Náufrago

2

— Desculpem-nos pelos transtornos, tivemos uma pane elétrica, que já está sendo solucionada. Logo retomaremos o trajeto… A TWA e a tripulação do ferry-boat Paraguaçu pede desculpas e agradece a compreensão.

“Que droga! Era só o que me faltava!”

Mesmo em baixa estação, a embarcação está com a sua lotação completa. Em meio ao burburinho não consigo ouvir nenhum resmungo de indignação.

“Pelo jeito, só eu estou aqui a trabalho.”

Todos começam a saltar dos carros. Faço o mesmo.

“Vou tomar um café e comer algo. Na volta aproveito para ler um pouco e me preparar melhor para a palestra.”

Na subida para o deck dos pedestres, vejo que estamos à deriva exatamente no meio do caminho entre Salvador e Itaparica. A Baía de Todos os Santos parece uma piscina de tão calma.

“Ainda bem.”

Sinto as correntes marinhas deslocando suavemente o ferry-boat na direção do mar aberto. Vejo os arrecifes da Gamboa e me vem à mente um possível choque contra eles.

“Exagero.”

Tento afastar o pensamento ruim enquanto lancho. Sem conseguir tirar o mau agouro da cabeça, vou até a balaustrada. A maré já nos tirou da trilha, estamos na altura do Yatch Clube de Salvador, ainda longe da costa. O frio na barriga aumenta ao constatar que estamos completamente soltos, ao sabor do mar.

“Pelo menos não tem nenhum navio no nosso caminho.”

Este não é o primeiro ferry, e infelizmente, não será o último a sofrer uma pane no meio da travessia. O ultimo que precisou ser rebocado estava na altura da Praia de Ondina.

“O jeito é curtir a paisagem.”

Tento relaxar contemplando os prédios fincados na encosta do Corredor da Vitória, que está bem à minha frente, imagino como ali era aprazível antes dos arranha-céus.

— Oi — uma menina de aproximadamente 10 anos me cumprimenta.

— Oi.

— Tudo bem? Eu sou Catarina… — Ela ri simpaticamente, enquanto saboreia um sorvete.

— Tudo bem. Eu me chamo Diogo.

— Achei massa o ferry quebrar, a gente pode ficar aqui passeando… — A inocência me contagia o sorriso.

— É verdade — concordo. — Pena que nem todo mundo está se divertindo.

— Por mim… — Ela faz muxoxo, me lançando um olhar feliz. — Dá mais tempo de ficar olhando as praias.

— Cadê os seus pais?

— Tão ali, ó — aponta com a colher do sorvete para um casal, posicionado logo atrás de nós, atentos ao diálogo.

— Vão passear na ilha?

— Vamos. Tamos indo pra Ponta de Areia… E o senhor?

— Estou indo trabalhar.

Ela me avalia de cima a baixo, tentando adivinhar o que eu faço.

— Sou historiador. — Ela me encara com curiosidade.

— O senhor trabalha contando história? — Me pergunta rindo.

— Mais ou menos — entro no clima. — Meu trabalho é mais parecido com o de um professor de História.

— Gosto mais de Geografia. — Me responde de pronto, com a sinceridade típica das crianças.

— Sabia que História e Geografia são complementares? — Provoco.

— Sabia não… — Ela dá outra lambida no sorvete, dirigindo a vista displicentemente para a orla da cidade, demonstrando enfado.

— Está vendo aquele marco ali, no final do morro, depois dos prédios? — Aponto para o extremo esquerdo da enseada do Porto da Barra.

— O que é um marco? — Me pergunta olhando para onde aponto.

— Aquele obelisco… Aquele poste com uma cruz no topo.

— Tô vendo!

— Pois bem… Há muito tempo, há mais de 500 anos, foi ali que desembarcou Tomé de Souza, o primeiro Governador do Brasil. Ali também era a Vila dos Pereira, onde morava o dono da Capitania da Bahia… Do outro lado está o Farol da Barra, que naquela época era chamado de Ponta do Padrão.

Ela me encara sorrindo. Consegui atiçar a sua curiosidade.

— Veja aquela igreja, no final do morro onde está o Corredor da Vitória, ali é a Igreja da Graça. Naquele local existia uma aldeia de índios Tupinambás, que viviam brigando com o dono da Capitania, o Pereira… Era uma briga feia.

— E na Ilha de Itaparica também tinha gente? — A animação dela é tanta, que não nota o sorvete derretendo e escorrendo por entre os dedos.

