O Menino Jaguar e o Escudo do Sol

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Como escriba não acrescentei realidade ao meu mundo, assim parto para o pós-vida. Os papiros virarão cinzas e as pedras, selvas, quando o sol se pôr no último dia do último ciclo. Isso eu sei, pois Pakal me disse, há muitos anos atrás.

“Nós, que nascemos do barro no 13º dia da criação e reverenciamos o sol da cor de milho, somos gratos a Pakal e oferecemos a ele no dia de sua ascensão sacrifícios de escravos, crianças e virgens, jogos e festas.” Em 9.9.2.4.8 5 Lamat 1 Mol, na província de Palenque, o Escudo do Sol tornou-se o maior governador Maia em todos os gloriosos ciclos em que nossa civilização existiu.

No começo daquela manhã, no entanto, o pequeno jaguar ainda resistia à ideia de governar seu povo.

— Eu não quero governar, mãe Sak — disse K’inich Janahb Pakal.

A grande Sak Kuk, que administrou longos anos depois da morte de seu marido, o governador de Palenque, e continuaria conselheira do futuro governador, parou de cantar e se autoflagelar, rituais necessários antes da cerimônia de ascensão do filho, e pôs o menino em ordem:

— Sei que você não gosta de muitos enfeites, jaguarzinho, mas eles servem para mostrar ao povo a beleza do escolhido pelos deuses. Escrava Oe, coloque os brincos — apontou a lâmina de obsidiana que usou para o ritual sem levantar do divã onde se recostava. — Desse jeito as pontas das orelhas nunca vão chegar aos ombros, filho. Já tem doze anos e elas não estão nem no meio do pescoço!

K’inich, o menino jaguar, segurou a mão de Oe.

— Não. Pare, escrava Oe. Eu quero ser jogador de pelota, como Muluc, o grande, mãe Sak. Não quero me vestir para ser governador. — O menino chorou, porque ainda era só uma criança mimada.

— O QUÊ?! — Exaltou-se a governadora sentando-se no divã e largando a lâmina de obsidiana. — Continue Oe.

Muitas escravas da aldeia de Oe foram mortas por motivos tão fúteis como baunilha demais ou de menos no curau. Não sabendo a quem obedecer, se ao menino jaguar ou a sua mãe, ela largou o brinco de turquesa e coral e virou estátua de pedra.

Sak Kuk, a mãe do pequeno deus do milho, agora andava, gesticulava e gritava pelo quarto.

— Muluc! Muluc foi um escravo que foi jogador por míseros 5 anos e perdeu o jogo e a cabeça! Menos do que um ciclo de chuvas! Você é um rei e governará por centenas de ciclos, quando o escriba desenhar a data da sua morte no seu túmulo até o nove será passado. O nove! — Fez questão de reforçar o número que marcava o último ciclo de todos os ciclos.

A boa líder arara, Sak Kuk, apreciava exageros. Deixou a cidade sagrada de Palenque mais colorida ao assumir o governo depois da morte do marido, a hegemonia das cores nos quatro cantos da cidade — azul, amarelo, vermelho e branco — foi substituída por uma mistura de todas elas incluindo até o sagrado verde. Passear pelos templos, pelo estádio e pelo centro comercial era uma festa para os sentidos. Nos dias que antecederam o ritual de passagem de pequeno jaguar, as construções ganharam mais vida. Flores enfeitavam as portas e janelas; colunas de rosas, papoulas, flores de maio, chuvas de ouro enchiam os olhos tanto dos locais quanto dos visitantes que vieram para a passagem e ascensão do novo governador. Espalhavam-se pelas calçadas os vendedores de milho e suas pedras de assar. Os doces de maracujá, mel e o aroma da baunilha. Tomates assados com pimenta. Ao perfume agradável das flores e especiarias misturavam-se o cheiro dos incensos e do sangue dos sacrifícios.

Sak Kuk comia muito bem, se vestia requintadamente: turquesa, peles e corais dos pés à cabeça. Mantinha o pulso firme nas decisões de Estado, os conselheiros mais guardavam as ideias do que opinavam. Sequestrava e torturava moderadamente os rivais, só até conseguir um acordo justo entre as partes. “Meu segredo de temperança é uma faca bem afiada, dizia aos amigos que riam até cair. Guardou a temperança, ou melhor, a falta dela, pelo período que antecedeu a ascensão, só usou a lâmina em si mesma como pediam os deuses. O rito de passagem do filho exigia mais abstinência e paciência do que poderia suportar, então excedia em advertências ao filho e escravos. Não era tanto o sentimento de que perderia seu poder em breve, mas um temor mais terreno, que caberia em qualquer mãe. Seu pequeno K’inich seria em breve engolido pela jiboia no ritual de passagem, mandado para o mundo inferior de A-hau Kin, para que o Deus do Inframundo cuidasse dele. Era direito do Deus escolher o destino do menino, se fosse para ser um adulto e encontrar a imortalidade, quando abrissem a barriga da cobra, o Deus teria matado o pequeno jaguar e dado a luz a Pakal, o governador de Palenque. No entanto, a segunda opção deixava inquieto seu coração de mãe: não era raro acontecer dos meninos morrerem na barriga da jiboia antes de serem retirados. Tallvez seu jaguarzinho não fosse digno da honra de ser governador. Sak Kuk não teria mais a companhia do carinhoso menino, que dormia em sua cama nas noites de tempestade. Todas as emoções que poderia sentir ocupavam o mesmo espaço: medo, orgulho, tristeza, ansiedade. Sak Kuk era assombrada tanto pela glória quanto pela solidão.

— Mas para que por toda esta roupa em cima de mim se a cobra vai me engolir nuzinho, mãe Sak?

