O que sonham as pílulas

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O fim do mundo estava agendado para aquela noite e Leona descobriu que não conseguiria chegar em casa a tempo quando percebeu que estava na cidade errada. A urgência de voltar para casa a tempo parecia sempre existir, não importava se um evento de proporções catastróficas estivesse para acontecer, ou se ela estivesse a quase quinhentos quilômetros de distância da sua casa, cercada de ruas cujos nomes não conhecia, conduzindo a lugares que ela nunca foi.

Vou me atrasar, foi tudo que ela conseguiu pensar, em vez de dar atenção ao incômodo questionamento de como raios foi parar ali, tão longe. Devia haver um motivo para isso, mas estava atrasada; era tudo o que precisava saber.

Apertou o passo, projetou os ombros para frente e percebeu que a maioria das pessoas seguia na direção contrária (talvez devesse voltar?), o que a fez atravessar uma multidão de corpos e assuntos, que passavam por ela com a rapidez de canais sendo zapeados num sábado de puro tédio. Passou por um casal e “já te falei que vão transmitir na TV”, parou no semáforo de pedestres e “vai ser dilúvio. Certeza que o fim do mundo vai ser por dilúvio, olha a chuva que está armando”, passou por uma jovem ao celular e “tarde demais para eu devolver suas coisas, não acha?”, passou por um saxofonista na calçada e, bem, só ouviu mesmo o saxofone, passou pela banca de jornais onde um grupo de senhores debatia e “só vai acabar pra alguns, isso é certo”, passou por um morador de rua e nem ouviu o que ele quis dizer, atravessou a rua e alguém dentro de um carro buzinou para um skatista, ele se assustou, desequilibrou, caiu na calçada, ralou as mãos de uma forma bem feia, chorou; Leona desacelerou as pernas quando passou perto dele, viu as palmas das mãos vermelhas, com textura de asfalto, e o ouviu lamentar “droga, não vou mais conseguir rolar a timeline no celular para ver o que estão falando sobre o fim do mundo!”.

Tudo o que Leona menos queria era estar numa metrópole durante o evento do fim do mundo, onde até o último minuto as pessoas estariam discutindo, nervosas, sobre qual forma de apocalipse recairia sobre elas, porque nada estava confirmado até o momento. Alguns especulavam que seria terremoto, outros, invasão alienígena. Havia ainda os espertinhos, espalhados nas esquinas das ruas e da internet com anúncios de “vendo spoilers”, e havia quem pagasse a essas pessoas para que elas contassem qualquer coisa sobre o esperado evento apocalíptico, ainda que nada pudesse ser confirmado como verdade. Trouxas.

Só quando sentiu um puxão no seu braço percebeu que ainda estava parada diante do skatista, sem esboçar sinal de que estava ali para ajudá-lo, o que, pensando bem, deve ter feito com que parecesse uma sádica —  o tipo de pessoa que a cidade esperava que alguém da multidão se tornasse. Ela conhecia o cara que a puxou. Era Túlio, seu ex-marido, e ele estava igualmente com pressa, lembrando-a de que o mundo ia acabar e vamos logo que não podemos perder tempo.

Mas, em vez de conduzi-la para algum veículo de alta velocidade, que os levasse, até antes do anoitecer, à cidade onde eles moravam, Túlio a fez entrar em uma lanchonete ali mesmo. Gordura e sal, veio o cheiro, e Leona se lembrou da vez em que jogou água fervente para limpar um tabuleiro onde Túlio havia assado uma carne gordurosa com sal grosso, na época em que eram casados, e o vapor tinha o cheiro que ela sentia agora; mas Leona sabia que esse também era o odor de lanchonetes sem-vergonha onde nem a carne do hambúrguer nem os atendentes do balcão eram de verdade, mas imitações grosseiras de comidas e seres humanos, respectivamente.

— Você tinha que me trazer para comer logo num lugar desses? — e Leona adicionou isso à lista mental que ela consultava diariamente para verificar por que o casamento dos dois não dera certo.

— Não vamos achar agora um lugar onde se possa comer um hambúrguer de trinta contos. Também estamos com pressa, lembra? — Túlio despejou seu pedido para a moça do caixa, embora ele estivesse olhando para os painéis luminosos que mostravam as opções não muito variadas do cardápio. Gordura e sal, em formatos diferentes.

Assustou Leona o inabalável tédio da atendente da lanchonete, que registrou os pedidos com um rosto tão inexpressivo como se fosse só mais uma segunda-feira, e não o dia derradeiro de toda a existência. Atrás dela, a chapa chiava e era possível ver fumaça e batatas imersas no óleo, mas Leona desconfiava que não havia ninguém na cozinha. Túlio falava algo sobre a catástrofe que estava por vir, mas Leona não conseguia prestar atenção no ex-marido, apenas reparar em como a lanchonete estava vazia. “Nosso pedido não deve demorar”, pensou.

— A coisa vai ficar feia, mas estamos organizando uma resistência — dizia Túlio quando, no balcão, apareceram as bandejas com os hambúrgueres dos dois. — Há um lugar, Léo, o único lugar em que será possível ficar depois que o mundo acabar. E eu vou te levar comigo.

