O Estranho Caso dos Professores que Assobiavam

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Foi Ruibarbo quem primeiro me chamou a atenção para o caso dos professores universitários tornados loucos da noite para o dia. Aconteceu alguns meses depois da revolução de maio, quando o sangue seco de Mordecai Melendez ainda era mantido como decoração histórica sobre a grande escadaria do palácio de Belerofonte.

Naquela manhã de segunda-feira, o corpo docente do departamento de humanas da Universidade Federal Valentine amanheceu trancado por dentro na sala de mapas. Estudantes e professores que tentaram contato disseram ter escutado assobios finos vindos do interior do cômodo, que, segundo se conta, havia servido muitas décadas antes como biblioteca militar para o regime de Melendez.

Arrombada a porta, foram encontrados nove professores já em estado avançado de demência, em companhia de um décimo desconhecido, com sintomas semelhantes. Alguns alunos tiveram dificuldade para reconhecer seus próprios professores. Mais tarde, revelaram à imprensa local que eles pareciam vários anos mais velhos.

Na época, eu era ainda um jovem psiquiatra recém-formado pela modesta Faculdade Popular de Pensarrosa. Não tinha na cabeça muita coisa além da vontade de encontrar um caminho direto e relativamente tranquilo para o sucesso profissional, que me garantisse uma condição de vida, senão luxuosa, ao menos rodeada por todos os confortos da classe média. Como procurava fugir de turbulências, não havia tomado parte ativa na revolução que se encerrou com o linchamento de Melendez, embora também nunca houvesse escondido minha inclinação favorável ao movimento.

Ruibarbo, meu assistente, foi quem sugeriu que uma investigação sobre as causas psicológicas do fenômeno, então em franca evidência nos mais altos círculos de medicina psiquiátrica do país, poderia fazer bem à minha carreira.

No início relutei, ou fingi relutar, sob a justificativa de que buscar um caso de tamanha visibilidade naquele momento poderia resultar tanto em êxito como em irremediável fracasso, do qual seria difícil me reerguer depois que a poeira assentasse. Por fim, acabei cedendo.

No caminho para o primeiro encontro com meus pacientes, cerca de duas semanas depois, passei em frente ao palácio de Belerofonte. Lembrava-me de, quando criança, ter visitado com a família um dos tradicionais festivais que aconteciam ali todos os anos. O evento teve lugar na época em que a disposição do povo sobre o governo de Melendez começava a mostrar indícios de mudança. Essa mudança, porém, em nada se fazia sentir nos domínios do ditador, que oferecia aos convidados uma demonstração de vigor e poder como jamais se vira ou veria depois. O tal princípio de reprovação popular também não se refletia em seu discurso político, que fechou a noite com uma dose conscientemente cavalar de autocongratulações e populismo.

Do lado de fora da cada vez mais estreita área de influência de Melendez, as coisas já então eram bem diferentes. A entrada posterior na adolescência tratou de varrer dos meus olhos a admiração com que tinha assistido ao belo espetáculo. Com o tempo, passei a enxergar mais nitidamente os sinais de decadência. Agora, quando topava sem querer com algum retrato do velho energúmeno, precisava conter dentro de mim o ímpeto de cortá-lo e desmembrá-lo, como bem fez o povo sobre os degraus do palácio.

Ver seu rosto era, no entanto, um hábito que ia se tornando menos frequente com o passar dos meses. Os únicos que ainda teimavam em guardá-lo eram alguns poucos membros remanescentes das famílias mais tradicionais, antigas como o pó que cobria os móveis de Belerofonte, de um raciocínio enclausurado e míope, agora tão próximo da irrelevância que quase dava para sentir o cheiro de mofo.

Após sua morte, as mudanças aconteceram rapidamente. A capital começava aos poucos a conhecer a melhor versão de si mesma. Como sintomas de uma nova era, multiplicavam-se as escolas de esperança (um revolucionário método para visualizar nosso futuro, diziam os estudiosos). Novas artes floresciam nos lugares mais inesperados. Nas escolas, universidades, nas ruas, o humano e o artístico ultrapassavam pela primeira vez o implacável rigor do exato. A cidade vivenciava um estado de euforia cujos sinais só quem já se libertou do jugo de uma entidade maior e muito mais poderosa seria capaz de reconhecer.