Foi a gota d’água, os tijolos do palácio do governador saíram do lugar com os berros de Sak Kuk.

— K’inich! Ainda sou a governadora, ainda sou sua mãe, por isso ordeno que cale essa sua boca, jaguarzinho, quando for governador deixo você mandar em mim… um pouco. Oe, acabe de vestir o menino.

Oe virou de carne e osso novamente, pois agora sabia a quem obedecer.

Sak Kuk saiu do quarto, não queria mais discussões, chamando-me para a sala do trono. Segui-a obediente. O dia estava chuvoso e sem sol, a luz que entrava pelas janelas estreitas não iluminava mais que um vaga-lume. Tochas acesas nos corredores estreitos aumentavam a sensação de calor e, com ajuda dos incensários, roubavam quase todo ar fresco.

Na sala majestosa com imensas colunas e quase sem janelas, protegida do tempo e dos inimigos, Sak Kuk sentou-se na pele de coelho que cobria o trono e acariciou os pelos brancos com a ponta dos dedos. Bonita ela não era, mas o poder tem aquele quê de sensualidade que põe fogo na palha molhada e espalha fumaça pelo consciente. Olhou para mim com os mesmos olhos grandes e negros do filho e disse:

— Itzamná, escreva para esculpir que o dia estava ensolarado, que Ahau apareceu no horizonte neste equinócio para celebrar a ascensão de Pakal. Escreva e desenhe também o escravo, grande conselheiro de Petén, que será degolado. Use todo o seu refinado estilo, grande escriba. Nada de falar da teimosia do menino. Sei que gosta de ser prolixo, mas guarde as verdades inúteis para seus escritos pessoais. Quero me deslumbrar com sua maravilhosa arte, não me aborrecer.

E foi determinando o que deveria ou não constar nos totens, nas paredes, nos papiros, intercalando suas ordens com elogios. Ela sempre me adulava, talvez para provar a si mesma que eu era melhor que o escriba mestre do governador de Tikal.

Havia vários bons escribas escultores por todo o Palenque. Meus glifos de linhas econômicas e elegantes não agradavam ao rebuscado governador de Tikal, rival de Palenque, que gostava de contrastes e espirais. Sai da província vizinha, trouxe meus aprendizes para cá e fui reconhecido.

A história de Pakal durará por séculos, eu sei, como ele mesmo me contou. A verdade, no entanto, esvaneceu-se no ar rarefeito dentro das paredes do palácio real. Enfeitarei a vida de Pakal desenhando cada sílaba e símbolo nos glifos, e esta será a sina deles, serão só enfeites até o fim do nove.

— Estou pronto, pronto, pronto. — Disse o emburrado menino de olhos vermelhos e nariz escorrendo, em todo o seu paramento. A governadora descruzou as pernas e desceu do trono, despedindo-se do cargo que ocupara com tanta propriedade. Agora seria só a mãe e conselheira.


Uma chuva torrencial veio para arruinar os arranjos de flores que foram feitos para enfeitar a calçada por onde passaria o futuro governador. O povo, tomado pelos encantos da papoula, cantava e dançava levantando as mãos aos céus para que o Deus Milho protegesse o menino. Centenas de milhares, vindos de todas as partes da província para a posse de K’inich, saudavam o menino que se encolhia na chuva. O dossel da liteira pouco o protegia do temporal. Aproveitou as gotas que escorriam pelo seu rosto para chorar. Ao passar pelo campo de pelota, chorou um pouco mais.

A procissão parou na frente ao templo em forma de pirâmide onde o sacerdote cantaria a história dos ancestrais de K’inish Janahb Pakal.

— Pakal, o Escudo do Sol, já se mostra mais poderoso que o firmamento, cobrindo-o com as nuvens. A sagrada serpente, irmã do trovão, Ix Tub Tun o saúda. Nós o saudamos.

E neste momento a Deusa do Trovão se pronunciou: o sacerdote viu o raio arrebentar segundos antes e aproveitou para chamar a saudação que veio em estrondo, para delírio do povo. Todos ganiam enaltecendo o poder das palavras do sacerdote, que tinha um chapéu de pele com a cabeça de um cachorro. E o sacerdote foi de totem em totem contando o tempo e os feitos dos ancestrais de K’inish, durante quase três horas.

Entediado, o menino jaguar ajeitava o pesado chapéu que insistia em tombar para os lados, o cone em formato de espiga de milho, feito de palha, pele, linho, plumas e penas. Oe estava ao seu lado, mas não podia tocá-lo para ajeitar a vestimenta, ninguém podia, nem a sua mãe. O sangue de duas crianças órfãs misturou-se com a água e escorreu pela escadaria até o último degrau. K’inish,que esperava na depressão feita na pedra no sopé da escada, observava os pés serem cobertos por uma poça de lama, sangue e chuva.

Três dos meus ajudantes apoiaram a minha liteira no espaço reservado de onde podia me cercar de tudo o que acontecia, tentaram em vão me proteger da chuva segurando as placas de palha trançada contra o vento, já que não podia me servir da cortina de tecido, pois, segundo a tradição, tinha que escrever o que via. Na prática, tão forte era a tempestade que mal conseguia segurar o espeto e a folha, e, mesmo que escrever fosse possível, nada do que visse seria esculpido ou lembrado. Passaria dias refazendo os desenhos até que a história ganhasse os contornos que os sacerdotes e o governador determinassem. A tinta borrava no papiro, a chuva tratava de apagar a História.

