O Prego de Batalha

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Alpes italianos, 1865

 

— Dreadnought, avançar! — Gritou o garoto, empurrando com os dedos enrijecidos o encouraçado austríaco. O óleo gasto da miniatura de chumbo cedeu após uma leve pressão e o blindado avançou cercado pelos cacciatori italianos, que dançavam à sua volta, disparando projéteis imaginários com seus canhões minúsculos.

O rapaz girou lentamente os dois canhões do encouraçado, mas os pequenos e ágeis cacciatori saltavam de um lado para o outro. Era difícil estabelecer uma mira segura no topo daquela estrutura paquidérmica, que parecia avançar em câmera lenta.

O garoto coçou os cabelos negros, intrigado; o Cap. Giuseppe tinha razão, afinal. A agilidade era mais determinante na batalha do que a força bruta. No entanto, poucos dias atrás os jornais haviam noticiado a derrocada da armada italiana na Batalha de Lissa. Como isso era possível?

— Se divertindo? — Perguntou uma voz amistosa que estivera ressonando até pouco tempo, envolta em xales aconchegantes que mascaravam as correntes de vento que penetravam por entre as frestas da cabana de pedra.

— Sim, vô! — Respondeu o garoto, afastando-se e mostrando o seu campo de batalha.

O velho puxou os óculos e olhou rapidamente para a cena montada entre as almofadas da sala de estar.

— Onde está a infantaria? — Perguntou, afinal, espichando o olho para a caixa de madeira encerada, onde soldados e cavaleiros minúsculos jaziam em seus nichos acolchoados.

O garoto sentiu as faces enrubescerem e, por um momento, ele passou os olhos constrangidos pela perna que faltava do seu avô, bem como a muleta que ele trazia sempre a tiracolo.

— A infantaria não participou da Batalha de Lissa — respondeu, justificadamente.

— Sim, e talvez este tenha sido o grande erro de Giuseppe — confirmou o avô com um olhar triste.

O garoto sentiu um calafrio estranho. Ninguém questionava os mandos de Giuseppe naquela casa; afinal, o seu pai servira com o capitão nos últimos cinco anos. Mesmo assim, a ousadia do avô merecia uma resposta.

— Os encouraçados blindados vão decidir esta guerra. É o que diz o jornal — acrescentou, olhando para a cuidadosa pilha de gazetas imperiais que eram distribuídas por toda a Itália unida.

O velho balançou a cabeça.

— Um encouraçado sem cérebro é tão útil quanto uma vaca sem leite — disse sabiamente. — São os homens que decidem as guerras, rapaz. Nunca subestime a determinação e a persistência de um soldado em uma batalha.

O garoto olhou para a sua cena montada, tentando imaginar o que poderia fazer um soldado frente a um encouraçado classe dreadnought além de ser esmagado. Sem querer, ele abriu um sorriso cínico.

— Você já terminou o conserto na cabana de caça? — Perguntou o avô, com os modos mais ásperos.

— Não. Eu ia…

— O seu pai chega em alguns dias — cortou o velho. — Quer que ele saiba que você não concluiu com as suas obrigações?

O garoto baixou o rosto, com a cara de quem estava ao mesmo tempo envergonhado e aborrecido.

— Não, senhor.

— Ótimo — resmungou o avô, esticando o braço até um rádio valvulado. Ele deu corda no mecanismo e regulou o dial até sintonizar a estação republicana.

Enquanto a estática era substituída pelas vozes esganiçadas dos locutores entusiasmados, o garoto foi até a porta, calçou as pesadas botas de caminhada, o casaco de couro forrado de peles, o gorro e as luvas. Trincando os dentes, ele abriu a porta e saiu para o vento frio que rodopiava no cenário desolado pelas últimas nevascas.


A Bordo do SMS Tegetthoff

 

O SMS Tegetthoff balançou pesadamente enquanto as poderosas patas escavavam o chão intumescido pela neve, pressionando camadas de gelo e pedra até alcançar o terreno sólido e a estrutura se equilibrar. Então, em sua marcha lenta, o gigantesco dreadnought avançou novamente, equilibrando quatro pernas no chão enquanto duas moviam-se pelo solo congelado do glaciar que serpenteava entre os montes pedregosos.