Encontrei meus pacientes pela primeira vez em uma cela improvisada na delegacia central. Não havia qualquer outro estabelecimento apto para recebê-los em um raio de muitos quilômetros. À minha entrada, todos estenderam as mãos e indicaram polidamente a cadeira menos manchada pelo tempo, a um canto, de onde poderia observá-los sob a luz fraca. Transmitiam uma tal atmosfera de normalidade que suspeitei ter-me enganado de porta e entrado em uma cela de criminosos comuns.

Quando começaram a falar, no entanto, entendi que não, não havia engano.

Os sons que saíam de suas bocas não eram palavras de nenhuma linguagem conhecida, ao menos não por humanos. Soavam como assobios, que variavam rapidamente de intensidade. Enquanto os pronunciavam, olhavam para mim de forma anormalmente séria, as mãos traçando figuras circulares no ar, as expressões tornando-se gradativamente mais agressivas, até que um deles se descontrolou e me atingiu no estômago com o punho cerrado. Decidi dar aquela primeira sessão por encerrada.

Para meu desespero, não houve grande evolução nos dias e semanas que se seguiram. Era particularmente difícil fazer o que quer que fosse com a impossibilidade de comunicação que se estabeleceu entre nós. Em uma de nossas primeiras sessões, tentei forçá-los a escrever o que pensavam, mas tudo que conseguiam era repetir aqueles bizarros movimentos concêntricos, desta vez com o lápis nas mãos.

O que havia de mais surpreendente nos círculos negros que desenhavam era a exatidão da circunferência, a perfeição de seu traçado, muito além de qualquer coisa que já vira. Tentei reproduzi-los com um compasso, mas o máximo que consegui criar foram algumas imagens toscas, que, ao lado das outras, me pareciam até mais quadradas do que redondas.

Foi somente com a hipnose, um último recurso desesperado, que consegui forçá-los a expressar algo diferente . Ainda assim, tinham perdido a tal ponto a capacidade de falar que decifrar o que diziam tornava-se uma tarefa semelhante a um jogo de criptografia. Gastei dolorosos minutos para perceber que o mantra que entoavam consistia simplesmente no nome de Melendez, o Melendez que estava já morto e enterrado em vala comum, pronunciado em ritmo sonolento, quase hipnotizante.

A partir desse ponto, para que se aprofundassem nas memórias, procurei submetê-los a todo tipo de estímulo. Questionei cada um deles algumas milhares de vezes sobre o que havia acontecido naquela segunda-feira de sua perdição. Cheguei a construir em sua cela, com a ajuda contrafeita de Ruibarbo — apesar da força, ele detestava trabalhos braçais —, uma réplica primitiva da sala de mapas da Universidade Valentine.

A única resposta que obtive com o experimento veio, após mais de um mês de esforços inúteis, do mais velho do grupo, um homem de cabelos brancos longos, bigodes e suíças, que cobriam quase inteiramente as laterais do rosto fino e comprido. A essa altura, eu já vinha contemplando seriamente a possibilidade de uma desistência pouco honrosa.

Enquanto reproduzia pela enésima vez em minha vitrola o que imaginava serem sons similares aos de uma universidade, que imaginava poder ajudá-los a recordar (alunos circulando com sapatos barulhentos pelos corredores, giz riscando quadros negros, aquele baixo rumor de conversa que costuma tomar a sala quando o professor não está olhando), foi ele quem tão milagrosamente rompeu o mantra habitual. Abriu os olhos e passou a sussurrar algo que a princípio, em meio ao barulho, não compreendi.

Desliguei a vitrola e aproximei meu ouvido de seus lábios trêmulos. Julguei ter distinguido algumas palavras conhecidas em meio àquela algaravia. No fim das contas, pude compreender bem apenas três delas. Uma era “Pangeia”. As outras duas formavam uma expressão cujo significado eu então desconhecia: “buraco circular”.

