Noturno deserto

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Eles não têm esse direito. Não têm mesmo. Essa foi a primeira coisa que ela pensou, enquanto era levada ao salão das deliberações. A segunda foi a mesma que a primeira, e a terceira, e a quarta. Então, perdido no meio de todas essas repetições, um pensamento intruso: Lox irá me ajudar. Tenho certeza. Mas eles não têm esse direito. Não dizia nada, mas sua respiração pesada entregava tudo aos dois que a escoltavam. Estes também cumpriam suas obrigações em silêncio — mas um silêncio cheio de compreensão e amizade, ela sabia. Por fim, chegaram.

O salão estava cheio. Todos estavam lá; é claro que não perderiam o espetáculo. De acordo com as regras — que ela mesma ajudara a escrever! — deveria cumprimentá-los, dizer algumas palavras… Mas não fez nada disso; apenas se sentou no banco dos réus.

E pensar que estava certa de nunca mais estar naquela posição outra vez… Viu que sua atitude causara uma reação negativa em muitos deles, ainda que houvessem alguns que riram ou que a aprovaram abertamente. Viu Lox finalmente, e apesar da tristeza que ele mostrava, já foi suficiente para acalmá-la. O Ancião Nereu — que não era um desses que demonstravam coisa alguma — se levantou.

— Você sabe, minha filha, por que está aqui — disse ele, eternamente cansado.

Ela nada disse.

— Que seja — suspirou ele. — De acordo com as regras, você está aqui, Gaia, para ser julgada pelo seu alegado mau uso do Livro das Sociedades.

— Mau uso — repetiu Gaia, sorrindo. O que podiam dizer, eles, sobre regras? Eles, que foram expulsos, eles, que foram parar ali justamente por quebrar regras… — A vida transborda no mundo físico — disse ela. — A natureza está em equilíbrio. A teia da vida está perfeitamente balanceada em cada uma de suas ramificações. Aponte-me onde está o mau uso nisso. — Olhou para a audiência; os fiéis a Nereu se inquietaram, mas permaneceram calados. Isso mesmo, sigam as regras.

— Gaia, nós decidimos isso há tanto tempo… — Nereu transbordava sua tristeza, mas não podia, realmente, fazer nada. — Eles têm que evoluir. Você há de concordar que o que você fez, por mais… bonito que seja, não pode ser considerado uma sociedade! Você poderá ficar com o Livro do Corpo, para dar prosseguimento aos seus…

— Eu vou perder meu Livro…? — interrompeu ela, esquecendo-se de seu autocontrole. — Vocês já decidiram tudo?!

— Sim, Gaia. Sabíamos que você não aceitaria bem nossas decisões, por isso a trouxemos apenas para ouvi-las.

Gaia soltou o ar, sentindo suas energias se esvaírem de uma só vez. Tinha planejado toda a sua defesa de forma quase magistral, mas acabara de perceber que isso de nada adiantara.

— Vou vê-los evoluir, então — riu ela. — Evoluir para o que nos tornamos. Para o que eles se tornaram, lá em…

— Não, Gaia, não há por que nós… — Nereu desistiu. Movimentou alguns cristais de registro, no tablado, fingindo arrumá-los, e se concentrou em sua respiração e em seus próprios pensamentos. — Enfim, isso tudo já foi discutido. Exaustivamente — pontuou. — Separamo-nos daquela matéria para que possamos torná-los melhores… E nos tornarmosmelhores. E então você nos enganou. Não pode negar isso.

Mesmo contra sua vontade, ela se viu forçada a assentir.

— Já não temos escolha, Gaia — disse então Shaka, o Primeiro Conselheiro, levantando-se, à direita de Nereu. Em seus olhos claros, o conhecimento de eras podia ser entrevisto. Sua fala era pouco mais que um sussurro, mas ainda assim perfeitamente audível. — O que podemos fazer agora? O que poderíamos ser, se tudo continuasse assim?