Os homens a bordo corriam como formigas no deque inferior, tripulando o maquinário e arriscando a vida ao alimentar as duas gigantescas fornalhas com o carvão necessário para manter a pressão e girar o motor que dava vida ao dreadnought. Encarapitados em pequenas e instáveis plataformas, os grumetes escorregavam o combustível negro para a garganta voraz da máquina, que engolia o carvão como um demônio esfomeado. Na barriga da máquina, dutos chiavam e ferviam, levando o rescaldo do vapor para todos os compartimentos, combatendo com o ar quente e úmido o frio que imperava nos alpes italianos.

Filtros de ar eliminavam as impurezas das caldeiras, empurrando para o deque de comando somente o ar aquecido. Graças ao trabalho de dois giroscópios flutuantes, os homens que trabalhavam na ponte mal sentiam o balançar do vaso de guerra. Anteparas metálicas guarneciam as amplas janelas de observação, protegendo os pilotos que controlavam o andar elefantino do dreadnought. Mais atrás, observadores marcavam a posição em mapas espalhados em uma mesa de mogno. Ao seu redor, soldados andavam de um lado para o outro, cumprindo com suas funções.

O Almirante Franz von Kuhn bebericava do seu chá, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos; as últimas notícias que recebera davam como certo a presença de forças hostis nas redondezas e uma escaramuça não poderia ser descartada.

Ele olhou rapidamente pelas janelas do castelo de proa: um pouco atrás, acompanhando o passo regular do encouraçado, um segundo dreadnought avançava. Comandado pelo Contra-Almirante Wilhelm, o vaso de guerra SMS Eugen já vira dias melhores. Após a batalha de Lissa, um dos canhões fora arrebentado e boa parte da terceira perna a estibordo fora estraçalhada. A mobilidade comprometida dificultava a eficiência do vaso de guerra, mas não havia como reparar um dreadnought no campo de batalha.

O Alm. Kuhn observou por um momento o passo incerto do SMS Eugen, quando foi interrompido por um mensageiro.

— Senhor! — Disse o soldado, aproximando-se enquanto batia continência. O velho comandante fez apenas um aceno para que ele continuasse.

— Avistamento a sudoeste, senhor. O gajeiro contou trinta e seis cacciatori.

— Os caçadores de Giuseppe — murmurou o almirante, com um sorriso cansado.

— Senhor?

— Avise Wilhelm. Aos postos de batalha.

— Sim, senhor! — Gritou o soldado, sorrindo enquanto repassava a ordem.

Um alarme ensurdecedor soou pela máquina de guerra enquanto dois soldados abriam as anteparas e seguiam para o convés gelado pelo frio dos Alpes. Com suas flâmulas quadriculadas, os dois operadores repassaram as ordens para o SMS Eugen.


Cabana de Caça

 

O garoto atravessou com cuidado o gelo que cobria o rio de verão e alcançou o outro lado do vale; depois de tomar um gole de água, ele começou a galgar a escarpa, sentindo os músculos doerem a cada novo passo. O vento havia amainado depois da última borrasca, mas a sensação térmica piorou e era possível sentir os lábios e o nariz ressecando pouco a pouco. Ao voltar, teria que esfregar as narinas com banha para que o sangue voltasse a circular, pensou, desanimado.

Suando bicas, apesar do frio intenso, ele alcançou o topo do apenino e conseguiu descer até a cabana de caça. Seguindo as recomendações do pai, ele não entrou no local, apesar do seu corpo ansiar por uma trégua longe do frio intenso.

Afundando na neve fofa, ele circulou a cabana com dificuldade, puxando cada perna das estepes geladas como se tivesse calçado botas de ferro. No lado oposto, junto à escarpa que descia abrupta até o vale lá embaixo, duas toras de pinheiro sustentavam a estrutura construída pelo pai dois anos antes. Um buraco ameaçador aparecera no canto esquerdo, as tábuas rasgadas por uma pedra que despencara no início do inverno. A escora que o pai instalara provisoriamente cedera e a cabana pendia perigosamente para o lado; a pequena varanda de caça fazia um ângulo sinistro com o soalho e a cerca onde o pai apoiava o rifle estava despedaçada em vários lugares.