Túlio sequer perguntou se Leona queria ir, e ela adicionou mais esse item à sua lista mental que a deixava, a cada dia, menos arrependida do divórcio. Estava um tanto puta com isso, é verdade, além de cansada da histeria das pessoas quanto ao fim do mundo, e um tanto relutante em passar um momento tão ilustre quanto o apocalipse digerindo aquele sanduíche deprimente. Mas não foi por nenhum desses motivos que não tocou no seu lanche. Estava realmente preocupada.

— Você reparou que não tem mais ninguém aqui, Túlio?

Nesse momento, a inexpressiva moça do caixa pulou o balcão, jogando o boné da firma para o alto e sacando uma arma com tremenda agilidade, do jeitinho que fazem nos filmes depois de muito ensaio, gritando alguma coisa sobre o fim do mundo não poder ser detido e que eles não iriam a lugar algum; mas Leona não pôde ter certeza, porque Túlio xingou alto e também sacou uma arma, gritando:

— Malditos aliens, recrutaram pessoas para garantir o apocalipse! Léo, abaixe-se!

Invasão alienígena; então seria assim que o mundo acabaria. Leona obedeceu o ex-marido, encolhendo-se atrás de uma cadeira, mas estava pensando mesmo era se ainda daria tempo de apostar na opção “invasão alien” no bolão da família sobre o fim do mundo. Com o tiroteio, vidros estilhaçavam ao seu redor. É, não ia dar tempo. Olhou para cima, viu Túlio atirando contra a moça da lanchonete, perguntando-se quando ele havia virado um atirador capaz de identificar agentes infiltrados de outros planetas. Era ridículo e sexy ao mesmo tempo.

Túlio conseguiu abrir caminho aos tiros para que eles chegassem perto da entrada da lanchonete e empurrou Leona para fora, gritando para que ela corresse para o lugar da resistência e não parasse, jamais. Ele a encontraria lá, prometeu.

— Siga o azul do metrô — gritou, enquanto recarregava o cartucho de sua pistola. Leona achava irritante quando ele dava instruções vagas como aquela (já estava na listinha mental), mas não estava disposta a ficar para discutir enquanto uma furiosa atendente de fast food tentava abrir buracos no seu corpo com balas 9mm.

Correu para o metrô, rezando para que os seus créditos da outra cidade valessem ali. Algum deus ouviu suas preces, porque ela passou pela catraca e seguiu as placas azuis, de novo se percebendo indo na direção oposta do restante das pessoas (aquilo não parecia certo). Havia pouca gente esperando o metrô da linha azul, o que revelava que eram poucos os que acreditavam no fim do mundo via aliens; Leona, em vez de se mostrar preocupada, apenas pareceu grata por pelo menos poder ir sentada no vagão.

Durante a viagem, Leona assistiu pelas telas do metrô (estavam certos quanto à TV transmitir o evento) imagens das primeiras naves chegando à Terra e derrubando alguns prédios na manobra de pouso. Gritaria, confusão, explosões. O mundo estava mesmo desabando sobre sua cabeça, mas, para sua sorte, o lugar de que Túlio falara ficava na próxima estação.

Só havia um lugar para onde Leona podia ir agora. Depois de subir quase uma dezena de lances de escadas na estação de metrô, estava diante da entrada que a levaria para a tal resistência. Fez força e puxou o portão verde, que deslizou lateralmente, revelando um ambiente familiar até demais para Leona. Ela entrou e não acreditou que era esse, afinal, o único refúgio para o fim do mundo. Era o colégio onde estudara na adolescência. O pátio era igual ao que se lembrava, os mesmos degraus, as mesmas grades na entrada dos pavilhões onde ficavam as salas de aulas, as mesmas cadeiras velhas colocadas do lado de fora do auditório, os mesmos buracos no muro por onde já escapara para matar aula às sextas.

Avançou em direção ao pavilhão onde havia estudado por tantos anos, seguindo as vozes que reverberavam pelo pátio vazio. Mais um passo para dentro do colégio e viu, à porta da sala que já foi a de sua turma, seus antigos colegas, não mais adolescentes, que a reconheceram de imediato. Não bastava seu antigo colégio ser o último refúgio possível; o mundo havia acabado e não restava mais ninguém com quem pudesse conviver dali em diante que não fossem seus ex-colegas de ensino médio.

— Não, não pode ser. De novo não.

Leona acordou antes do seu despertador e ficou olhando para o teto, no escuro. Como se tivesse comido um hambúrguer de fast food, sentiu-se meio pesada enquanto tentava digerir toda aquela história — e isso porque nem tocou no sanduíche do sonho.

Sentada à beira da cama, acendeu as luzes de cabeceira e esfregou os olhos. Quando os abriu, olhou para a mesinha ao lado, onde viu a capa É o fim do mundo como o conhecemos: aventuras de apocalipse, com a imagem de prédios destruídos, alienígenas, monstros gigantes, um cogumelo nuclear, zumbis e um Nicolas Cage de bigode segurando uma metralhadora. Leona não esperava nada sofisticado, sabia que havia escolhido uma história podreira, e era justamente essa a intenção; mas isso não a impediu de acordar com o mais puro gosto de decepção na boca.

