O Meteoro de Rojanski

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Aluz piscou uma vez. Vermelha, mínima. Não fosse a escuridão ela seria ignorada, mas brilhou entre a treva como um pequeno e distante sol.

Uma vez. Radiação.

Gostava daquela ala. Era mais simples que o resto, menor em seus cômodos, mais fria, aconchegante. E os livros bons estavam todos ali. Não fosse o problema da radiação, seria o lugar perfeito. Usualmente acabava rápido, poucas vezes teve que se ausentar por mais de algumas horas.

Sentou-se na cama e os olhos involuntariamente voltaram-se para a janela. Quando a viu pela primeira vez achou um desperdício, sabendo que nunca veria nada fora o breu. Bem, hoje em dia via um breu diferente. Salpicado por curiosidade, esperança. Deixava a janela aberta por mais tempo do que seria prudente.

“Esqueça isso. Por mim.”

Duas vezes.

O homem colocou o livro no criado-mudo de madeira sintética, sem soltá-lo. Os olhos ainda estavam fixos na janela, e a pequena luz do lado da porta refletia no plástico espesso, impedindo-o de esquecer e só mergulhar no escuro. O negrume sem limite. Não se lembrava do que duas piscadas significavam. O pequeno display logo abaixo da luz exibia um código, mas ele nunca se dera ao trabalho de decorá-los.

Duas vezes era alerta de manobra, lembrou-se. Manobra? Mas quem…? Sentiu o coração acelerar, a espinha esfriar e endireitar-se. Mas não havia motivo, havia? Era só uma manobra. Podia ser um dos outros.

Xavier coçou a cabeça, sentindo o cabelo ralo engordurado. Tinha uma vaga lembrança de estar fora dali, ter descido às alas internas, passando pelas colossais portas de aço, chumbo, ouro e titânio, que sempre lhe causavam um medo infantil, mas não tinha ideia de quando fora. Uma semana atrás, um mês… Um ano? Lembrava-se do calor, da comida melhor, a água mais limpa. E nada mais. Quando pensava no passado, tudo que lhe vinha à mente eram imagens do livro agora no criado-mudo, seu dedo ainda servindo de marca-página. Esteve tão perto…

Três vezes.

Procurou um marca-página no móvel ao lado da cama, mas só encontrou livros. Procurou do outro lado, ouvindo as costas estalarem ruidosamente, reclamando do movimento, e só encontrou mais livros. Levantou-se com esforço e deixou o livro em cima do travesseiro, aberto. Colocou o roupão aveludado, calçou as pantufas e dirigiu-se à porta embutida do quarto.

Enquanto acordava o corpo, Xavier esperou que se lembrasse o que eram as três luzes, da mesma forma que se lembrou do que eram duas. Três não podia ser muito pior que um ou dois. Os computadores tomariam conta daquilo, com certeza; ou eles ou algum dos outros. Uma parte dele tentava convencê-lo a ficar na cama, a continuar lendo e ignorar aquilo, mas… Havia um senso de perigo, um sentimento estranho. Sentia o estômago embrulhando. Era revigorante sentir-se assim mais uma vez (mais uma vez?), sentir alguma coisa, mesmo que fosse aquele medo estranho, ilógico.

A porta corrediça abriu-se assim que ele deu um primeiro passo, desequilibrado. A luz do corredor acendeu-se para ele, mas só uma: assim que era o sistema, mostrando só uns poucos metros à frente e atrás. Xavier caminhou e as luzes o acompanhavam, acendendo-se e apagando-se.

As pernas logo se acostumaram com o esforço, e Xavier apertou o passo. Outra coisa que ele gostava naquela ala era a quietude. O zumbido dos eletroimãs permeava quase todo o centro, além dos ruídos do resto do maquinário. Ali ele tinha silêncio. Ninguém frequentava aqueles corredores, que continham vários outros quartos como aquele de que ele saíra há pouco. Todos idênticos, impecáveis.

A luz branca acendeu-se com seu passo e iluminou a porta no final do corredor. Entrou na sala comum, onde ficavam os elevadores principais e outros meios de transporte, a cantina (que Xavier visitara no começo, mas depois cansou-se e só bebeu o suplemento sem gosto que vinha pelos dutos a todos os quartos), uma área de lazer e mais bobagens do gênero. Só uma porta lhe interessava.

Entrou confiante no antigo armário de vassouras, acendendo a luz e sentando-se na cadeira que instalara ali, no início. O aposento continha três objetos: a cadeira de falso couro, uma mesa plástica e o computador. Era um laptop, ou pelo menos fora; enquanto Xavier abria-o, as dúzias de fios que brotavam da carcaça plástica gemeram. Os cabos literalmente subiam pelas paredes, ligando a máquina ao resto do centro. Era uma aberração, feia como o diabo, mas funcional.

Ele estalou os dedos, lembrando-se dos comandos, procurando na tela acesa sinal do que seriam as três luzes. Logo encontrou: alerta de impacto. Puxou as imagens para a tela, analisando o corpo disforme que girava preguiçosamente na imagem térmica.

Um quilômetro e meio de raio, velocidade relativa 0,045c. Elemento principal da composição: magnésio, com resquícios de ferro, carbono e enxofre. Temperatura de superfície 110K. Colisão direta, quarenta e seis dias. Filmagem peculiar, de boa qualidade. Diferente das imagens cheias de ruído que usualmente vinham pelo telescópio. Não podia ser uma filmagem do registro, podia? Não, claro que não, Yin nunca deixaria um bug assim passar.

Engraçado. Sempre que uma colisão desse tipo era detectada o computador desviava automaticamente. Cavou um pouco nos relatórios e descobriu que isso era fato: havia desviado, há três horas. Houve alerta de manobra há três horas? Talvez… Mas se o alerta de manobra tinha acontecido há três horas, por que o meteoro continuava em rota de colisão?

Programou rapidamente uma manobra simples, desvio de cinco graus, sentindo os dedos felizes de encontrarem um teclado novamente. Fez tudo rápido, e logo sentiu a aceleração agir sobre o corpo, pequena, mas presente. A projeção da trajetória do centro mudou: o meteoro passaria a centenas de milhares de quilômetros, um número tão grande que ele mal se deu ao trabalho de imaginar.