Os degraus da pirâmide estavam escorregadios e o menino jaguar, eu e sua mãe, subíamos com dificuldade. Quando alcançávamos um degrau embaixo do qual supostamente havia sido enterrado um dos ancestrais do menino, os quatro sacerdotes, representantes dos pontos cardeais, lembravam novamente os feitos do morto e alucinavam sobre a sua vida após a morte no mundo inferior de A-hau Kin. Assim levamos mais de duas horas para subir. Chegando ao topo, a chuva havia se acalmado e o sol ainda inconstante e cercado de nuvens refletia na poça de sangue, K’inish observava o reflexo da chama viva do sol, chama incensária cintilando no meio de sua testa. “Seria um bom ou mau sinal?” Queria saber o menino jaguar.

Os sacerdotes prepararam dois velhos escravos para o sacrifício na pedra. Ambos tiveram seus tórax abertos enquanto ainda vivos e seus corações bateram por alguns segundos depois de arrancados. A alegoria do ciclo da vida foi celebrada com a histeria coletiva do povo de Palenque: choro, risos e cantos, autoflagelação e palavras ininteligíveis. Duas virgens seriam mortas e seu sangue espalhado pela terra para alimentar o deus da fertilidade.

Anunciando o caminho para o mundo inferior, o corredor que levava ao altar dentro da pirâmide era estreito, escuro, úmido, sem ar. O conselheiro da província de Petén que esperava agachado no chão carmim do sangue dos que foram mortos antes dele agradeceu a honra de ser imolado na frente do futuro grande governador.

— A honra que me coube é a maior de todas. Vida longa a Pakal, o Escudo do Sol, meu senhor nesta vida e na próxima.

Então K’inich Pakal, que deveria ficar em silêncio fez sua última observação enquanto ainda era criança:

— Se ele está tão honrado assim, por que os braços dele estão amarrados?

A pergunta foi sussurrada para mim, ele me achava um sábio. Eu era só um artista, que iria reproduzir as joias do chefe sacrificado, seu chapéu e sua tanga ricamente adornados e as cordas que o prendiam ao seu destino. Ix Sak Kuk estava totalmente tomada pelos alucinógenos e nem percebeu a pergunta ingênua do filho, perdeu a chance de repreendê-lo, amanhã não poderia mais fazê-lo.

Então o menino jaguar, conservado lúcido até aquele momento, bebeu o chá de ervas. Esquecido de que não tinha coragem para tanto e com ajuda do sacerdote, cortou a cabeça do homem de Petén.

K’inich tomou mais chá e foi despido de suas vestes e adornos. A cobra faminta foi esticada, para que não se enrolasse na presa e quebrasse seus ossos, como fazia na natureza. Abriram a boca da jiboia e o jarguarzinho foi sendo engolido: primeiro os pés e as pernas, depois a cintura; a cobra coleava e empurrava o menino para suas entranhas.

Desenhei duas colunas para o palácio, encimadas por uma boca de jiboia, aberta em forma de “Ca”, e a cabeça de espiga de milho do jaguarzinho saindo pela bocarra.

Então o pequeno sumiu totalmente dentro da cobra. As orações e canções continuaram por alguns minutos, até que a barriga foi rasgada pelos sacerdotes com facas de obsidiana e Pakal retirado.

— Quantos ciclos se passaram? Por que demoraram tanto?

Foram as primeiras palavras do Rei Escudo do Sol como adulto.

Estavam todos em transe, os sacerdotes, Ix Suk Hak, os escravos que abriram a barriga da jiboia, menos eu, pois tinha que me concentrar no que acontecia e reproduzir o que os olhos deste mundo viam, enquanto todos procuravam por Pakal no mundo dos sonhos.

— Meu rei, Pakal, Escudo do Sol, foram só alguns minutos.

— Não, escriba! Foram muitos e muitos dias. Dias no passado e no Inframundo. Dias no futuro sombrio que espera meu povo.

Mesmo sabendo que jamais poderia repetir as palavras do grande Pakal, guardei um papiro com seu relato até a minha morte. A experiência que levou meu senhor de menino para homem poderia um dia ser confirmada, se a ignorância dos homens não prevalecesse.

Quatro noites depois de sua posse, Pakal chamou-me em seu quarto, sentado na estreita janela, estava sério e selvagem. Nu, sem adornos. A deusa Ix Chel, a lua cheia, iluminava a copa das árvores e o rosto de Pakal. O pequeno representante do Deus Milho chorava.

— Não há futuro, sábio escriba.

— Viu a sua própria morte, senhor do sol, na jornada pelo Inframundo?

— Sim, mas isso não me incomodou.

Fechou os olhos, abaixou a cabeça e disse minguando para dentro de si:

— Itzamná, eu vi a morte de todo meu povo e não há nada que possa fazer.

Eis o que me contou:


Quando K’inich entrou no corredor escuro que levava ao Inframundo, não foi A-hau Kin que o guiou, o deus sol jazia longe nos céus internos, ofuscado pelo Passado. Foram os antigos deuses, os gêmeos Xbalanque e Hunahpu que o abraçaram e fizeram troça para recepcionar o pequeno jaguar. Xbalanque segurava seu machado de guerra. Hunaphu, o corpo coberto de manchas negras. K’inich mal pôde acreditar que seus deuses favoritos estavam com ele. Antes de ser engolido pela cobra, o menino pedia todas as noites para a mãe repetir as aventuras dos deuses gêmeos.

— Peça o que quiser, Escudo do Sol — disse Xbalanque.

— Nem todo o querer é divino — completou Hunahpu.

O confiante jaguarzinho tinha o desejo já escapando pela boca.

— Quero ser jogador de pelota. — Seu sonho se realizaria no Inframundo.

Em um piscar de olhos estavam vestidos para jogar pelota, os deuses gêmeos com suas raquetes encantadas e seus poderes de iludir.

