O Homem Atômico

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Era um velho mendigo que costumava ser visto com muita freqüência pelas esquinas do centro. Não que um mendigo fosse coisa muito notável e digna da atenção de um ocupado cidadão paulistano, mas aquele em particular era de se fazer notar. Era um homem barbudo, sujo, bêbado e fedorento como todo bom mendigo que se preze, vestia um terno que não tirava havia alguns anos e vagava pelo centro da cidade carregando um cobertor imundo e uma maleta executiva velha e furada. Todos os dias ele ia a alguma praça, fosse da República, da Sé ou Ramos, encontrava um banco e sentava-se de pernas cruzadas para ler um jornal velho. Passava horas concentrado, imerso na leitura como um magnata lendo jornal em seu jatinho particular. Geralmente ficava sozinho, pois não são muitas as pessoas que apreciam dividir o banco da praça com um mendigo fedorento, mas quando acontecia de algum distraído sentar-se na outra ponta, fosse um senhor, uma senhora, um padre, um office boy ou outro mendigo, ele sempre dava um jeitinho de puxar um papo. E como era bom de prosa! Quando abria a boca deixava de ser um mero vagabundo para virar o doutor da praça. Era dono de uma oratória virtuosa e um formidável talhe intelectual. Jurava de pés juntos que era físico nuclear e amigo pessoal do presidente Garrastazu Médici. De tanto jurar e falar e dizer por anos aqui nessa praça ou acolá naquela esquina, ele era conhecido por todos os comerciantes, camelôs, bêbados, prostitutas e marginais das redondezas como o homem atômico.

Eram impressionantes as teorias que saíam da sua boca desdentada! E se não lhe rendiam o Nobel, ao menos garantiam umas boas risadas aos boêmios da cidade e uma dose de pinga ou um copinho de café frio ao doutor físico. Vez ou outra algum dono de bar o convidava para sentar-se à mesa e dar aos seus clientes uma palestra sobre a teoria das antipartículas, o que o homem atômico fazia com brilhantismo catedrático, para deleite do dono do botequim, que via suas vendas de cachaça e xiboquinha aumentarem exponencialmente em função da clientela de bêbados acumulada em escala logarítmica no espaço e no tempo. E o homem atômico ia falando e ficando, a noite caía, o movimento na São João aumentava; desocupados, pudins de pinga, porteiros de bordel, mulheres da vida e mais todo tipo de diabo da noite aglomeravam-se em torno do velho amigo do general Médici para ouvir seu falatório esquizofrênico. O cafetão tragava seu charuto e baforava com prazer o cogumelo incandescente de Hiroshima, os vândalos se regozijavam com a explosão de vinte megatons da bomba de hidrogênio, as prostitutas suspiravam seduzidas pelo brilho fascinante da radiação de Cerenkov, o traficante se intrigava com o processo de enriquecimento do urânio e o doutor físico ia forrando o estômago de tremoço e salsichas enquanto tecia largos elogios ao programa nuclear secreto do presidente Médici.

Aos poucos a fama do mendigo foi extrapolando esquinas e ele fez turnê nos botecos de praticamente todo o centro velho de São Paulo. A cada noite estava filando a lingüiça de um botequim diferente, ora no Arouche, no Anhangabaú, no Paissandu, na Boa Vista… Onde quer que o doutor físico fosse, sempre havia cachaça, coxinha e público para suas alcoólicas palestras de física nuclear. E foi assim que, com o passar dos anos, o homem atômico tornou-se uma lenda, uma lenda viva, uma lenda urbana com a qual se poderia tropeçar em qualquer esquina. Nos bares era assunto recorrente: afinal, gênio ou louco? Alguns apostavam que não passava de um vagabundo excêntrico, outros diziam que era um doido super dotado, mas havia um grande número de dedutores e achadores crentes de que o velho mendigo realmente tinha sido físico nuclear durante o governo Médici. Alguns estavam decididos a investigar a questão, e quando encontravam o velho atômico divertindo alguma corja de desocupados, iam até ele interpelá-lo sobre seu passado. O pobre homem relembrava entristecido seu trabalho como cientista, até o dia em que Geisel acabara com a empreitada, desaparecera com as provas e por pouco não sumira com os cientistas, condenando-os ao exílio e à lei da mordaça. E desde seu refúgio no Paraguai ele amargava aquela situação miserável. Escrevera várias cartas a Médici pedindo para que fosse restituído a um cargo decente na Universidade de São Paulo ou em qualquer outra, mas não houve réplica. Passou a escrever também para Geisel, não em tom de cordialidade, mas de ameaça, dizendo que, se não lhe devolvesse a dignidade que merecia um cientista brasileiro, a notícia viria à tona e poderiam vazar provas e outras coisas mais. Mas ao contrário da democracia, a resposta nunca retornou, e o vácuo em que ficou o pobre físico era como aquele que existia antes do Big Bang.