Xavier bocejou, correndo os olhos pelos relatórios e análise de corpos próximos, tentando entender essa mudança na trajetória do meteoro. Havia um outro meteoróide grande a uma distância razoável. O sistema não era preciso e nem capaz o suficiente para calcular isso, mas não pareceu de todo improvável que o meteoróide tivesse passado perto o suficiente do meteoro para alterar sua rota. Conveniente, coincidente, mas não impossível. Depois de todo aquele tempo, talvez não fosse tão improvável assim ver algo do tipo.

O monitor piscou. Xavier esfregou os olhos, primeiro casualmente, depois com força. O meteoro estava em rota de colisão.

Mas como? Não havia asteróide ou qualquer motivo lógico para mudar a rota dele. Programou mais uma manobra, dessa vez mais drástica. Teve que se segurar na cadeira para não ser arremessado para fora, a gravidade muito mais forte do que antes. Olhos grudados na tela; no corpo que girava, preguiçosamente, lentamente… E mudava de rota.

Tempo para o impacto: vinte e seis dias.

Impossível. Nada poderia se mover no espaço assim, sem dar rastros claros, expulsar matéria, a não ser… A não ser o próprio centro.

Xavier ponderou longamente, olhos colados no meteoro, até ele sair da tela. Mais três horas na lenta rotação do centro até ele voltar ao campo de visão do telescópio. Havia algo errado, algo urgente e terrível sobre a situação, mas não era só isso que o deixava inquieto.

“Por mim. Esqueça.”

Esteve tão perto… Mas adiantaria algo se morresse?

— Não adianta — ele disse, levantando-se. — Preciso procurar os outros.


A descida foi mais longa do que ele se lembrava. O elevador seguia lento, quase sem som, solto dentro do fosso. No começo ele teve medo, mas medo do quê? O que podia ser pior que… toda a situação?

O laboratório do Dr. Matsushiro ficava numa das antigas salas de reunião, perto dos sistemas de aquisição de dados. Passando por eles Xavier viu os painéis apagados, impecáveis. Na primeira centena de manobras, nos testes com a gravidade e o elevador, eles recolheram todos os dados possíveis; agora tudo aquilo era inútil. À direita as janelas que davam para o vão do maquinário estavam escuras. Melhor assim.

— Se eu conseguisse esquecer… — Xavier sussurrava para si. — Se eu esquecesse…

Soube que estava chegando pelos papéis. Montanhas deles, cheios de anotações e cálculos, espalhados primeiro em pilhas organizadas, depois presos às paredes, no teto, no chão… No começo o doutor achara que o papel seria uma preciosidade, e tratava-o muito bem, todas as folhas completamente entupidas de notas. Depois que eles conseguiram fazer o reorganizador criar uma réplica suficientemente boa, entretanto, o cuidado se foi. Tinham quantas folhas quisessem.

Xavier entrou na sala de reuniões sem bater, e encontrou tudo no lugar. Os potes a vácuo, na dúzia de experimentos enjambrados que o doutor conduzia, as pilhas de notas, o quadro branco. Quase nada branco; sujo com as manchas de mil escritas, apagadas de novo e de novo e de novo.

Dr. Matsushiro olhava para o quadro.

— Olá, doutor. Há quanto tempo.

Ele nem tirou os olhos do quadro. Xavier suspirou, cansado. O doutor era o mais fácil de se encontrar, mas provavelmente o mais difícil de se conversar. Desde o que acontecera com sua esposa, ele estava sempre em outro mundo, preso em sua Física.

— O que você está fazendo? — perguntou Xavier.

— Estudando o efeito Frintel-Matsushiro. Você se lembra do meteoro? — disse Dr. Matsushiro, olhar ainda fixo.

— Claro que me lembro. Visível no céu, um terço do tamanho da lua. — Xavier esfregou os olhos, pressionando a boca numa linha fina. — O início de tudo. O Meteoro de Rojanski.

— Meus pais fizeram as primeiras observações dele. Descreveram seu comportamento errático, antes do mundo sonhar na manobra Yin-Matsushiro. Uma centena de satélites, milhares de bombas, mais recursos do que a Terra tinha. Uma aposta, tudo ou nada. E conseguimos colocá-lo na órbita da Terra.

— Eu sei. — Xavier sentiu o estômago embrulhar. — Qual o seu ponto?

— Ainda tem tanto que não sabemos… O modelo que desenvolvi com o Dr. Frintel tem vários problemas. Não explicam muito bem o campo magnético que afasta a matéria do meteoro, efeito que provavelmente fez ele sobreviver tanto tempo num sistema solar de matéria convencional, só elevando sua temperatura de superfície, como havia teorizado Rojanski…

— Desenvolveu? Você só resolveu as equações que ele montou. — Dr. Matsushiro pela primeira vez tirou os olhos do quadro. — Você tentou fazer muitas coisas diferentes, Matsushiro. Você não podia ser o maior em todas.

Matsushiro tirou os óculos, limpando-os no roupão.

— O que você quer, Xavier?

— Aconteceu uma coisa. Tem um meteoro em rota de colisão conosco.

— Faça uma manobra — disse Dr. Matsushiro, voltando ao quadro, onde começou a rabiscar um conjunto conhecido de equações. Xavier, impaciente, foi até o teclado e ligou o projetor em cima do quadro.

— Eu já fiz — ele disse, colocando as imagens na tela. — Três manobras, e ele continua em rota de colisão.

— Meteoro peculiar. Meio parecido com uma pê…

— Parecido com o que for, está em rota de colisão. Mudou de percurso depois das manobras.

— Claro que mudou. Você anda lendo muito os seus livros, Xavier. Se está tão difícil, peça ajuda pro Alternador ou pro Yin, as únicas pessoas com alguma sanidade aqui dentro.

— Eu não tenho ideia de onde está o Alternador. E não sei se o Yin pode me ajudar com uma questão tão técnica.

— E eu não posso te ajudar com uma questão tão simples. Procure o Kosuke, então.

Xavier fechou o punho, sentindo o sangue subir ao rosto.

— Muito simples. Como anda a sua pesquisa, mesmo? — disse Xavier.

