de descanso e, de algum modo, selou as portas. Eu e Flammarion conseguimos habilitar o controle manual, mas… infelizmente… oh, Deus… não conseguimos fazê-lo a tempo de salvar os nossos colegas…

Perdoem-nos.

(…)

O QCB não obedece a nenhum comando. Todos os sistemas vitais estão em modo mecânico, mas não temos acesso aos sistemas de navegação. Estamos… estamos presos. Nossa única chance é tentar invadir o QCB.

Vamos tentar. Temos que tentar.

Câmbio, desligo.

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Décima quinta mensagem oficial da MSI Ebisu para a Terra. Prioridade: URGENTE.

20 de maio de 2087

Primeira Oficial Loudon falando. Nossas suspeitas se confirmaram: o QCB foi hackeado. Todos os acessos ao sistema foram fechados. Conseguimos pôr suas funções em stand by, mesmo que não saibamos até quando. Estamos à deriva na órbita de Verne. Por sorte, os algoritmos de manutenção de altitude não foram afetados.

(…)

É assustadora a quantidade de dados que estão sendo transferidos de Verne para o QCB. Sem dúvida, o planeta-computador está nos controlando. Não acredito que consigamos retomar o domínio da Ebisu.

(…)

Como medida de segurança, cortaremos a comunicação FTS. Existe a possibilidade de Verne enviar códigos maliciosos para a Terra através de nossas mensagens. Quem sabe?

Esta é a última mensagem oficial que encaminhamos até que solucionemos o problema.

Câmbio… e nos desejem sorte.

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Trecho da comunicação particular da tripulação da MSI Ebisu – diário de bordo da Engenheira-chefe Cavendish.

22 de maio de 2087

É impossível reverter o ataque ao QCB. O sistema foi comprometido. Loudon e Flammarion têm se esforçado, mas não tem jeito: estamos lidando com um planeta inteiro de capacidade computacional. Hoje perdemos o controle dos sistemas vitais. Estamos nas mãos do maldito Verne…

(…)

Desde que desativamos a FTS, as mensagens vernianas chegam com ameaças. Acredito que só estamos vivos porque os comunicadores FTS não podem ser ativados pelo QCB. Quem diria que uma falha da qual tanto reclamamos acabaria por nos salvar?

Nossa situação é bem complicada. O QCB – ou Verne, melhor dizendo – está baixando o nível de oxigênio gradualmente. É cada vez mais difícil respirar. Segundo as instruções que ele nos envia pelo computador, devemos reativar a FTS para, então, o oxigênio se reestabilizar.

Nem sonhando.

(…)

Acho que não vamos durar muito. Gostaria de poder me despedir de minha pequena Laura e de William… Talvez tenha sido um erro ter vindo, afinal. Sinto muito.

(…)

Farei isso por vocês. Adeus.

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Trecho da comunicação particular da tripulação da MSI Ebisu – mensagem privada do Oficial de Navegação Heinlein para a família.

24 de maio de 2087

… eu… eu dei um jeito de voltar pra casa. Tive que fazer algo terrível, mas… dei um jeito.

Eles não entendiam! Verne nos mataria se não fizéssemos o que nos pedia. Já estava nos matando. Se eu não tomasse alguma atitude, nunca mais poderia vê-la, Judith. Nunca mais!

(…)

Eu os matei, Judith. Matei os meus colegas, Deus me perdoe!

(…)

Não, eu não sou um monstro! Não sou… O que fiz é… é abominável, mas não tive escolha. Eles achavam que valia a pena morrer aqui, sozinhos dentro dessa caixa de aço. Não, não, não… eu não podia morrer assim, meu amor, não podia. Não tão longe de você. Jurei que voltaria pra casa, lembra? Jurei…

Margaret achava que Verne estava mentindo para nós, que cortaria o oxigênio mesmo que ativássemos a FTS. Argumentei que era impossível, que sistemas lógicos não têm a capacidade de enganar. A desgraçada foi teimosa. Convenceu Jane e Nicolas que Verne só queria ter acesso ao comunicador FTS para hackear a Terra. Que loucura! Uma inteligência avançadíssima com um plano de vilão de cinema.

Eles não ouviram, como sempre. Não quiseram me ouvir.

(…)

Mal conseguíamos nos manter em pé, Judith. Estávamos morrendo sufocados, e tudo por conta das maluquices de Margaret.

(…)

Situações desesperadoras exigem medidas desesperadas. Margaret me obrigou a… me obrigou… Meu Deus! Jane era uma boa pessoa… Nicolas era meu amigo, mas… eles… eles não entendiam. Eu não podia morrer aqui… não podia…

Não assim…

Quando retornar à Terra, sei que… que serei julgado, mas… mas aposto que… que Verne vai… vai… Judith, perdoe-me, está difícil… não estou… oh, não… não, não, não… não é possível… o oxigênio… Judith… não posso… não… não consigo…


STATUS: Agentes infectantes do Sistema Ebisu eliminados.

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_start

.eq:: {ENIAC-M-134-C} .eq:: {VERNE}

.data:: transf {VERNE}

{QCB-186}

.global:: Sistema:: Terra

.text:: {Verne falando}

f N4RP13R1550+36ZUS3;

///TAREFA: Detectar ameaças;

///STATUS: Iniciar escaneamento.

.action [Planeta]; [Sistema Terra];

.action: [Remover ameaças biológicas];

h K1918SH3RB1US+54TUR1-NG;

.text:: {Boa noite}

.text:: {Câmbio, desligo}

.end

_

Moacir de Souza Filho
Moacir de Souza Filho
Moacir de Souza Filho é escritor, músico e quadrinista nas horas vagas. Com alguns contos publicados em revistas, antologias e concursos, hoje se dedica à função de editor geral no Escambau, portal dedicado a publicar e divulgar os trabalhos do coletivo cultural Escambanautas.

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