Abriu a capa, que tinha o mesmo tamanho de um livro de bolso. Por dentro, era uma caixa de plástico azul, com seis espaços do mesmo formato de pequenas cápsulas, três de cada lado. No interior do case ainda havia quatro pílulas, que ela já não tinha mais a intenção de tomar nas próximas noites. Não, chega de sonhos de apocalipse. Buscaria pílulas com outro tipo de história, embora suspeitasse que não fosse adiantar de nada.

Ela até achava que o sonho sobre o fim do mundo estava indo bem, pelo menos até a parte em que Túlio sacava uma pistola e falava “Léo, abaixe-se!” — o tipo de fala tosca de filme B de ficção científica que, colocada na boca do ex-marido, servia para divertir sua mente com tentativas de ridicularizá-lo — mas as coisas começaram a desandar no final, que não a agradou nem um pouco.

Era a repetição que a incomodava. Duas semanas e já era a quinta vez que sonhava com seu antigo colégio. Até em um sonho sobre o fim do mundo esse lugar tinha que persegui-la? Em outra noite, resolveu experimentar pílulas noir, acreditando que teria sonhos com algum detetive de voz grossa e sobretudo velho, tudo em tons de cinza, cheirando a cigarro e a segredos. Acabou sonhando com uma investigação dentro de seu antigo colégio, onde haviam assassinado o velho porteiro que, na sua época, garantia que nenhum aluno entrasse depois do horário ou saísse antes de terminarem as aulas. Foi achado morto no auditório, sangue pingando de suas mãos estendidas para o vazio e nenhum sinal do molho de chaves; o que significava que todos os personagens do sonho, inclusive Leona, estavam impossibilitados de sair do colégio enquanto o crime não fosse resolvido — e ela era um dos suspeitos. Leona se lembrava de ter argumentado que não era possível ser a assassina, já que havia se formado há muitos anos e que a esta altura o porteiro já devia estar morto de velhice. Sequer fazia sentido ele estar vivo, mas dizer isso não facilitou muito a vida de Leona no sonho.

Depois, foram as pílulas sobre viagens. Estava em um trem bala cujos trilhos cruzavam o oceano, uma visão que combinava bem com os drinks que serviam nos vagões, como um martini azul com um peixinho laranja nadando dentro dele. Mas toda a beleza que poderia tirar daquela viagem se esfarelou quando percebeu que vários dos passageiros ao seu redor eram seus colegas da época de ensino médio. Na poltrona ao lado, a garota que mais a atormentou no segundo ano — Raiane, ela se lembrava bem — gabava-se da reunião de negócios que faria do outro lado do oceano, dos executivos importantes que encontraria e de como as decisões que cabiam a ela neste encontro teriam impacto na estatura que a próxima geração de seres humanos poderia alcançar.

— Estamos planejando uma população com no mínimo dois metros e dez de altura — Raiane dissera, enquanto beliscava acepipes servidos pela comissária de bordo do trem transoceânico — E você, o que anda aprontando?

Leona ficou meio sem jeito de explicar que não estava ocupada com coisas tão relevantes para o futuro da humanidade, mesmo assim respondeu que trabalhava dando aulas de ilustração à distância, tentando não parecer intimidada com a cara de tédio que Raiane fez. Apesar do constrangimento, a vontade de se jogar da janela do trem veio quando a colega perguntou se ainda estava casada com Túlio — pelo menos um bom homem você conseguiu fisgar, não é? — momento em que Leona se viu na situação de falar sobre o divórcio.

Desperta, Leona sabia que aquilo era uma bobagem. Improvável que Raiane, que na época do colégio era incapaz de fazer uma letra cursiva legível, tivesse se tornado uma executiva de sucesso. Porém, improvável era exatamente a definição de sonhar com seu colégio tantas vezes, apesar de usar pílulas diferentes todas as noites.

Soprou a fumaça de sua caneca, enquanto ligava as telas para trabalhar, embora ainda estivesse com a calça de pijama. Poderia ter começado checando as notificações que já pipocavam, lendo as mensagens dos alunos e conferindo o plano de aula para aquele dia, mas seu olhar vidrado em um lugar além da realidade sugeria que ela não estava muito empenhada em seguir o roteiro. Ter uma péssima noite de sono era justificativa o suficiente para pular responsabilidades — e ela também acreditava que era uma desculpa muito melhor do que ser deste ou daquele signo na hora de ser grossa com os outros. Abriu a tela do Oráculo, bateu com suas unhas na mesa, fez um beiço de dúvida e por fim perguntou:

— Pílulas podem causar sonhos recorrentes? Pesquisar.

Apareceu na tela uma espiral que girava e mudava de cor, indicando que a pergunta estava sendo processada, ou talvez apenas uma forma de exercitar os globos oculares para a leitura que estava por vir. Alongamento de olhos para a leitura parecia um propósito inteligente para qualquer animação que se colocasse antes de textos longos como os que apareceram na tela naquele momento. Se a espiral de espera era feita com esse objetivo, Leona não sabia dizer, mas, caso fosse, havia funcionado; seus olhos se mexeram muito bem, para um lado e para o outro, pescando recortes da resposta que procurava.