— Muito bem. Redefini o nosso conhecimento sobre anti-matéria, as diversas interações quânticas, avancei no modelo matemático do efeito Frintel-Matsushiro…

— Com o tempo que você teve, fazer essas coisas era só questão de documentar o que o Frintel falava. E as coisas difíceis? O gerador de forças?

Dr. Matsushiro ficou em silêncio. Tirou os olhos do quadro mais uma vez e removeu os óculos da face enrugada com muita calma.

— Vá embora.

Xavier saiu do laboratório. Foi tolo em esperar encontrar algum auxílio com Matsushiro. Depois da morte da esposa, o cientista tornou-se frio, sem tato. Xavier até entendia, e no começo empatizou com ele, mas depois ficou impossível aguentar a arrogância do doutor. Mais dez anos preso em seu laboratório e quem sabe descobrisse algo realmente útil para eles, não só aquela masturbação Física que ele levava para sempre.

Kosuke quem sabe tivesse algo útil a compartilhar. Fez meia dúzia de curvas e entrou no elevador que levava às simulações.


Já estava acostumado com o escuro; os primeiros momentos eram sempre assim. A simulação começava a mandar sinais para seu cérebro, e estranhamente a primeira coisa que vinha era o olfato. Um cheiro de couro gasto. Um cheiro de sal, carne, carvão e fogo, residual, quase inexistente. E álcool. Como num pano mal lavado. Uma mistura familiar. Os cheiros todos cresceram, imensos, reais, mas a escuridão perdurou. Estava escuro no ambiente; na pequena caixa metálica que corria, preguiçosa, sobre o asfalto. Lá fora, surgiam as luzes dos postes.

A simulação conseguia fazer uma quantidade inacreditável de carros esportivos. Xavier entenderia aquilo se fosse tão simples: dirigindo de madrugada bêbado, velocidade e adrenalina, mas não era isso. O carro era simples, velho, o couro partido dos bancos revelando pedaços do enchimento, o painel descascando, o vidro sujo e rachado numa das extremidades. O cabo da marcha estava desgastado e quase apagado, o volante manchado e rachado. Conhecia aquele carro.

Não, impossível. Só impressão.

Havia postes só num dos lados da rua, que mudava conforme o asfalto rodeava e serpenteava as casas e pequenas construções rústicas. Era uma área suburbana, uma via simples de mão dupla que cortava aquele interior de cidade grande. As casas e prédios eram todos pequenos, um ou dois andares, cercas de ferro com pontas, placas de estabelecimentos simples com desenhos ruins. A luz amarela, pulando de lado em lado, quase insuficiente. As árvores criavam sombras imensas e todas as janelas estavam escuras. Não havia nenhum outro carro na rua, nunca.

O motor roncava baixo, confortável, vivo. Calado pela música, o velho baixo vigoroso, o teclado característico, a guitarra suja. Sempre a mesma música, repetida de novo e de novo. Oito minutos e trinta e três, de novo e de novo e de novo.

Lá em cima a lua não era sozinha. Havia outro, muito menor mas igualmente brilhante, seguindo seu caminho. O Meteoro de Rojanski, seu formato de pêra bem visível. Depois de toda a preparação, o esforço conjunto de toda a humanidade, colocaram-no em órbita. Energia o suficiente para milhões, bilhões, trilhões de anos. O meteoro de anti-matéria. O meteoro que começou tudo.

O motorista não falava, nem tentava acompanhar a música. Parecia totalmente alheio a tudo, às curvas, às lombadas, à música. Dirigia com calma e perfeição, as mãos roçando no volante e no cabo da marcha, os pés dançando lentos e precisos nos pedais, com aquele tipo de perícia que só se desenvolvia com os anos. Não precisava pensar para dirigir. Parecia sorver tudo que acontecia.

— Você está bêbado, Kosuke?

— Não — ele respondeu —, eu tinha bebido antes, mas não mais.

— …Você realmente bebeu?

— Não — ele disse, demonstrando a emoção mais intensa que houve em toda a viagem de carro: um leve irritar. —, mas programei para que assim fosse, o álcool ainda um pouco presente no meu sangue, como se algumas horas atrás eu estivesse bêbado.

— Sei. O que você tá fazendo?

— Dirigindo.

— Para onde?

— Por aí.

Depois de entender que não era a velocidade ou a embriaguez, esperou alguma outra loucura, talvez mulheres, drogas, algo assim. Aquilo era muito mundano para o sistema de simulações. Xavier passara seu tempo ali, como todos. Era a fuga ideal, cheia de variedade, e até gente simulada para interagir. Mas ultimamente só Kosuke entrava nas simulações.

— Eu sinto falta disso — disse Kosuke, olhos na estrada. — De voltar pra casa, onde a minha esposa estaria esperando. — Ele esboçou o mais leve sorriso. — Ela ficaria brava por eu ter bebido demais, e eu diria que parei faz algum tempo, que estava tranquilo na hora de voltar para casa. Ela iria sorrir, e me mandar tomar um banho antes de ir para a cama.

— Mas você nunca chega, chega?

— Não. Mas ainda sinto falta disso. Da madrugada. Do voltar à casa, passando por essas áreas estranhas, essas casas que circulam pelos meus olhos meio bêbados. Lugares que eu nunca verei de novo. Nestes momentos eu me sinto meio consciente de tudo. Eu deixo de estar no carro dirigindo e vou a algum outro lugar, não sei explicar. Eu não me importo de ficar dirigindo para sempre aqui.

Xavier baixou os olhos para os próprios pés, vendo as mesmas pantufas que usava no centro. Fazia pouco tempo que a esposa de Kosuke falecera. O centro possuía tudo que era necessário para sustentar a vida: um sistema de suporte completo, filtragem de água e oxigênio, reciclagem de comida, e até o reorganizador de matéria, o primeiro de seu tipo. Mas não tinha médicos, e nem remédios específicos.

— Eu me lembro disso aqui — disse Xavier, olhando para o céu. — É um dos primeiros anos, não é? Do meteoro.

— Ano um. Ano cinco do meu casamento. Já começaram a extrair a anti-matéria, e o gerador Richards alcançou uma eficiência de 55%.