O mundo inferior não é cercado de crocodilos como o superior, não é possível ver-lhe a cerca, como diziam. Nos primeiros tempos, K’inish foi só um jogador, parceiro de Xbalenque e Hunahpu. Campeão, cujas mãos e pés nunca tocavam a pelota e a pelota guiada pelos remexer de seus ombros e quadris sempre acertava o alvo. Pelas cidades onde passou, o céu era verde claro, o sol fulgurava translúcido, as paredes dos templos e as ruas serpenteavam cobertas de peles de coral, em listas vermelhas e negras.

K’inish jogou tanta pelota que se cansou, do jogo e das cidades engendradas em miríades de calçadas, templos e arenas sem fim. Desejava outra coisa e pediu sem vergonha, pois também era deus, o menino Deus do Milho:

— Levem-me para suas caçadas.

Os deuses gêmeos eram conhecidos pela habilidade com a zarabatana, nunca voltavam de mãos vazias. As aves sentiam-se gratas quando eram espetadas pelo dardo venenoso dos dois, pois a morte era rápida e sem dor. Através da densa floresta negra, foram os três em busca de caçar a deusa Vukub Cakix, a ave de dentes de esmeralda. No Inframundo era possível reviver toda a criação e aprender o conhecimento escondido dos homens. Portanto, os gêmeos decidiram derrotar a ave como fizeram seus avós antes deles.

— Esta é a sua zarabatana, K’inich, precisa praticar antes de usar. — Disse Xbalanque.

— Mesmo quando a usar, pequeno jaguar cabeça de milho, pode encontrar seu próprio veneno em sua ponta. — Completou Hunahpu.

Ao pegar a zarabatana, no entanto, ela imediatamente se tornou uma serpente e picou as costas de sua mão. K’inich pulou e praguejou. Os dois irmãos riram até se acabarem.

— Tenha cuidado, jarguarzinho. Eu te avisei. — Disse Hunahpu. Recuperado o fôlego perdido com as gargalhadas, puxou o pulso do menino e sugou o veneno da mão de K’inish.

— Segure a zarabatana com confiança — aconselhou Xbalanque. — Você é o pequeno Deus do Milho, não é?

K’inich soltou a mão da boca do deus e no lugar onde o deus sugou nasceu uma pústula negra como as de Hunahpu. Sem hesitação e sem se incomodar com a ferida, K’inich respondeu confiante:

— Sou.

— Cada vez que se ferir neste mundo, pequeno jaguar, uma mancha podre aparecerá. Se não tomar cuidado, ao sair daqui não será nada mais do que um cadáver putrefado. — Riu Hunahpu.

Os deuses da cor de barro e rabo de macaco levaram K’nish para a floresta negra. Tão densa e escura que as folhas não tinham cor, nem os galhos, os troncos ou raízes.

— Essa deusa mentirosa, acha que é o Sol e a Lua. Nós somos o Sol e a Lua, não Hunahpu?

— Nós somos o Deus Sol e a Deusa Lua assim como Pakal é o Deus do Milho. É tudo o que posso dizer.

Na trilha que seguiram para encontrar Cakix o chão era de espinhos, o que feriu os pés de Pakal. Como haviam avisado ao menino, seus pés ficaram cobertos de pústulas negras. Para fugir dos espinhos, eles se transformaram em grandes macacos, e Xbalenque carregou Pakal, cujos pés doíam muito, nas suas costas. Com ajuda dos longos rabos, os gêmeos foram pulando de árvore em árvore até encontrar aquela onde Cakix comia. Esconderam-se na árvore vizinha à da deusa, tomando o cuidado para não serem vistos.

Os deuses, grandes caçadores, acreditaram que Cakix era um alvo fácil: grande e gorda. Ela ainda tinha como sobrepeso a vaidade, joias incrustadas ao redor dos olhos e nos dentes, armaduras cobriam suas grandes asas. Estava comendo a cabeça de um roedor, apoiada com um pé no galho da árvore e o outro pé segurando o corpo do bicho. Só precisariam atingi-la de leve para que despencasse sobre os espinhos.

— Acerte o dardo com veneno assim que eu mandar, Pakal. Vou dar volta e pegá-la por trás. — disse Hunahpu.

Pakal agachou-se preparando a zarabatana. Xbalenque descansava deitado num galho, tão simples a empreitada parecia. Isto só provou aos dois irmãos que a vaidade não era atributo apenas de Cakix, pois a estocada de Pakal pegou no maxilar da deusa, fazendo cair dois de seus dentes e Hunahpu errou o golpe. Cakix, que mal sentiu o dardo da zarabatana, assustou-se com o vulto de Hunahpu e escorregou do galho. Rápida, agarrou o braço de Hunahpu para não cair, prendendo-o numa forquilha entre dois galhos, mas seu o peso arrancou o braço do deus, deixando-o muito irritado. Perdido o apoio, a grande deusa ave caiu e deu de cara com o chão coberto de espinhos, furando os olhos. Quase cega e com o queixo dormente, saiu correndo pela mata carregando o braço de Hunahpu.

— Ai! Ai! — Reclamou o deus a perda do braço.

— Não chore, fomos displicentes. Não fomos, Pakal? — Perguntou Xbalenque.

— Fomos sim. — Respondeu o menino, cabisbaixo.

— Nunca subestime seu inimigo. Use sua fraqueza em benefício próprio, mesmo que a princípio tenha que fazer concessões ou passar-se por trouxa. Entendeu?

— Sim, Hunahpu.

— Vamos então à segunda parte do plano e recuperar o braço do meu irmão. — Disse Xbalenque transformando-se em velho com ares de sábio.

— Vou ter que me transformar em velho? — Perguntou Pakal.

— Você será você. Haverá sempre aqueles que se passarão por sábios, Deus do Milho, quando for preciso. Mesmo que a sabedoria nunca os tenha visitado. — Explicou Hunahpu, também transformado em ancião.