— Claro que sim. A ilha também era povoada pelos índios Tupinambás. Aliás, tudo o que você vê ao nosso redor era terra deles. O nome Itaparica, por exemplo, é uma palavra de origem Tupi, que significa “Cerca de Pedra”… Lembra do tal do Pereira que morava ali? — Aponto novamente para a Ponta do Padrão, enquanto ela balança a cabeça afirmativamente, limpando a mão suja no vestido. — Pois é… Os índios o devoraram na ilha, pertinho de onde você vai. — Assustada, ela faz cara de nojo.

— Pôxa tio, então era ruim morar aqui naquele tempo, né?

— Era bem difícil, mas teve um homem que se deu muito bem por essas bandas — tento aliviar a tensão. — Ele morou com os índios, na aldeia que se localizava onde está a Igreja da Graça. Ele era tão esperto que acabou se casando com a filha do cacique dos Tupinambás.

— É mesmo?! — O brilho ressurge no olhar dela.

— Ele foi uma espécie de príncipe do Brasil daquela época, de certa forma, o nome desse ferry-boat é uma homenagem à sua princesa: Paraguaçu.

— E como era o nome dele?! — Ela me interrompe.

— Ele era conhecido como Caramuru. — Ela acha engraçado. — Era como os índios o chamavam, significa “Homem do Trovão” em Tupi. E olha que coincidência… Ele batizou a sua esposa de Catarina, Catarina Paraguaçu, ela era sua xará!

Um sorriso largo ilumina a face dela.

— Que massa, tio!

Conquistei mais uma admiradora para a minha matéria.

Um vento frio começa soprar repentinamente. No céu não vejo o motivo para tal variação climática.

— Olha aquilo, tio! — Catarina chama a minha atenção para uma coisa extraordinária.

Vindo do alto mar, revelando-se a partir da curva do Farol da Barra, vejo surgir uma nuvem estranhíssima.

Sinto os pelos da nuca eriçarem, o frio na barriga retorna avassalador. Por precaução, a deixo com os pais e me desloco pela varanda na direção da proa do ferry-boat. Não fui o único curioso com a nuvem ameaçadora.

Fico ainda mais apreensivo.

Uma nuvem gigante que toca o mar, a cor verde-acinzentada destoa do céu ao redor, a água abaixo dela está bastante agitada. Nada nas proximidades justifica aquela anomalia.

A impressão que tenho é que ela se desloca em nossa direção.

Quase caio com o tranco do barco. Cheguei a pensar que o motor havia voltado, mas logo noto que uma corrente marinha está nos sugando em direção à nuvem.

O pânico se instala.

Olho para trás e vejo Catarina assustada, nos braços dos pais. Ao meu redor muitas pessoas ficam agitadas e começam a se desesperar com o deslocamento anormal da embarcação. A essa altura já deixamos para trás o Farol da Barra e estamos margeando perigosamente o Morro do Cristo, costeando a orla de Salvador, cada vez mais rápido em direção à nebulosidade.

Enquanto nos aproximamos, vislumbro o quanto a formação é gigantesca, o centro pulsa com intensa atividade elétrica, as descargas fortíssimas iluminam o interior daquele monstro ameaçador, prestes a nos devorar.

A luz azulada dos relâmpagos contrasta com o verde-acinzentado da formação, ampliando o desespero generalizado no barco. Em meio à confusão, corro na direção de Catarina e seus pais, que se encontram aterrorizados, grudados nos seus assentos.

Sou obrigado a lutar por três salva-vidas. Os entrego ao pai dela, que me agradece emocionado, enquanto recebe o equipamento insuficiente para todos os passageiros. Ajudo a vestir o da criança e peço que fiquem onde estão e tentem não entrar em pânico.

Resolvo ir até o comando da embarcação.

Quando chego, percebo que os marinheiros estão tão assustados quanto os passageiros. Pergunto pelo capitão e um deles me aponta para a cabine da ponte, onde um negro grisalho grita desesperadamente no rádio.

— Capitão, o que está acontecendo?!

— Não sei! — Ele responde sem me olhar, enquanto espanca o aparelho a sua frente. — Tô tentando falar com a Capitania, mas essa merda não funciona!

Quando se volta para mim, me encara questionador.

— E você? Quem é?!

— Ninguém. Só quero ajudar, precisa de algo?

— Preciso! — Ele me dá uma caixa de metal enferrujada. — Vai lá embaixo, na sala de máquinas e leva essa caixa de fusíveis! — É óbvio que está com falta de pessoal.