— Daqui a dois anos o gerador Matsushiro vai alcançar 95. Eu me lembro. Vão começar as pesquisas mais pesadas, o reorganizador de matéria… — Xavier reclinou a cadeira, olhando os dois astros enormes e brilhantes através do teto solar. — Vão começar a construir o centro em dez anos.

— Sim. Eu vou projetar ele, no fundo da Fossa das Marianas. Eu lembro.

— Foram bons anos.

Kosuke ficou em silêncio, imerso na música. Xavier sentiu-se desconfortável por interrompê-lo no meio daquele ritual, mas precisava falar.

— Kosuke, eu preciso de ajuda. Aconteceu um negócio. Estamos no centro… Você se lembra, certo?

— Sim — ele respondeu, a contragosto.

— Apareceu um problema, eu…

— Xavier. — Kosuke tirou os olhos da estrada e olhou para ele. Olhos escuros, muito escuros, atrás das lentes dos óculos. Olhos úmidos. — Eu não vou conseguir sair daqui por um bom tempo.

As lágrimas nas bochechas de Kosuke refletiram uma luz distante, amarela. Xavier voltou os olhos para a frente e viu, na mesma pista deles, o par de faróis.

Xavier saltou na cama de simulação, batendo a testa no vidro e depois no travesseiro. Apertou os botões na lateral e aguardou enquanto a cápsula se abria para ele.

Aquele sistema fora a esposa de Kosuke que propusera, projetara e programara. Mais uma das maravilhas alcançadas pela humanidade quando ela teve acesso a energia infinita. Recursos infinitos. Xavier sentiu o estômago embrulhar. Não teria ajuda de Kosuke.


Xavier esqueceu-se de segurar o corrimão enquanto caminhava e sem querer lançou-se para cima, flutuando até o teto. Tomou impulso na parede e voou pelo corredor, os ossos agradecendo pelo descanso. Passou pela porta de correr, esperou a atmosfera se estabelecer na antecâmara, e entrou na estufa.

Aquele era o primeiro experimento que precisava do gerador de forças: plantações em gravidade zero, grande escala. Era a segunda maior sala do centro, o teto tão alto que mal se via, os corredores de plantas afastando-se até parecer que se juntavam. Os vegetais ficavam em jardins flutuantes, milhares de vasos suspensos por cabos que, no momento, não estavam sob nenhuma tensão. Cultivos de cenoura, batata, tomate, melancia, alface, cebola… E mais uma infinidade, as mil plantas, frutas e hortaliças mais consumidas pela humanidade. No começo foi dali que o próprio Xavier tirara seu sustento, depois que se separaram. Com os anos a comodidade pesou e ele raramente voltara ali, onde, por ser mais perto da massa de combustível e do conversor, era quente, úmido e desconfortável. Os robôs que colheriam e armazenariam a comida nunca chegaram, mas as máquinas que cuidavam da terra e dos dejetos ainda estavam lá, operantes. Sem a colheita, os jardins funcionavam num ciclo eterno de crescimento e apodrecimento: os frutos apodrecidos retornavam à terra e, com uma pequena ajuda do reorganizador, serviam de combustível para as novas plantas. Aquilo operava sem supervisão direta há tempos. Seria uma descoberta incrível, caso ainda existisse alguém para ficar empolgado. Vegetais crescendo sem gravidade, levemente deformados por isso, mas comestíveis. Tiveram que fazer vários ajustes no solo, na umidade e circulação do ar, mas funcionara.

Xavier flutuou entre as plantas. O jardim era interessante, mas quieto demais; nada acontecia ali. Depois de terminar a programação inicial, um deles tinha se apegado àquele lugar.

— Xavier.

A voz de Yin veio de baixo, perto de uma das árvores. Uma pereira.

— Yin. Olá.

Estava idêntico a como Xavier o vira por último. Barba grande, olhos fechados, serenos. Flutuava a centímetros da grama, as pernas cruzadas em posição de lótus. Antes de se encarregar pelas plantas, Yin programara boa parte dos sistemas do centro, instalando os terminais remotos, iguais àquele que Xavier usara há poucas horas para fazer as manobras. O trabalho foi trivial para ele, que depois disso leu alguns livros sobre religião e tornou-se incompreensível.

— Há um problema, Yin…

— Eu sei. O meteoro.

Xavier apertou os olhos, encabulado, confuso. Segurou-se numa árvore para conseguir ficar imóvel, coisa difícil de fazer sem gravidade. De alguma forma, Yin não se movia.

— Eu preciso dar um jeito nisso, senão vai bater na gente. Eu conversei com os outros, e…

— Sim. Eu sei — disse Yin. — Esse problema é realmente importante, mas… Pense bem, Xavier. É realmente a coisa mais importante que você deve resolver?

— Hã? Como assim?

Yin nunca abria os olhos; todas as partes de seu corpo fora os lábios estavam imóveis, numa calma tão grande que, enquanto calado, parecia dormir. Xavier sentia como se o homem estivesse longe dali, daquela conversa… Ao mesmo tempo que parecia mais presente na realidade do que o próprio Xavier.

— Desde que você parou de ler e viu o aviso luminoso, não, desde antes, você sentiu que havia algo estranho. Algo engraçado. Te fez sentir medo.

— Como você sabe?

— Eu acho que você sabe, Xavier.

Conversar com Yin era sempre um desafio. Desde que sua esposa morrera, tornou-se recluso, passando mais e mais tempo naqueles jardins, sem se mover, sem comer, meditativo. No começo pareceu inevitável, alguém tinha que ser afetado por aquela reclusão. Mas depois… Principalmente agora, depois de ter falado com os outros, Yin parecia muito ciente da realidade que os cercava.

— Os outros. Este centro — disse Yin — A sua promessa, com os livros. Esquecer. Pense bem.

— Você não pode ser um pouco menos enigmático?

Yin sorriu.

— Eu não poderei lhe ajudar com o meteoro, não do jeito que você pensa. Só você pode resolver isso.

— Mas eu não tenho ideia do que fazer! Dr. Matsushiro não me leva a sério, e o Kosuke está preso nas memórias…

— Pense bem, Xavier. Preste atenção no que está acontecendo, no que te cerca. Só você pode resolver esse problema.