Cakix, desgostosa de sua aparência, com muita dor nos olhos e nos dentes, estava escondida dentro de um oco de árvore feito toca de tatu, coberta de folhas para que ninguém a visse. Quando os anciões bateram no tronco e solicitaram uma audiência, ela os rechaçou:

— Não posso olhar para ninguém, meus olhos doem.

— Sou médico, posso curá-la. Ó grande Deusa do Sol e da Lua! — Disse Xbalenque.

— Não quero que ninguém olhe para mim.

— Eu sou dentista. Nós dois restauraremos a sua beleza. Ó Deusa do Sol e da Lua. — Disse Hunahpu.

— Aceitamos o braço de macaco que está segurando, grande Cakix, como pagamento. Estamos famintos. — Pakal apontou para o braço de Hunahpu que Cakix segurava.

— Somos só dois anciões que cuidam de um jovem órfão e vamos fazer a deusa mais radiante que as estrelas do céu.

Cakix saiu da toca e Xbalenque deu-lhe papoula como anestésico, tratou seus olhos, e ela pode ver de novo, mas retirou todas as joias colocando nos buracos pedaços de barro duro que desmanchariam na primeira chuva. Hunahpu, por sua vez, arrancou o resto dos dentes de Cakix, alegando que era necessário e no seu lugar colocou milho branco.

Ainda sob o efeito da papoula, Cakix entregou aos irmãos o braço de Hunahpu. Os anciões agradeceram muito e foram embora com Pakal. Quando, no dia seguinte, Cakix se olhou no lago e viu que sua beleza havia sido arrancada e que seu rosto estava todo deformado, enfiou-se novamente na toca de tatu e deixou-se morrer de vergonha.

Os gêmeos e Pakal comemoraram com um banquete de milho e tomates.

Durante anos, assim pareceu ao pequeno jaguar, ele se aventurou com os gêmeos em suas troças aos novos deuses e antigos governadores. Todos que tentavam matá-los, ou por causa do que fizeram a Cakix ou por outros desmandos, falhavam, pois os gêmeos eram muito espertos. Pakal aprendeu valiosas lições com os dois, sobre estratégia e política. Lições que levou por toda a vida.

A despeito da passagem do tempo, pois milhares de dias se passaram, o menino jaguar continuava criança. Intrigado com o fato de não envelhecer, indagou aos irmãos o porquê numa tarde em que preguiçosamente lambiam mel roubado de uma colmeia.

— Os Maias nunca serão um povo adulto. — Explicou Xbalenque.

— Permanecerão esquecidos por muitos ciclos. E será o melhor.

Pakal protestou. Como podiam falar um absurdo desses?

— Não, não serão. Se assim for os deuses também serão esquecidos. Vocês nos sonharam, sonharam que nós sonhávamos com vocês e no nosso sonho vocês nos criaram para adorá-los. Não existimos sem vocês assim como vocês não existem sem nós.

— Ele está pronto para ver o futuro. Não acha, Hunahpu?

— Você verá o futuro, pequeno jaguar, mas ele não verá você ou o nosso povo.


Os deuses gêmeos se despediram de Pakal chorando, pois sentiriam saudades, e o mandaram atravessar a porta para o reino de Xibalba e seguir viajem sozinho.

O Inframundo também permeia o mundo dos vivos, entre as doenças e as frestas sujas, nos bichos peçonhentos ou famintos. Todos conhecem os perigos e seus reflexos, tanto os mortos quanto os vivos, disso eu sei, todos sabem, pois já vi os olhos dos mortos espreitando pelas sombras.

Pakal seguiu sem medo pelo caminho coberto de escorpiões, pois o cheiro das pústulas sobre seus pés espantava os machos e tornava a pele insensível aos ferrões das fêmeas. Chegou à margem do rio que circulava pelo Inframundo. Um vento frio empurrou-o da borda para dentro do rio de sangue e pus. Pakal reconheceu seus antepassados boiando aqui e ali, mais pelos enfeites que usavam do que pela podridão que cobria seus rostos. A grande cidade dos mortos o esperava na margem oposta do rio, mas Pakal a ignorou. Procurava o pai entre os cadáveres para pedir conselhos.

Em princípio, deixou-se levar pela corrente para longe da cidade. Engoliu muito sangue e pus, boiava no caldo denso e quente, confortado do frio intenso de Xibalba, mas não achou seu pai. O rio serpenteava por entre a floresta negra, iluminado pelo rosto disforme de Cakix, cujo espírito foi morar na Lua. Então, entre um largo tronco caído na margem direita e a praia coberta de escorpiões na margem esquerda viu erguer-se o corpo de sua mãe, Sak Kuk, velha e morta ela estava, os olhos tomados por dois buracos, a boca cheia de vermes.

Ela lhe disse:

— Querido jaguarzinho, veja o que aconteceu com nosso povo. Não deixe que nos esqueçam. Por favor. Por favor.

Sak Kuk sumiu na névoa negra e o rio, antes morno e fedorento, ficou gelado e pegajoso. Então secou como as feridas costumam curar-se e virou uma crosta roxa quase negra. Rio-serpente que volta ao ponto de partida comendo sua própria cauda e o menino deus reviu a grande cidade na margem oposta, coroada pela Lua e Vênus, exibindo sua imensa Pirâmide. O pequeno jaguar caminhou sobre a crosta do rio pisando nos corpos secos de seus antepassados meio enterrados na grande cicatriz que circundava o Inframundo.

Jaguares famintos o aguardavam do outro lado, nas calçadas da cidade de Xibalba, centenas deles rosnavam e mostravam suas garras e seus dentes. Pakal não se intimidou, reconheceu seus irmãos e se fez seu Eei:

— Eu sou Pakal, o Escudo do Sol, o Deus do Milho, o Rei Jaguar feito homem. Saiam do meu caminho ou me sigam. Não aceito que me desafiem! — Gritou com bafo de sangue, pus e passado.