Piscando os olhos, o garoto alavancou a estrutura e sentiu os músculos quase arrebentarem. Ele apertou os dentes quando percebeu que os joelhos estavam se dobrando; escorregando na neve macia, o garoto soltou um grito surdo enquanto investia mais uma vez. Com um baque alto, a estrutura escorregou para cima da tora e voltou a se equilibrar.

Ele se agachou no chão, bufando, a respiração falha pelo esforço e pelo ar rarefeito. Com um sorriso matreiro de um dever bem cumprido, ele inspirou uma última vez, tomou um gole d’água e voltou a se levantar. Então, procurou no meio da nave as tábuas que o pai arrastara para lá duas semanas atrás, na sua última folga. Apesar do tempo bom, ele não conseguira terminar o conserto. Ele deixara o filho encarregado da restauração e a última coisa que o garoto queria era desapontar o pai, o seu mais valoroso herói na batalha pela independência italiana.

Depois de conferir as tábuas, buscou nos bolsos o saco de pregos metálicos e o grande martelo que amarrara no casaco. Com a escada improvisada que o seu pai deixara ali, ele carregou com dificuldade a primeira tábua e pôs-se ao trabalho.


A Bordo do cacciatori n. 27

 

O Cap. Giuseppe desceu pela escotilha, deixando os seus artilheiros armando os canhões e, com a cabeça abaixada, avançou pela minúscula torre enquanto o cacciatori balançava como um cavalo xucro. O terreno fofo da última nevasca não era problema para as largas patas metálicas dos pequenos encouraçados, mas isso não diminuía o balançar do monstro mecânico, que mais parecia saltar do que andar.

— Ali, Capitano — informou um dos pilotos, apontando para os imensos dreadnoughts austríacos.

Giuseppe se segurou com o braço direito e sacou os seus binóculos para observar pela janela quadrada. Não havia dúvidas, os gigantescos dreadnoughts estavam fazendo a volta.

Cazzo! Eles nos viram, senhores.

— Suas ordens?

Ele consultou o mapa preso junto à armação e voltou a observar pelos binóculos. O vale se estendia por vários quilômetros. Os dreadnoughts estavam logo após o rio.

— Avante! — Ordenou o capitão, arrancando um sorriso de satisfação dos lábios dos soldados. — Formação em cunha. Precisamos nos aproximar!

O piloto respondeu com um aceno entusiasmado antes de passar a ordem através de um tubo de comunicação. No passadilho superior, o sexto e último membro da tripulação abriu a escotilha externa e agitou as duas bandeiras amarelas e verdes.


A Bordo do SMS Tegetthoff

 

No SMS Tegetthoff, o Ten. Joseph observava a movimentação dos italianos com uma luneta de observação montada em um giroscópio a óleo.

— Eles mudaram a formação, senhor — informou ao Alm. Kuhn. — Se ao menos soubéssemos o significado do código dos italienisch…

— Teríamos uma vantagem desonrosa na guerra, Tenente — comentou o Almirante, ainda bebendo do seu chá.

O Tenente abaixou os olhos, envergonhado, enquanto um lampejo de raiva trespassava em sua face.

— Os canhoneiros estão prontos? — Perguntou o Almirante, se virando para ajudante de ordens.

— Sim, senhor! — Respondeu ele, batendo continência.

— Permissão para atirar.

— Permissão para atirar! — Repetiu o ajudante, berrando em um tubo de comunicação.

— Permissão para atirar! — Repetiu o mestre canhoneiro no topo do dreadnought.

Na sala de armas, as equipes trabalhavam em uníssono: enquanto dois marinheiros carregavam os projéteis, os artilheiros giravam as manivelas, nivelando a mira até se darem por satisfeitos. Logo, dois projéteis cruzaram os céus, seguidos de um estampido surdo que reverberou por toda a região.


Cabana de Caça

 

O garoto quase caiu para trás quando o estrondo atingiu a montanha; ele sentiu os pés tremerem e uma boa quantidade de neve deslizou enquanto ele tentava se agarrar nas vigas de fundação da cabana. Por um momento, o garoto sentiu o pânico paralisar a sua mente enquanto imaginava que uma avalanche havia se formado; a região tinha um histórico de deslizamentos e não era incomum o desprender de rochas e pedregulhos. Normalmente, o cascalho apenas deslizava até os vales lá embaixo como um córrego cheio por uma chuva de verão. Mas, às vezes, a rocha fundia-se à lama e à neve congelada, formando as avalanches devastadoras que destruíam tudo em seu caminho.