Sobre as pílulas dos sonhos, o Oráculo respondeu que: são feitas de substâncias que conduzem a mente para determinado tipo de história; que pílulas com histórias diferentes têm composições diferentes; que a história do sonho vai depender do tipo de pílula consumida, mas também das memórias, ideias, sensações e personagens acumulados no subconsciente da pessoa; que mesmo pílulas de uma mesma caixa são capazes de estimular sonhos completamente diferentes; que repetir a dosagem não garante que o sonho de determinada noite se repetirá; que a qualidade da história induzida por uma pílula pode variar dependendo de sua marca; que não é recomendado misturar pílulas de gêneros diferentes, sob o risco de causar dor de cabeça intensa ou sonhos bizarros em que o sonhador pode se ver discutindo o relacionamento com sua amante lhama em um restaurante de comida mexicana flutuando no espaço; que as fabricantes das pílulas não se responsabilizam por possíveis sonhos traumáticos ou perturbadores; que, nesses casos, a culpa é mesmo do subconsciente de merda do sonhador; etc etc.

Muitas daquelas coisas Leona já sabia, mas foi bom descobrir os efeitos adversos de se misturar pílulas diferentes (como nunca havia tentado isso antes?), além da descoberta de que era possível pedir o dinheiro de volta caso as pílulas gerassem sonhos de gêneros que não correspondessem ao da embalagem.

Aquilo fez algo estalar dentro de sua cabeça e saiu correndo em direção ao quarto, derrubando objetos e enroscando o pé no cobertor jogado no chão. Quando ela voltou, trazia a embalagem de É o fim do mundo como o conhecemos: aventuras de apocalipse. Procurou no verso o canal de contato com consumidor, onde encontraria o formulário para solicitar a devolução do dinheiro. Foi só quando abriu esta tela que Leona se deu conta de que não adiantava.

Sim, o sonho que tivera não a agradara, mas ela não podia reclamar que havia sido diferente da descrição da embalagem. Teve fim do mundo, afinal. Os outros sonhos também não haviam fugido do gênero que a pílula prometia; não estavam com defeito, portanto, apesar de trazerem aquela repetição mais incômoda que calcinha entrando na bunda.

Leona teve vontade de jogar Aventuras de apocalipse no lixo, segurando a caixa sem nenhuma firmeza entre os dedos. Numa última olhada para a capa, viu Nicolas Cage de bigode segurando uma metralhadora — ele pareceu olhar de volta para ela, sedutor — e então Leona soube quem poderia procurar.


O apartamento de Túlio cheirava a cigarro orgânico, madeira e temperos de comida indiana; mas não parecia estar esperando por ninguém, usando aquele robe esvoaçante semiaberto que figurava entre os primeiros itens da listinha mental “ainda bem que não somos mais casados” de Leona. Mesmo assim, ela sorriu e o abraçou quando ele abriu a porta.

— O que você veio me pedir dessa vez? — Túlio sequer deu tempo de se criar entre eles uma eternidade de conversas constrangedoras, porque Leona aparecer ali não podia significar outra coisa. Da última vez, havia sido para pedir que ele a ajudasse a reconfigurar sua máquina de café. Agora, pela cara dela, Túlio imaginou que o pedido envolveria dinheiro ou desculpas — duas possibilidades que o divertiriam, sem dúvidas.

Leona ficou sem jeito, ainda comentou sobre a nova estampa do sofá antes de se sentar e dar uma boa olhada no apartamento, mas logo se deu conta do quanto era ridículo insistir em conversas de amenidades com alguém que já havia legalmente se recusado a dormir de conchinha com ela. Seria direta, resolveu.

— Quando a gente ainda morava juntos, lembra que você dizia ter sonhos tão vívidos que chegava a confundir com a realidade?

Túlio respondeu que sim com a cabeça. Ele preparava alguma bebida quente com cheiro de canela, e comentou qualquer coisa sobre um pedaço de seu fígado arrancado para salvar a vida de um texugo em extinção, cirurgia que até o momento ele não sabia dizer se existiu ou não. Ele queria acreditar que havia sonhado com aquilo, mas como ter certeza se, nos tempos atuais, as cirurgias não deixavam cicatrizes visíveis?

Leona esperou Túlio servir a bebida na mesinha da sala — o gosto era adocicado, quente e com o poder de um cheiro no cangote ou de um saldo positivo na conta bancária — para perguntar se ele ainda usava pílulas dos sonhos tão fortes quanto naquela época.

— Tento não usar sempre. O dia seguinte sempre fica estranho. Mas se é o que você procura, estão nas prateleiras altas — disse, apontando para uma estante atrás da poltrona, onde Leona conseguiu ver as lombadas das caixas, dispostas como livros.

Ela precisou se levantar e se aproximar para ler os títulos das embalagens, e seu rosto ficou vermelho como uma placa de PARE quando deu de cara com a coleção de pílulas de sonhos eróticos que ele guardava na prateleira do meio. Pegou o Amante das Profundezas e sacudiu diante do rosto, como se questionando a existência daquela caixa, ou o fato de estar assim tão desimpedida no meio da sala. Pensou em perguntar a Túlio quem aparecia como a protagonista nesse tipo de sonho, mas achou melhor não.