Rapidamente vesti o casaco, peguei o chapéu e saí pela porta, tentando conter a excitação. Soube então que precisaria fazer uma nova visita à sala de mapas — onde estivera antes para colher impressões que me ajudassem a reproduzir o cômodo. Desta vez, logo ao entrar me deparei com o gigantesco mapa de Pangeia exposto atrás de uma mesa de ar austero. A luz do sol, que invadia o quarto por uma janela superior, incidia diretamente sobre ele. Estranhava não ter dado grande atenção à coisa na visita anterior, já que era claramente a peça de maior destaque da sala.

Estudei por alguns minutos as montanhas e vales misteriosos retratados ali, tão próximos e distantes de nós que poderiam ter vindo de algum mundo ainda não descoberto. Minha mão tocou de leve o plástico que cobria a extensa cordilheira de Attikus. Tocou de leve e afundou. Surpreso, empurrei mais e mais fundo, até que o mapa e toda a sua obscura geografia desaparecessem para dentro de um buraco de dimensões consideráveis.

Depois de afastar Pangeia definitivamente do caminho, verifiquei que o buraco tinha cerca de dois metros de diâmetro. Era um círculo perfeito, sem nenhuma falha visível, como os desenhados por meus pacientes. Dentro dele, a escuridão parecia perdurar por longos quilômetros à frente. Sua borda começava a cerca de um palmo do chão, e seu centro ficava na mesma altura do tórax de um homem adulto.

Adentrei o espaço negro sem pensar muito. Um segundo depois, não me vi envolto pela escuridão, mas banhado pela mesma luz do sol que acabara de deixar. A própria sala em que tinha entrado tão inadvertidamente era idêntica àquela da qual saíra. Ou quase. Aos poucos, depois de deixar meus sentidos se acostumarem à nova realidade, pude notar algumas diferenças pequenas, mas essenciais. Havia mais livros e cadernos sobre as mesas e cadeiras. Alguns mapas pareciam mais antigos, amarelados, carcomidos nas pontas. A luminária central havia sido substituída por uma forte luz ambiente, cuja origem não era capaz de encontrar. Sentia como se houvesse acabado de cruzar para o outro lado de um espelho diabolicamente divisado por Lewis Carroll. Olhei para trás, e o buraco circular seguia ali, no mesmo lugar, solene, escuro, silencioso.

Ao seu lado, na parede, havia uma breve inscrição. Reconheci a lúgubre frase que encerrava o livro de Paul Mazursky, o Sério, sobre a circularidade, lançado mais de um século antes e que teve como destino o mais completo ostracismo.

”Estás fadado a viver o que já viveste, fazer o que já fizeste e morrer o que já morreste, por toda a eternidade, pois o círculo é a forma na qual o tempo e a humanidade se criaram.”

Tratei de sair pela porta da frente, apenas para descobrir que não havia mais universidade em torno da sala. Encontrava-me em um prédio que, na falta de melhor definição, só saberia descrever como um escritório bizarro, ainda que me fosse impossível entender o que a maioria daquelas máquinas era e o que aquelas pessoas estavam fazendo com elas. Por sorte, ninguém se deu conta da minha presença, e pude escapar sem maiores incidentes.

Nas ruas, também não havia grande diferença em relação à cidade que conhecera. Apenas alguns detalhes causavam estranhamento. A maioria dos prédios tinha um aspecto torto, retorcido, como se atingidos por uma nova tendência arquitetônica particularmente horrenda. Os transeuntes, todos vestindo cores berrantes, circulavam ao redor como se não enxergassem nada nem ninguém.

Caminhei por entre essa gente por quase um dia inteiro. Suas ruas eram cheias e silenciosas. Não ouvi a voz de meus companheiros uma única vez. Tinham expressões vagas e vazias que me faziam pensar neles mais como uma raça alienígena do que como seres humanos. Um sexto sentido me dizia que já vira aqueles rostos antes, todos eles, em algum lugar.

Apesar de ainda não entender exatamente o que acontecia à volta, sentia-me um turista em um mundo desconhecido, um herói nos moldes daqueles descritos por Júlio Verne e Jonathan Swift. Circulei por ruas e avenidas, parques de concreto e imensas galerias com telas tão brilhantes que pensei que acabaria cego.