Após angustiantes segundos, o garoto conseguiu se acalmar e pôs-se a raciocinar. O estampido fora alto e seco demais; não parecia o som arrastado e contínuo de uma avalanche. O que poderia ser aquilo?

Contrariando as ordens do pai, ele galgou lentamente o paredão da cabana, tentando obter uma visão melhor do vale estreito lá embaixo.


A Bordo do SMS Tegetthoff

 

Enquanto os artilheiros repetiam a exaustiva rotina de recarregar os pesados canhões, o Alm. Kuhn largou a sua xícara de chá pela metade e observou o campo de batalha com os seus binóculos dourados. Compenetrado, o almirante analisou pessoalmente a extensão aberta por onde se deslocavam os cacciatori italianos, saltando e pulando enquanto fugiam dos projéteis austríacos com graça e elegância. Naquela distância, os canhões dos dreadnoughts não passavam de uma manobra diversiva, mantendo os soldados italianos ocupados enquanto as forças se aproximavam.

— O que é aquela linha prateada que nos separa dos walkers? — Perguntou ao Ten. Joseph, que ainda observava a movimentação com a sua luneta.

— É o Rio Adige, senhor — informou ele, deixando a luneta de lado e apresentando ao general um risco azul claro no mapa que serpenteava entre os Alpes.

— Qual é o ponto de travessia? Os cacciatori são imprestáveis dentro d’água… — comentou.

— Com certeza, senhor. Mas há uma ponte aqui — disse, apontando para um ponto marcado no mapa. — Os italienisch provavelmente vão utilizá-la. O senhor quer interromper a passagem?

O almirante pensou por um momento e depois olhou para o mapa. Erguendo uma sobrancelha, ele se virou para ampla janela de observação do deque e confirmou as suas suspeitas. Então, um sorriso estranho brotou em suas faces.

— Timoneiro — chamou o Alm. Kuhn, voltando a servir-se de chá. — Aqui estão as suas novas coordenadas, filho — disse, entregando um papel rabiscado rapidamente para o garoto, que não tinha idade para ser mais velho que o seu neto. — Ao meu sinal, nos conduza até lá.

Ele se virou para o Ten. Joseph enquanto escrevia outro bilhete.

— Peça para o mestre canhoneiro manter a ponte sob mira, mas não a destrua. Espere que os cacciatori a atravessem. E avise Wilhelm das novas ordens — falou, entregando o segundo bilhete.

O Tenente olhou para as ordens sem conseguir esconder um quê de estupefação. No entanto, a fama do Alm. Kuhn o precedia e ele não era dado a questionar ordens.

— Sim, senhor — respondeu finalmente, afastando-se e deixando o almirante bebericando o seu chá.


A Bordo do cacciatori n. 27

 

— Ele estão fugindo! — Gritou o piloto.

— Como?

— Eles estão fugindo, Capiton! Os hasburgos estão fugindo!

— Atrás deles, signores! Estes paquidermes não podem atravessar os Alpes! Avante!

A ordem foi repassada e, logo, os trinta walkers mudaram a formação enquanto as bombas dos austríacos arrancavam nacos de terra e pedra. Apertando o passo, eles atravessaram o Rio Adige.

Instantes depois, a ponte foi destruída em uma nuvem de pó e caliça.


A bordo do SMS Tegetthoff

 

O Ten. Joseph retornara à luneta.

— Mandou as novas ordens para Wilhelm? — Perguntou o Alm. Kuhn.

— Sim, senhor — respondeu ele, piscando por um momento antes de continuar: — Precisei repetir mais de uma vez, senhor.

— Imaginei que sim. E a ponte?

— Foi destruída.

— Me lembre de recomendar a promoção do mestre canhoneiro após a batalha, Tenente.

— Sim, senhor.

O almirante tomou mais um gole de chá enquanto observava a beleza dos paredões alpinos se aproximar rapidamente, enquanto o pesado dreadnought marchava em direção ao vale estreito.


Cabana de Caça

 

O garoto mal pode acreditar no que seus olhos viam. Depois de inúmeras explosões, que espantaram as poucas aves que ainda gorjeavam em alguns pinheiros, uma coluna de fumaça e fuligem antecipou a entrada de um monstruoso dreadnought no vale à sua frente, a bandeira dourada e negra do Reino Austríaco tremulando enquanto as patas gigantescas do construto avançavam pelo vale.