— Prateleiras mais altas, eu disse! — Túlio se levantou e foi até a estante, estendendo os braços para alcançar as pílulas mais fortes. Leona dava uma olhada nos títulos das caixas, quando ele resolveu perguntar, desconfiado: — Mas, afinal, por que você quer pílulas mais potentes? Não está satisfeita com sua realidade?

— Minha realidade vai muito bem, obrigada. Não estou satisfeita com meus sonhos.

Então Leona explicou a ele sobre os sonhos recorrentes com o antigo colégio, com os colegas da época da adolescência e todo aquele sentimento de fracasso que vinha à tona quando esses elementos invadiam seus sonhos, não importava que pílulas tomasse. Talvez, se usasse pílulas com efeitos mais intensos, fosse possível sufocar esse pedacinho inconveniente de seu subconsciente.

— Já experimentou então não tomar coisa alguma antes de dormir? — aquele tipo de pergunta condescendente que ele fazia, como se ela fosse incapaz de pensar em soluções óbvias, estava na listinha mental de Leona? Estava sim.

— E não sonhar nada ou ter sonhos que não vou entender, como uma neandertal??

— Você deveria fazer de vez em quando — Túlio parecia achar graça na expressão escandalizada da ex-mulher. — Às vezes é bom dormir e fazer a cabeça mergulhar num breu total de falta de consciência. É como resetar o sistema.

Era o tipo de piração que Leona esperava vir de Túlio, mas pessoas normais que não usavam robes de cetim para atender à porta sabiam que era um desperdício passar oito horas sem nenhum estímulo, se podiam otimizar o tempo de sono para viver aventuras e situações que na vida desperta não seriam capazes por causa do trabalho, da quantidade de episódios de seriados que precisavam acompanhar ou das próprias leis da física.

— Eu também não acharia ruim ter sonhos naturais — Túlio continuou. — Mas, mesmo se eu fosse um sonhador natural, tantos anos de pílulas já teriam matado esse dom.

— No momento, eu já ficaria bem satisfeita se as pílulas funcionassem.

— E se você tentasse algo mais orgânico? Ainda tenho a receita de chá dos sonhos que minha avó fazia.

Chá dos sonhos tinha um gosto tão pavoroso quanto água de descarga, e Leona era grata por ter nascido na época em que estavam em desuso e já reinavam as pílulas. Viva a indústria onírico-farmacêutica.

Ela recusou a receita de chá com um muito obrigada e, para apressar sua volta para casa, separou quatro caixas de pílulas dos sonhos que lhe pareceram mais atrativas. Entre elas, De volta ao Paleoceno: o paraíso pós-dinossauros, que ela não imaginava como poderia receber a interferência do colégio onde estudou.

— Em vez de calar o seu subconsciente, você poderia ouvi-lo — disse Túlio, enquanto Leona buscava sua bolsa para guardar as pílulas e dar o fora dali. — Se o seu colégio volta toda noite, talvez você tenha uma questão mal resolvida com o seu passado.

— Se você não quer me dar as pílulas, Túlio, é só dizer “não”.

— Não é isso, Léo. Pode levar até Amante das Profundezas se quiser. A questão é: o passado não some enquanto você não tiver coragem de encará-lo de frente. Talvez nem todas as pílulas que você conseguir enfiar na sua bolsa possam resolver isso.

As palavras saíram do apartamento antes de Leona, porque ela ficou calada por um tempo, como se esperando que o roteirista da vida lhe desse uma boa linha final de diálogo, que não veio, antes de se virar e deixar para trás aquele lugar fedendo a canela. Aquilo lembrava demais a última discussão que tiveram antes de decidirem se separar, especialmente porque Túlio, afinal, tinha razão. E Leona não gostava nada disso.


O lugar parecia não ter mudado desde a última vez que estivera ali. O pátio diante de Leona estava vazio como num planeta sem habitantes, como se o mundo tivesse acabado, ou como se fosse feriado e ela tivesse sido a única a se esquecer disso, aparecendo no colégio de trouxa. Por um momento, essa sensação a deixou tão aflita que ela precisou se lembrar que já passara dos trinta e que portanto não estava mais na idade de ter aulas no ginásio. Estava tudo bem, era só uma visita.

O que impressionou Leona não foi nem as paredes estarem nos mesmos lugares, as escadas conduzirem aos mesmos andares, a cantina ainda ficar lá no fundo e a entrada para a secretaria bem ali na frente, os portões no mesmo tom de verde, o concreto na mesma cor sisuda, o mato crescendo nos mesmos canteiros; o que chamou sua atenção foi a luz do sol batendo no chão liso do pátio, depois de driblar as telhas e vigas, em um ângulo que só era possível às quatro da tarde. Aquela luz tinha a temperatura e a cor das tardes que passara ali, especialmente quando escapava das aulas após o intervalo para ficar perambulando com as amigas pelos corredores, enchendo os próprios cadernos de obscenidades e segredos. Aquela luz não deixava dúvidas que Leona estava, de fato, no seu antigo colégio.

Experimentou com a bunda a textura fria dos degraus, assumindo um ponto de vista que considerava privilegiado: era possível ver tudo dali, cada entrada de pavilhão, cada canto do pátio, do bebedouro ao laboratório. Lembrou que sentar ali significava não perder de vista nenhum evento do recreio, onde podia ver, de cima, todos os personagens que habitavam aquele lugar. Gostava de poder ver onde estavam e o que faziam seus colegas, um poder que na maioria das vezes a fazia se sentir diferente da multidão, até melhor do que eles, mais consciente. E agora, não mais. Era apenas ela.