— Porra, Yin, a gente vai morrer! Não preciso da sua filosofia agora, preciso de ajuda concreta! Quer saber? Foi um erro ter vindo até aqui. Vou procurar o Alternador.

Xavier saltou para longe, voando entre as prateleiras altas de abacaxis e beterrabas. A voz de Yin ecoou sobre o salão.

— Preste atenção, Xavier. Você sabe a saída para isso. Esquecer não vai lhe trazer nada.


Xavier passou por meia dúzia de portões, elevadores e escadas, as pantufas rangendo no piso metálico. Acessou um terminal qualquer de uma das salas de manutenção e encontrou a agenda. Cada vez que chegava mais perto ficava mais quente, primeiro vinte e poucos graus, depois quase trinta. Tirou o roupão e deixou-o num canto qualquer antes de entrar na sala. O som das ferramentas logo o avisou que estava no lugar certo.

— Ei, Alternador! — gritou no galpão do reorganizador primário.

Alternador era o apelido que aquele homem ganhara na faculdade de engenharia, ou era essa a história. Fazia a manutenção das máquinas. Não eram tantas quanto se pode imaginar, mas… Se não fosse fazer isso, faria o quê? No começo Alternador se encarregou de instalar os telescópios e sistemas de aquisição externa de dados, reprogramar o reorganizador para cuidar melhor da comida… Mas isso já fazia anos. Agora tudo que o mantinha ocupado era a manutenção, e o ocasional experimento do Dr. Matsushiro.

— Aqui atrás!

Encontrou Alternador numa fresta estreita entre a parede e o reorganizador. Aquele era o primeiro, feito ainda nos dias que a raça humana temia mexer com reorganização a nível atômico, temia radiações desconhecidas, compostos cancerígenos e sabe-se lá mais o que. Esse fora um dos propósitos do centro: testar aquela máquina, lá no início. Por isso as paredes grossas de chumbo, inicialmente projetadas para proteger a humanidade da radiação que possivelmente sairia da máquina, agora protegendo eles de toda a radiação que vinha lá de fora.

— Oi, Alternador. Como vai a esposa? — disse Xavier, limpando o suor da testa.

— Melhorando. Trabalhando nas simulações dela — respondeu Alternador, jogando uma chave de boca de volta na caixa de ferramentas e olhando o pequeno terminal de manutenção que instalara no reorganizador.

— Escuta, temos um problema. Tem um meteoro vindo em nossa direção.

— Você desviou dele? — respondeu Alternador, caminhando em direção a outra face da máquina, já desmontando a carcaça plástica e analisando os tubos em seu interior.

— Sim. Eu desviei três vezes, e o meteoro… Parece que mudou de rota.

— Engraçado. Eu tenho certeza que os telescópios tão funcionando, fiz a manutenção deles recentemente. Você pode me mostrar esse meteoro?

— Bom, agora não, ainda não devemos ter rotado por completo…

Alternador saiu do posto de trabalho deixando as ferramentas ainda lá, e dirigiu-se ao pequeno laptop embutido numa das paredes do saguão. Enquanto ele iniciava o sistema, Xavier olhou para a parede mais distante, aquela coberta por vidro. Estivera tão focado no problema que mal havia olhado para aquele lado.

— É bonito, não? — disse Alternador, desviando os olhos da tela enquanto digitava.

— Muito. Ainda me impressiona…

— Como trouxeram ele aqui pra baixo? Quero dizer, quando aqui ainda era embaixo…

— Também… Mas estava falando mais em como colocamos ele em órbita.

Atrás do vidro grosso, cintilante, estava o meteoro de Rojanski. O que restara dele, no final: algumas centenas de toneladas, flutuando no vácuo perfeito. Uma enorme rocha, aos olhos humanos totalmente ordinária, que moveu o centro por todos aqueles anos. Xavier apertou os olhos por baixo dos óculos e viu o filamento minúsculo de material sendo puxado para uma extremidade, onde era levado ao conversor e transformado em energia elétrica.

— Aqui, o computador achou.

— É? — disse Xavier, inclinando-se na direção da tela.

— É, bem aqui. Impacto em treze dias.

— Treze?! Eram vinte e seis antes! Ele acelerou?

— Não. Pelo que mostram os registros, aproximou-se lentamente do centro pelos últimos treze dias…

— Mas como? Não faz mais de algumas horas desde que fui conversar com eles! E…

— É, eu to vendo o registro — interrompeu Alternador —, mudou de rota algumas vezes.

Alternador fez mais uma manobra, com o mesmo resultado. O meteoro havia se movido.

— Que bizarro! O telescópio e os sistemas externos não são precisos o suficiente pra entenderem o que tá acontecendo. Mas eu realmente não sei o que fazer, Xavier. Você falou com o Matsushiro?

— Falei, ele não deu a mínima.

— Esse meteoro parece uma pêra, engraçado. 110 Kelvin… Quente, bem quente. — Alternador ficou quieto por um instante, encarando a tela e ajeitando os óculos. — Talvez o Dr. já tenha desistido.

— Desistido?

— É. Ele deve ter visto esse meteoro antes, e chegado na conclusão clara. Você leu a teoria mais recente dele?

— Eu… Li? — Xavier se lembrava da teoria. Se lembrava tão vividamente que era como se ele tivesse a revisado palavra por palavra.

— Então. — Alternador puxou uma série de mecanismos de análise na tela, projetando gráficos e imagens térmicas. — Esse meteoro aí tá muito quente. Onde estamos, na região interestelar, ele não teria como ser tão quente assim, tão distante de qualquer estrela… Isso aí é um meteoro de antimatéria.

— É um… Irmão do meteoro de Rojanski?!

— É o que parece. E, pela teoria…

— …O campo magnético que o meteoro gerava, o que, ao final, nos ajudou a colocá-lo em órbita… Reagiria de forma peculiar ao encontrar um semelhante.

— É. Um semelhante — disse Alternador, olhando para o vidro grosso, onde uma pedra gigantesca de anti-matéria flutuava no vácuo, sendo consumida, átomo por átomo. — Não temos como tirar o resto do meteoro de Rojanski daqui. E, mesmo que tivéssemos, morreríamos sem a sua energia. O que fazemos?