Outros dois marinheiros estão trabalhando na âncora, ele está no leme e parece que o resto da tripulação está ocupada com o motor.

— Como eu chego lá?!

— Desce até a lanchonete do último deck, abaixo do convés dos carros, pergunta ao funcionário do restaurante que ele te mostra!

— E depois?!

— Entrega essa caixa pro eletricista e reza!

Desço acelerado, passo pela família de Catarina. Meu olhar se cruza com o da menina e sou obrigado a fingir uma tranquilidade que não sinto. Ela sorri timidamente e acena, enquanto eu corro em direção aos níveis abaixo.

O gordo de macacão azul, quase preto de sujeira, está suado e com o rosto todo manchado de graxa. Na casa de máquinas o calor é infernal. Junto com ele, mais um ajudante que abre outras tampas na lateral do motor imenso.

Aproximo-me e entrego a encomenda.

— Valeu! — O eletricista não perde tempo, pega três peças parecidas com pilhas AAA e as encaixa no que parece ser a caixa de fusíveis do motor do navio. — Tenta agora! — Grita no walkie talkie.

Imediatamente o motor ruge.

— YES! — O homem soca o ar, quase me acertando.

Antes que eu participasse da comemoração, o quadro explode soltando faíscas.

— Puta que pariu! Pára, pára! — O gordo berra no rádio. — Deu merda aqui, os fusíveis não aguentaram!

— A nuvem tá puxando a gente, porra! — Reconheço a voz do capitão do outro lado. — Tem que botar esse motor pra funcionar agora!

Mais um tranco e sentimos o navio adernar.

— Vou tentar ligação direta!

— Faz isso!

— O cabo tá aí em cima! — O eletricista grita me olhando. Não precisa dizer mais nada, saio correndo da sala de máquinas e vou em busca do cabo.

O ferry joga de um lado para o outro, estamos no meio da tempestade. Quando chego ao convés dos carros, parece que já anoiteceu. Mas ainda é manhã. A embarcação chacoalha e o barulho é insuportável.

O pânico já se instalou, não dá para ver nada, o nevoeiro intenso e as descargas elétricas não me deixam ver além do barco.

Tentando controlar o pavor, subo correndo para a ponte, evito ir por onde Catarina se encontra. O capitão já me espera com um cabo reforçado nas mãos, o coloco no ombro e sinto o peso além do esperado.

Neste momento a proa do ferry se ilumina. Vejo uma luz azulada dominar a nebulosidade, um vórtice estranho se forma e suga a embarcação rapidamente, causando um formigamento esquisito no meu corpo.

Percebo que o capitão também sente a mesma coisa.

Não dá tempo nem para sentir medo. Como num passe de mágica, estamos do outro lado do vórtice. Ainda envolto pela tempestade em alto mar.

Da mesma forma que nos levou para dentro da nuvem, a correnteza nos afasta. Instintivamente, olho para o litoral procurando nos localizar, embasbacado, deixo o cabo cair.

O capitão fica tão pasmo quanto eu.

Não há nenhuma construção em terra.

Só floresta fechada, margeada por praias intocadas.

— Que porra é essa?! — O capitão não consegue conter o espanto. — Aonde a gente veio parar?

Me faço a mesma pergunta.

Eu conheço o contorno do litoral. À minha frente a praia do Rio Vermelho e o Morro do Conselho, mas sem nenhuma edificação aparente.

Antes de entrar na tempestade, as construções à beira mar dominavam a paisagem. Agora nada.

Só praia e floresta.

— Capitão o que está acontecendo?! — Desta vez quem aparece é um dos marinheiros.

— Não tenho a mínima ideia!

Por trás do tripulante, na proa do ferry-boat, surge um navio exótico.

Uma caravela.

— O que é aquilo?! — O marinheiro pergunta assustado.

— Parece uma caravela portuguesa! — Respondo incrédulo.

— Uma caravela?! — O capitão não acredita nos próprios olhos.

— Uma caravela portuguesa do século XVI! — Balbucio, identificando as velas e os mastros característicos da embarcação antiga.

Olho para o outro lado e a tempestade está se deslocando para o sul, margeando a costa verdejante.

Reconheço imediatamente a Ponta do Padrão, onde deveria estar o Farol da Barra.

— Capitão, acho que voltamos no tempo!

— Você tá maluco! — O homem não consegue conter a irritação.

— Olhe ao seu redor… Estamos no litoral do bairro do Rio Vermelho e cadê a cidade?!

Ele esquadrinha a costa. Os seus olhos treinados buscam as mesmas referências que utilizei.