Sem sequer se lembrar de respirar, o garoto se segurou no alpendre da cabana enquanto via os canhões girando lentamente, mirando para a cadeia de montanhas. Para a sua grande surpresa, um segundo dreadnought entrou no vale, avançando com o passo manco pela perna robótica avariada.

Então, o garoto notou os cacciatori italianos; pulando como ratos que cercavam um paquiderme, os ágeis e leves walkers circularam por entre os encouraçados, disparando seus projéteis contra as patas dos dreadnoughts, arrancando partes da armadura e manchando de negro os vasos de guerra inimigos.

O primeiro dreadnought fez mira e disparou, arrancando um naco da montanha à frente do garoto e provocando uma chuva de pedra que deslizou até o vale, sem, contundo, atingir ninguém. Os italianos eram muito rápidos e deslocavam-se para a frente e para trás, deixando atônitos os canhoneiros austríacos.

Enquanto isso, os canhões do segundo dreadnought jaziam inertes, apesar do garoto poder ver os homens na parte superior girando suas manivelas. Então, o encouraçado parou; a fumaça rolou mais alto e um apito estridente ressoou, seguido de um som que lembrou ao garoto os alarmes de pânico que ele ouvira uma única vez em Turim. Assim que o sinal soou, um clanque agudo se seguiu a uma explosão que parecia ter implodido parte do primeiro encouraçado.

Quando a nuvem de fumaça e neve derretida abaixou, o garoto viu que a perna quebrada do dreadnought tinha sido arrancada, bloqueando o vale. No mesmo momento o primeiro encouraçado disparou novamente os seus canhões, implodindo as duas faces das montanhas mais à frente, causando uma nuvem de pedra e detritos que fechou a saída.

Com a ponte destruída, o vale estava selado.


A bordo do cacciatori n. 27

 

Capiton, eles bloquearam a passagem! — Gritou o piloto.

— Eu percebi, rapaz. Ordem de dispersar. Não permaneçam juntos ou seremos trucidados. Subam as montanhas e continuem atirando.

— Sim, senhor!


Cabana de Caça

 

O garoto percebeu que havia algo errado bem antes que os soldados italianos. Aquela região era conhecida como muri di sapone. As escarpas eram lisas e havia pouquíssimos pontos de apoio nos paredões. Era impossível escalar o vale, mesmo para os intrépidos Caçadores dos Alpes.

Com o coração aflito, ele viu os cacciatori se amontoarem, tentando galgar a montanha, sem sucesso, enquanto os canhões dos dois dreadnoughts faziam a sua mira lentamente. Bastaram poucos momentos para que sete walkers virassem um amontoado de ferro retorcido e carne dilacerada.


A bordo do SMS Tegetthoff

 

— Continuem atirando, Tenente — disse o Almirante, terminando a sua segunda xícara de chá e se servindo mais uma vez no seu bule prateado. — Concentrem o fogo.

— Sim, senhor! — Gritou o Tenente com um olhar de admiração enquanto repassava as ordens para o seu mestre canhoneiro.


A bordo do cacciatori n. 27

 

Enquanto isso, o Cap. Giuseppe tentava botar ordem no caos que se instalara em sua frente de batalha.

— Espalhem-se! Corram para debaixo dos dreadnoughts! Destruam os malditos!

Projéteis eram lançados sem parar enquanto as ordens do capitão eram repassadas, mas a blindagem dos encouraçados era forte demais. Com os dentes trincados, o Capitão viu, pela minúscula janela, um dos cacciatori se agarrar a montanha e subir alguns metros. Pouco depois, a máquina resvalou na neve fofa e desceu rolando, arrastando dois dos seus companheiros. Eles permaneceram deitados tal qual uma tartaruga de barriga para cima até que um tiro de misericórdia do segundo dreadnought exterminou as máquinas de guerra.

— Vamos ser massacrados… — choramingou o piloto.

— Cazzo! — Xingou o capitão, acertando um tapa na nuca do soldado. — Vá para baixo do primeiro paquiderme. Precisamos achar um ponto fraco.

— Sim, senhor.

Mais duas explosões sacudiram o vale e outros cinco cacciatori foram destruídos.