— Bom, Xavier… Eu acho que você sabe bem. O propósito original do gerador de forças.

“Esqueça isso. Por mim.”

— Isso nunca… Eu nunca…

— É isso ou a nossa morte, Xavier. Conto com você.

Alternador voltou à manutenção das máquinas. Xavier ficou parado por um longo tempo, pensativo.


Se o resto do meteoro de Rojanski era impressionante, o gerador de forças seria… sublime, talvez. Grandioso. Temível. As palavras ficam difíceis quando se descreve um maquinário daquele tipo.

O reorganizador de matéria seria mais fácil. Foi projetado com mais calma, com uma base teórica mais precisa. Existiam projetos há anos, mas a energia necessária era sempre elevada demais. Sendo assim, aquela máquina tinha uma aparência mais fácil de compreender, as partes complexas cobertas por capas plásticas protetoras. Depois dos primeiros anos de testes com o reorganizador, vendo que era seguro, vários países começaram a usar máquinas semelhantes. Surgiram pouco depois dos geradores de antimatéria, outro sonho humano realizado prematuramente.

Usavam o meteoro de Rojanski, suas milhares de toneladas de material, para alimentar as enormes máquinas, quadrados colossais e insaciáveis, gerando energia praticamente gratuita para uma raça ainda mais insaciável. Dezesseis trilhões de kilowatts hora por quilo. O sonho máximo da geração de energia, desde Einstein, e nem meia dúzia de explosões atômicas conseguiu apagá-lo.

Mas, ainda assim, não era tanto quando comparado ao gerador de forças. O primeiro de seu tipo, e, até onde Xavier conseguia dizer, para sempre o último.

Ver aquele maquinário lembrava Xavier da frustração dos primeiros dias. Eles simplesmente não souberam o que estava acontecendo; o que, ao fim, aconteceu. Alguns disseram que os boatos sobre o soldador do manto era verdadeiro, e seu teste foi catastrófico. Outros já deram a ideia da aniquilação termonuclear completa, sem propósito aparente, mil vezes pior do que teria sido na guerra fria.

O gerador de forças era a máquina mais avançada que a humanidade já criara. Sua única sobrevivente. Como Xavier.

A máquina ocupava espetaculares vinte e três por cento do volume interno do complexo só naquele corpo principal, mas seus pequenos pedaços incrustravam-se nas últimas camadas da rocha externa por todo o perímetro do centro de pesquisa, de forma que seu volume total era muito maior. E o peso…

Era fútil estimar o peso do gerador de forças. Era como colocar uma balança numa prensa.

Xavier caminhou pelas passarelas metálicas que cercavam o corpo principal da máquina, descendo os doze andares que ela ocupava, observando cada ângulo do que tinha estudado por boa parte da vida.

A quantidade de canos e tubulações era imensurável. Os subsistemas incontáveis, todos com suas telas e terminais de desempenho e monitoramento… Um colosso de aço, ouro, alumínio, titânio, plástico e cobre, uma aberração da engenharia que parecia um monstro digerindo dentro de si um milhão de geradores a plasma, aceleradores de partículas, conversores de matéria e escavadeiras. A quantidade de pistões e grossas vigas de aço e titânio parecia, à primeira vista, grande demais para uma máquina estática, mas isso logo se resolvia quando se percebia a natureza de seu funcionamento.

Xavier chegou ao sexto andar das passarelas e caminhou até a entrada da câmara principal do gerador. A porta pneumática esperava por ele, a tela lateral acendendo-se com sua presença. Um olhar foi o suficiente para ela.

IDENTIDADE ACEITA: DOUTOR XAVIER KOSUKE YIN MATSUSHIRO

A porta deslizou para dentro sem som.

Não era recomendado ficar dentro da câmara principal por muito tempo. Se algum dos outros o visse…

Algum dos outros… Quem estava querendo enganar? Yin estava certo.

O corredor escuro foi se iluminando com a passagem dele, as luzes baixas acendendo a cada passo. O maquinário vibrava sutilmente, funcionando só o suficiente para manter Xavier grudado no chão. Ele sabia que, se uma manobra estivesse acontecendo, seria esmagado.

A exploração espacial humana seguiu um padrão curioso. Depois da subida à lua, e o quase fracasso colossal que aquilo foi, decidiu-se que o investimento em tecnologia deveria ser muito maior antes que mais missões tripuladas subissem às estrelas. Sem a pressão da Guerra Fria, a humanidade tinha tempo. E os gastos com as pesquisas eram muito menores que com missões tripuladas.

O grande problema de passar muito tempo numa nave foi sempre o mesmo: gravidade. A terceira e quarta estações espaciais internacionais já contavam com suas divisões giratórias, enormes discos rodando em volta do corpo principal, gerando uma força para fora da mesma forma que a água não cai na sua cabeça quando você gira um balde cheio rápido o suficiente. Essa solução funcionava e era simples, mas a raça humana sempre quis mais. Não se conformou com os discos de gravidade artificial da mesma forma que não se conformou com impressão tridimensional simples. E, da mesma forma que o reorganizador de matéria nasceu de forma precoce, nasceu também o gerador de forças.

Mas, para variar, os seres humanos não tinham muita ideia do que estavam fazendo. O gerador era muito mais forte do que previram. E era só a isso que Xavier devia sua sobrevivência nestes anos todos. O gerador que deveria servir só para deixá-lo grudado no chão conseguiu resolver outro dos maiores problemas da viagem espacial a longo prazo.

Foguetes a propulsão externa têm combustível limitado. Velas solares não ajudam em viagens interestelares. Propulsores nucleares, ou a plasma, são melhores do que os enormes foguetes do século vinte, mas ainda têm os mesmos problemas. Falta combustível.

O gerador de forças resolvia esse problema de uma forma absurdamente eficiente. Um pouco de anti-matéria e ele fazia jus ao seu nome: gerava força. Qualquer físico do século vinte riria de você se dissesse isso. Um corpo não pode se mover no vácuo sem se livrar de alguma matéria, interagir com algum campo. Uma máquina não pode gerar gravidade sem aceleração ou sem uma grande massa.

Bem, a parte da massa continuava verdadeira.

Xavier entrou no cômodo principal do gerador de forças e observou pela primeira vez em anos o coração do complexo. Seus dois corações.