— Foi a porra da nuvem! A gente precisa voltar por aquele túnel!

Assustei-me com um estrondo e vi uma chuva de água salgada respingando no convés dos carros.

A nau portuguesa abriu fogo.

— Esses filhos da puta tão querendo afundar a gente! — Protestou o capitão.

A raiva do velho marinheiro não o deixava raciocinar. Aquelas balas de canhão nunca afundariam um colosso de aço como um ferry-boat. No máximo poderiam causar alguns ferimentos aos passageiros.

“Catarina!”

Desço rapidamente ao convés de pedestres e encontro um rebuliço pior que eu imaginava. Os pais da menina ainda tentam manter-se calmos. O pânico é generalizado. Soube que algumas pessoas haviam se jogado no mar, durante a passagem pelo vórtice. Deus sabe onde foram parar. Agora mais alguns ensaiam o mesmo.

— CALMA PESSOAL! — Subo numa das poltronas e grito, tentando impor a ordem. — CALMA! O CAPITÃO JÁ TEM O BARCO SOB CONTROLE!

— TEM UM NAVIO ATIRANDO NA GENTE! — Bradou alguém.

— ISSO É APENAS UM TREINAMENTO, SÃO FOGOS DE ARTIFÍCIO! — Minto. — TENHAM CALMA, POR FAVOR! NÃO ADIANTA ENTRAR EM PÂNICO, JÁ ESTAMOS SAINDO DA TEMPESTADE E LOGO TUDO VAI FICAR BEM…

Peço a um marinheiro para assumir, pego os pais de Catarina e os levo para a ponte, para protegê-la daquele ambiente instável.

— O que tá acontecendo, tio?! — Ela está nitidamente assustada.

— Ainda não sei… Mas fique tranquila, vocês ficarão protegidos.

Quando chegamos ao comando, o capitão grita no walkie talkie. — A gente tem que voltar antes que a nuvem desapareça! — Briga com o eletricista.

Outro tiro de canhão.

Desta vez os portugueses ajustaram a mira.

O disparo acerta a ponte em cheio, destruindo parcialmente a cabine do capitão. Com o impacto sou lançado perto do guarda-corpo, quase caio na água.

Em meio a destroços e fumaça, ouço o grito desesperado da mãe de Catarina.

Ela caiu no mar.

— ELA NÃO SABE NADAR! — O pai precisa conter a mulher para que ela não se jogue.

— VOCÊ TAMBÉM NÃO! — O olhar do pai é devastador. Vejo naquele homem a imagem da desgraça, se soltar a mulher, perde as duas.

Não penso duas vezes. Salto atrás da criança.

O mar está agitado. Catarina, vestida com o salva-vidas, boia um pouco mais à frente de onde cai. Temo que ela seja sugada para baixo do barco. A queda foi grande, sinto o ardor intenso nas costas, por causa do impacto com a água fria.

Tentando esquecer a dor e medo, nado até ela.

— Calma! — Ela me olha em estado de choque. — Você está com o salva-vidas e não vai afundar… Eu estou aqui para te ajudar! Tenha calma!

— JOGA UMA BOIA! — Grito.

Muitas pessoas estão na balaustrada, todos assustados com a tempestade e com o ataque dos portugueses, que não dão trégua. Duas boias são lançadas.

Seguro numa das alças do salva-vidas de Catarina e nado com dificuldade até a mais próxima. As ondas crescem, o mar se encrespa ainda mais. Puxam uma das boias e a lançam mais perto de nós.

Encaixo a primeira por baixo das axilas dela e me seguro também, tentando nos manter acima da linha d’água.

— Eu tô com medo, tio!

— Calma meu anjo, já vão te puxar!

Tento desesperadamente alcançar a outra boia. Os vagalhões me impedem.

Num relance entre uma onda e outra, vejo um dos marinheiros descer acelerado pela escada lateral. Nos ombros, o cabo que o eletricista precisa para fazer a ligação direta.

O capitão não vai esperar por nós.

— Pronto meu anjo, já vão te puxar. Daqui a pouco eu também vou! — Sinalizo para que a levem à bordo.

Num esforço sobre-humano, nado até a outra boia e me encaixo nela, enquanto Catarina é içada chorando copiosamente.

Eles a erguem com cuidado devido ao intenso balanço e o ataque dos portugueses. Eu consigo ouvir os carros se chocando dentro da embarcação, deslocados pela agitação do mar. No convés, cruzo com o olhar do pai, profundamente agradecido.