Reconhecendo seu deus, os jaguares ficaram mansos como gatinhos e o seguiram até a entrada da pirâmide no centro da cidade. Neste local sem vento ou chuva. Ouvia o som dos seus próprios passos na pedra fria da cor de nada em que pisava, tudo o mais era silêncio. Esperou na frente da pirâmide, seus irmãos deitados no chão, a dormir como gostam os felinos. Pakal olhava seus pés e lembrou-se da tarde em que ascendera. Talvez tivesse ascendido para a morte e não para o trono. Dali jamais sairia. Pois sua mãe já estava morta e provavelmente todos os que conhecera, inclusive eu que escrevo e desenho esta história. Olhava seus pés e queria sentir de novo a chuva e a lama, cheirar as rosas e comer curau com mel e baunilha.

Os deuses de Xibalba, que estavam escondidos avaliando a coragem de Pakal e para pegá-lo de surpresa, mandaram o silêncio embora partindo a pirâmide em milhares de escadas que levavam por caminhos ambíguos, sem fim ou começo, alto ou baixo. A armadilha surtiu efeito. Pakal, achando-se destemido por amansar os jaguares, foi circular por elas, mas o medo estava escondido e a dúvida acendeu uma pequena fagulha, suficiente para despertar os mortos das catacumbas do Inframundo. Os que quase não tinham mais pele sobre os seus esqueletos, armados de zarabatanas, chicotes e facas de obsidiana. Sem nada a perder, pois nada tinham, atacaram obstinadamente o pequeno jaguar paralisado. Desciam os degraus ferozes como lobos famintos estalando seus ossos na pedra.

O objetivo dos deuses era dar fim ao Deus do Milho e assim matar de fome a humanidade, arrependidos que estavam de tê-la criado. Mas os deuses eram como Cakix, vaidosos. Os homens só existiam para adorá-los. Por mais que fossem venerados, por mais oferendas que recebessem, por mais sangue dos sacrificados que escorresse na terra para sua glória, jamais estavam satisfeitos.

Pakal lembrou-se de Hunahpu e de sua sabedoria. O gêmeo havia lhe dito:

— Será guiado para a grandeza só quando estiver frente à morte.

Quando os zumbis estavam tão próximos que Pakal sentia o cheiro dos resto de medula dentro de seus ossos. Ele, que havia aprendido os encantos da transformação com os deuses gêmeos, virou jaguar, o Rei Jaguar, de três metros de altura, patas do tamanho da cabeça de um crocodilo. Rosnou para acordar seus irmãos e juntos atacaram a horda de esqueletos com a fúria de treze deuses.

Derrubou-os das escadas como se fossem papiro, quebrou os gravetinhos secos que eram seus ossos, esmagou seus crânios que estalavam, cascas de besouro. Com suas presas partia-os ao meio e engolia-os inteiros ou em partes. Quando um de seus irmãos era atacado ou ferido, outros cinco se juntavam a ele, não oferecendo chance aos mortos, ou aos deuses que os comandavam. As lascas de ossos espalhavam-se sobre a pirâmide e ao rugido dos jaguares juntava-se o bafo frio dos mortos.

Usukan, o deus serpente, odiava a humanidade e, covarde, se escondia no fundo da pirâmide. Ele havia insuflado os deuses do Inframundo contra o representante dos homens. Vendo que seu exército estava sendo aniquilado, e poucos esqueletos restavam em pé. Saiu de seu esconderijo para enfrentar Pakal, o Deus Milho, Rei Jaguar.

Pakal decidiu enfrentá-lo como homem. Usukan gargalhou quando o poderoso jaguar transformou-se novamente em menino de doze anos, magrinho e pequeno.

— Mosquitinho! Mosquitinho! — Usavava palavras como a primeira arma para atacar o Pakal, enfraquecendo sua auto estima.

Pakal, que aprendeu com Hunahpu e Xbalenque o poder da troça, não ligou para as palavras de Usukan. Sacou a zarabatana e disse:

— Mosquitinho com veneno das vespas! — Assoprou o dardo com tanta força que furou o único olho da Serpente Deus. Cega e desorientada, foi comida viva pelos irmãos de Pakal.

Usukan também cometeu o erro de subjugar por vaidade, de odiar por intolerância. De achar que sua alta posição no panteão dos deuses não pareava com o jaguarzinho. Pakal havia conseguido vencer grandes obstáculos. “Conquistei o Inframundo. Meu povo não será esquecido”, pensou. Estava errado.

As escadas se viraram para dentro da pirâmide, formando cavernas, o avesso do mundo virou do avesso. Pakal descia e subia, ora por passagens tão estreitas que precisava arrastar-se, ora por imensas galerias, altas como o firmamento ou profundas a ponto de, debruçado na borda dos degraus, Pakal conseguir enxergar milhares de metros abaixo, o 13º nível do Inframundo, o fundo de toda a existência.

Os degraus das escadas sussurravam frases sem sentido, confundiam a mente de Pakal, que desorientado caminhava pelos seus meandros em forma de caverna. Ou seriam as cavernas as próprias palavras? Na essência os deuses eram formados de palavras e sabem que seu poder se concretiza na mente dos fracos para o mal e na dos fortes para o bem.

O milho estará no ponto de colheita quando alcançar o último degrau.

Ix Tub Tun mandou presentes barulhentos, estão no fim deste caminho.

Venha, pequeno jaguar, Hunahpu te espera no topo da escada.