Cabana de Caça

 

Mesmo sem querer ou notar, lágrimas escorriam dos olhos do garoto. Ele havia sonhado com este momento por tanto tempo, mas a selvageria e o horror da guerra era algo pelo qual ele não estava preparado. O garoto se sentiu impotente, incapaz e vazio frente às mortes que se sucediam ao ribombar dos trovões que escapuliam dos dreadnoughts. Imerso na batalha que se expandia à sua frente, ele não notou os sinais de perigo.

As tábuas rangeram, os pregos esticaram e, um a um, as escoras foram partindo. A estrutura cedeu como que em um terremoto.

O garoto mal teve tempo de saltar para o lado quando a cabana ruiu, descendo o vale em uma massa de neve e pedregulhos. Danificada pelas bombas que pipocavam, as rochas cederam frente à passagem da cabana e, logo, uma gigantesca avalanche corria morro abaixo como um rio infernal.


A bordo do SMS Tegetthoff

 

Os cacciatori saltaram e correram, aglomerando-se junto ao rio e fugindo da ameaça mais iminente. Os encouraçados não tiveram a mesma sorte: pesados, eles mal conseguiram se deslocar antes que a fúria da neve e lama os atingisse com toda a força. O SMS Eugen cedeu e tombou, sendo coberto pela lama. O dreadnought do Alm. Kuhn teve melhor sorte. Ele não chegou a cair, mas boa parte do deque inferior acabou submersa.

Com um estrondo final, a avalanche se esparramou pelo vale, deixando apenas os destroços do SMS Eugene para trás e o inerte SMS Tegetthoff.

— Relatório de danos — ordenou o Alm. Kuhn assim que se recuperou.

O Ten. Joseph, que exibia um profundo corte após bater a cabeça violentamente contra uma das anteparas, reuniu os oficiais. Pouco depois, ele repassava a situação para o almirante.

— Temos sete baixas e vinte e três feridos, senhor.

— E o navio?

O tenente tremeu.

— A caldeira foi tomada pela neve. A estrutura dos condensadores foi esmagada. O dreadnought, mein kapitän, está inutilizado.

— Ora, ora ora… — murmurou o almirante, largando a sua xícara de chá em cima da mesa. — Levante a bandeira branca, Tenente. Vamos cuidar dos feridos.

— Sim, senhor — respondeu o oficial, desanimado, enquanto os cacciatori se aproximavam devagar, as patas em forma de raquetes de tênis galgando a montanha de neve e lama.


Duas semanas depois

 

O vento uivava lá fora no final de tarde, trazendo consigo o zumbido do inverno que se descortinava em dias frios e cinzentos. No interior da cabana, o velho soldado ressonava a soneca da tarde enquanto o garoto conduzia suas tropas pelo tapete gasto, galgando montanhas feitas de almofadas e lençóis velhos e atravessando rios que serpenteavam entre barbantes descoloridos.

A porta subitamente se abriu e uma figura alta e recoberta por casacos se destacou como uma silhueta negra junto à imensidão branca lá fora.

O garoto não precisou mais do que um momento para reconhecer o visitante que entrava sem se anunciar. Largando os brinquedos, ele correu para o abraço afetuoso e forte do pai, chamando a atenção do avô, que se levantou com dificuldades, apesar do sorriso aberto no rosto.

No tapete, jaziam os dreadnoughts de chumbo, cercados pela infantaria italiana e seus cavalos que avançavam bravamente contra o monstro de metal fumegante.

 

Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura.
Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo.
Por falta de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro.
Por falta de um cavaleiro, perdeu-se uma mensagem.
Por falta de uma mensagem, perdeu-se uma batalha.

A. Z. Cordenonsi
A. Z. Cordenonsi
Andre Zanki Cordenonsi, autor gaúcho de fantasia e aventura, nasceu em 1975 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, onde mora com a mulher, dois filhos, dois cachorros e um terreno cheio de insetos estranhos e seres imaginários. É autor de ficção, com mais de uma dezena de contos já publicados. Publicou seu primeiro romance, Duncan Garibaldi e a Ordem dos Bandeirantes, pela Editora Underworld. O segundo romance, o steampunk de aventura Le Chevalier e a Exposição Universal, foi publicado pela AVEC Editora. Mais em azcordenonsi.com.br

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