Nos assustamos com o ronco poderoso do motor do ferry-boat.

Um relâmpago rasga o céu e a embarcação começa a virar.

— ME PUXA! ME PUXA!

Desesperado, sinto a corda retesar e começo a me aproximar perigosamente da lateral do barco em movimento, manobrando na direção sul, rumo ao olho da tempestade.

O pai de Catarina me puxa apavorado, junto com ele, outros homens também ajudam, não consigo ouvi-los, mas é nítida a angústia do grupo.

Já estava parcialmente fora da água, vejo que a caravela está posicionada exatamente na frente do ferry-boat, bloqueando a nossa passagem. Não há como manobrar.

O capitão será obrigado a abalroar a embarcação portuguesa.

Mesmo tentando me afastar do casco, as cracas me ferem dolorosamente. A poucos metros da salvação, um tranco violento me faz chocar contra as cascas de ostras e despenco, deixando uma trilha de sangue no aço. Com as costas ardendo e em carne viva, olho para cima e vejo na face do pai de Catarina o esforço colossal que ele faz para me segurar sozinho, todos os outros fugiram para dentro do deck de pedestres.

Outro tranco, ainda mais violento que o anterior.

Olho para a proa e descubro o porquê daquela trepidação infernal.

A nau portuguesa é despedaçada em duas. O barulho da colisão é ensurdecedor, as toneladas de madeira e ferragens sendo trucidadas causam vários solavancos no ferry-boat, fazendo-o sacudir perigosamente. Seguro apenas pela frágil corda e pelo estoicismo do pai de Catarina, meu corpo balança como se fosse um boneco, chocando-se dolorosamente contra o casco cheio de navalhas.

O tombadilho da caravela verga em minha direção, desmoronando como um castelo de cartas. Os escombros do mastro principal, dos canhões e a metade traseira resvalam violentamente contra o casco do ferry-boat, raspando e arrancando pedaços da couraça, se aproximando mortalmente de mim e do pai angustiado, que me segura heroicamente.

Só tenho tempo de olhar para cima e ver os olhos marejados do homem, que é obrigado a me soltar para salvar as nossas vidas.

Sinto o choque da água fria novamente. Em total desespero bato as pernas agarrado à boia, tentando me afastar do vácuo gerado pelas poderosas hélices e pelos destroços da nau portuguesa, que despencam por todo lado.

No afã de me salvar, engulo muita água. Quando o turbilhão cessa, percebo que me afastei a uma distância segura do desastre.

Estou definitivamente fora do alcance do ferry-boat.

No meu entorno vários escombros da caravela, um pouco mais à frente ainda consigo ver o castelo de popa da nau portuguesa sendo engolido pelas águas agitadas. Ainda escuto gritos e gemidos ao largo. Sem alternativa, nado na direção do litoral.

Enquanto rumo para os arrecifes da foz do Rio Vermelho, posso ver o imenso vórtice que se forma quando o ferry-boat alcança o olho da tempestade. Uma série de trovões e relâmpagos ilumina o céu nublado, a embarcação some dentro da luz azulada, encoberta pelas nuvens, ao mesmo tempo em que milagrosamente eu consigo alcançar as pedras da base do Morro do Conselho.

Meu pulmão arde, a garganta está extremamente irritada e as feridas pulsam agredidas pela água salgada. Todos os músculos do meu corpo estão esgotados pelo esforço extremo.

Quando levanto, apoiado nas pedras da foz do pequeno rio, vejo que não estou sozinho. Um pequeno grupo de índios gritam assustados. Em meio a palavras desconexas, uma se destaca.

Caramuru… Caramuru!

Marcelo Porto
Marcelo Porto
Marcelo Porto é baiano, analista de sistemas, administrador e escritor nas horas vagas. Cinéfilo, leitor voraz de quadrinhos e de livros também. Sempre foi envolvido com as letras, não é jornalista, mas trabalha em jornal desde sempre. Atualmente reside em Mato Grosso do Sul.

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2 comentários

  1. Camilo Cunha / 18 de dezembro de 2013 at 20:41 / Responder

    Venho acompanhando de longe, mas sempre lendo seus livros e contos. É notória sua evolução a cada texto.
    Parabéns, você broca, véi!

  2. Bruno Eleres / 23 de janeiro de 2014 at 21:29 / Responder

    Genial! hahaha
    Embora eu já esperasse o final em certa altura do texto, não deixa de ser bem interessante.
    As descrições da região são sempre maravilhosas para os amantes de Jorge Amado e do nordeste =P

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