Conforme o dia se transformava em noite, fui notando um novo padrão no fluxo da multidão. As grandes aglomerações agora seguiam todas um mesmo rumo. Sem questionar, fui atrás.

Após alguns minutos, cheguei a uma gigantesca praça, onde centenas de milhares de habitantes já se acomodavam sem esforço em postos previamente determinados. Reconheci o local, apesar de bastante mudado, como a região que antes — porque já era claro para mim que estávamos em algum ponto no futuro — abrigava o centro histórico na minha versão da cidade.

Ondas de gente continuavam a chegar sem parar pelas ruas laterais. Em movimentos estudados, o público ia criando uma gigantesca roda em torno do centro da praça, no qual se abria uma clareira de centenas de metros de extensão.

Quando o sol desapareceu por completo atrás dos grandes prédios em forma de gancho, o silêncio opressivo ganhou ar ameaçador. Pela expectativa visível naqueles rostos, deduzi que algo grande estava para acontecer.

Não foi preciso esperar muito. Saído de um clarão, um gigante de proporções absurdas surgiu no espaço aberto. Quase desmaiei ao vê-lo. De onde estava, não conseguia parar de olhar para suas botas, do tamanho de cavalos adultos. Ele olhou em torno de si com uma falsa tranquilidade e abriu a boca. O gigante falou. Sua voz era calma e macia. Estávamos, ele anunciou, no dia 18 de maio de 2117. Exatamente cem anos após a época da qual eu viera. A revelação não foi exatamente uma surpresa, mesmo assim não pude evitar o arrepio que me percorreu a espinha.

As palavras que vieram a seguir não importavam. A forma como ele as pronunciava, sim. Sua postura, sim. Os gestos cuidadosamente calculados. Os assobios, cuja origem não pude identificar, e que pontuavam o final de cada frase. O olhar benevolente, sempre cândido, sempre superior, sempre severo, que nos lançava lá de cima.

Eu o reconheci quase imediatamente. Com outro cabelo, rosto e roupas — trajava um conjunto sedoso de neon alaranjado —, era sem dúvida a figura sedutora de Mordecai Melendez que nos falava do alto, tornado imenso pelas projeções holográficas do futuro. Incrédulo, olhei em torno de mim e fui tomado do mais absoluto horror. Finalmente havia descoberto de onde reconhecia os rostos dos moradores daquela cidade amaldiçoada. Eram os mesmos rostos de meus pais durante o discurso de Melendez, mais de um século atrás. Eram os rostos de quase todos que eu havia conhecido na infância. Os mesmos olhares bovinos, a expressão aterrorizada, o pescoço curvado. Aqueles eram meus pais, meus avós, meus amigos, e eu, eu também já não passava de uma criancinha de cinco anos, assustada demais com o barulho e as luzes fortes.

Com esforço, tentei naquele momento reconstituir mentalmente a experiência dos professores que me precederam sob o escuro umbral do tempo. Devem ter feito um caminho semelhante ao meu, inicialmente deslumbrados com a descoberta de um futuro do qual nada se sabia. Podem ter estranhado o silêncio, seguido a multidão quando o dia virou noite e assistido à fala do novo Melendez exatamente do lugar em que eu me encontrava agora. Teriam olhado ao redor e reconhecido as expressões dos amigos, dos familiares da juventude? Teriam também sentido horror ao perceber a reprodução de um padrão que tínhamos jurado nunca mais repetir?

Devem ter se lembrado do livro de Paul Mazursky, o mesmo da frase gravada na parede. Nele, o estudioso explorava a ideia de que todo acontecimento deveria repetir-se um número indeterminado de vezes ao longo da eternidade. A obra havia causado desconforto na comunidade científica e fora rapidamente descartada pelas grandes autoridades como lixo pretensioso. Confrontados pela realidade de um século à frente, que confirmava a teoria de Mazursky, todos eles devem ter se lembrado do teórico, que, ridicularizado, morreu na pobreza poucos anos após ganhar notoriedade.

De forma inevitável, peguei-me pensando também na inutilidade de todas aquelas aulas de esperança, da euforia, da sensação de que estávamos mudando o mundo, e no quanto insistíamos em nos preparar para um amanhã glorioso que jamais deixaria de ser a mais rasteira ficção.