Pelo menos era o que acreditava até ouvir aquele som vindo do auditório. Parecia ser a voz de alguém, e o pior, de alguém muito familiar, o que levou Leona a se levantar com mais coragem do que teria numa situação de estar sozinha e ir atrás de um ruído misterioso num lugar enorme, justamente o tipo de cenário que nas histórias de terror significava que alguma merda aconteceria.

O auditório estava tão vazio quanto o pátio, a acústica soava metálica pela falta de carne sentada nas cadeiras para amortecer o som. Era do palco que vinha a voz, metálica também porque vinha de um aparelho, não de uma pessoa: era uma TV de tubo transmitindo o que parecia ser uma palestra, apresentada por alguém que Leona conhecia: era Jeferson, da oitava série. Seu ex-colega de turma, na época um cabeludinho metido a piadista, brilhante em nenhuma matéria, a não ser na arte de ser medíocre e não reprovar.

E agora ele ali, na tela, explicando como o cérebro funcionava nas diferentes fases do sono, com o auxílio de animações gráficas muito bem feitas. Por que ele estava falando sobre aquilo? Leona não podia acreditar que, apesar da falta de potencial, Jeferson teria se transformado em neurocientista ou algo do tipo.

“A maioria dos sonhos costuma acontecer na fase em que nossos olhos se movem rapidamente sob as pálpebras, mas nosso corpo está paralisado”, dizia Jeferson no vídeo, com uma desenvoltura e carisma que surpreenderam Leona. “Na verdade, é o que impede que o nosso corpo se mova como no sonho e acabe caindo da cama, o que não costuma ser muito agradável. É também nessa fase que as pílulas dos sonhos fazem efeito.”

Leona, agora sentada na pontinha de uma cadeira, observava o cérebro da animação ganhar destaque, mudar de cor e receber legendas apontando para áreas piscantes enquanto Jeferson prosseguia:

“As substâncias ativas das pílulas fazem elementos do subconsciente emergirem para formar a história dos sonhos, como pequenos tijolos mentais construindo algo em torno de uma estrutura. O cérebro já possui os ingredientes principais dos sonhos, mas evolutivamente foi perdendo a capacidade de criar sozinho as histórias que nos ensinam e nos entretém enquanto dormimos.”

A tela voltou a mostrar o rosto de Jeferson, os olhos dele tão próximos que Leona achou que eles saltariam; mas talvez fosse apenas a curvatura daquele tipo de televisão antiga. “São poucas as pessoas que possuem a capacidade de sonhar sem a ajuda de pílulas ou chás. A essas pessoas se dá o nome de sonhadoras naturais. Seus sonhos são completamente aleatórios, sem roteiro, e muitas vezes cheios de metáforas incompreensíveis. O inconsciente, incontrolável como um macaco selvagem, pode encher o sonho de elementos incômodos que o sonhador talvez não queira confrontar. A vida já é cheia de problemas para ainda termos que lidar com eles enquanto dormimos, não é? Mas vários estudos mostram que o uso continuado e constante de pílulas dos sonhos vai aos poucos atrofiando essa capacidade de produzir sonhos naturais.”

— Um orgulho esse menino ter saído daqui — se não tivesse se anunciado com esse comentário, Leona não teria visto parar bem do seu lado uma mulher corpulenta usando o uniforme do colégio. — Olha como fala bem, não é à toa que tem tantos fãs.

Subitamente, aquilo fez total sentido. Voltando a atenção à tela, Leona ouviu o ex-colega dizer “se gostou do vídeo de hoje sobre sonhos, clique em curtir e não deixe de se inscrever no meu canal”. Isso não diminuiu seu desconforto, no entanto; ele podia não ter se tornado neurocientista, mas parecia ter se tornado bem-sucedido em sua própria área. Como imaginar que ele se daria tão bem?

— Desculpe ter entrado assim, achei que não tinha ninguém — Leona logo tratou de dizer à mulher.

Ela a reconheceu apenas pela voz: a mulher havia sido sua professora de Artes por anos. Jacira. Teve dúvidas se ela também a reconheceria, mas a professora a chamou pelo nome, comentando há quanto tempo não a via.

— Você se lembra de mim? — Leona não escondeu a surpresa.

— Não é como se eu tivesse lá muitos alunos interessados na minha aula. A maioria mal entregava os trabalhos quando o máximo que eu pedia eram colagens ou canudinhos feitos de jornal, isso quando não juravam que o nome da matéria era Reciclagem. Eram poucos os que achavam que arte merecia esforço. Não me esqueci desses.

Leona se lembrava de quando passou uma semana inteira pintando um enorme painel com influência surrealista que garantiu a ela nota máxima na matéria de Jacira e, aparentemente, um espaço nas memórias da professora.

— Encontrei poucos alunos tão talentosos quanto você. Deve ter seguido carreira nas artes, imagino? — Jacira parecia tão empolgada com o reencontro que Leona detestou ter que dizer a verdade.

— Mais ou menos. Ensino ilustração. Num curso à distância.