Pakal era levado de um lado para outro, nunca chegando ao sopé ou ao topo de escada nenhuma. Quando percebeu que estava preso pelo ritmo das palavras, que elas estavam jogando com ele, fazendo-o perder o rumo, tapou os ouvidos com força e invocou a sabedoria dos ancestrais para guiá-lo. As escadas e cavernas sumiram como a fumaça de um cachimbo. Estava de volta ao topo da pirâmide, cercado pelo céu de fogo do Inframundo. “Que mal teria feito?” Perguntou-se ao perceber ser vítima das troças dos deuses antigos. Estaria sendo punido pelas mentiras que disse aos sacerdotes? Pelas travessuras com os amigos? Ou as teimosias com a sua mãe? Se pedisse perdão, poderia voltar a conviver com os vivos, só talvez. Se abaixasse a cabeça seria de novo o menino com os pés cobertos pela água da chuva, brincando na poça de lama e sangue. Criança de novo, correria livre feito pássaro, voaria pelos céus e iria até o limite, pousar nas costas do crocodilo no lago do mundo inteiro. Suas asas seriam azuis, seu bico amarelo, a crista vermelha, o corpo negro. Cantaria para as estrelas de noite e para as florestas de dia. Faria seu ninho entre as flores cercado do veludo e do perfume das pétalas. Estava ali, porém, longe de tudo.

Pakal espantava as memórias passadas e as ilusões. Jamais voltaria a olhar o chão como um vassalo. Determinou a si mesmo que não obedeceria a ninguém e sairia dali para guiar o povo de Palenque durante os mais frutíferos anos da civilização maia.

As fragrâncias de flores que circulavam pela sua lembrança foram substituídas por um cheiro podre de pestilência sob o sol invertido do equinócio de verão. O esqueleto de Yum Kimil, o deus do último patamar do Inframundo, o que come as carnes dos mortos, surgiu no céu de fogo, fumando seu cachimbo. Tabaco e podridão. Chacoalhando seu colar feito dos olhos abertos e conscientes dos pecadores a quem não é permitido esquecer os erros.

— Quer voltar, jaguarzinho?

Sem um pingo de medo. Pakal olhou diretamente para os dois buracos negros no rosto de Yum Kimil. Ao invés de responder à pergunta do Deus, como Deus que também era, ordenou.

— Mande-me de volta para o mundo superior, agora.

Yum Kimil sugou com força, acendendo o tabaco dentro do cachimbo, puxou o fumo e a fumaça circulou por dentro de seu esqueleto e então ele soltou uma baforada na cara de Pakal, que permaneceu inabalado. Ali estava um deus morto, Pakal era um deus vivo, era três deuses, não um.

— Não posso. — Disse o deus maligno. — Vou pô-lo a caminhar para o Futuro de cabeça para baixo, deusinho jaguar cheio de pústulas. Quando o trouxer do Futuro não vai querer nada além de se embalar nos meus braços e do calor do rio de sangue.

Pakal olhou para os próprios braços e pernas, não havia notado até aquele momento que seu corpo se deteriorava, a carne sobre os joelhos não existia mais, a rótula estava aparente, assim como os nós dos dedos. Sangue e pus pingavam de sua pele. O frio que sentia era da falta de seu casaco da carne. Sem gordura, a pele que lhe sobrara grudava aos ossos.

— Não me trará do Futuro, Yum Kimil. Eu serei o Futuro.

Yum Kimil gargalhou e amarrou os pés do menino deus. Pendurou-o de ponta cabeça no firmamento e o mandou para o oceano vermelho.

Pakal viu grandes canoas feitas de muitos troncos cruzando o oceano, vindas de além do limite do mundo, empurradas pelo vento que inflava gigantescas peças de linho, um desenho de cruz as adornava. Barcos cheios de deuses de peles claras e pelos grossos. Observava-os Pakal, de cima, como o pássaro que sonhou poder ser, encoberto pela sombra da morte. Ninguém podia vê-lo, ele via tudo através de seu manto vermelho.

Aqueles deuses não eram deuses, afinal, pois também oravam e obrigavam aos poucos dos maias que estavam nas praias de Yucatan a esquecer seus próprios deuses e orar para uma cruz, o deus único deles. Sua crueldade era tão grande que faria Yum Kimil sentir-se pequeno. Tanto sangue derramaram em nome desse deus que o rio do Inframundo é só um fio de água barrenta formado pela chuva. Os que foram sacrificados em fogueiras e pregados em cruzes não reconhecem o caminho para o Inframundo, os que sobrevivem não sabem mais da sua existência. Não irão para Xibalaba, as picadas de escorpião não farão pústulas em seus braços. Perderão o respeito do Deus Jaguar, do Deus do Milho e de Ahau Kin.

“Onde estão as cidades de pedra e seus templos de 366 degraus? Onde estão Uzmal, Edzna, Tikal, Palenque?” A selva as cobriu dos olhos do mundo, seus descendentes vagam sem eira nem beira. Do topo das árvores que escondem as antigas construções, Pakal lembrou-se dos campos de milho a perder de vista, densas florestas abocanharam o milho e todas as cores das pedras e todos os seus escritos. Os maias que restaram ainda pediam proteção aos quatro cantos cardeais, mas já estavam cansados de sacrifícios e de sangue. Fugidos das cidades, mortos pela fome e falta de esperança, viviam de catar, caçar e pescar, quando os deuses assim o permitiam. Dos dez milhões de fiéis, restavam menos de cinquenta mil. “Onde estão os homens de milho, criados para adorar aos deuses?” Chilam Balan, que se escreveu no tempo dos homens da cruz, os recordaria:

Dispersados serão pelo mundo, as mulheres que cantam e os homens que cantam e todos os que cantam… Ninguém se livrará, ninguém se salvará… Muita miséria haverá nos anos do império da cobiça. Os homens se farão escravos por nada. Triste estará o rosto do sol… Se despovoará o mundo, será pequeno e humilhado…” (*)


Muito antes dos homens do além-mar desembarcarem nas praias de Yucatan, o povo de Tikal e Palenque foi torturado pelos Senhores da Guerra. Altas muralhas e fossos profundos em volta das cidades não foram capazes de detê-los. Por dois séculos os maias lutaram uns contra os outros por uma liberdade que não existia, esqueceram de olhar as estrelas e cuidar das colheitas, esqueceram também que os sacrifícios valem tanto quanto observar o que está escrito na natureza. Pakal via tudo sem poder fazer nada a não ser orar, a palha seca do milho pegando fogo por quilômetros sem fim, chorava e pedia chuvas e raios a Ix Tub Tum. Implorava pela volta das tempestades que estragavam suas brincadeiras de criança e das quais sempre reclamava. Nada, nem uma única gota. Cakix no céu se cobria com o véu negro do esquecimento.