Tão rápido como havia começado, o discurso do gigante Melendez terminou. Percebia-se que era questão de rotina, uma demonstração cotidiana de força, como os festivais de outros tempos. Depois o silêncio. Levei um ou dois segundos para começar a escutar o terrível assobio que sucedeu sua fala. Fino no início, para ir se tornando, aos poucos, ensurdecedor.

Olhei ao redor. Ninguém esboçou reação. A multidão já começava a se dispersar. Eu era o único afetado por aquele assobio abominável, que dilacerava a mente, a alma. O som, estava claro, não havia sido feito para mim. Como outros antes, estava sendo obrigado a pagar o preço de minha própria inadequação.

Em poucos instantes, tornei-me aquele assobio, eu era Mordecai Melendez. Era uma parte ínfima de Mordecai Melendez, uma parte ínfima de seu assobio. Queria ser cada vez mais Melendez, mas tive de aceitar o pouco, quase nada, que ele me oferecia. Queria ser também cada vez mais assobio. Para que quando abrisse a boca, dominasse multidões. Não havia razões para palavras. Havia Melendez. E havia eu. Mas era cada vez menos eu e cada vez mais Melendez. Esqueci-me do significado de psiquiatria, das palavras para descrever palavras, do significado de eu e do significado de significado. Estava purificado.

Não sei como encontrei forças para voltar ao meu tempo. Na entrada do escritório, pude ver ainda meu próprio reflexo pelo vidro da janela. Havia envelhecido horrivelmente. Meus cabelos estavam brancos e o rosto magro e enrugado, quase inteiramente escondido por uma grossa barba, como se tivesse caminhado a passos largos em direção à idade que deveria ter nesta época amaldiçoada. Corri aterrorizado até a sala dos mapas, onde o buraco me esperava. Ao seu lado, a frase de Mazursky, antes inofensiva, agora parecia evocar uma maldição.

Do outro lado do buraco circular, a loucura cresceu dentro de mim, rápida como erva daninha. Todos os rostos me pareciam o mesmo. As palavras começaram a faltar. Não sabia mais como formar frases. Apontava as coisas e não podia dizer o que eram, para que serviam.

O assobio de Melendez tomou minha boca. Era a única forma perfeita de definir tudo. Ele e o círculo, o círculo que girava e girava sem fim pelas mãos calejadas. O círculo que me traria de volta ao início, que me tornaria imortal.  

Às vezes, ao redor, sentia a presença de colegas, semelhantes em sua incompreensão, mas não lhes prestava nenhuma atenção, nem eles a mim. Deixei-me afogar no nada que eram todas as coisas.

Ganhei consciência do mundo novamente apenas uma última vez.

Abri os olhos e dei com meu próprio rosto, ainda maravilhosamente jovem e absorto em contemplação. Ao fundo, sons de passos, de um giz arranhando a lousa.

Rapidamente tentei lhe dizer, tentei alertá-lo para não rasgar o maldito mapa de Pangeia, para jamais atravessar o buraco circular que se escondia por trás de suas montanhas de papel.

Ele se aproximou e ouviu atentamente.

Cheguei tão perto que pude sentir meu próprio perfume, o cheiro da loção de barba que usava.

Rapidamente vesti o casaco, peguei o chapéu e saí pela porta, tentando conter a excitação. Soube então que precisaria fazer uma nova visita à sala de mapas.

Leonardo Neiva
Leonardo Neiva
Leonardo Neiva é jornalista porque, quando criança, achava bonito ver o pai fazendo listas de compras e também porque lhe disseram que passaria menos fome do que se fosse escritor (só não avisaram que não seria muito menos). Nasceu e vive até hoje em São Paulo e ainda sabe onde estão suas duas orelhas, o que, segundo me contou de forma confidencial, é mesmo uma grande sorte. Escreve porque precisa (mas não volta porque te ama). Já publicou contos nas revistas Escriva, Gueto e Originais Reprovados, da USP, e no site Obvious. Atualmente está escrevendo um livro que não tem final porque até agora também não teve começo.

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