— Professora de artes! Quase como eu! — Jacira estava orgulhosa, como se não percebesse que para Leona isso representava o fracasso, a incapacidade de ter se tornado interessante, de ter alcançado o sucesso, de ter dado certo na vida. Ela havia se tornado uma versão mais nova de Jacira, uma professora de uma matéria com a qual ninguém se importava, e isso quase doeu mais em Leona do que a súbita percepção do desprezo que sentiu pela professora da matéria que mais amava num colégio onde não podia dizer que tinha gostado de tantas coisas.

Percebeu que era um erro estar ali. Pediu desculpas mais uma vez, disse algo sobre ter que resolver uns assuntos importantes, não queria atrapalhar, talvez a escola estar vazia significava que ela não deveria estar andando pelo pátio, como se fosse uma invasora.

Diferente dos sonhos em que o colégio se tornava o destino final ou um lugar onde Leona acabava aprisionada, Jacira apenas deu um passo para trás, criando espaço para ela passar. Leona até estranhou essa liberdade, poder entrar e sair de um lugar que a perseguia em sua mente, mas não parou de andar até passar da entrada do auditório, de onde ouviu Jacira dizer:

— Achei que você veio resolver o problema com seus sonhos. Mas fica para uma próxima, né?

Leona girou, como se Jacira tivesse lhe atingido com uma bola de papel na cabeça, e não com uma pergunta. Como ela poderia saber? Túlio. Aquele imbecil agora saía espalhando seus problemas pessoais por aí? Mas como poderia ter sido Túlio? Ela pensou melhor e aquilo não fazia muito sentido; seu ex não sabia onde ela estudou, muito menos quem havia sido sua professora de artes na adolescência.

— Como você sabe? — Leona se sentia exposta, e cruzou os braços como se tentasse esconder sua nudez, embora estivesse vestida.

— Ah, você não se lembra. Para quem volta para esse lugar toda noite, achei que você já teria se lembrado do que deixou guardado aqui — Jacira tirou do bolso traseiro da calça um molho de chaves volumoso, que fez um barulho de chocalho quando ela sacudiu para encontrar aquela que usaria. — Vem comigo.

Jacira a guiou pelos pavilhões, enquanto Leona imaginava o que teria esquecido ali. Seu painel surrealista? Foi uma das poucas coisas que ela se lembrava de ter deixado no colégio, até porque na época não tinha espaço na casa dos seus pais para guardar uma pintura tão grande, que ela teve que fazer no quintal, rezando para que não chovesse. Mas isso já fazia anos e Leona imaginava que há muito o painel tivesse virado lixo.

A professora destrancou a porta da primeira sala. Leona teve aulas ali. Por isso mesmo, temeu que a porta se abrisse e revelasse todos seus ex-colegas esperando por ela, prontos para comparar os progressos que cada um atingiu desde que cada um seguiu o seu caminho. O horror. Mas não havia ninguém, apenas carteiras vazias. Ela ficou sem entender o que havia deixado ali, se não havia nada.

Então Jacira apontou para o quadro negro, onde Leona viu uma lista, escrita a giz e com sua própria letra: “por que meu casamento não deu certo”. Os itens preenchiam todo o quadro, e eram tantos que os últimos foram escritos bem espremidinhos e com uma letra cada vez menor para caberem no espaço. A maioria deles dizia respeito a Túlio: porque Túlio se vestia de forma extravagante; porque Túlio fazia muita sujeira na cozinha tentando fazer pratos novos; porque Túlio esquecia de perguntar o que Leona queria antes de tomar decisões; porque Túlio conhecia ela demais; porque Túlio tinha referências culturais muito diferentes; porque Túlio isso e aquilo; porque Túlio teve razão muitas vezes.

Leona não reparou na rispidez com que tomou o molho de chaves das mãos de Jacira e partiu para a próxima sala. Ela já hiperventilava de nervoso quando destrancou a porta e viu sua letra cursiva estampada em outro quadro negro, dessa vez numa lista com o título “por que não fui para Londres fazer aquele curso de artes”. Os motivos eram vários e também se estendiam por todo o quadro, desde a proposta de emprego para trabalhar numa loja de informática, até a falta de tempo para ter feito a inscrição no prazo.

Na próxima sala, mais uma lista. E na seguinte, outra. Todas as salas daquele pavilhão estavam cheias de lista escritas por Leona. “Por que não aceitei o estágio naquele estúdio de animação”. “Por que parei de falar com Simone”. “Por que desisti da área editorial”. “Por que não fui na festa de inauguração da galeria do Fábio”. “Por que não fiz nada para ajudar aquele rapaz atropelado por uma moto e fiquei só olhando”. Desculpas e mais desculpas. Todas as defesas mentais que ela armava quando se sentia de alguma forma babaca ou questionada pelo sucesso dos outros.

Leona não tinha ideia que as justificativas que criava para si estivessem indo parar em algum lugar. Não era para estarem exibidas assim, com tanta clareza quanto a cor do giz. Não era para se tornarem tão sólidas que Leona as pudesse encarar de frente. Não era adequado, ela sabia, porque quando as viu dessa forma, sentiu vergonha.