Era escuro demais para o olho humano compreender. Ele já vira diversas vezes os materiais ultra absortivos dos geradores solares potentes, o mais próximo que a humanidade chegaria de um corpo negro, placas tão escuras que pareciam abismos sem fundo, impossíveis de se compreender com nossos limitados olhos.

Mas mesmo os mais absortivos tecidos não eram tão escuros. Nada no universo é tão escuro quanto aquilo que suga a própria luz. Duas esferas de alguns metros de diâmetro, circulando numa órbita lenta, débil, dentro de seu aquário reforçado. Só havia uma minúscula janela, polímero translúcido de alta resistência, que Xavier não hesitou em tocar. Eram os dois maiores buracos negros do sistema, que contava com pelo menos seis. Cresciam lentamente com os anos, mas todo o sistema lutava contra sua gravidade. Tornava-a baixa o suficiente. Aqueles dois eram só brinquedos quando comparados ao que restava de uma estrela.

— Eu tenho uma teoria que nunca disse a ninguém.

Xavier olhou para o lado, nada espantado em ver Dr. Matsushiro.

— Esses dois são maiores do que havíamos previamente calculado. A máquina tem um potencial de força muito maior por causa disso. Exerce mais força do que deveria a cada manobra.

— Mas o centro ficar inteiro não é sinal de que isso não causa problemas? — disse Alternador, no outro lado.

— Talvez. Mas a minha teoria é que isso está exercendo forças fora da nave. Na capacidade máxima, forças muito superiores do que esperávamos. Do que poderíamos sonhar.

Xavier manteve-se estático, os olhos presos nas duas esferas que seus olhos não compreendiam. Dos lábios semi abertos saía a voz de Dr. Matsushiro.

— Acho que esta máquina despedaçou a Terra.


— A gente deveria experimentar.

Xavier lembrava-se bem daquela frase, bem demais. Tentou, por um longo tempo, convencer-se de que não foi ele a proferí-la. Quem sabe Dr. Matsushiro realmente acreditasse que não foi.

Era o dia antes do time chegar das férias. Ano novo. Pelo medo do que poderia sair do reorganizador de matéria, o centro de pesquisa ficava isolado do resto do mundo, no fundo da Fossa das Marianas. Um complexo colossal, que com os anos só cresceu, agrupando os maiores e mais ambiciosos experimentos da raça humana. A localização tinha um propósito, além do isolamento: quando começaram os projetos do gerador de força, precisavam de massa. Muita massa, para alimentar os buracos negros. E que maior fonte do que o próprio oceano, transbordando? Dois problemas resolvidos de uma vez só.

— É o nosso último dia sozinhos aqui. Vamos lá.

A estação era tão isolada pelo problema da radiação, sim, mas havia outro propósito. Coisa que Kosuke, enquanto arquitetava aquilo tudo, tentou esconder até o último instante. Se o gerador de forças funcionasse, não havia motivo para não fazer o complexo todo sair dali, desligar-se da rocha basal que o segurava no lugar e sair pelo espaço.

— Ok. Vamos.

O Dr. Xavier Matsushiro não tinha família, fora a esposa. Bioquímica, psicóloga e engenheira, ela tinha suas próprias pesquisas, atreladas às que aconteciam no centro. Depois daquele ano novo, estava previsto um período grande sem saídas do centro, já que o transporte até lá era trabalhoso. Além disso, havia um quê de experimento social ali, querendo compreender se as pessoas conseguiriam passar alguns anos em isolamento. Quando os moradores saíram para festejar o ano novo e ver os parentes pela última vez (de modo mais literal do que esperavam) os dois ficaram ali, sozinhos, sem mais ninguém para festejar com eles. O centro partiria para sua operação mais pesada no ano seguinte: os testes do gerador de forças. Ensaios preliminares já haviam sido feitos, mas, com a grande exigência energética da máquina, os grossos fios de cobre que desciam até o centro não eram suficiente para saciá-lo. Tiveram que levar um pedaço grande do meteoro de Rojanski para dentro, o que ocupou os meses de agosto até dezembro.

Sozinhos no centro de pesquisa, programando uma simples gravidade zero para todo o interior do centro, eles ligaram o gerador de forças.

Vinte e seis horas depois conseguiram estabilizar a gravidade, e olhar para fora. Viram muito pouco.

Com o gerador de forças conseguiram caminhar pelo sistema solar, observando de perto os planetas e suas luas. Aqueles anos foram bons, a descoberta e empolgação fazendo os dois se esquecerem de tudo. Ainda não compreendiam totalmente o gerador, de forma que não conseguiram colocar-se em órbita de qualquer planeta. Depois daqueles anos iniciais tiveram que sair. O sistema solar tornou-se caótico, com os mil pedaços do planeta Terra voando desordenadamente por todos os cantos. Depois que o resto do meteoro de Rojanski chocou-se com Marte, bom, foi melhor ir embora.

E, fora do sistema solar, Xavier sugeriu.

— Não, Xavier — ela disse —, é muito perigoso. Por favor, esqueça isso. Por mim.


— O Efeito Frintel-Matsushiro… — começou Dr. Matsushiro, parado, encarando os buracos negros no centro do gerador de forças. — …O Efeito Frintel talvez tenha uma consequência inesperada, coisa que nós nunca tivemos como estudar. Muitas das propriedades da anti-matéria, por fatores que ainda não consegui explicar, só são notadas quando a massa é grande o suficiente. Nas primeiras vezes que fizemos anti-matéria foram poucos átomos por vez, poucas gramas… Os efeitos nunca foram medidos. A primeira observação que tivemos disso foi quando vimos o meteoro de Rojanski, em seu quilômetro e meio de raio. Minha teoria mais recente, se correta, diria que um meteoro de anti-magnésio, mesmo muito distante, forçaria uma atração num outro corpo semelhante.

— Então, mesmo que aceleremos para o outro lado… — disse Xavier.

— O meteoro nos perseguirá — completou Alternador.

— Não tem como sairmos dessa. Se acelerarmos, o meteoro acelera mais — disse Kosuke, desesperançoso. — Mas Matsushiro, se os dois meteoros, esse que está vindo na nossa direção e o resto do Meteoro de Rojanski dentro do centro, se atraem, como que esse segundo está sempre na rota de colisão conosco? Como ele corrige a própria rota? Não deveria ser algo como dois imãs pelo espaço?