— O que poderíamos ser? Pela primeira vez, poderíamos deixar de ser uma coisa: egoístas. Egotistas. Egocentristas. — Gaia viu que sua fala abalara muitos deles… Mas, àquela altura, pouca diferença fazia. Pelo menos não sairia como a vilã da história, junto à… outra.

— Sinto muito, mesmo, Gaia — encerrou o Ancião. Levantou-se, junto a Shaka e Rá, o Eleito. — Essa é a nossa decisão, e não é tão ruim quanto poderia ou deveria ser. Você perderá o Livro das Sociedades, que passará a Hubal, mas receberá o Livro do Corpo, que Prometeu concordou em dar-lhe após permitirmos que ele desenvolva uma nova espécie.

— Essa é, então, a decisão? — perguntou ela, já com suas reações perfeitamente controladas.

— Sim. Essa é a decisão.

Muito bem. Que seja.


— Você não votou a favor deles, não é? — perguntou Gaia, aninhada no ombro de Lox, à noite. Sabia que não conseguiria dormir, então nem tentava.

— Claro que não — respondeu ele, acariciando seus cabelos. — Desde quando punidos podem punir seus semelhantes? — Ele chorava, mas ela não sabia disso. — Eles não têm direito de… de fazer isso. É o que eu acho.

— Mas eles vão ver o erro que cometeram — disse Gaia.


Gaia atirou-se do mundo etéreo em direção ao mundo físico, ignorando súplicas e lamentos. Pelo meio do caminho, em queda livre, suas lágrimas secaram, e ela jamais entendeu — e ninguém mais, nunca — o porquê de elas terem sido afetadas pela atmosfera; ela queria chorar, queria chorar mais ainda do que já chorara, porque nenhum sofrimento do mundo se compararia àquele que ela sentia, mas o momento da dor era passado, e assim ela assumiu seu primeiro maha, um pteranodonte, e logo se juntou a um bando deles que cruzava os céus.

Seus belos filhos voadores logo a reconheceram e bailaram ao seu redor, subindo e descendo, mergulhando e girando, satisfeitos com a visita. A vista daquela alegria toda fez a deusa querer continuar chorando, inundar o mundo com lágrimas, mas aquela anatomia não permitia, aqueles seres não eram feitos para a tristeza. Como ela diria a eles que…? Como poderia? Os seus filhos? Gaia esteve a ponto de mudar de ideia, deixar que Hubal os evoluísse — os profanasse —, mas o ódio reassumiu seu bem-vindo lugar, fundo em seu coração, enquanto via o líder daquele grupo, puro como qualquer um dos outros, mergulhar nas águas e pescar um peixe, trazendo-o para ela, sua mãe, como um presente. Ela ficou grata por ter convivido por tanto tempo com Nemesis. Obrigada por me ensinar a vingança.

Gaia agradeceu ao pteranodonte, usando o simples e eficaz sistema de comunicação sonora que os outros cismavam em criticar, mas que atingiam todos os objetivos necessários a todos — todos! — os seus filhos, e se despediu, sem olhar para trás, já rumando à terra.

Pousando sobre uma formação rochosa, aquela configuração de Mahagaia farejou o ar e localizou outra espécie. Transmutou-se em microrraptor e adentrou as rochas, em busca da mãe que guarda os ovos no ninho. Naturalmente o pequeno ser assustou-se e imediatamente assumiu sua postura de ataque; Gaia se orgulhou profundamente daquilo, vendo que a mãe lutaria até a morte pela sobrevivência dos filhotes, mas, naturalmente, tal medida não seria necessária. Assim que foi reconhecida — e que cessou a torrente de cumprimentos —, a deusa juntou-se à mãe em sua vigília, Acompanhou-a em seus últimos momentos e nos últimos daqueles filhotes que jamais nasceriam, que jamais teriam tempo para ver crescer suas próprias penas, belas e furta-cor como as da mãe.