A história acabou chegando aos ouvidos de um jornalista do Correio de São Paulo, que certo dia começou a percorrer os bares do centro perguntando pelo paradeiro do famoso homem atômico. Foi encontrá-lo numa noite fria, abandonado na escadaria do Theatro Municipal; aproveitando-se do silêncio na Rua Barão, fizeram a entrevista ali mesmo. O repórter do Correio ficou um pouco incomodado por ter de apertar a mão suja do mendigo, que empesteou a sua com um odor duvidoso; mas simulou cordialidade, ligou o gravador escondido no bolso e iniciou uma conversa descontraída sobre quarks e neutrinos até que as perguntas pertinentes fossem se insinuando pelas linhas da conversa:

— Então, Médici tinha um programa nuclear secreto?

— E se tinha! O que os ianques iam fazer com toda a tecnologia nuclear senão escondê-la entre seus cães de guarda na América Latina? Onde mais iriam despejar seu lixo atômico? E por que Médici, que gostava tanto de projetos faraônicos, não ia querer um programinha nuclear à disposição da ditadura?

Mas o jornalista ainda parecia descrente:

— Os americanos se sentiriam seguros com uma bomba atômica nas mãos incompetentes do Brasil?

— E onde você acha que estavam os mísseis que Kennedy mantinha apontados para as barbas do Fidel? — O mendigo insinuou com um riso desdentadamente enigmático.

— E as provas?

— Provas? Construíram uma desculpa para escoar todo o refugo do programa nuclear e ninguém percebeu! Hoje a desculpa deve estar esquentando a água dos peixes em algum lugar de Angra dos Reis…

Céus! Se fosse o que estava parecendo, aquele seria o furo jornalístico do século! O repórter estava maravilhado com a sorte, foi se aventurando a minerar minúcias no saquinho de surpresas, e quando enfim se convenceu de que já tinha uma bela reportagem, finalizou a entrevista perguntando ao velho físico se ele não estava desapontado com o seu fim miserável.

— Ah… é a vida. — Ele deixou escapar um muxoxo triste. — Mas eu continuo mandando minhas cartas para Médici e Geisel, que não me respondem, eles fingem que não me ouvem, me subestimam. Eles vão me forçar a falar alto e quem sabe então irão me ouvir…

O jornalista sentiu-se como se tivessem acabado de cuspir no seu feijão. Aquele desfecho demente estragou todo o brilhantismo da entrevista, e lá se ia o furo de reportagem do século, que não seria nem o furo de reportagem da tarde, pois ainda que quisesse maquiar a verdade o editor não aceitaria. Era impublicável. O infeliz não passava de um pobre lunático. Nada restava a fazer senão desligar o gravador, colocar cinco reais na mão do homem e ir-se embora pelo viaduto.

Depois daquela noite, nunca mais voltaram a ver o mendigo pelo centro ou qualquer outro canto da cidade. O que teria acontecido ao homem atômico? Não era difícil prever; devia ter morrido intoxicado com alguma lingüiça de bar estragada, recolhido e encaminhado como indigente ao IML, e assim terminaria sua carreira científica despedaçado em algum laboratório de anatomia. De qualquer forma, o centro ficava mais triste sem ele. Apenas muito tempo depois da entrevista que aquele jornalista voltaria a se recordar do homem atômico. Lembrou-se dele numa noite muito especial em que caminhava pela Avenida Paulista, quando ao erguer os olhos, deparou-se com uma névoa brilhante e belíssima dispersando-se com o vento entre as altas torres. Finos floquinhos de neve fosforescente precipitaram-se graciosamente abençoando a cidade palpitante, e a chuva iluminada arrebatou risos e suspiros de fascínio e surpresa. Casais de namorados apreciaram-se com os cabelos recobertos de poeira resplandecente, velhinhos extasiados esticaram as mãos para deixar-se cobrir por uma tênue película de luz, crianças fizeram festa e assopraram pó brilhante umas nas outras, enquanto jovens maravilhados abriam a boca aos céus e deixavam-se experimentar o sabor picante do césio 137.


Este texto foi originalmente publicado na coletânea Visões de São Paulo. Também ganhou uma versão em espanhol no site argentino Axxón.

Cristina Lasaitis
Cristina Lasaitis
Cristina Lasaitis é formada em biomedicina e estuda editoração, almoça e janta literatura todos os dias; é revisora de textos, tradutora e escritora. É autora do livro "Fábulas do Tempo e da Eternidade" e co-organizadora da antologia de contos fantásticos LGBT "A Fantástica Literatura Queer".

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Um comentário

  1. Rafael Medeiros / 14 de outubro de 2015 at 10:16 / Responder

    MUITO BOM!
    Bem escrito e curioso. Prende a atenção até o final.

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