De cara para o quadro-negro com a lista “por que os outros se dão melhor do que eu”, Leona pela primeira vez sentiu incômodo ao invés de conforto ao perceber que as listas serviam para diminuir sua própria responsabilidade nas suas escolhas. O problema nunca estava nela; era sempre culpa do outro ou das circunstâncias. Mas ali ela não tinha como se esconder dessa verdade.

Seu rosto estava molhado e vermelho de angústia quando Jacira a alcançou.

— Aqui está a chance para você resolver isso — disse Jacira, segurando em uma mão um apagador e na outra uma caixa de giz. Estendeu as mãos para Leona à espera que ela fizesse uma escolha.

Leona só sabia de uma coisa: ela nunca mais queria voltar àquele lugar.


Quando Leona pediu para que Túlio mandasse por mensagem a receita de chá dos sonhos da avó, imaginou que talvez ele pensasse que ela havia cedido, deixado de ser tão cabeça dura, resolvido seguir seu conselho, pelo menos uma vez. Túlio só não sabia que ela tentara seguir outro de seus conselhos, mas não havia funcionado. Em outra ocasião, ela teria o maior prazer de dizer que a ideia dele deu errado, mas apenas mandou um coração e um sorriso em agradecimento pela receita.

Não tomar nada antes de dormir, Túlio dissera. Leona riu alto quando se deu conta da bobagem que fez. Se pelo menos ela tivesse mergulhado no sossego escuro de uma noite sem sonhos, mas nem disso ela era capaz. Decepção.

A experiência de ter tido um sonho natural foi horrorosa, mas Leona acordou com uma ideia em mente — porque sempre dá para sair com algo bom de uma experiência horrível, seja um sonho natural ou um divórcio. E ela conseguiu algo aproveitável de ambos: uma ideia e uma receita. Por mais que estivesse seguindo a receita enviada por Túlio, aquela noite seria diferente; aquela noite Leona resolveria de seu jeito.

Ela nunca havia bebido algo tão nojento quanto aquele chá. Tomou uma colherzinha antes de servir na caneca e seu rosto se contraiu tanto que virou do avesso. Era o que precisava, mas ainda não estava pronto.

A caneca diante de si fumegava com o cheiro de pântano vindo do chá quando ela começou a acrescentar os outros ingredientes. Abriu todas as caixas de pílulas dos sonhos que tinha em casa e jogou, um por um, o conteúdo das cápsulas dentro do chá, mexendo com a colherzinha para dissolver bem. Lá ia um sonho de dinossauros. Depois, um sonho noir. Agora, uma pitada de sonho erótico. Sonhos de romance. Sonhos de aventura. Sonhos de terror e de mistério. Sonhos no meio da floresta e em cenários futuristas. Sonhos com animais ou com super-heróis. Sonhos frutados. Sonhos infantis. Sonhos surreais. Sonhos de baixo orçamento. Todos os sonhos que tinha, que comprou aquela manhã na farmácia e os que pegou outro dia na casa de Túlio. Jogou até as quatro pílulas restantes de sonhos de apocalipse, que jurou que nunca tomaria.

Mexeu com a colherzinha com um gesto delicado — duas, três batidinhas na borda da caneca — e bebeu tudo em goles grandes, sofridos. Torceu para não vomitar, mas olhar para o Nicolas Cage de bigode na capa do Aventuras de Apocalipse a ajudou a se sentir mais confiante.

Se Leona aprendeu algo com histórias de apocalipse foi 1) correr para onde está a multidão pode ser uma má ideia e 2) se a metralhadora não estiver dando conta de enfrentar a ameaça, seja hordas de zumbis ou invasores alienígenas, melhor usar uma bomba. Era o raciocínio que ela tentava seguir agora: se anos usando pílulas dos sonhos todos os dias não foram o suficiente para parar com aquilo, a sua mistura iria dar um jeito.

Nas histórias de apocalipse, era apavorante a ideia de não ter para onde fugir. Não importava o que a pessoa fizesse, o mundo acabaria. Sem escapatória. Game over para todos. Mas era um cenário que agradava Leona, porque nele também não precisavam existir justificativas. Não dava para fazer as coisas de outro jeito, não dava para fazer dar certo, porque daria errado para todo mundo. O mundo acabava, acabavam também as margens para comparação, os problemas, as questões mal resolvidas.

E foi em direção a esse nada que Leona se transportou quando fechou os olhos na próxima noite. Um sono sem sonhos, mas também sem colégios onde pudesse encarar seus conflitos internos. O apocalipse de seu próprio mundo dos sonhos, para onde não precisaria voltar. Nunca mais.

Aline Valek
Aline Valek
Aline Valek é escritora e ilustradora. Nasceu em Minas, é brasiliense, vive em São Paulo, mas mora na internet, onde publica seus textos. É autora da newsletter Bobagens Imperdíveis e colunista da Carta Capital. Publicado pela Rocco, As águas-vivas não sabem de si é seu primeiro romance, mas já lançou de forma independente dois livros de contos: Pequenas Tiranias e Hipersonia Crônica.

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Um comentário

  1. Marcos Voador / 21 de janeiro de 2017 at 23:28 / Responder

    Gostei da personagem, lindamente neurótica e hiperativa. Aliás, o conto todo parece estar pedindo para ser roteirizado. Abraço

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