Descendo das rochas, sentindo o ar gelado em suas narinas, Gaia mais uma vez reafirmou a si mesma como tudo aquilo era injusto. O ódio, a fúria, a revolta cresciam em sua alma na mesma medida que sua tristeza. Saltou para o ar e, antes que inspirasse mais uma vez aquele ar cheio de aromas, já era novamente um pteranodonte. Tinha decidido visitar cada espécie, cada uma que ajudara a criar, mas não aguentaria a dor; aquilo seria demais. Cruzou os céus numa distância que pteranodonte real nenhum teria conseguido, durante todo o resto do dia e durante toda a noite, até finalmente descer junto ao maior rebanho de seus preferidos — os ceratópsios. Tricerátopes, dicerátopes e torossauros conviviam pacificamente, e abriram caminho para que a deusa pousasse e assumisse, educadamente, uma forma intermediária entre todas aquelas espécies. Mesmo os titanossauros e parassaurolofos, ao longe, no vale, saudaram-na. Aqueles foram os últimos momentos de Gaia sobre aquele mundo físico, ali, entre eles. Até um tiranossauro, ao longe, mantendo seu respeito pelo território rival, urrou em respeito à deusa, e ela, em pensamento, desejou que qualquer um daqueles imbecis que a julgaram estivessem ali para ver — não como eles já “viam”, mas que pudessem realmente apreciar — toda a beleza e equilíbrio daquele mundo.

O que quer que ela desejasse, contudo, naquele momento deixou de ter qualquer importância — Lox a havia contatado, dizendo-lhe que era finalmente chegada a hora.

Ele conseguira roubar o Livro do Cosmos.

E, mais incrivelmente ainda, localizar nele o que ela queria — ou não queria, mas que faria assim mesmo.


Natlehi tentava, desesperadamente, dissuadir o marido Rá, mas era inútil. Ainda assim, contudo, tinha que tentar.

— Caronte já está pronto?! — bradou ele ao primeiro que lhe apareceu. — Vou descer!

— Já preparei o caminho, e os outros já estão aguardando — respondeu Anúbis.

— Por favor, Rá, não vê que essa medida é…

— É o quê, Natlehi?! — gritou Rá. — Desnecessária?! Exagerada?! Exagerado é o que Gaia planeja fazer, você não percebe isso?! Ela…

A chegada de Lox forçou Rá a se interromper.

— Ela está certa, Rá — disse Lox, e tinha o Livro do Cosmos na mão. — É desnecessária a sua descida lá. É tarde demais — acrescentou, estendendo o livro ao interlocutor.

— Você será punido, Lox — cuspiu Rá, o Eleito. — Perderá seu Livro, mesmo que seja…

— “A última coisa que eu faça” — completou Lox, sorrindo, mas com o olhar terrivelmente triste. — Não seria você se não dissesse isso. Eu sabia que perderia meu livro, mas não podia deixá-la sozinha. Não podia fazer o que vocês fizeram. Não sou como vocês.

— Claro que não é — disse Rá. — Você é quase como ela — acrescentou, e Lox soube que o eleito não falava de Gaia, mas da outra, a excluída.

— Acho que posso considerar isso um elogio, vendo agora por esse lado. Mas venham, não desejam ver o espetáculo? As palavras foram ditas, o caminho foi traçado; agora, só nos resta assistir. — E esse é um conhecimento que jamais me poderá ser tirado, pensou Lox. — Vou descer assim mesmo — sentenciou Rá. — Deve haver alguma coisa que…

— Não! — interferiu Anúbis. — Não é, de fato… Bem; não creio ser seguro. — Rá imediatamente sentiu a força daquelas palavras comedidas. Se Anúbis receava alguma coisa…

— Pois bem — disse então o Eleito, contendo sua fúria com um esforço quase físico. — Gaia ainda está lá, não é? — Lox não precisou responder. — Veremos o que ela fará a si mesma e ao nosso futuro, a maldita.