Em Tikal, via a Senhora da Guerra insuflar seu exército de moscas contra o povo, contra cidades sem exércitos. Antes os governadores obedeciam aos antepassados, fazendo troça dos rivais, negociando a liberdade dos sequestrados ou matando o sobrinho preferido do chefe da cidade vizinha em sacrifício. Então acordos eram feitos e depois quebrados e laços reatados e desfeitos. Foi assim que o futuro governador havia aprendido com seus professores e com sua mãe. Como as estações, como o tempo seguindo a ordem cíclica. Pakal procurava, mas não encontrava os sinais de civilidade. O sangue de seu povo havia sido absorvido pelo chão de terra, longe das pedras sacrificiais, longe das promessas dos deuses. Escoou pelo Inframundo, mas não encheu o rio de Xibalba, continuou até o negro nada onde repousam os mortos sem honra.

Pés dormentes e mãos cruzadas na frente do corpo, de ponta cabeça, Pakal voou para a Palenque de antes da queda. Antes que Muwaan Mat, a dama dos seis céus, a Senhora da Guerra chegasse com seu exército de moscas famintas e devorasse o mundo.

Palenque estava ainda mais majestosa do que na infância de Pakal, mais organizada e vívida, cheia de flores e de cores, o palácio do governador três vezes maior. No topo da pirâmide ele se viu ancião a conversar com os sacerdotes, em roupas suntuosas e ricas, cabeça coberta por um chapéu de palha de milho e enfeitado com os deuses gêmeos Xbalenque e Hunahpu. Governando seu povo com a mente no agora, pois o amanhã não existiria.

Precisava voltar, mas Yum Kimil também morrera no Futuro. Sem ter nenhum deus a quem chamar, Pakal orou sozinho em busca de um que ainda estivesse vivo, e foi ouvido por Itzamná, o deus criador que fez o povo maia. Ele desatou seus pés, colocou carne sobre seu corpo e o ajudou a voltar para o seu casulo de cobra.


Naquela triste noite de lua cheia, Pakal me contou o que viu no Inframundo e no Futuro. Eu, o escriba, que tenho o mesmo nome do criador, pois ele também era escriba, encerro meu relato com o fim de nossa conversa:

— Vi sim minha morte, Itzamná. Os homens da cruz acharão minha história um dia, por isso esculpa-a bem fundo na rocha, as linhas bem traçadas e limpas. Eles verão meu rosto, minha cabeça de Deus do Milho. Mais que isso, a gloriosa Civilização Maia em todo o seu esplendor será admirada por sua beleza, cultura e sabedoria. Enfeite bem minha vida, pois sobrará muito pouco do que fomos, só restarão as pedras pálidas.

— Para provar que tudo que escrevo neste papiro é verdade, eu gostaria, nobre Pakal, de deixar registrada alguma data que meu senhor se recorde. Algum acontecimento no futuro, talvez.

— Irei morrer, segundo os homens da cruz em 683 d.C.

— Quando seria isso, senhor? Não entendi.

— Próximo ao fim de todos os ciclos eles entenderão nossas palavras. Nós nunca entenderemos as deles.

Xbalenque e Hunahpu choraram quando os espanhóis queimaram os papiros com a história da passagem de Pakal pelo Inframundo e pelo Futuro, escrita pelo grande escriba Itzamná.


Notas: (*) Chilam Balan são textos que recordam os preceitos maias na região de Yucatan, século XVII. Tradução para o espanhol de Alfredo Barela Vasques. Tradução para o português Eric Nepomuceno em Memórias do Fogo I — Nascimentos — Eduardo Galeano (Ed. Paz e Terra)

Claudia Dugim
Claudia Dugim
Nascida em São Paulo quando ainda garoava, Claudia Dugim é adoradora de grandes cidades. Cursou colégio técnico de Artes Gráficas e posteriormente graduou-se em Letras e Pedagogia; é professora de inglês como segunda língua. Escreve desde pequena, fã de histórias de todo tipo: filmes, quadrinhos, livros, vídeogame, RPG. Lançou um livro de poesias nos anos 90 e parou, voltou a escrever em 2011 e lançou O Caminho do Príncipe em 2013, em fase de reedição. Tem contos publicados na Revista Trasgo, nos Contos Sonoros, nas antologias Piratas (Editora Catavento), Boy’s Love e Contos do Dragão (Editora Draco). Coordenadora do Grupo de Escritores "Singularidades", cujo primeiro projeto foi lançado em 2015, "Cobaias de Lázaro". O segundo projeto, "Retrônicos" será lançado ainda este ano. Dá aulas como voluntária em Oficinas Literárias dentro do projeto Vai (Gibiteca Balão) da prefeitura de São Paulo.

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2 comentários

  1. Marcos / 9 de junho de 2016 at 13:03 / Responder

    Um conto que prende o leitor. É tão especial ver o trabalho de um profissional!, não, de uma artesã.

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