— Deveria, sim… Mas não compreendo totalmente esse efeito. A minha teoria é tudo o que temos. Mas você está certo, não vejo como podemos nos salvar…

“Por mim.”

Quem sabe com os livros ele conseguisse esquecer. E, se esquecesse, se cumprisse sua promessa, sua aposta, ela poderia… Ela iria…

— Você sabe que não, Xavier — disse Yin.

— Tem uma coisa que pode nos salvar — começou Xavier, inclinando-se no colossal computador que controlava diretamente a operação do gerador de forças. — Vocês sabem… Ah, caralho. Eu sei que o gerador de forças tinha um propósito maior. Caso o centro subisse até as estrelas, caso ele conseguisse se mover entre as estrelas.

— Ele teria que conseguir alcançar as estrelas — disse Yin, inclinando-se no computador. — Você fez bem, Xavier.

— Nós fizemos. Eu fiz — disse Xavier, analisando os gráficos, puxando os cálculos que fazia na própria mente, silenciosamente, eternamente, sempre só meio concentrado nos livros que lia, sempre tentando mas fundamentalmente incapaz de esquecer.

— O que fazemos agora? — perguntara sua esposa, depois que plutão saiu de vista. — Para onde vamos?

— Para as estrelas — respondera Xavier. — Sabe, o gerador de forças foi feito não só para testar a gravidade e movimentação no espaço. Ele tem outro propósito, ainda mais teórico e louco.

— Qual? — ela perguntou, mordiscando um dos tomates que eles colheram naquela manhã. Ah, que bons foram aqueles tempos. Ela, sua fonte de inspiração, de vontade de viver. Brotando como uma flor num campo de guerra. Sua esposa.

— Dobrar o próprio espaço — disse Xavier, olhando para a tela do gerador de forças. — Dobra espacial. Nada viaja mais rápido que a luz pelo espaço, mas se encolhermos o espaço… Poderemos viajar o quão rápido quisermos. O meteoro não conseguirá nos alcançar nem que viaje na velocidade da luz.

— O gerador tinha esse potencial? — perguntou o Dr. Matsushiro, olhos arregalados no monitor. — E por que você não fez isso antes?

— Bom, a chance de isso dar certo é pequena — disse Alternador. — A teoria é sólida, mas… Depois da destruição da Terra, depois que eu… Que nós entendemos que pode ter sido o gerador de forças… A gente não entende tão bem o que tá acontecendo aqui. Não temos ferramentas para isso. O gerador de forças está além da compreensão de um homem só.

— Sim — dissera sua esposa —, isso é perigoso, desnecessário. Por favor, Xavier, esqueça isso. Por mim.

— Desculpe — respondeu Xavier, anos depois, no centro do gerador de forças —, não posso.


Os quatro mexiam furiosamente no teclado do gerador de forças, depois na sala de aquisição de dados, depois no sistema elétrico, depois… Em tudo.

No canto, sempre no canto, Yin observava. Os quatro trabalhavam como um, da forma que ele queria. Da forma que era correta. Mas ele mesmo não poderia trabalhar com eles. Por mais que falasse em ver a verdade, sabia que eles não podiam ver a verdade completa.

Três dias faltando, e estabeleceram o alvo. Uma anã vermelha, seis anos luz. A estação tinha vários dados relevantes, um backup de muito da teoria científica criada pela humanidade, mas pouco falando sobre os métodos astronômicos e localização de estrelas. Aquela podia ser qualquer uma. Podiam esperar mais, fazer mais cálculos, mas o Dr temia utilizar o gerador com tanta potência perto de outro meteoro de Rojanski.

Enquanto eles planejavam, Yin refletia. Fazia a coisa certa? Sim. Eles tinham que sair dali, mesmo que aquilo muito provavelmente significasse sua morte. Sem a esposa, Kosuke perdera a genialidade; Matsushiro perdera a força de vontade.

Sem a esposa, Xavier perdera a vontade de viver.

Mas não Yin. Sem a esposa, ele perdera o medo da morte.

No começo de seu plano, Yin temeu que fosse óbvio demais, que eles percebessem imediatamente. O formato de pêra. A qualidade da filmagem, muito boa para o telescópio primitivo que tinham montado. A semelhança com o primeiro registro, guardado para sempre nos bancos de dados da estação.

Yin perguntou-se se a influência que tinha nos outros quatro era tamanha a ponto de eles não terem feito a associação. Para quem tinha programado todo o sistema, uma pequena manipulação dessas era trivial. Sua decisão de usar Xavier foi acertada; sabia que ele pensaria em tanta coisa, no medo misturado com culpa que o impediu de fazer isso por todo esse tempo, que não veria a verdade.

Mesmo que fosse a morte, era melhor que aquela loucura. Yin podia ir em paz.


No escuro do espaço interestelar, flutuava um único meteoro. Se um observador atento olhasse para ele pelo último mês, teria visto que havia uma série de parafernalha no exterior rochoso, alguns sensores, um telescópio grande, uma única janela iluminada.

O observador veria, também, que o tal meteoro se movimentou meia dúzia de vezes, aparentemente sem propósito, mudando sua rota pelo espaço infindável.

E, finalmente, veria o meteoro alongar-se de uma forma grotesca, não natural, e simplesmente desaparecer.

O que o observador não veria, mesmo que olhasse com muito afinco, era um meteoro de anti-matéria.

Thiago Loriggio
Thiago Loriggio
Thiago Loriggio nasceu em Florianópolis, e mora lá desde então. Passou uma parte razoável dos seus 25 anos lendo, escrevendo e bolando histórias (mesmo antes de entender que era isso que estava fazendo). Está a um TCC de distância de ser Engenheiro Mecânico, e seus cadernos de faculdade se dividem entre cálculos matemáticos e narrativas longas. Tem interesses demais para uma pessoa só, entra em frenesis de empolgação quando encontra uma boa ideia, e acredita cegamente que a ficção de gênero nacional tem um imenso potencial não explorado. Este é o seu primeiro conto publicado.

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