— Pois vamos — disse Anúbis, já se preparando para todo o trabalho que teria muito em breve. — Tudo está prestes a começar… Ou a acabar.


Vendo os admiráveis corpos celestes deslocando-se silenciosamente numa única direção, Lox esforçava-se para não sorrir. Apesar da tristeza, aprendeu a sentir o saboroso gosto da vingança, e seria, junto com aquela que lhe era a mais cara, um ótimo pupilo de Nemesis. Aqueles ao seu lado jamais imaginariam que não fora somente o Livro do Cosmos que ele roubara, mas também o Livro das Forças Fundamentais — e com a conivência de Poseidon, que deveria ser o seu guardião, mas que tinha muito a ganhar com tal ato. Com isso, ligou os próprios Livros do Destino à existência física.

“Querem tanto uma civilização, não querem?”, dissera Gaia, febril, naquela manhã. “Que seja assim então. Que somente tenham acesso a eles quando sua civilização florescer! Que fiquem reféns de sua própria ambição, e que vejam o mundo levar uma Era inteira para se reerguer, sofrendo com isso tanto quanto eu.”


A alma de Gaia se incendiou junto aos asteroides que adentraram a atmosfera por sua causa. Quisera ela ter sido incendiada, queimada, consumida literalmente, mas ao contrário do que Anúbis temera, nada lhe aconteceu por estar ali naquele momento — o que, infelizmente, lhe possibilitou assistir a tudo.

A chuva de rochas espaciais atingiu o planeta em vários pontos simultaneamente. O ar queimou, tudo queimou. Queria ver a cara deles agora, pensou. Sentia-se tão desalentada que não teve reação quando viu os terremotos devastarem aquelas terras e matarem a maioria dos seus ceratópsios. O impacto dos maiores asteroides transformou rochas terrestres em meteoritos, subindo à atmosfera e caindo novamente. Seus répteis voadores não sabiam o que fazer; voavam às cegas, ignorando seus sensores magnéticos. Gaia mesmo se sentia desorientada. Não foi capaz de ajudar um pteranodonte que gritou por ela antes de ser atingido por um detrito vindo dos céus — como poderia? —, assim como não percebeu que estava em sua forma original e não mais como maha. Um tsunami varreu as rochas e inundou as cavernas onde aquela mãe microrraptor protegia seus ovos, e os parassaurolofos morreram na enchente de um rio que teve seu fluxo invertido em questão de segundos.

Em menos de uma hora, mais da metade dos seus filhos estava morta, e o sol já não aparecia — aquele era, agora, um planeta de pó e fogo. O resto deles em breve pereceria de fome. Ela os matara, os próprios filhos, mas, ah!, o faria de novo antes de vê-los corrompidos pelas mãos daqueles que, por um infortúnio, eram seus iguais. Prometeu que criasse sua própria raça, no futuro, quando pudesse, quando aquele mundo voltasse a ser qualquer coisa mais que um deserto escuro. Ele que criasse monstros à sua semelhança, que repetiriam o que ele e aqueles como ele fizeram no passado.

Mas a memória de seus filhos e de seu mundo em equilíbrio — Gaia sorriu, em meio ao calor do vulcão que explodia ao seu lado — ah, a memória de seus filhos e de seu mundo em equilíbrio, ninguém profanaria. Nunca.

Que eles fossem apenas uma lembrança, para sempre.

Rodrigo Rahmati
Rodrigo Rahmati
Rodrigo Rahmati se acha um escritor, desenhista meia-boca, pretenso dançarino de folclore árabe, karateka que apanha mais do que bate, pseudo-pintor, tentou aprender diversos instrumentos musicais sem sucesso, pensa que fotografa, adora heavy metal, fantasia e ficção científica. Em resumo, maluco.

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